A truta de Celorico da Beira | Lendas de Portugal

A truta de Celorico da Beira

Celorico da Beira deve ser uma povoação muito antiga, e é crível que o velho castelo reedificado por D. Dinis, tenha sido construído sobre uma localidade luso-romana situada naquela eminência.

Com Trancoso e Guarda, Celorico constitui um triângulo militar de grande poder defensivo, como foi reconhecido por Wellington, Massena e outros.

Em torno do castelo decorreram vários episódios emocionantes da história peninsular, desde os tempos da reconquista cristã até às invasões francesas.

A sua importância militar pode depreender-se do foral e privilégios que Afonso Henriques lhe outorgou desde cedo e vários outros reis, ao longo do tempo, foram confirmando e ampliando.

Episódio histórico

Um desses episódios ficou estreitamente ligado à história mais comum da vila visto fazer parte do seu brasão de armas.

Passou-se a história em 1245, quando D. Afonso III corria o reino a exigir vassalagem dos súbditos de seu irmão D. Sancho II, o Rei de Portugal que o Papa depusera e que se encontrava em Toledo banido e refugiado.

O novo Rei viera pôr cerco ao castelo cujo alcaide, Fernão Rodrigues Pacheco, mantinha fidelidade absoluta ao preito e menagem que jurara a D. Sancho.

Dentro das muralhas, a fome apertava duramente, ao mesmo tempo que se assanhava a resistência do alcaide.

Subitamente uma águia cortou os ares e deixou cair intramuros a presa que trazia nas garras: uma enorme truta fresca, que provavelmente apanhara no Mondego.

Ideia salvadora

Uma ideia surgiu imediatamente no espírito do alcaide de Celorico: mandar aquele peixe cozinhado a D. Afonso para que visse como a vila estava bem guarnecida de víveres.

Assim, mandou que arranjassem um pouco de farinha – género que escasseava na fortaleza – e que guisassem a truta.

Chamou Gomes Viegas e ao entregar-lhe o pitéu que devia levar ao inimigo, juntou-lhe uma mensagem em que dizia:

Não culpeis a minha resistência para sustentar a voz de el-rei D. Sancho, vosso Irmão, que mercês recebidas, obrigações e homenagens me desculpam.

Eu tenho determinado perseverar na defensão até expresso mandado seu; querendo insistir, podeis fazê-lo, pois a vila está guarnecida de bons cavaleiros, que tendes experimentado, e provida de mantimentos como assegura este regalo: estimarei o aceiteis, atendendo ao pouco que pode oferecer-vos um cercado.”

D. Afonso recebeu o presente que o alcaide lhe enviava por Gomes Viegas, ao qual pôs a alcunha de o Peixão, e decidiu levantar o cerco por considerar não valer a pena, na verdade, perder mais tempo com uma praça tão bem guarnecida de tudo e pronta a aguentar-se por tempo indeterminado.

Quanto a Gomes Viegas, o Peixão, ficou tão orgulhoso do epíteto que, aceitando-o, o modificou para Peixoto.

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Lenda de Nossa Senhora do Espinheiro – Seia

Lenda de Nossa Senhora do Espinheiro

Nesses tempos da moirama, havia em terras lusitanas um cavaleiro andante, audaz e guerreiro, destemido e ousado.

Rezam as crónicas que foi famosa sua memória… Rebrilhou em mil batalhas sua espada fulgurante, sulcou rasgões de sangue nas fileiras mouriscas e, em Ourique, dominou, intrépido, cinco reis sequazes de Mafamede!…

Queimado na energia agreste do vento e do sol, cavaleiro medieval, sua alma ardente, sonhadora, caldeou-se indómita ao fragor bélico e ao luzir do aço.

Naquela manhã de Setembro, de aragem fria para as bandas da serra, D. Afonso Henriques, rei de Portugal, cavaleiro andante das terras de Viriato, apeou-se do corcel às portas de Sena.

Numerosa cavalgada o segue: homens de armas, infantes, fidalgos da corte, os grandes todos de Portugal jovem…

D. Afonso Henriques de visita

O Alcaide-mor de Sena entrega, em salva de prata, as chaves pesadas do castelo heróico que Fernando Magno ergueu e foi baluarte contra os mouros. Rude e sinceramente, o Alcaide, genuíno ramo de Viriato, beija as mãos do primeiro rei de Portugal.

Ele sabia-as por serviço de Deus e da grei, banhadas em sangue, no silêncio dos arranques bravos das pugnas, realizando no chão dos lusos o milagre da sonhada independência…

A vida da Pátria preparava-a a espada de D. Afonso Henriques nessas horas imortais de altura, de sacrifício e de sangue.

Porque vinha de Guimarães às terras de Sena tão luzido acompanhamento? Era a serra dos Hermínios abundante em caça.

E o rei de Portugal, afeito às pelejas mouriscas, era certeiro nas flechas e rápido nas lançadas. A caçada prometia abundância e variedade. Eram destros os atiradores, leves os corcéis e ágeis os rafeiros…

À comitiva juntaram-se os fidalgos de Sena. A trepada dos montes escalvados e íngremes decorria em folgazã alegria e mais de um caçador emérito experimentara já pelos relvados e fraguedos a certeza da sua dextra.

A comitiva dispersa-se pelas encostas da serra, desce aos valados, embrenha-se nos pinhais, bate as urzes e escala os escuros fragões… Surge a caça abundante e nédia e alegram-se os caçadores…

O olhar dos vimaranenses perde-se na vastidão imensa, deslumbra-se com a distância e até o rei de Portugal se sente remoçado e fresco, respirando ofegante, longe das hostes inimigas transtaganas e aqui mais perto de Deus que fortalece o seu braço.

O rei de Portugal em apuros

Caminha agora na planura. Segue de perto rastos de caça. Vai só, atento o olhar de lince no animal que persegue. Mas, ó céus! De repente o rei D. Afonso Henriques estaca diante dum silvado de agrestes espinheiros…

O que faz ficar assim estupefacto o rei de Portugal? É uma alcateia de lobos corpulentos, boca escancarada, goela hiante, dentes sanguíneos e famintos, olhos a fuzilar, que espreitam…

Impossível fugir às feras, impossível clamar por socorro dos da comitiva, dispersos pelos pinhais e ravinas.

Neste apertado transe, D. Afonso Henriques implora à Virgem dolorosa, pelas dores e martírios que sofreu tendo seu bem amado Filho nos braços, descido da Cruz, a libertação de tão iminente e cruciante perigo.

E os lobos, uivando ferozmente, retiram-se, arrastados por força misteriosa e invisível, para as penedias gigantescas da serra onde têm suas escuras cavernas.

A proteção da Virgem Maria

Mais uma vez a Virgem Maria tinha protegido maternalmente com a sua poderosa mão e abrigado na orla do seu manto, o grande rei português.

Para perpétua memória de facto tão insólito e miraculoso, D. Afonso Henriques mandou levantar a ermida de Nossa Senhora do Espinheiro que se ergue, donairosa, no planalto, a meio caminho entre Seia e o Sabugueiro, a aldeia mais alta de Portugal.

O cenário é rude a mil metros de altura, eriçado de penhascos, beijado pelo vento.

No Inverno, quando a neve rebrilha nos píncaros das massas ciclópicas, ela vem docemente cobrir com diáfano manto o telhado da ermida românica da Senhora do Espinheiro.

Lá se adora a Mater Dolorosa, imagem artística e veneranda, esculpida no granito duro, desafiando no volver dos séculos, em plena serra, os furores da tempestade e o rugir da procela.

Fontes: Texto | Imagem ( Capela de Nossa Senhora do Espinheiro (Seia). Procissão do Menino Jesus Capitãozinho. Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983.

Vale da matança – Rio Ponsúl | Etnografia da Beira

Lenda: Vale da matança – Rio Ponsúl

A luta ia renhida. De encontro à resistência heroica, quási sobre-humana dos destemidos habitantes da Lusitânia, desfaziam-se grandes legiões comandadas pelos melhores generais romanos.

Á cuidada preparação dos legionários, à sistemática instrução que, quer no manejo das armas quer nos exercícios atléticos, lhes era ministrada na Urbs, antepunham os lusitanos o seu grande amor ao torrão natal, a agilidade de movimentos através as mais duras sinuosidades do terreno, a sobriedade na comida e no vestuário, a resistência indómita de quem, acima de tudo, quer viver independente e livre.

A raça de que descendemos soube e pôde assim quebrar, durante anos, os ímpetos do maior exército do mundo, infligindo-lhe por vezes derrotas sanguinolentas. E legiões vieram e legiões partiram sem que consigo pudessem levar ao Forum a grata notícia da submissão dos montanheses dos Hermínios.

Roma viveu dias de pânico, chegando mesmo a recear pelo resultado final!

Corriam os primeiros anos do segundo século antes de Cristo. A cidade de Egitania (Idanha-a-Velha) caíra já em poder dos romanos.

Dentro e fora de suas muralhas ia uma vigilância aturada: dentro, a dos invasores, preparando-se para novas surtidas, fora, a dos lusitanos, esperando, através duras e constantes vigílias, o momento azado para lhes inutilizarem a acção.

O Procônsul resolveu um dia infligir severo castigo aos audaciosos indígenas cujo atrevimento chegara ao ponto de virem ali mesmo, às portas da cidade, espreita-los e desafia-los.

Uma surtida romana no campo inimigo

Para isso dirigiria ele próprio uma surtida no campo inimigo. E, de facto, marchando como para triunfo certo, por uma das portas da cidade foi saindo, Procônsul à frente, em certo dia, boa parcela do exército romano.

Os soldados lusitanos que próximo, por entre os densos matagais, os espreitam, fremem de raiva ante a superioridade do número.

Aprestam os escudos, enrijam os músculos e enquanto os legionários avançam, aproximam-se da estrada. Estão quási à mão! Mais um momento! E como feras, como gigantes, aquele punhado de heróis e de valentes cai à cutilada, à machadada sobre os invasores. A luta é dura porque é desigual.

Muitos pagam com a vida a sua devoção patriótica, mas no campo inimigo a mortandade é tal que, desde então, para se continuar até hoje, o local, pequeno vale entre a estrada e o rio, ficou conhecido pelo Vale da Matança.

E mal ferido, e entre as vascas da agonia, o Procônsul, que a custo se arrastara até junto do rio, ali exalou o último suspiro. (1)

E do facto, igualmente resa a tradição, ficou ao rio o nome de Procônsul para, com o andar dos tempos, se chamar, como ainda hoje se chama, Ponsúl.

(1) Para Roma, diz o povo, foi o cadáver do Procônsul envolvido em mel dentro de um odre de pele de boi.

Fonte: Etnografia da Beira, Jaime Lopes Dias (foi mantida a grafia original) | Imagem de Wajari Velásquez

Lenda de Nossa Senhora da Enxara – Campo Maior

Nossa Senhora da Enxara

Reza a lenda de Nossa Senhora da Enxara que, certo dia, uma mulher estava a lavar roupa no rio, tendo por única companhia a sua filha que brincava.

A criança, depois de se ter afastado da mãe para brincar, regressou pouco depois trazendo um brinco de ouro. Afirmava que o mesmo lhe tinha sido oferecido por uma senhora muito bonita.

Rapidamente, a mãe quis saber onde estava a tal senhora. Quando chegaram ao local onde a menina diz ter encontrado a senhora, viram uma imagem de Nossa Senhora sobre uma pedra redonda.

Esta é a imagem que se encontra hoje no Santuário.

A população, ao ter conhecimento do sucedido, decidiu construir uma capela a meio do caminho. No entanto, todas as manhãs a imagem da Senhora desaparecia para logo ser encontrada no local original.

Consciente de qual era a vontade da Senhora, a população decidiu construir um Santuário, no local onde a imagem tinha sido encontrada. Deste modo, guardavam e homenageavam a imagem de Nossa Senhora da Enxara.

Diz a tradição que, quando não havia água nem chovia em Campo Maior, se realizava uma procissão.

Durante este procissão, os habitantes locais deitavam a pedra ao rio, para que Nossa Senhora fizesse chover.

Quando tal acontecia, procediam então ao ritual inverso: retiravam a pedra do rio, iam colocá-la de novo na Capela e sobre ela recolocavam a imagem de Nossa Senhora.

Romaria de Nossa Senhora da Enxara

Na vasta região do Alentejo, em pleno concelho de Campo Maior e próximo da freguesia de Ouguela, está localizado o Santuário de Nossa Senhora da Enxara, famoso pelas festividades características que se realizam em cada Semana Santa.

Todos os anos, na Quinta-Feira Santa, a imagem de Nossa Senhora da Enxara é transportada em solene procissão desde a Igreja da Ouguela até ao Santuário, situado a alguns quilómetros de distância, regressando ao local habitual na Segunda-feira a seguir à Páscoa.

No fim-de-semana da Páscoa (entre Sexta-Feira Santa e Segunda-Feira), o Santuário de Nossa Senhora da Enxara, ao qual está ligado aquela antiga lenda, enche-se de visitantes e curiosos, mas principalmente de fiéis que celebram a sua fé através da devoção Mariana.

A Festa consiste, essencialmente, numa Missa campal e procissão, tourada e outros divertimentos (carrosséis, barracas de comeres, baile, etc.).

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Lenda do Menino Jesus da Cartolinha | Miranda do Douro

O Menino Jesus da Cartolinha

A lenda mais conhecida de Miranda do Douro, cidade do distrito de Bragança, no nordeste transmontano, banhada pelos rios Fresno e Douro e em plena fronteira com Espanha, é a do Menino Jesus da Cartolinha.

Conta a tradição que a cidade se encontrava cercada de tropas espanholas, estando estas na eminência de tomarem as muralhas, muito cobiçadas pela sua importância estratégica. De repente surgiu, não se sabe de onde, um jovem que ia gritando pelas ruas, incitando toda a população à defesa da localidade.

A população já se encontrava descrente e sem forças não podendo oferecer resistência por muito mais tempo, pois o cerco mantinha-se há vários meses. A fome e a sede eram os principais inimigos da população sitiada.

Mas, como por milagre, o incitamento feito por aquele jovem fez renascer as forças já quase esgotadas, e, após uma dura batalha, os invasores foram expulsos.

A praça de guerra foi salva! Procuraram o menino-prodígio! Queriam homenageá-lo, honrá-lo, mas não o encontraram. Como aparecera assim também desaparecera!

Foi um milagre de Jesus”- do Menino Jesus da Cartolinha – disse o povo.

Outra lenda!

Outra lenda conta que havia na cidade um jovem oficial, noivo de uma senhora da Corte, com a data de casamento marcada.

Na defesa da praça, cercada por tropas espanholas, esse jovem, que teria uma brilhante carreira militar, morre. A noiva fez então a promessa de lhe honrar a memória, oferecendo ao Menino Jesus a farda correspondente à que o seu noivo iria vestir depois da guerra.

Os mirandeses têm tanta fé no seu “Menino” que ainda hoje exclamam em momentos de grande aflição “Ai, Meu Menino! Ai Meu Menino!”.

Estas lendas podem estar relacionadas com a Guerra da Restauração da independência (1640-1668) ou com a Guerra da Sucessão espanhola.

A figura do Menino Jesus da Cartolinha está na Sé Catedral de Miranda, em altar próprio. A imagem sai em procissão no Dia de Reis, vestido com a tradicional capa de honras mirandesa, e o seu andor é carregado por quatro crianças.

Fonte (texto adaptado) | Imagem

 

Lenda do Galo de Barcelos | Lendas de Portugal

Lenda do Galo de Barcelos

Ao cruzeiro setecentista que faz parte do espólio do Museu Arqueológico de Barcelos, está associada uma curiosa lenda – a Lenda do Galo de Barcelos.

“Os habitantes do burgo andavam alarmados com um crime e, mais ainda, por não ter descoberto o autor.

Certo dia, apareceu um Galego que se tornou de imediato suspeito do dito crime, visto que ainda não tinha sido encontrado o criminoso. As autoridades condais resolveram prendê-lo e, apesar dos seus juramentos de inocência, ninguém o acreditou.

Ninguém julgava crível que o galego se dirigisse para Santiago de Compostela em cumprimento de uma promessa como era tradição na época, e fosse devoto fiel de S. Paulo e da Virgem Santíssima.

Por isso foi condenado à forca.

Antes de ser enforcado, pediu que o levassem à presença do juiz que o havia condenado a tal destino.

A autorização foi-lhe concedida, e levaram-no à presença do dito magistrado, que nesse momento se deleitava e banqueteava com os amigos.

O galego reafirmou a sua inocência…

O galego reafirmou a sua inocência, e perante a incredulidade dos presentes, apontou para um galo assado que se encontrava no centro de uma grande mesa, exclamando:

«É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem.».

Isto, perante gargalhadas e risos, que não se fizeram esperar, mas pelo sim e pelo não, ninguém tocou no galo.

O que parecia impossível aconteceu. Quando o peregrino estava a ser enforcado, o galo ergueu-se na mesa e cantou!

Após tal acontecimento mais ninguém duvidava da inocência do Peregrino. O Juiz correu à forca e, com espanto, vê o pobre homem de corda ao pescoço, mas com o nó lasso, impedindo o estrangulamento.

O homem foi imediatamente solto e mandado em paz.

Volvidos alguns anos, voltou a Barcelos e fez erguer um Monumento em louvor à Virgem e a Santiago.”

Fonte

Uma Lenda dos Mouros nos Tempos Antigos

Uma lenda dos Mouros

Uma mulher da aldeia das Casas da Ribeira foi fazer um parto a uma moura.

A mulher andava no campo a apanhar lenha, quando lhe aparece um homem a pedir-lhe para ela ir assistir ao parto da mulher, que estava para ter um filho.

A mulher aceitou o convite e lá foi atrás do homem. Quando chegou às penhas do Chorro, ali numa rocha abriu-se uma porta e a mulher entrou.

Era uma linda casa subterrânea debaixo da rocha. O homem agradeceu à mulher com um braçado de lenha às cavacas. A mulher ao sair dali resmungava:

Olha agora com que me agradeceu, com um braçado de lenha!

E ela deitou a lenha fora, mas no fundo do cesto ficou uma falhasca. A mulher viu que era ouro.

Quando ela pega na falhasca, transformou-se num lindo cordão em ouro.

A mulher ficou louca. Tinha uma filha para lhe dar aquele lindo cordão. Pelo caminho, ela encontrou um tronco de oliveira e pendurou o cordão no tronco, para ver a vista que fazia no pescoço da filha.

Quando isso aconteceu, o malvado cordão transformou-se numa serpente, que até cortou o tronco da oliveira.

E tudo isto aconteceu porque a mulher foi mal agradecida.

Esta lenda foi cedida pela Sra. Dona Cremilda Matos. | Imagem de skeeze

Nota: A localidade de Casas da Ribeira pertence à freguesia e concelho de Mação.

Freguesia de Mação

“A freguesia de Mação e os seus arredores conservam em si um grande património arqueológico como comprovado em Março de 1943, com a descoberta, nos Paços do Concelho, de um grande depósito construído para esconderijo de objectos pessoais ou talvez para homenagem religiosa.

Entre o espólio foram descobertos foices, lanças, machados, argolas de adorno, fragmentos de punhais, braceletes, estiletes, que, segundo especialistas como o arqueólogo Eugénio Jalhay, podem ser datados entre 1200 e 900 a.C.. Existem ainda vestígios da presença de outros povos por todo o concelho.

Foi já durante o reinado de D. Dinis que Mação viu a sua importância reforçada. Tal como por toda esta região aqui estiveram templários e cavaleiros Hospitalários com sede em Belver. O primeiro foral foi-lhe concedido pela Rainha Santa Isabel, renovado em 1355 por D. Pedro I, sendo já nesta altura um concelho.

No entanto, mais tarde, Mação passa para o concelho de Proença a Nova readquirindo a sua “autonomia” no final do séc.XIX.

Da arquitectura religiosa da Vila de Mação destacam-se a Capela da Misericórdia onde se pode admirar, um nicho com a imagem de S. Maria de Mação em pedra de ançã do séc.XV, vinda da região de Coimbra.

Também a Igreja Matriz merece destaque, construída em 1597, expõe elementos artísticos de rara beleza da arte portuguesa como os azulejos padronizados, com cercadura polícromados do séc. XVII, e talha dourada do séc.XVIII nos altares e capelas.

Por entre a cobertura de azulejo podemos reparar em vários registos figurativos, polícromados de passagens bíblicas como a Visitação ou a Árvore de Jessé.” Fonte

Lenda de Machico ou do Amor Imortal | Madeira

Lenda de Machico ou do Amor Imortal

Sobre a origem do nome da localidade de Machico

Na corte britânica de Eduardo III, vivia um homem de sangue plebeu e alma nobre, Roberto Machim, que tinha como melhor amigo e companheiro de armas, o fidalgo D. Jorge.

Roberto Machim era um homem sensível e tinha o dom da palavra. Por isso, D. Jorge veio pedir-lhe para ir com ele esperar a sua jovem e bela prima, Ana de Harfet, que D. Jorge queria impressionar.

Os primeiros olhares e as primeiras palavras trocadas entre Ana de Harfet e Roberto Machim foram suficientes para que surgisse um amor tão intenso que resignou sinceramente D. Jorge. Mas os pais de Ana de Harfet não aceitaram a união com um pretendente de tão baixa linhagem e ordenaram o casamento de Ana com um dos fidalgos da corte.

Roberto Machim não escondeu nem a sua cólera nem a sua intenção de lutar por Ana e foi preso por ordem do rei durante alguns dias, enquanto a cerimónia de casamento se realizava. À saída da prisão esperava-o o seu fiel amigo D. Jorge que o informou que Ana estava a morrer de amor.

Com a ajuda de D. Jorge, Ana e Roberto fugiram num barco em direcção a França, que uma brutal tempestade desviou para uma ilha paradisíaca. Ana não resistiu à febre que a tinha assolado durante a tormenta e foi enterrada na bela ilha.

Conta-se que Roberto Machim morreu em cima da campa da sua amada e nela foi enterrado pelo seu amigo. Um grande amor que através do nome de Roberto foi para sempre recordado na bonita vila de Machico, na Ilha da Madeira, pretensa ilha a que aportaram os dois apaixonados que passaram às crónicas portuguesas.

Sobre a Madeira

“Madeira é nome de ilha e arquipélago de Portugal. Situa-se no Atlântico oriental e oferece algumas das mais belas paisagens do país. Como sucede com os Açores, o arquipélago constitui uma região autónoma, administrada por um governo regional com sede no Funchal.

O concelho do Funchal tem uma área de 73,1 km2 e compreende 10 freguesias: Imaculado Coração de Maria, Monte, Santo António, São Gonçalo, Santa Luzia, São Martinho, Santa Maria Maior, São Pedro, São Roque, Sé.

O arquipélago é formado pelas ilhas da Madeira e do Porto Santo, e pelos ilhéus Selvagens (Grande, Pitão Grande e Pitão Pequeno) e Desertas (Grande, Bugio e Chão), compreendendo os concelhos de Calheta, Câmara de Lobos, Funchal, Machico, Ponta do Sol, Porto Moniz, Porto Santo, Ribeira Brava, Santana, Santa Cruz e São Vicente.” Ler+

Descrição de alguns Trajes regionais da Madeira

Trajos tradicionais da Madeira no início do séc. XX

“O trajo da camponesa é muito típico, quando aparece nas festas. Na cabeça uma carapuça, saia curta de lã encarnada, com listas verticais de cores; capa de meia cintura, azul-escura, debruada de largas fitas de renda da mesma cor, posta sobre o ombro esquerdo e passando por de baixo do braço direito, indo encontrar-se as duas extremidades um pouco abaixo do peito, descobrindo uma branca camisa de linho, abotoada por grandes botões de oiro, com numerosas pregas e caindo sobre as franjas de um colete de cores, sobre o qual assentam grossos grilhões de oiro.” Ler+ 

Vestuário da população de Fajã da Ovelha

Os trajos, que há poucos anos deixaram de ser usados, aparecem ainda hoje por ocasião das grandes romarias, bailes, etc. É muito interessantes tomas parte numa destas romarias. Ler+

Trajes tradicionais de Santana

O Fato Serrano – Este traje é típico da Freguesia de S. Jorge. O homem veste calça de lã preta, a camisa de linho, colete de lã preto, chapéu preto e calça bota chã. O traje era usado nas idas à missa e em momentos festivos. Ler+

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A Lenda dos Sete Ais | Sintra – Estremadura

A lenda dos sete ais!

Esta é uma lenda estranha que está na origem do nome de um local do concelho de Sintra (Seteais) e que remonta a 1147, data em que D. Afonso Henriques conquistou Lisboa aos Mouros.

Destacado para ocupar o castelo de Sintra, D. Mendo de Paiva surpreendeu a princesa moura Anasir, que fugia com a sua aia Zuleima. A jovem assustada gritou um “Ai!” e quando D. Mendo mostrou intenção de não a deixar sair, outro “Ai!” lhe saiu da garganta.

Zuleima, sem lhe explicar a razão, pediu-lhe para nunca mais soltar nenhum grito do género, mas ao ver aproximar-se o exército cristão a jovem soltou o terceiro “Ai!“.

D. Mendo decidiu esconder a princesa e a sua aia numa casa que tinha na região e, querendo levar a jovem no seu cavalo, ameaçou-a de a separar da sua aia se ela não acedesse e Anasir deixou escapar o quarto “Ai!“.

Anasir apaixonou-se por D. Mendo de Paiva

Pouco depois de se instalar na casa, a princesa moura apaixonou-se por D. Mendo de Paiva, retribuindo o amor do cavaleiro cristão que em segredo a mantinha longe de todos.

Um dia, a casa começou a ser rondada por mouros e Zuleima receava que fosse o antigo noivo de Anasir, Aben-Abed, que apesar de na fuga se ter esquecido da sua noiva, voltava agora para castigar a sua traição.

Zuleima contou a D. Mendo que uma feiticeira lhe tinha dito que a princesa morreria ao pronunciar o sétimo “Ai!“. Entretanto, Anasir curiosa pela preocupação da aia em relação aos seus “Ais”, exprimiu o quinto e o sexto consecutivamente, desesperando a sua aia que continuou a não lhe revelar o segredo.

D. Mendo partiu para uma batalha e passados sete dias foi Aben-Abed que surpreendeu Anasir, que soltou o sétimo “Ai!“, ao mesmo tempo que o punhal do mouro a feria no peito.

Enlouquecido pela dor, D. Mendo de Paiva tornou-se no mais feroz caçador de mouros do seu tempo.

Texto retirado de site já desactivado | Imagem de Jazi Araújo

 

Lendas e contos infantis de Trás-os-Montes e Alto Douro

Lendas e contos infantis

«As Lendas e os Contos são, por assim dizer, dois irmãos quase gémeos, na estrutura e no conteúdo. Ambos serviam para alegrar os serões à lareira, nas longas noites de inverno.

Há, no entanto, algumas diferenças entre eles:

– as Lendas têm lugar, data, e servem para descrever acontecimentos e exaltar heróis, imaginários, ou reais, mas romanceados;

– os Contos, pelo contrário, não têm espaço nem tempo e têm sobretudo a função de divertir ou moralizar. Por isso, começam sempre por: era uma vez, num lugar muito distante…

Ambos são muito antigos. Podemos dizer que são tão antigos como o próprio homem. Entre nós, as primeiras lendas aparecem já documentadas nos primeiros livros em prosa, os Nobiliários, onde aparece, entre outras, a célebre Lenda de Gaia.

Não há terra que não tenha uma ou mais lendas e muitas histórias para contar.

Diversos tipos de lendas

As Lendas conhecidas podem agrupar-se em quatro classes:

As Lendas de carácter histórico, que relatam feitos, como a tomada de castelos aos moiros, ou de calamidades públicas, como a praga dos gafanhotos.

Já as Lendas etiológicas, que procuram explicar a origem dos nomes de terras, das actividades agrícolas, artesanatos, costumes e tradições.

As Lendas de carácter religioso, que descrevem aparições sobrenaturais, sobretudo de N. Senhora, a crianças que guardavam os seus rebanhos, nos montes.

E, finalmente, as Lendas mouriscas, que falam de mouras encantadas e infelizes, embora rodeadas de grandes tesouros, à espera de alguém que as fosse desencantar.

Significado religioso?

Segundo José Leite de Vasconcelos, estas lendas estavam relacionadas com o culto de antigas divindades e cada um dos seus elementos tinha um significado religioso.

Partindo deste pressuposto, podemos dizer que o agente da acção é o homem em geral à procura da felicidade. O tesoiro escondido é a felicidade procurada. Os gigantes, dragões, serpentes e bruxas, símbolos do Diabo, são as forças do mal que tentam impedir o homem de encontrar o almejado tesoiro.

Pelo contrário, as fadas com a sua varinha de condão, as pombas brancas, as águias, rainhas das aves, os leões, reis dos animais, as velhinhas conselheiras, Nossa Senhora, símbolos da divindade, representam as forças do bem, ou forças adjuvantes, que procuram ajudar o herói a vencer a luta contra as forças do mal, ou forças oponentes.

A hora da acção é a noite, símbolo da morte, iluminada pela claridade do luar, símbolo da ressurreição e do encontro com a Divindade, o verdadeiro tesoiro.

O local da acção é o subterrâneo ou o interior duma rocha, símbolos do tártaro ou do inferno, e o palácio doirado cheio de saborosos manjares, símbolo do nirvana ou paraíso.

Para atingir este último estádio, é preciso ser muito corajoso e colaborar com as forças adjuvantes.

Já delas se falava na Bíblia

Estes géneros tão populares difundiram-se tão depressa e tão cedo, que já S. Paulo, na epístola dirigida ao seu discípulo Timóteo, lhe recomendava: acautela-te das fábulas e dos contos de velhas e exercita-te na piedade. Mas, se quisermos recuar no tempo, podemos encontrá-los também na própria Bíblia e já no Antigo Testamento. Para exemplificar e concluir estas considerações preambulares, não resisto à tentação de transcrever um exemplo, pequeno mas interessante, extraído do Livro dos Juízes, capítulo IX, versículos 8 a 11:

«Um dia, as árvores resolveram eleger um rei. Foram ter com a oliveira e disseram-lhe: oliveira, reina sobre nós.

Mas a oliveira respondeu: Porventura posso eu deixar o meu óleo, de que se servem os deuses e os homens, para reinar sobre vós?

Então, as árvores foram ter com a figueira disseram-lhe: vem, reina sobre nós

Mas a figueira respondeu: Porventura posso cu deixar a doçura dos meus frutos suavíssimos, para reinar sobre vós?

Foram depois ter com a videira e disseram-lhe também: vem, reina sobre nós.

Mas a videira respondeu: porventura posso cu deixar o meu vinho, que faz a alegria de Deus e dos homens, para reinar sobre vós?

Foram, por fim, ter com o espinheiro e disseram-lhe: vem, reina sobre nós.

E o espinheiro respondeu: se quereis que eu reine sobre vós, vinde e repousai debaixo da minha sombra; mas, se o não quereis, saia fogo do espinheiro e devore os cedros do Líbano».

Influências recíprocas

Mas, se a Bíblia sofreu influência desta cultura popular, também aconteceu o inverso. A lenda da tomada do castelo do Pontido, adiante apresentada, é quase cópia da tomada da cidade de Madiã por Gedeão, que vem relatada no já citado Livro dos Juízes, cap. VIII, vers. 19 a 24, e me abstenho de transcrever, para não me alongar mais.»

Joaquim Alves Ferreira, Literatura de Trás-os-Montes e Alto Douro – Lendas e Contos Infantis  -V volume (texto editado e adaptado)  | Imagem de DarkWorkX

Algumas Lendas de Trás-os-Montes e Alto Douro

Lenda da Senhora do Picão | Miranda do Douro

No sítio do Picão situado a quatro quilómetros da Póvoa e a dois do Santuário do Naso, nos finais do séc. XIX e início do séc. XX, na aldeia da Póvoa, concelho de Miranda do Douro [Trás-os-Montes e Alto Douro], algo de milagroso aconteceu a uma menina de nome Mariana dos Ramos João. Ler+

Lenda do Naso | Miranda do Douro

A Capela de Nossa Senhora do Naso é um pólo de atracção principalmente em dia de romaria. Embora à volta desta capela se tenham, recentemente, construído algumas outras capelas, reza a lenda que ela foi edificada por um casal mirandês. Ler+

A Povoação de Agarez | Lendas de Portugal

Relacionada com a Serra do Alvão, cenário das lendas O Calhau do Encanto e As Picaretas de Oiro, existe uma outra que se refere à origem, nome e actividade dos habitantes de Agarez. Agarez é uma risonha e soalheira aldeia, alcandorada nas faldas da Serra do Alvão, a oito quilómetros, aproximadamente, de Vila Real. Foi notável pelo artesanato do linho que os seus moradores cultivavam, teciam e bordavam primorosamente.  Ler+

O Calhau do Encanto | Lendas de Portugal

A Serra do Alvão, com os seus ciclópicos penedos e ravinas alcantiladas, vestida de branco no Inverno e de verde no Verão, com ar severo e misterioso, era ambiente propício para excitar a imaginação dos que por lá andavam a ganhar o pão ou por lá passavam, a caminho de Vila Real. Não admira, pois, que, à sua volta, as lendas surgissem, com toda a naturalidade. L+er

 

Lenda do Rio Lima – Rio Lethes | Ponte de Lima

Lenda do Rio Lima – Rio Lethes

Comandadas por Décios Junos Brutos, as hostes romanas atingiram a margem esquerda do Lima no ano 135 a. C.

A beleza do lugar as fez julgarem-se perante o lendário rio Lethes, que apagava todas as lembranças da memória de quem o atravessasse, os soldados negaram-se a atravessá-lo.

Então, empunhando o estandarte das águias de Roma o comandante chamou da outra margem a cada soldado pelo seu nome. Assim lhes provou não ser esse o rio do esquecimento.”

«Com relação ao rio Lima, história e lenda encontram-se tão interligadas que nem sempre é fácil delimitar onde acaba uma e começa outra.

Foi sempre a beleza do rio a provocar encómios e o sentimento de incapacidade duma expressão condigna a atrair o poder sugestivo da lenda.

Vem dos velhos tempos o processo. Estrabão designou-o por Beliom e relata ter ocorrido nas suas margens um episódio militar entre Túrdulos e Célticos. Iam já a atravessá-lo quando surgiu entre os dois povos uma discórdia.

Lutaram e foi o sangue do próprio comandante que se juntou ao de muitos outros a macular a brancura das águas. Desorientados ficaram os soldados e, sem comando, se dispersaram pelas margens, em luta pela sobrevivência.

Lucano chamou-lhe o “Deus do Tacitus“, em virtude da mansidão com que corriam as suas águas.

Tito Lívio denominou-o “Rio do Esquecimento” (“Oblivionis fluvis ou flumen“).

Rio Lima ou rio Lethes

Surgiu, então, a sua identificação como Lethes da mitologia, que tinha o condão de provocar em todos os que o transpusessem o olvido do passado e da própria pátria.

Campos Elísios passaram, em consequência, a apelidar-se os que circundavam, isto é, as suas margens.

Mais semelhantes a jardins, no conceito mitológico; onde, segundo o testemunho de Políbio, só durante três meses do ano as rosas não floriam.

É ainda Estrabão que nos diz ser esta a terra perfeita por qualquer fugitivo de Roma.

Dentro deste condicionalismo, aqui chegaram um dia, sob o comando de Décios Junos Brutos, as legiões romanas, com as altivas águias a tremularem nos pendões.

Vitoriosas haviam pisado as terras que estavam para sul e propunham-se prosseguir. Desciam, a justante, dos lados de Ponte de Lima e teriam iniciado a jornada desse dia em Vitorino das Donas:

“Daqui saiu Bruto pelos campos tão celebrados com o nome de Elysios a procurar lugar em que com o se exército pudesse vadear as cristalinas águas do Lethes tão respeitadas com a fabula virtude de encantadoras.” (João de Barros, Antiguidades de Entre Douro e Minho).

Um líder é sempre o primeiro

Encontravam-se no lugar da Passagem e fácil pareceu ao comandante a travessia. Nesse sentido emitiu ordens, mas encarniçada se revelou a resistência dos soldados, conhecedores como eram dos poderes sortílegos atribuídos às suas águas.

Não perdeu ele a serenidade nem achou conveniente procurar convencê-los por meio de palavras. Tomou a bandeira, ergueu-a ao alto, transpôs o vau e, já da outra margem, a muitos chamou pelo nome e incitou a seguirem-lhe o exemplo.

Por esse meio os convenceu de que, afinal, não era verdade o que a lenda propalava.

Assim exaltado nos advém, das mais longínquas eras, o fascínio deste rio que até aos nossos dias tem sido cantado por todos quantos puderam contemplá-lo.»

Fonte: Conde de Bertiandos, in Lendas, 1898 | Imagem de destaque

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