Nota sobre as adivinhas populares portuguesas

Adivinhas populares portuguesas

No estudo das adivinhas populares portuguesas oferecem-se dois factos sobremodo interessantes:

– um é que elas têm fórmulas inicias (e às vezes finais) diversos segundo as localidades;

– outro é que o assunto sai principalmente das coisas domésticas e da lavoura.

Estes factos referem-se portanto à forma e à essências das adivinhas.

Fórmulas iniciais

Da observação de mais de trezentas adivinhas que tenho recolhido, posso concluir que a fórmula inicial = que é, que é = predomina no Minho e Trás-os-Montes.

Também se encontra na Beira Baixa e no limite (Pesqueira) desta província com a Beira Alta. Às vezes aquela fórmula é substituída só por = que é a coisa, etc.

A fórmula = qual é a coisa, qual é ela = domina (se não é única) nos arredores de Lamego e Viseu (Lamego, Mondim, S. Martinho de Mouros, Cinfães, S. Pedro do Sul, Mortágua, Vouzela, etc.).

Possuo adivinhas onde apenas se lê = qual é a coisa (Porto, Feira, Amarante) e possuo outras que começam = qual é ele, qual é ela = (Guimarães, etc.).

Em Paços de Ferreira aparece esta fórmula inicial = adivinhas uma adivinha?=

Fórmulas finais

As fórmulas finais variam igualmente.

Algumas dizem adivinhai, bacharéis (Minho); não adivinhas este ano, nem para o ano que vier, só se t’o eu disser (Porto, etc.).

Adivinha, tolo (Trás-os-Montes), à maneira dos contos populares cujo termo é: adeus ó Vitória, acabou-se a história, etc. (Minho).

Com relação ao segundo facto, o assunto muitas vezes é tirado de outras partes, mas dá-se de quando em quando a coincidência de se ir buscar à lavoura, por ex., o objecto da comparação.

Assim uma adivinha de Tabuaço, na qual se representa o ar, as estrelas, o vento e o sol, diz:

Qual é a coisa,
Qual é ela,
Lameiro redondo,
Pastorinhas ao longo,
Cão raivoso,
Pastor formoso?

Quando se estuda o nosso país, nota-se que de província para província há uma variedade nos terrenos, na flora, na linguagem, nos trajos, nos costumes; por isso não admira que as fórmulas das adivinhas ofereçam diferenças locais.

Como os nossos enigmas se encontram ao mesmo tempo na Galiza, Catalunha, Baixa Bretanha e outros povos, somos levados a concluir que eles não têm origem portuguesa.

Por isso, das ideias ai expressas, alguns ensinamentos se devem tirar a respeito dos povos que os transmitiram, – povos civilizados, essencialmente conhecedores da agricultura.

Eis um exemplo da importância das tradições populares, e eu os ofereço àqueles que, com uma teima inepta, não se cansam de atirar zombarias às crenças do povo.

J. Leite de Vasconcelos

in “O Pantheon”, nº13 – 1881 (texto editado e adaptado)

Paisagem de Monsanto e das suas almas

Monsanto – Beira Baixa

“E é Monsanto que surge na sua rigidez de estátua:

«Num plaino ligeiramente montanhoso, a aldeia aninha-se no flanco de um pico, estalagmite monstruosa que, em dias de céu baixo, atravessa as nuvens.

As suas casas de telhas vermelhuscas trepam em caracol ao longo do castelo. Muitas delas, simples trogloditas, parecem enterrar-se na parede, em sinal de mau humor.

É que Monsanto não sabe sorrir!

Monsanto tem a pele coriácea e tem mau génio; sabe-o bem, e não faz segredo disso.

As suas muralhas, mil vezes cercadas, jamais cederam.

Pesada herança de glória, julgareis, que deve dar à gente de Monsanto não pequena arrogância!

Desenganai-vos. Apesar do ambiente rugoso, lê-se nos olhos dos seus habitantes docilidade e, desde que se não sintam observados, certa indiferença melancólica.»

Depois, esta visão dos homens, do elemento humano integrado na paisagem:

«Em Monsanto abundam os camponeses que, num abrir e fechar de olhos, transformam a sua placidez em energia.

Basta um rufar de tambor, uma estrofe de velho romance, e ei-los capazes de cantar e dançar horas a fio, sem que uma gota de suor lhes corra pela face.

As danças portuguesas não têm, bem sei, aquela fúria das de Espanha, que esvazia os pulmões e quebra as vértebras; mas, quanto ao ritmo, excedem largamente em velocidade as nossas danças rústicas.

Uma vez terminadas, a melancolia reaparece. Nem mais um sinal de alegria! A seriedade reencontra nas rugas dos rostos o seu trilho habitual.

No dia seguinte, esta gente empunhará, como na véspera, a rabicha do arado

Danças e cantares

A apoteose monsantina não é contada, mas pintada, vigorosamente, por Villeboeuf:

«Aparte pequenos pormenores, as festas de Monsanto oferecem os mesmos hábitos, as mesmas cerimónias que as do Paúl; impregnadas, no entanto, de mais solenidade, acabam, ao fim do dia, por uma alegoria excepcionalmente grandiosa.

É preciso ter visto o início do espectáculo, de longe, na planície, para se avaliar bem como Monsanto, bloco insólito, rodeado de caminhos pedregosos, se assemelha a uma torre de Babel que uma multidão imensa, vinda dos quatro pontos cardiais, tomasse de assalto.

É num ritmo veloz, em passadas de caçador alpino, por caminhos de cabra e atalhos, que se faz a escalada; e dir-se-ia, ao contemplar o enorme cabeço, um torrão de açúcar subitamente coberto de formigas trepando em espirais para o cimo …

Já a vanguarda dos assaltantes ocupa o alto da cidadela, velha fortaleza de numerosas cercas, amontoado de pedra e de granito a que o tempo quebrou os dentes, e ainda a retaguarda se encontra nas primeiras muralhas. É com ela que inicio a subida.

Valendo-se das mãos e dos joelhos, de talude em talude, um bando de garotos fura, alegremente, por entre as pernas dos orfeonistas esbofados, de trombone às costas e tambor rufando aflitivamente.

Subimos. Uma capela romana corta-nos o caminho.

Mais uma volta, e continuamos a subir. Atinge-se a primeira muralha; e quando, chegados à terceira, nos debruçamos daquele ninho de águias que é a fortaleza, surge-nos um majestoso panorama.

Sob um vento fustigante, o horizonte estende-se até perder de vista, como vaga desdobrando-se para o infinito. Dir-se-ia estarmos na barquinha de um balão cativo.»

Após a noite densa, quási de medo, fora a vibração triunfal do meio-dia.

Dali, dessa barquinha de que fala Villeboeuf, olhávamos, em êxtase, a paisagem circundante, que apanha já terras de Espanha.

Sentíamos todos que o castelo permanecerá inexpugnável, enquanto o seu guarda, o monsantino, souber defender, como bandeira festiva, o seu amor à terra e às vozes ancestrais – sem deixar, evidentemente, de abrir os braços ao progresso civilizador.”

Adolfo Simões Muller

Um curioso espécime de trajos popular: «Capucha» – Monsanto – A Aldeia Mais Portuguesa – Beira Baixa
Galo de Prata- Prémio atribuído a Monsanto, eleita a Aldeia mais Portuguesa de Portugal
A torre onde foi colocado o Galo de Prata que o S.P.N. conferiu a Monsanto
Mulheres de Monsanto tocando adufes (Apontamentos de Paulo Ferreira)
Interior de casa monsantina (Apontamentos de Paulo Ferreira)
Casa dos priores
Tipos de Monsanto
O castelo domina a imponente paisagem
Festa popular em Monsanto (Página de álbum de Paulo Ferreira)

in “Panorama”, nº02 – Julho de 1941 (texto editado)

A fiandeira do Minho | Usos, costumes e tradições

A fiandeira do Minho

“Fiar, para muita gente, é matar o seu tempo.

Mas esta lida da roca, para a lavradeira minhota, constitui uma prenda de mãos, que em criança se aprende e de algum modo contribui para o «amanho da sua vida».

Meninas prendadas, a quem tudo apetece por curiosidade, e a quem, geralmente, mingua para o trabalho rude certa habilidade instintiva (que outra não é a habilidade da camponesa), porque as velhas dos contos de fadas usavam do rolo da estopa, do fuso corredor, e possuíam certo escaninho de massarocas, constitui o fio mais uma prenda da sua graça.

Porém, ver fiar nas pequenas ou grandes cidades, quer por prenda quer por precisão, para encontrar a ingénua maneira original da gente aldeã, é procurar um pinto em oiro entre as areias duma praia infinita.

Em verdade, só a camponesa sabe fiar; tem graça, fiando.

Só a camponesa, e a Fiandeira do pintor Malhoa, que, independentemente, é uma obra de arte.

O que a camponesa do Minho sabia fazer

Essa, sim. Essa sabe apertar a linhagem no cingidoiro de carneira bezerra, sabe ajustar na cinta a cana amarela da sua roca, e aporfia no redopio do fuso, beijando, adoçando nos lábios puídos dos beijos, à sua dúzia de netos, a melhoria do seu linhal. (…)

Tudo se apaga, porém: as gerações passam, os usos mudam continuamente; e o que em tempos foi mister de gente idosa, é hoje tarefa de rapariga.

Boa camponesa, afadigada no seu trabalho e no asseio da vida urbana, chama-se-lhe, por uso, mulher de casa.

Sabe cavar nas terras de renda, segar no lameiro, sachar no milheiral, e ajuda a toda a espécie de trabalho agrícola.

Dentro de casa sabe dos arranjos da cozinha, com um paladar inexcedível; se tiver sido criada de abade, tanto melhor; e além d’isso tem as suas prendas de costureira, de fiandeira, de engomadeira, da feitoria das rendas e meotes, (…)

Tudo tem suas penas de cultura: as ideias, as criaturas, os troncos, – tudo o que vive.

As fases do trabalho do linho: começa por ser semeado…

E esta odisseia do linho tem seus tormentos.

De chapelão viseiro, aos punhados de semente, lança o lavrador o gérmen da sua colheita humilde.

E recolhe, pelos inícios do verão, aquele chãozinho de ervas secas, que mais tarde há-de vestir e estimar.

Foi tempo, foi. Outrora a colheita do linho era singular de fartura, porque se tornava útil.

Hoje, não. Chegaram os panos do fabrico a vapor, menos consistentes, sem dúvida, mas, mais económicos para utilizar.

E aí temos nós a entrarem para o arranjo da casa portuguesa do norte (a casa mais conservadora) panos crus, panos domésticos, panos família, que os vapores ingleses e espanhóis descarregam nos portos de Leixões e Lisboa. (…)

Como dizia, o linho colhe-se nos inícios do verão, já amarelo, num trabalho agrícola a que chamam arrinca.

Aqui a primeira etapa deste ervívero afilado, que dá canseiras interessantes.

Depois, a alvagem: o linho amolhado e preso, que é posto no fundo desses rios verdes, de margens em vinha ou pinheiral, comprimido por grandes rebos.

Dura alguns dias a limpeza do terão. A cantiga o confirma:

Há oito dias que espero,
e choro desde o primeiro;
tens-me presa, meu amor,
como ao linho num ribeiro…

E logo, limpa da terra, a farrapada do linho, rala e húmida, é estendida sobre os campos rasos da colheita, a enxaguar à grande vida do sol.

Quando se colhe um linhal, por minguado que ele seja, grande número de gente aflui à casa do lavrador.

Cardar, espadelar, assedar… até costurar!

Ele é preciso cardá-lo, espadelá-lo, crivá-lo, assedá-lo; até que, em pasta, se veste a roca, e os dedos se aporfiam em correr.

Depois da seca começa o grande afazer das espadeladas, tantas vezes à luz mortiça das candeias de ferro.

E como nas noites de pisa do lagar, tangem-se cordas de arame pelas casas da vizinhança, junto à espadela da namorada. (…)

Depois, é fiá-lo, corá-lo, lançá-lo à teia-

E uma vez riqueza da arca, a costureira faz o resto: as camisas do uso, das saias de baixo, (multiplicadas no dia de romagem), e os lençóis com renda de agulha – Deus sabe se para o leito dos noivos, se para cobrir o rosto branco dos morto…

Contei-lhes tudo isso para explicar, levemente, essa odisseia curiosa do linho.

 

Encontros com a camponesa do Minho

No entanto, pelas estradas do Minho, no tejadilho da mala posta regional, espécie de torre de babel (como escreveu um grande artista), ou nos lugares cheios de comodidade das carruagens de luxo, dum modo qualquer, será fácil surpreender, apascentando o gado ou sentada entre os panelos de cravos da sua escada rústica, esta fiandeira do norte, modelo das mulheres afadigadas, posta na vida para o trabalho contínuo, e sempre senhora do melhor riso e da melhor graça.

Onde quer que a encontrem, fresca, limpa, virtuosa, quer no desenho da saia trabalhada, quer no alisado dos cabelos sedosos, quer, ainda, na novidade do seu mister, onde encontrar-lhe esse modo de ser tão enleado e tão natural, pelo qual ela é, no quadro da sua paisagem, um elemento de óptima e engraçada decoração.

E isto porque se há terra rica em Portugal, mas onde cada canto seja duma família, é o Minho – produtora fábrica de gente económica, trabalhadora, paciente, para a qual a vida, do nascer ao pôr-do-sol, é causa de tarefas contínuas e de suores contínuos.

Foi por este motivo que principiei afirmando que o fiado, como todo o trabalho da camponesa do Minho, por mais pitoresco, por mais divertido, era sempre um género de contribuição para o arranjo urbano.”

Alfredo Guimarães

in “Serões”, nº46 – 1909 (texto editado e adaptado)

Sobre a região vitivinícola do Douro, em 1900

A Região do Douro

“A 3ª região vinícola, ou região do Douro é formada por uma estreita faixa ao sul dos distritos de Vila Real e Bragança, no limite confinante com a região de Entre Douro e Minho até Barca d’Alva na fronteira espanhola.

Abrange uma extensão total calculada aproximadamente em 35.000 hectares.

Considera-se subdividida em duas partes: uma denominada do Alto Douro compreendida entre Barqueiros e o ponto denominada o Cachão da Valeira, próximo de Vila Nova de Pesqueira, e a segunda denominada Douro Superior e compreendendo a zona restante desde o Cachão até Barca d’Alva.

O Alto Douro, antigamente a parte mais afamada pelos seus finíssimos vinhos do Pinhão, tem por centro principal a Régua, por assim dizer a capital de todo o país vinhateiro do Douro.

Vista panorâmica da Régua

Era esta antigamente a parte mais rica da região, pelas suas notáveis vinhatarias, onde se produziam os mais generosos e finos vinhos do Porto.

Hoje o Douro superior possui quintas igualmente notáveis donde são oriundos vinhos do mais alto valor que em nada desmerecem da fama e nome que tinham os vinhos da antiga demarcação.

Por isso, esta zona privilegiada em todo o mundo, pelas suas excecionais condições naturais, toda ela é conhecida como o país vinhateiro do Douro, sendo em todos os seus pontos igualmente célebre e origem dos mais finos vinhos generosos que se conhecem.

O cultivo das vinhas em socalcos

A vinha é aqui cultivada em socalcos ou degraus, sustidos por muros de pedra solta, denominadas geios, formando como que um anfiteatro de plantas viçosas e verdejantes, na época da sua maior vegetação, o que dá a esta região especial do país um aspecto característico e original ao mesmo tempo encantador e imponente.

As vinhas revestem íngremes encostas de montanhas que pendem sobre o Douro e os seus afluentes, e vão desde os pontos mais baixos, junto aos rios, até quási às cumeadas dos cerros, debruçando-se airosas e opulentas sobre as correntes caudalosas.

Como se orgulham da sua pujança, e ciosas dos delicadíssimos frutos que produzem, capricham em se mostrar pingues e férteis, mas em se furtarem quási inacessíveis aos tratamentos do homem e a deixar-lhes só com muita dificuldade colher os seus óptimos frutos amadurecidos no cimo das escarpadas ravinas.

A Quinta do Vesúvio

Quinta do Vesúvio, no Douro, propriedade do sr. António Bernardo Ferreira

A imagem que apresenta a quinta do Vesúvio representa o aspecto das vinhas nesta região privilegiada do país, da qual nestas notas rápidas, nós não podemos dar se não uma pálida e imperfeita impressão.

Àqueles que melhor pretenderem conhecer os tesouros que se encerram nesta parte riquíssima do país vinícola, recomendamos a leitura do livro notável do Visconde de Vila Maior [Le Douro Illustrado, par le Visconte de Villa Maior], em cujas páginas se encontra a descrição minuciosa destas paragens.

A região vinícola do Douro produz em média 285.000 hectolitros de vinhos da mais fina qualidade, os quais, depois de devidamente beneficiados nos armazéns de Vila Nova de Gaia, são exportados para todos os mercados do mundo com o nome de vinhos do Porto.

É incontestavelmente esta, pela superior qualidade dos seus vinhos, a mais notável região vinícola de Portugal.”

Tipo de quintas no Douro

 

Chegada do Vinho do Douro ao Porto (Parte segunda – Capítulo I – Os vinhedos e os vinhos) “Occidente”, nº785 – 1900

Fonte: “Occidente”, nº787 – 1900 (texto editado e adaptado) | Imagem: “Barco Rabelo transportando vinhos pelo Rio Douro

A ornamentação dos jugos e cangas dos bois

A ornamentação dos jugos e cangas dos bois

É conhecido o costume existente no Douro e no Minho, e que tem mais de uma vez chamado a atenção dos forasteiros, de ornamentar os jugos e cangas dos bois.

É principalmente no Porto e seus arredores que o facto se torna vulgar, desaparecendo mesmo de todo nos pontos das duas províncias que ficam situadas a maior distância da costa marítima.

E, conquanto a vida rural mantenha no resto do país a mesma feição predominante, o certo é que nas outras províncias nada se encontra também que se pareça com tal costume, que possui, deste modo, uma limitada confinação geográfica, e constitui, portanto, um singular e interessante problema da etnografia portuguesa.

As ornamentações usadas no Porto e circunvizinhanças representam, na sua maior parte, desenhos grosseiros que correspondem muitas vezes apenas a um simples intuito decorativo, mas que em outras, e estas mais repetidas, reproduzem símbolos vivos e extintos, cuja significação, por ventura está já perdida, mas que nem por isso deixam de sobreviver formalmente.

Pertencem a esta categoria simbólica, por exemplo, certas figuras geométricas, as rodas formadas de meias-luas, o polígono estrelado que servia de divisa aos pitagóricos, e que é designado geralmente com a designação de «signo-saimão», e as cruzes, cujo significado cristão está naturalmente evidenciado.

Em algumas cangas e jugos encontram-se também astros figurados, o que assume indiscutível importância pela relação sabida do boi com os cultos sabeístas;

corações, de fácil interpretação, como o que as mulheres trazem ao pescoço, de ouro;

e animais indeterminados devido à ingenuidade primitiva dos traços, mas que nas vizinhanças do mar nunca deixam, naturalmente, de ser peixes.

As cangas mais modernas, que apenas obedecem na sua ornamentação a um intuito estético, perdido o sentido inicial da decoração primitiva, mostram já trabalhos mais delicados de finos rendilhados em que raramente entra qualquer elemento simbólico.

Os autores respetivos pediram os motivos decorativos à sua imaginação, sem se preocuparam evidentemente com a tradição.

As estampas que hoje publicamos reproduzem alguns desses jugos e cangas ornamentados, fotografados no Porto, e assim terá o leitor ensejo de avaliar a beleza de algumas dessas obras dos artistas portuenses, e de verificar a evolução que assinalamos, comparando as nossas ilustrações com os antigos tipos.

 

(Clichés de Benoliel)

Fonte: “Ilustração Portuguesa”, nº83 – 1907

A apanha da azeitona no Alentejo (1913)

A apanha da azeitona

No Alentejo, no celeiro de Portugal, procede-se atualmente à colheita de azeitona.

Os airosos ranchos de rapazes e raparigas que trajam saia-calção, com o infalível chapéu de feltro, ornado de flores naturais, em que predomina a simplicidade, sem faltar o bocadinho de preciso amor-próprio, e sem desprezo de todo o partido para a agradável estética de suas toilelles, atravessam, apressados, essas extensas estradas, orladas de frondosas oliveiras seculares para irem espalhar-se nos vastíssimos olivais que, por encostas suaves e planícies, se estendem ininterruptamente por milhares e milhares de hectómetros.

Ao findar o dia, voltam a casa bailando e a cantar alegremente ao compasso de enfeitada pandeireta, pela mais bela graciosamente tangida.

E o carreiro, à noite e sempre, com suas garbosas parelhas, conduz ao lagar a colheita do dia, para aí, onde a indústria moderna, em muitos, colocou já aperfeiçoados aparelhos, substituindo a vara pela pressão hidráulica, a candeia e o bispo pela iluminação elétrica, utilizando a força a vapor com que se fazem as interessantes operações em que dezenas de homens se empregam.

A árvore da paz, depois do varejo que se faz durante dias, fica aguardando que voltem as primaveras para se cobrir de flor e novamente dar esse fruto verdejante que pouco a pouco vai enegrecendo à medida que amadurece.

Da azeitona se faz o azeite

O fruto que se colheu entra nos lagares, alguns pelo sistema primitivo, como no tempo de Noé, lia-se há dias numa legenda de estampa curiosa, outras em prensas que são verdadeiras maravilhas e nas quais não se perde nada da azeitona.

Vai uma grande labuta no lagar.

Os lagareiros atentos à obra recebem os grandes cestos onde a azeitona vem enquanto a prensa vai espremendo a fruta de onde sairá o óleo abençoado que o homem, desde tempos imemoriais, aproveita.

O azeite foi a sua primeira luz artificial de duração posta nas estranhas lâmpadas encontradas ainda hoje nas cavernas, e foi o seu bálsamo, antes de ser o seu alimento e daí os grandes serviços que se deve à oliveira, árvore da paz que tanto floresce em Portugal, mas ainda assim sem dar a abundância larga de azeite necessário para e nosso consumo e exportação.

Oliveiras de norte a sul de Portugal

Por todo o país ela se cultiva, é tratada com esmeros, não se deixando ao abandono.

Não sendo propriamente uma árvore regional, há, todavia, terras onde ela existe em maior número e onde a qualidade do azeite é mais celebrada como em Castelo Branco, alguns pontos de Santarém – dos olivais da tradição, de Moura e Elvas, a terra das azeitonas mais saborosas de todo o Portugal.

É esta a época em se vai varejando a azeitona; alguma já entra no lagar onde se vai fabricando o azeite, uma das riquezas maiores do nosso país, assim como da vizinha Espanha, sendo a península que rivaliza com a Itália, a região dos belos olivais que o latino sempre amou enternecidamente.

E por esses campos fora, ao som das melopeias no Alentejo das alegres canções no norte, se vai fazendo a colheita da azeitona.

A apanha da azeitona: o transporte do fruto
Os varejadores
Tipos de apanhadeira
Apanhando a azeitona caída
À hora do descanso
Lagareiros
O abastado proprietário, sr. Nazaré Lopes, depois da visita ao seu lagar
A caminho de casa depois do trabalho
As apanhadeiras
Um rancho de varejadores

Fonte: “Ilustração Portuguesa”, nº 403 – 1903 (texto editado e adaptado) | Clichés do distinto amador sr. A. Abrantes, de Elvas

Constituição dos lares de Goa (Índia Portuguesa)

Constituição dos lares de Goa

A família goesa é exemplar, porque o cumprimento dos deveres familiares e o cuidado na escolha dos cônjuges e na educação dos filhos constituem as principais preocupações do pacífico povo de Goa.

Entre os católicos da Índia Portuguesa, a doutrina cristã é aplicada à moral familiar com um acerto e um rigor quase desconhecidos dos outros católicos.

São as seguintes as bases em que assenta a família goesa:

1.ª) – As raparigas são muito recatadas, tornam-se competentes nos serviços caseiros desde novinhas, saem pouco e raramente trabalham fora de casa; por isso, têm mais facilidade de se conservarem puras até ao casamento e fidelíssimas até à morte.

2.ª) – Os rapazes nos anos da puberdade e durante os estudos não pensam no casamento nem namoram, mas procuram primeiro lançar-se na vida.

3.ª) – A harmonização de vida dos futuros esposos é feita durante o noivado, que só começa depois de as famílias de ambos tirarem rigorosas informações reciprocas.

4.ª) – Não se realizam em regra matrimónios entre novos e velhos, nem entre solteiros e viúvos. As uniões conjugais precoces vão desaparecendo.

5.ª) – Não há casamentos só pelo registo civil, nem se usam divórcios ou ligações amorosas ilícitas.

6.ª) – As desinteligências nos casais são resolvidas pela intervenção de pessoas de bem. Quando a harmonia não é possível, os esposos separam-se, indo cada qual viver castamente em casa dos seus pais.

7.ª) – Os pais goeses gostam muito de ter filhos, cujo número só é considerado demasiado no caso de serem meninas e eles pobres para darem tantos dotes.

8.ª) – Os pais vivem para tornar os filhos honestos, bons e felizes, e os filhos ajudam os pais, sempre que é necessário.

É cheio de encanto e pitoresco o cerimonial que se observa nos casamentos goeses.

Pelo Prof. Pe Graciano Morais, do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos.

Fonte: “Guia oficial do I Congresso de Etnografia e Folclore” – Braga e Viana do Castelo – 22 a 25 de Junho de 1956 (texto editado e adaptado) | Imagem (meramente ilustrativa): Território de Goa (Google Maps)

Alguns velhos costumes populares de Alpedrinha

Costumes populares de Alpedrinha

“Do livro em preparação, sobre cantares e costumes de Alpedrinha, com notas biográficas e históricas do Cardeal D. Jorge da Costa, também conhecido popularmente por Cardeal de Alpedrinha, alta figura do século XV e que basta influência exerceu em toda a Península, respigamos alguns elementos dos seus velhos costumes para em comunicação, cooperarmos modestamente no Congresso a realizar.

Neste singelo e pobre contributo, descrevemos alguns costumes que classificamos de – sociais, religiosos e de motivos diversos.

Dos primeiros falamos no que se passava com as castanhas e as azeitonas e seus detalhes correlativos, mostrando o valor social e cristão que eles tinham, num manifesto cooperativismo hoje bem de invejar.

Dos religiosos, damos notas das rogações ou ladainhas, num verdadeiro espírito de fé na maneira de as celebrar, implorando de Deus as benesses necessárias para boas colheitas nos campos; dos cantares adequados a certas épocas do ano e dum modo especial ao tempo quaresmal e outros.

E dos diversos, não esquecemos as alvíssaras na noite da Ressurreição do Senhor e as fórmulas para isso usadas.

As fogueiras de rosmaninho, as sete fontes e as regas das hortas, na noite e manhã de S. João e de tudo isto certas quadras populares de harmonia com todos os detalhes que lhes eram atinentes.

Finalmente, apelamos para o Congresso para se dignar emitir o seu voto, de modo a criarem-se Comissões que possam salvar todo este património do espírito popular e rural, de molde a conseguirem do Estado elementos de acção, bem eficientemente proveitosos e dentro duma verdadeira e elevada função ética.”

Pelo Dr. Álvaro de Gamboa

Fonte: “Guia oficial do I Congresso de Etnografia e Folclore” – Braga e Viana do Castelo – 22 a 25 de Junho de 1956 (texto editado e adaptado) | Imagem (meramente ilustrativa):”São João” (Ilustração Portuguesa”, nº86 – 1905)

As «Reisadas» nas velhas Terras da Maia

As «Reisadas»

Notícia e enredo dum auto que sobre ao tablado há século e meio

Espectáculo típico e bem característico das velhas Terras da Maia que se distendem, na sua configuração geográfica e na mancha dos seus usos e costumes, desde o arrabalde portucalense até à ribeira do Ave, limitadas a nascente pelo Couto de Santo Tirso de Riba d’Ave e terra de Refojos – é aquele que oferece, ainda em nosso tempo, a representação do auto das «Reisadas», que os «reiseiros» maiatos sabem interpretar a seu modo.

Habituado a viver, com os seus conterrâneos, as cenas dramáticas e os enxertos de acentuada feição cómica, a roçar pela farsa, que compõem esse auto – que vê subir ao tablado desde os seus tempos de menino e moço – quis o autor, certo dia, saber da sua origem, para o que se deu à recolha dos subsídios arquivados em velhos e sebentos cartapácios, a que na região se dá o nome pitoresco de «cascos».

Foi aí que colheu notícias que o habilitaram a coligir algumas notas vindas já a público e depois aproveitadas, embora sem citação de origem, por outros autores, entre eles o redactor da nota inserta na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, sob a palavra Reiseiro.

Averiguou o autor que o primeiro texto das «Reisadas» foi composto, em 1816, pelo Padre Manuel da Silva Lamas, Abade de Nogueira da Maia.

Deu-lhe então o título de «O Nascimento do Menino Deus», chamando-lhe ainda «drama sacro em quatro actos», com «enredo místico».

Mais: arrimado ao propósito de bem definir a sua intenção, esclareceu também o referido autor, no rosto do seu manuscrito, que o auto se apresentava «mesclado com algumas passagens jocosas para divertimento dos espectadores».

Veio o auto a ser acrescentado e reformado pelo Padre João Vieira Neves Castro da Cruz, que em 1867 o fez representar, assim refundido, na freguesia de Milheirós da Maia, por ele paroquiada.

A nova versão, salvo ligeiras variantes que não bolem com a estrutura geral, é aquela que ainda em nossos dias é interpretada pelos «reiseiros» de Alvarelhos, de S. Cristóvão do Muro, de Avioso ou de Bougado – esses os derradeiros abencerragens da representação deste «drama sacro».

Ao compor o seu auto, o Padre Manuel da Silva Lamas fê-lo de acordo com o gosto do povo, a ponto de se servir da redondilha.

As modificações, e também estas sempre atinentes a suscitar o interesse do espectador, que vieram a ser introduzidas no texto original – como aconteceu, por exemplo, da parte dum certo Miguel da Costa, natural de S. Mamede do Coronado, que deu um arranjo ao «casco» em 1845 – não tocaram, regra geral, em mais do que naquelas cenas destinadas a despertar o gáudio.

E só assim se explica um enxerto do gosto e intenção daquele que é assinalado pela intervenção dos «muchachos», dois brancos e outro preto, que se dizem criados dos Reis Magos, quando não dum Esopo e da Velha de Esopo – figuras de entremez ali verdadeiramente deslocadas.

O autor do primitivo texto das «Reisadas» juntou a este, no final, uma explicação do seu drama, vertida em prosa.

Ai, diz assás o suficiente da sua intenção, pormenorizando o recurso aos textos bíblicos de que lançou mão para o arquitectar de todas as cenas.

Explica, então, o que julgou merecedor de ser levado para o tablado da representação, ou seja o nascimento do Messias – causa imediata do ódio impotente de Herodes – a adoração dos Reis Magos e dos Pastores, e a fuga de Nossa Senhora e S. José, com o Menino, para o Egipto.

Descrevendo o auto no pormenor das suas cenas, o autor deter-se-á na enumeração de todas aquelas que se mostram de gosto clássico – algumas a denotarem sobrevivência do bilinguismo seiscentista, como já acentuou noutro lugar e apresentará, em gravações, muitas outras, bem como os cânticos que enriquecem o texto.

Para estas gravações, recorreu o autor à interpretação que é dada ao auto pelos «Reiseiros» de Bougado.

Pelo Dr. António Cruz, Diretor da Biblioteca Pública Municipal do Porto

Fonte: “Guia oficial do I Congresso de Etnografia e Folclore” – Braga e Viana do Castelo – 22 a 25 de Junho de 1956 (texto editado e adaptado) | Imagem: «Reiseiros« in
“Ermesinde: Memórias da Nossa Gente”

A vida militar no cancioneiro popular português

A vida militar no cancioneiro popular português

Reunindo algumas centenas de quadras populares que se referem à tropa, analisam-se através delas, os sentimentos que o nosso povo manifesta pelo serviço militar, bem como as judiciosas observações que nas mesmas se contém acerca da força armada, das suas qualidades e dos seus defeitos.

Entre as causas de um velho de pouco agrado, passam-se em revista os tempos passados em que, no dizer de um escritor, o tributo de sangue foi quase apanágio do pobre.

Lembra-se o desconforto da caserna e os castigos corporais e a propósito destes, referem-se algumas disposições que, no exército alemão do princípio deste século, os reprimiam.

Compara-se este quadro antigo com o actual em que, por motivo da passagem de todos os cidadãos válidos pelas fileiras, se originou um sentimento diferente.

Analisando o que Gustavo Le Bon escrevera acerca de um serviço militar necessário para a educação dos diplomados pelas universidades, diz-se que no nosso país é hoje uma realidade o que aquele pensador preconizava há meio século.

Conclui o autor que o nosso rural, que não morre de amores pela tropa, quando soldado e é preciso bater-se, o faz com uma galhardia que não deslustra os nossos maiores, e a propósito refere o exemplo heroico, na guerra de 1914/1918, de um dos seus soldados que originariamente pertenceu ao Batalhão do Regimento de Infantaria n° 8, aquartelado em Barcelos.

Pelo Tenente Coronel Afonso do Paço, da «Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia» da «Societé d’Ethnographie de Paris», da «Sociedad Española de Antropologia Etnografia y Prehistoria»

Fonte: “Guia oficial do I Congresso de Etnografia e Folclore” – Braga e Viana do Castelo – 22 a 25 de Junho de 1956 (texto editado e adaptado) | Imagem (meramente ilustrativa): “O abraço de despedida” – “Ilustração Portuguesa” nº456 – 1914

O Pescador Poveiro – Subsídios etnográficos

O Pescador Poveiro

“Como escreveu Ramalho Ortigão, o pescador poveiro constitui uma raça perfeitamente especial na população da nossa beira-mar.

Na autorizada opinião de Fonseca Cardoso, o pescador poveiro nasceu do cruzamento dos descendentes dessa velha raça semita de origem cananeia, que viveu nas primeiras cidades do Egipto, com esses outros descendentes dos normandos que o fluxo das invasões dos godos e dos suevos trouxe à península.

É um tipo característico e inconfundível; forte e hercúleo, atrevido, virtuoso e bom, porque afeito a afrontar a morte, teme e ama a Deus, de geração em geração, escravo de trabalho rude e honesto, pode orgulhar-se de ter sido ele o sangue vivificador que deu forças ao desenvolvimento da sua «pobra» que, nascida no longínquo tempo dos romanos, se tornou no grande centro urbano que é nos nossos dias a linda vila da Póvoa de Varzim.

O pescador da Póvoa de Varzim nasce à beira do mar, vive do mar e para o mar, e, quantas vezes, morre no mar.

À ida ou no regresso das suas pescas, na praia ou taberna, lugares onde, tirando a ocasião do descanso e a demora da refeição, ele passa todo o seu tempo, só o mar é assunto das suas conversas!

O mar domina-o, enleva-o!

Dos percalços e aflições que os seus pais passaram no mar, não se lembra nem se quer recordar. Para quê?

Ele pensa só que tem de arriscar a vida em busca do pão de seus filhos, e isso lhe basta para levar a vida, que foi a vida de todos os seus.

E assim, onde estiver um barco e uma rede, ele lá está, cheio de fé e de esperança no seu árduo trabalho.

A vida é para ele um fardo pesado e duro pelos riscos e perigos que corre, pelas vicissitudes de todos os dias? Que importa? Resigna-se, trabalha e esquece.

Ele veio a este mundo para fazer o mesmo que fizeram seus pais!

É na intimidade com o mar, ora no convívio amigo e calmo, ora em luta renhida entre a fraqueza e a força, a pequenez e a imensidade, que ele passa os seus dias.

Daí o carácter melancólico e sonhador, tímido e ousado ao mesmo tempo, a alma simples e bondosa, de fé enternecedora, que encontramos no pescador varzino.

Quantas vezes o vimos nos fieiros da praia ou sentados à proa da sua embarcação encalhada nas areias, a contemplar o mar, através do qual perpassam, ora as agruras tristes do passado, ora as esperanças e os receios do futuro!

Porque a solidão do mar, a bonança ou a tempestade sobre as ondas põem em imediata e fácil comunicação os espíritos crassos com a grandeza e o poder de Deus, o pescador da linda Póvoa de Varzim é um crente sincero.

Com a mais devotada fé, conserva com convicção o mais arreigado espírito religioso, que o auxilia na resignação das agruras da vida.”

Pelo Comandante A. Coutinho Lanhoso

Fonte: Guia oficial do I Congresso de Etnografia e Folclore – Braga e Viana do Castelo – 22 a 25 de Junho de 1956 (texto editado e adaptado) | Imagem: “Arribação de um barco para o areal” – cliché do sr. Avelino Barros (“Ilustração Portuguesa” nº194 – 1909)

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