“Era o Mário Morais” | Romanceiro de Trás-os-Montes

Era o Mário Morais

Era o Mário Morais
E vivia com seus pais
Que eram gente de dinheiro.
Era de filhos, sozinho,
Davam-lhe muito carinho,
Por ser o único herdeiro.

Quando à mesa de sentavam,
Sempre lhe recomendavam
Não cases com mulher pobre
Arranja esposa de bens.
Com aquilo que já tenha
Serás mais rico e mais nobre”.

Esta recomendação
Feria o seu coração,
Àquele rapaz tão nobre.
Que ele sem ninguém saber
Jurara até morrer
Casar com Beatriz, que era pobre.

Mas naquela freguesia
Uma outra família havia,
Que era gente de dinheiro
Combinou-se o casamento
E a toda a hora e momento
Viam-se o dia inteiro.

Quando iam para a igreja,
Beatriz veio à janela
Ver o seu Mário querido.
Sorria sem ter inveja
E Mário olhou para ela
E ficou muito comovido.

Quando na igreja entrou
Ao altar se ajoelhou
A pensar em Beatriz.
Levantou-se extraviado
Antes de estar casado
Não quebro a jura que fiz”.

Sugestão: Gastronomia tradicional das Terras de Ribeira de Pena

No seu carro então entrou
E à pressa se atirou
Para casa de Beatriz.
Mas quando à porta chegava
Já a família gritava
A morte da infeliz.

Ao seu peito de abraçou
E o nome dela gritou
Como um menino perdido.
Quando os foram separar,
Não puderam evitar
Pois já tinha endoidecido.

In Monografia do Concelho de Ribeira de Pena, 1995 | Imagem (meramente ilustrativa): Festas de São Gualter – Guimarães – 1910

Dona Silvana | Romanceiro de Trás-os-Montes e Alto Douro

“Dona Silvana”

É um dos romances mais divulgados na região de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Também se chama:

Conde de Alemanha, em Sabroso e Jales – V. Pouca de Aguiar

Conde de Almana, em Lamares – Vila Real

Conde Alberto, em Sanguinhedo e Sabroso – Vila Real

Conde Yanno, em Garrett

D. Silvana, em Pires de Lima

*****

Estando a D. Silvana

Em uma grande agonia,

Acordou seu pai na cama,

Com o choro que fazia.

– Tu que tens, D. Silvana,

Tu que tens, ó filha mia?

– Das sete irmãs que nós somos

Já todas têm família.

E eu, que sou a mais formosa.

Sem me casar ficaria?

– Mas no meu reino não há

Ninguém que te merecia.

Já corri sete reinados,

Também lá os não havia.

Só o conde de Alemanha

Bem digno de ti seria.

– Mande-o chamar, meu pai,

Que esse bem me agradaria.

– Mas o Conde de Alemanha

É casado, tem família.

– Mande-o matar a condessa,

Que já livre ficaria.

Mandou-o El-Rei chamar,

Em missão de cortesia.

Passados alguns momentos,

O Conde à porta batia:

-Que deseja V. Alteza,

Que quer V. Senhoria?

– Que tu mates a Condessa,

Pra casar co’a filha mia,

E me tragas a cabeça

Nesta dourada bacia.

– A Condessa não a mato,

Que ela não o merecia.

– Mas mata-a e traz-me a cabeça

Nesta dourada bacia.

Regressou o Conde a casa,

Não falava nem comia.

Ao ver a sua tristeza,

A Condessa lhe dizia:

-Conta, Conde, Conta, Conde,

Conta-me a tua agonia.

-Vamos antes pró jardim,

Que eu aí te contaria.

Foram ambos pró jardim,

Nem um nem outro colhia.

– Conta, Conde, conta, Conde,

Conta-me a tua agonia.

-Vamos antes para a mesa,

Que eu aí te contaria.

Foram ambos para a mesa,

Nem um nem outro comia.

– Conta, Conde, conta, Conde,

Conta-me a tua agonia.

– Vamos antes para a cama,

Que eu aí te contaria.

Foram ambos para a cama,

Nem um nem outro dormia.

– Conta, Conde, conta, Conde,

Conta-me a tua agonia.

– El-Rei manda que te mate,

Pra casar co´a sua filha,

E leva a tua cabeça

Nesta maldita bacia.

– não me mates querido Conde,

Não faças tal vilania.

Manda-me para meu pai,

Que ele me sustentaria.

– Mas El-Rei quer-te a cabeça

Nesta maldita bacia.

– Manda-me pôr numa torre

Que eu à fome morreria.

– Mas El-Rei quer-te a cabeça

Nesta maldita bacia.

-Manda chamar o barbeiro

Que me faça uma sangria.

– Mas El-Rei quer-te a cabeça

Nesta maldita bacia.

-Mata a nossa cadelinha

E manda-lha na bacia.

– Mas El-Rei é muito esperto,

E logo descobriri-a.

– Deixa-me então despedir

Do meu querido jardim:

Adeus, cravos, adeus, rosas,

Adeus, flor do alecrim…

Venham agora os meus filhos,

Filhos do meu coração,

Que amanhã, por esta hora,

Comigo já não estarão.

Anda cá, filho mais velho,

Anda-me beijar a mão,

Que amanhã, por esta hora,

Outra mãe te arranjarão.

Anda cá, filho do meio,

Vou dar-te a minha bênção,

Que amanhã, por esta hora,

Já terás outra mansão.

Anda cá, filho mais novo,

Mama o leite da paixão,

Que amanhã por esta hora,

Já eu estarei no caixão.

Mama, mama, meu filhinho,

Este leite de amargura,

Que amanhã, por esta hora,

Já estarei na sepultura.

Tocam os sinos na Sé…

– Ai, Jesus, quem morreria?!

Responde o filho mais novo,

Que ainda falar não sabia:

– Morreu a D. Silvana,

Pela traição que fazia,

E o malvado do Rei,

Que também o merecia,

Por descasar bem-casados,

Coisa que Deus não queria!

(*) In “Romanceiro – Literatura de Trás-os-Montes e Alto Douro”, de Joaquim Alves Ferreira | Imagem

Romanceiro – Romances religiosos e profanos

”Romance”

«A palavra “romance”, que primitivamente significava a língua falada em Portugal até ao aparecimento do português proto-histórico, passou, depois, a designar história em verso, feita por autor desconhecido, e que o povo cantava nas suas actividades.

A hipótese de autoria colectiva, perfilhada por Almeida Garrett, está posta de parte.

Só poderá falar-se de romances do povo, na medida em que ele os assimilou e modificou, acrescentando, suprimindo, adaptando e até interpolando, umas vezes consciente, outras inconscientemente. (…)

Podemos considerar os romances poemas lendários com fundamento histórico, de forma épica ou épico-lírica, narrativa ou dramatizada.

Garrett admite duas espécies de histórias: o romance, que é todo narrativo, e a xácara, que é toda dramatizada.

Mas muitas vezes coexistem o romance e a xácara. Então, chama-se romance-xácara, se predomina a fala do autor; e xácara-romance, se predomina a fala dos personagens. Quando a história é triste, chama-se solau.

Entre nós, também se lhes chamou: rimances, romanças, trobos, trovas, motes ou simplesmente versos. Os romances religiosos de carácter laudatório também se chamam loas.

Os romances religiosos estão relacionados com a vida de Jesus, de Nossa Senhora e dos Santos.

Os profanos evocam episódios da reconquista cristã aos Mouros, ou falam de amor e de dramas passionais, provocados pela infidelidade das esposas, na ausência dos maridos, e pelo perjúrio dos namorados, em vésperas de casamento.

A maior parte dos romances peninsulares teve o berço em Castela e nasceu dos Cantares da Gesta, na opinião de Carolina Michaelis. Daí irradiou para toda a Península, por via oral, através das migrações para guerras, trabalhos, feiras e festas. (…)»

Joaquim Alves Ferreira, in “Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro” (texto editado e adaptado)

Romances religiosos

O Divino Pobrezinho ou o Lavrador da Arada

Trás-os-Montes e Alto Douro

Manharinha de S. João

Outro exemplo de romance (este de carácter religioso) utilizado nas segadas (11 horas da manhã). A melodia desenvolve-se no âmbito de uma oitava distribuída por dois cantores: um pentacorde inferior confiado à voz masculina, e um tetracorde jónio superior (à guisa de resposta), confiado à voz feminina.

Trás-os-Montes

Romances profanos

Dona Silvana

Trás-os-Montes e Alto Douro

Era o Mário Morais

Ribeira de Pena – Trás-os-Montes

A Costureira

Ribeira de Pena – Trás-os-Montes

De uma filha que se sentia desprezada pelos pais em favor de uma irmã e preferiu matar-se a sofrer essa diferença

Ribeira de Pena – Trás-os-Montes

O Caloteiro

Constantim – Vila Real – Trás-os-Montes e Alto Douro

Dona Ancra

Belo romance talvez corruptela ou deformação sónica de Dona Ângela, romance vulgarizado em Trás-os-Montes e em Espanha, nesta conhecido pela designação de La novia del duque de Alba.

Trás-os-Montes

Mineta

Versão transmontana de muito espalhado romance O Cego, também conhecido sob a designação de O rei e a pastora, Aninhas. Canção usada no trabalho de fiar o linho.

Trás-os-Montes

A mal-casada

Cantiga de «malhas» (romance)

Trás-os-Montes

Romances Pastoris

Deus te salve, Rosa

Encantador romance pastoril. A melodia em maior e de regular ritmo binário, semelha uma graciosa ronda infantil.

Trás-os-Montes

Lavrador da Arada ou o Divino Pobrezinho

O “Divino Pobrezinho” ou o “Lavrador da Arada”

Vindo um lavrador da arada,
Encontrou um pobrezinho.
O pobrezinho lhe disse:
Leva-me no teu carrinho.

Apeou-se o lavrador
E no seu carro o metia,
Levou-o p’ra sua casa,
P’rá melhor sala seria.

Mandou-lhe fazer a cama
Da melhor roupa que havia:
Por cima, damasco roxo;
Por baixo, cambraia fina.

Mandou-lhe fazer a ceia
Do melhor manjar que tinha.
Sentou-o à sua mesa,
Mas o pobre não comia.

As lágrimas eram tantas
Que pela mesa corriam,
Os suspiros tão profundos
Que até a mesa tremia.

Deitou-o na sua cama,
Mas o pobre não dormia.
Lá pela noite adiante,
O pobrezinho gemia.

Levantou-se o lavrador,
Foi ver o que ele teria.
Deu-lhe o coração um baque,
E como não ficaria!

Achou-o crucificado
Numa cruz de prata fina.
Ó meu Jesus, se eu soubera
Que em minha casa Vos tinha,

Mandara fazer preparos
Do melhor que encontraria.
Cala-te lá, lavrador,
Não fales com fantasia.

No céu te tenho guardada
Cadeira de prata fina,
Tua mulher a teu lado,
Que também o merecia.

Fonte: “Romanceiro – Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro” (5 vol.) – Joaquim Alves Ferreira

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