A cabra e o cabrito de ouro | Lenda de Belmonte

A cabra e o cabrito de ouro 

Conta-se que em tempos existia um pastor em terras de Belmonte que sonhou três vezes seguidas com a seguinte frase: “Vai a Belém, que lá encontrarás o teu bem”.

O pastor, cansado de ouvir essa voz que insistentemente se repetia, pôs-se a caminho.

Em Belém procurou, procurou, mas nada encontrou que lhe respondesse a tão estranho chamamento.

Desanimado e quase a desistir de procurar, encontrou um outro pastor que lhe perguntou a razão de tão profunda tristeza.

O pastor de Belmonte resolveu contar o sonho. E o outro falou:

Então, vós ainda acreditais em sonhos? Eu também costumo sonhar que numa terra chamada Belmonte há uma laje onde todos os dias se deita uma cabra amarela e que debaixo dela existe um tesouro, mas eu não acredito em sonhos!

O pastor, ao ouvir isto, deu um salto e pôs-se a caminho de casa. Ele sabia bem qual era a laje e a cabra a que o outro pastor se referia.

Quando chegou à sua terra, logo se dirigiu à laje. Levantou-a e escavou até encontrar o tesouro: uma cabra e um cabrito de ouro.

Decidiu dividir o tesouro com o Rei, mas os conselheiros, não o querendo deixar entrar, responderam-lhe:

Deixa-nos o presente, que nós mesmos o entregaremos ao Rei.

O pastor, nada convencido, não arredou pé enquanto o não levaram à presença do Rei. E este, perante a insistência do pastor, acabou por recebê-lo.

Quando o pastor entrou na sala real, perguntou:

– Onde está sua Majestade, o Rei?

– Aqui, o que queres?-perguntou o soberano.

– Senhor, trouxe-vos um presente: uma cabra e um cabrito. Qual quereis?

– Quero o cabrito, sempre será mais tenro que a cabra.

O pastor entregou-lhe o cabrito, mas ao ver que era de ouro, exclamou:

– Agradeço o presente, mas tenho pena que o cabrito fique órfão!

A isto o pastor retorquiu:

– Senhor, não tenhais dó, que eu também vos deixo a mãe do cabrito!

Por tão grande gesto de generosidade e lealdade, o Rei decidiu recompensar o pastor. Mandou-o ir à sua cavalariça escolher o melhor cavalo. E disse-lhe que todas as terras que percorresse em Belmonte, desde o nascer ao pôr-do-sol, seriam para sempre suas.

Lenda de Belmonte | Imagem: “Pastor da Serra da estrela” (pormenor) – Ilustração Portugueza, nº 256, 16 de Janeiro de 1911

A Capela de Nª Sª de Guadalupe – Vila Real | Lenda

Na aldeia de Ponte – Mouçós

Ao lado de Ponte, aldeia da freguesia de Mouçós, concelho de Vila Real, há um valioso santuário, de estilo românico, dedicado a Nª Sª de Guadalupe.

E muito próximo, num monte que dá para o Rio Corgo, está uma capelinha, com uma cavidade redonda na parede lateral, onde as pessoas costumam meter a cabeça, porque de lá, dizem, se consegue ouvir o mar.

Foi ali que el-rei D. Afonso III, […], quis fundar uma vila para ser a capital da região de Panóias, chegando a conceder-lhe o respectivo foral.

Tal desiderato não se concretizou, por várias razões; e seu filho, D. Dinis, mandou-a edificar uma légua mais a sul, a qual, pela sua origem régia, tomou o nome de Vila Real.

Mesmo em frente do local onde se construiu a capela de Nª Sª de Guadalupe, passava a estrada romana, por onde se deslocavam as mencionadas quadrigas romanas, a caminho de Braga, pela ponte de Piscais.

Por ali passou também a lenda, que atribui a construção das duas capelas, não aos Romanos como seria mais lógico, mas aos Mouros, que, talvez por afinidade geográfica e cultural, marcaram profundamente a tradição do nosso povo.

E a lenda diz que os Mouros, derrotados pelas aguerridas tropas portuguesas, fugiram para aquele local, onde se instalaram com todos os seus haveres.

Capela de Santo Cabeço

Escolheram para o efeito uma gruta situada no cimo do Monte Cabeço, voltada para o rio, um sítio inexpugnável e invisível, onde poderiam viver tranquilos, ao abrigo dos olhares indiscretos e incómodos dos povos das vizinhanças.

Mas, nunca fiando, à cautela, não deixavam de tomar todas as precauções.

Para não serem surpreendidos, passavam os dias recolhidos na gruta, donde só saiam à noite, para ir ao rio buscar água e aos campos, para procurar alimentos.

Como não gostavam de estar ociosos e havia muitas pedras no desfiladeiro, resolveram fazer alguma coisa com elas. Arrancaram-nas, levaram-nas para o interior da gruta e aparelharam-nas.

Depois, construíram com elas, mesmo em cima da gruta, uma capelinha que tem na parede voltada ao Sul a tal cavidade redonda que o povo diz que servia para os Mouros meterem lá a cabeça e ouvirem o mar.

Ainda agora algumas pessoas têm o costume de fazer o mesmo: umas para ouvirem o sussurro semelhante ao das ondas, outras para aliviarem as dores de cabeça. Por essas razões, puseram ao local o nome de Monte Cabeço e à capela o nome de capela de Santo Cabeço.

Animados com esta experiência feliz, decidiram tentar uma outra de maior amplitude.

Capela de Nª Sª de Guadalupe

Para tanto, escolheram um local mais abaixo, junto da via romana, que se coadunava melhor com o ambicioso projecto, mas que apresentava um alto risco, porque ali passava muita gente e seriam fatalmente descobertos.

Para evitar esse risco, teriam de concluir o trabalho numa só noite, tarefa só viável, graças ao seu grande poder de acção e à sua prodigiosa imaginação.

Depois de planearem cuidadosamente a obra, prepararam previamente todas as pedras necessárias e marcaram nas com um sinal convencional, que ainda agora se pode ver, para não se enganarem ao assentá-las. Segundo os cálculos do autor do projecto, ou havia de faltar uma ou sobrar uma.

Terminado esse trabalho, esperaram pela estação do Inverno, cujas noites são maiores, e iniciaram a segunda fase: o assentamento das pedras.

Então, começou a insana lufa-lufa do levantamento da obra: uns a transportar as pedras, outros a assentá-las.

Trabalharam como moiros toda a noite, sem descanso; mas, ao raiar a madrugada, graças a Alá, o monumento estava pronto!

E correu tão bem que não faltou pedra nenhuma, antes, pelo contrário, sobrou uma que la deixaram e ainda se encontra guardada na sacristia, como recordação.

Os primeiros transeuntes que por lá passaram, no dia seguinte, para o trabalho ficaram muito surpreendidos com o que viram: uma grandiosa capela feita da noite para o dia. E não tiveram dúvidas: aquilo só podia ter sido obra de moiros.

E foi essa explicação, apresentada para a existência da grandiosa capela de Nossa Senhora de Guadalupe e da humilde capelinha do Santo Cabeço, que passou de geração em geração e que ainda perdura entre a gente simples da terra.

Fonte: “Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro”, por Joaquim Alves Ferreira (5 volumes) – texto editado | Imagem: Postal ilustrado – Fototipia – c. 1920 a 1926 – Editor: Miguel Monteiro

Lenda d’O Caso da Lagoa – Palaçoulo – Miranda do Douro

Uma lagoa em Palaçoulo

Naquele tempo existia, em Palaçoulo, uma lagoa de água retida e insalubre, ao fundo da Praça da Cruz, onde esteve implantado um edifício público, conhecido como Casa do Povo. Mas apenas ocupa uma parte, pois a lagoa era mais ampla, em todos os sentidos.

Lá bebiam as vacas, até sem que fosse preciso assobiar-lhes. Via-se e ouvia-se chuparem aquela água estagnada, com gosto preferencial em relação a qualquer outra…

Aquela mesma lagoa, no Inverno cobria-se de gelo.

Então, havia rapazes, jovens e homens adultos que se divertiam a escorregar naquela espessa geleira. Por isso, ainda há quem se recorde de um palaçoulense que se deparou com sérias dificuldades em sair de lá, porque o gelo se partiu.

Salvou-se, com a ajuda de outros conterrâneos que, da margem, lhe lançaram os paus e a ponta de uma corda grossa. Localmente, esta corda é denominada “lúria”, utilizada para apertar as carradas grandes, geralmente de lenha ou molhos de cereais. Assim que o resgataram, já teso com o frio e semi-afogado.

Bom! Depois desta descrição, passamos a contar o que aqueles tais jovens fizeram, de sua espontânea e livre opção.

Uma brincadeira de rapazes 

Com baraços e cordéis apertados, fizeram como que um feixe dos destroços acabados de recolher daquela dupla imagem desmantelada.

E zumba! Aí vai aquilo tudo para a lagoa, para que o diabo ou demónio, que ali tinha uma boa parte do seu focinho, feio de meter medo, se afogasse de uma vez para sempre.

Mas o que é que havia de acontecer? O inesperado daquele improvisado feixe teimava em não se afogar e até parecia que “refunfunhegava” cada vez mais, provocantemente, com tantas bolhas sonoras de agua que emitia, à medida que se introduzia nos muitos buracos feitos pelo caruncho e por umas “rachicas” que tinha o “caramono”.

Então, os rapazes, para que se afogasse e parasse de refilar, toca de lha atirarem com calhauzada, pois naquele tempo, pedras era o que mais havia por ali.

Ao mesmo tempo, invectivavam-no com veemência: “inda refunfunhegas, caramonico de mil demonhos”?!

E continuaram a lançar-lhes pedras e o mais que encontravam, para que aquele embrulho maléfico e provocante desaparecesse para o mais fundo da lagoa, também persistentemente empurrado pela talvez ingénua, constante e aparente diabrite expressa no mesmo “inda refunfunhegas, caramonico de mil demonhos”?!

Sem puderem voltar atrás

Assim foi, até que com o peso das pedras lançadas para cima, aquele estranho conjunto já estava quase totalmente submerso quando uma onda de alvoroço começou a correr pelo povo, relativamente à pirraça, “perrice” ou simplesmente inadvertido divertimento da rapaziada, mas já não foi possível evitar nem remediar, o que já era façanha consumada.

O próprio Cura, advertido foi até a lagoa, mas já nada conseguiu ver nem vestígios do malfadado feixe de bocados, nem bolhas a “refunfunhegar”, nem sequer a rapaziada que tinha totalmente desaparecido, amedrontada, cada um para seu lado.

O caso foi aproximadamente assim, simples, mas iria ficar na lembrança de gerações.

Extraído de: Fernandes, José Francisco (2001), Mirandês e Caramonico. Caramonico – Associação para o Desenvolvimento Integrado de Palaçoulo, 188-190 (texto editado)

Lenda de Santarém – Scalabis | Lendas de Portugal

Lenda de Santarém

Santarém foi uma antiga cidade lusitana antes de por ela passarem romanos, alanos, vândalos, suevos e árabes, tornando-se definitivamente cristã em 1147.

A lenda de Santarém remonta ao ano de 1215 a. C., quando reinava na Lusitânia o príncipe Gorgoris, chamado de “O Melícola”, por ter ensinado o seu povo a extrair mel dos favos das abelhas.

Um dia, Ulisses de Ítaca chegou à foz do Tejo com os seus navios onde decidiu descansar por algum tempo, antes de regressar à Grécia.

Hóspede de honra de Gorgoris, Ulisses conheceu a sua filha “Calipso” por quem se apaixonou. Do amor de Ulisses e da bela “Calipso” nasceu um filho, “Ábidis”.

Quando Gorgoris soube do sucedido perseguiu Ulisses para o castigar, mas este, avisado da fúria de Gorgoris, fugiu para Ítaca.

Para esconder a desonra de sua filha, Gorgoris mandou que pusessem Ábidis dentro de um cesto e o atirassem ao Tejo.

Atirado ao rio Tejo

O cesto boiou nas águas e, em vez de se perder no mar, subiu pelo rio até encalhar perto de uma gruta que servia de covil a uma loba. A loba adoptou a criança, amamentou-a e protegeu-a.

Ábidis” tornou-se um belo rapaz que se alimentava de peixes do rio e frutos silvestres, e estava habituado a conviver com os animais.

Mas um dia, uns caçadores surpreenderam aquele rapaz selvagem, capturam-no e levaram-no à presença de “Calipso” – sua mãe. “Calipso” reconheceu em “Áibis”, através de um sinal de nascença, o seu filho roubado de seus braços.

Quando soube que o neto tinha sido encontrado, Gorgoris que não tinha herdeiro varão resolveu educá-lo como seu sucessor.

Ádibis” tornou-se assim no rei dos lusitanos, um rei justo, sábio e humano que mandou edificar uma cidade no lugar onde viveu os primeiros vinte anos de sua vida.

A essa cidade chamou “esca-ábidis”, que significa manjar do príncipe Ábidis, o primeiro nome da cidade de Santarém, cujos habitantes são hoje conhecidos por escalabitanos.”

Fonte: forumpatria.com | Imagem

A lenda de Fátima, filha do rei mouro de Manteigas

Manteigas – Serra da Estrela

Manteigas, na Serra da Estrela, é uma vetusta povoação que já no tempo da romanização possuía uma certa importância.

Na época da dominação muçulmana, teve direito a alcaide ou emir, autoridades que a tradição popularizou sob a designação de reis.

A cerca de duas léguas de Manteigas ergue-se o píncaro de Alfátema. É o cabeço mais elevado da serra da Estrela, amiúde revestido de alvo manto de neve.

De Alfátema falará a nossa lenda, que se passa nessa época em que o montante cristão não dava descanso ao alfange muçulmano.

Os mouros iam perdendo terreno de combate em combate, e a perseguição que os cavaleiros cristãos lhes moviam era tão rápida e implacável que se lhes revelava impossível pôr a salvo todas as riquezas que tinham acumulado ao longo dos séculos.

Assim, escondiam os tesouros nos sítios que julgavam mais adequados, ocultando-os muitas vezes por artes mágicas. Isto que levava o povo a dizer que eles estavam guardados por mouras encantadas.

Lenda de Fátima

Conta a lenda que o rei mouro de Manteigas tinha uma filha, chamada Fátima, e que era formosa como uma visão magnífica do paraíso de Alá.

Os cristãos das vizinhanças empregavam todos os seus esforços para se apoderarem do território do Rei, da sua Fátima tão linda e de todas as suas jóias e bens.

Ainda quis resistir, o rei, abrigado como estava dentro do seu castelo. Mas o número dos assaltantes era tal que lhe pareceu loucura ficar e resolveu fugir pelos carreiros escusos da serra, levando a filha e o que das riquezas ainda não pusera a salvo.

Era madrugada quando fugiram de Manteigas por uma pequena porta dissimulada nas muralhas.

Andaram, andaram todo dia por entre penedos e escarpas e, ao anoitecer, Fátima morria de cansaço e não conseguia dar nem mais um passo porque os seus pés estavam em chaga. Que fazer ali no sítio mais solitário da serra?

A quem pedir socorro naquele momento terrível?

Subitamente, abre-se-lhes em frente um caminho esplêndido, todo ele florido, calçado de pedras finíssimas e iluminado, lá no fundo, por um foco de luz tão intenso que mais parecia provir de uma estrela particular.

Alá fizera o milagre! A esperança renasceu em todos os corações e, num inesperado alento, entraram na senda que se lhes abrira como se nesse momento tivessem começado a caminhada.

Ao fundo da estrada, a luz que haviam divisado revelou-se-lhes um palácio resplandecente, tão cheio de magnitude que se quedaram estarrecidos.

Pastores desconhecidos

O que depois se passou ninguém o soube. Mas, nos dias imediatos, os serranos viram subir e descer a encosta vários pastores totalmente desconhecidos na localidade.

Duraram algum tempo aquelas idas se vindas ao Coruto de Alfátema, como chamavam àquele sítio, e um belo dia os pastores desapareceram sem deixar rasto.

Os pastores desconhecidos eram mouros disfarçados e foi por indiscrição de uma deles que se soube que uma fada boa, madrinha de Fátima, a guardaria no seu palácio encantado do Coruto, sempre jovem e formosa, até ao dia em que os fiéis sectários do Corão reconquistassem Portugal.

Tão arreigada ficou esta crença no espírito dos serranos que, durante os séculos XII e XIII, as pessoas várias vezes entraram em pânico por acreditarem ver chegar, ao longe, os esquadrões mouriscos em busca da bela Fátima.

E a lenda tomou ainda mais corpo no espírito crédulo dos aldeões quando, alguns anos depois de os cristãos terem tomado Manteigas, aconteceu o que vamos contar a seguir.

Um dia, uma mulher, das mais miseráveis da localidade, teve de passar na madrugada de S. João no Coruto de Alfátema.

Fatigada, sentou-se a descansar num penhasco enquanto ia comendo uma côdea de broa que trazia.

O pão era duro de muitos dias e, quando a mal-aventurada ia a dizer mal da sua vida, viu a seu lado um vasto estendal de figos secos.

Comeu uns quantos, feliz por quebrar inesperadamente a sua pobre dieta, e, lembrando-se dos filhos, encheu deles uma cesta que levava.

E, rápida e alegre, dirigiu-se à sua choupana, antegozando a alegria das crianças ao comerem os figos.

Figos transformados…

Mas, uma vez chegada a casa, ai destapar a cesta, ficou pasmada: no lugar dos figos encontrou diamantes e moedas de ouro, tudo reluzente e novo.

Estava rica! Mas a mendiga de há um minuto, conformada com o naco de pão duro, sentiu a mordedura da ambição.

Não lhe bastando o que já tinha, quis tudo o que ficara no Coruto e voltou a correr ao local onde deixara os restantes figos.

Entretanto, Sol subira no horizonte e estava agora no meio de um céu sem nuvens. Passara a hora dos encantos e, dos figos, a mulher encontrou apenas o lugar.

Desesperada, começou arrancar os cabelos e ia blasfemar quando uma voz suavíssima – a de Fátima, sem dúvida – caiu sobre si cantando:

Era teu tudo o que viste:
Agora tornaste em vão!
Não passes mais neste sítio
Na manhã de S. João.
Não te perdeu a pobreza
Pode matar-te a ambição!

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A truta de Celorico da Beira | Lendas de Portugal

A truta de Celorico da Beira

Celorico da Beira deve ser uma povoação muito antiga, e é crível que o velho castelo reedificado por D. Dinis, tenha sido construído sobre uma localidade luso-romana situada naquela eminência.

Com Trancoso e Guarda, Celorico constitui um triângulo militar de grande poder defensivo, como foi reconhecido por Wellington, Massena e outros.

Em torno do castelo decorreram vários episódios emocionantes da história peninsular, desde os tempos da reconquista cristã até às invasões francesas.

A sua importância militar pode depreender-se do foral e privilégios que Afonso Henriques lhe outorgou desde cedo e vários outros reis, ao longo do tempo, foram confirmando e ampliando.

Episódio histórico

Um desses episódios ficou estreitamente ligado à história mais comum da vila visto fazer parte do seu brasão de armas.

Passou-se a história em 1245, quando D. Afonso III corria o reino a exigir vassalagem dos súbditos de seu irmão D. Sancho II, o Rei de Portugal que o Papa depusera e que se encontrava em Toledo banido e refugiado.

O novo Rei viera pôr cerco ao castelo cujo alcaide, Fernão Rodrigues Pacheco, mantinha fidelidade absoluta ao preito e menagem que jurara a D. Sancho.

Dentro das muralhas, a fome apertava duramente, ao mesmo tempo que se assanhava a resistência do alcaide.

Subitamente uma águia cortou os ares e deixou cair intramuros a presa que trazia nas garras: uma enorme truta fresca, que provavelmente apanhara no Mondego.

Ideia salvadora

Uma ideia surgiu imediatamente no espírito do alcaide de Celorico: mandar aquele peixe cozinhado a D. Afonso para que visse como a vila estava bem guarnecida de víveres.

Assim, mandou que arranjassem um pouco de farinha – género que escasseava na fortaleza – e que guisassem a truta.

Chamou Gomes Viegas e ao entregar-lhe o pitéu que devia levar ao inimigo, juntou-lhe uma mensagem em que dizia:

Não culpeis a minha resistência para sustentar a voz de el-rei D. Sancho, vosso Irmão, que mercês recebidas, obrigações e homenagens me desculpam.

Eu tenho determinado perseverar na defensão até expresso mandado seu; querendo insistir, podeis fazê-lo, pois a vila está guarnecida de bons cavaleiros, que tendes experimentado, e provida de mantimentos como assegura este regalo: estimarei o aceiteis, atendendo ao pouco que pode oferecer-vos um cercado.”

D. Afonso recebeu o presente que o alcaide lhe enviava por Gomes Viegas, ao qual pôs a alcunha de o Peixão, e decidiu levantar o cerco por considerar não valer a pena, na verdade, perder mais tempo com uma praça tão bem guarnecida de tudo e pronta a aguentar-se por tempo indeterminado.

Quanto a Gomes Viegas, o Peixão, ficou tão orgulhoso do epíteto que, aceitando-o, o modificou para Peixoto.

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Lenda de Nossa Senhora do Espinheiro – Seia

Lenda de Nossa Senhora do Espinheiro

Nesses tempos da moirama, havia em terras lusitanas um cavaleiro andante, audaz e guerreiro, destemido e ousado.

Rezam as crónicas que foi famosa sua memória… Rebrilhou em mil batalhas sua espada fulgurante, sulcou rasgões de sangue nas fileiras mouriscas e, em Ourique, dominou, intrépido, cinco reis sequazes de Mafamede!…

Queimado na energia agreste do vento e do sol, cavaleiro medieval, sua alma ardente, sonhadora, caldeou-se indómita ao fragor bélico e ao luzir do aço.

Naquela manhã de Setembro, de aragem fria para as bandas da serra, D. Afonso Henriques, rei de Portugal, cavaleiro andante das terras de Viriato, apeou-se do corcel às portas de Sena.

Numerosa cavalgada o segue: homens de armas, infantes, fidalgos da corte, os grandes todos de Portugal jovem…

D. Afonso Henriques de visita

O Alcaide-mor de Sena entrega, em salva de prata, as chaves pesadas do castelo heróico que Fernando Magno ergueu e foi baluarte contra os mouros. Rude e sinceramente, o Alcaide, genuíno ramo de Viriato, beija as mãos do primeiro rei de Portugal.

Ele sabia-as por serviço de Deus e da grei, banhadas em sangue, no silêncio dos arranques bravos das pugnas, realizando no chão dos lusos o milagre da sonhada independência…

A vida da Pátria preparava-a a espada de D. Afonso Henriques nessas horas imortais de altura, de sacrifício e de sangue.

Porque vinha de Guimarães às terras de Sena tão luzido acompanhamento? Era a serra dos Hermínios abundante em caça.

E o rei de Portugal, afeito às pelejas mouriscas, era certeiro nas flechas e rápido nas lançadas. A caçada prometia abundância e variedade. Eram destros os atiradores, leves os corcéis e ágeis os rafeiros…

À comitiva juntaram-se os fidalgos de Sena. A trepada dos montes escalvados e íngremes decorria em folgazã alegria e mais de um caçador emérito experimentara já pelos relvados e fraguedos a certeza da sua dextra.

A comitiva dispersa-se pelas encostas da serra, desce aos valados, embrenha-se nos pinhais, bate as urzes e escala os escuros fragões… Surge a caça abundante e nédia e alegram-se os caçadores…

O olhar dos vimaranenses perde-se na vastidão imensa, deslumbra-se com a distância e até o rei de Portugal se sente remoçado e fresco, respirando ofegante, longe das hostes inimigas transtaganas e aqui mais perto de Deus que fortalece o seu braço.

O rei de Portugal em apuros

Caminha agora na planura. Segue de perto rastos de caça. Vai só, atento o olhar de lince no animal que persegue. Mas, ó céus! De repente o rei D. Afonso Henriques estaca diante dum silvado de agrestes espinheiros…

O que faz ficar assim estupefacto o rei de Portugal? É uma alcateia de lobos corpulentos, boca escancarada, goela hiante, dentes sanguíneos e famintos, olhos a fuzilar, que espreitam…

Impossível fugir às feras, impossível clamar por socorro dos da comitiva, dispersos pelos pinhais e ravinas.

Neste apertado transe, D. Afonso Henriques implora à Virgem dolorosa, pelas dores e martírios que sofreu tendo seu bem amado Filho nos braços, descido da Cruz, a libertação de tão iminente e cruciante perigo.

E os lobos, uivando ferozmente, retiram-se, arrastados por força misteriosa e invisível, para as penedias gigantescas da serra onde têm suas escuras cavernas.

A proteção da Virgem Maria

Mais uma vez a Virgem Maria tinha protegido maternalmente com a sua poderosa mão e abrigado na orla do seu manto, o grande rei português.

Para perpétua memória de facto tão insólito e miraculoso, D. Afonso Henriques mandou levantar a ermida de Nossa Senhora do Espinheiro que se ergue, donairosa, no planalto, a meio caminho entre Seia e o Sabugueiro, a aldeia mais alta de Portugal.

O cenário é rude a mil metros de altura, eriçado de penhascos, beijado pelo vento.

No Inverno, quando a neve rebrilha nos píncaros das massas ciclópicas, ela vem docemente cobrir com diáfano manto o telhado da ermida românica da Senhora do Espinheiro.

Lá se adora a Mater Dolorosa, imagem artística e veneranda, esculpida no granito duro, desafiando no volver dos séculos, em plena serra, os furores da tempestade e o rugir da procela.

Fontes: Texto | Imagem ( Capela de Nossa Senhora do Espinheiro (Seia). Procissão do Menino Jesus Capitãozinho. Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983.

Vale da matança – Rio Ponsúl | Etnografia da Beira

Lenda: Vale da matança – Rio Ponsúl

A luta ia renhida. De encontro à resistência heróica, quási subrehumana dos destemidos habitantes da Lusitânia, desfaziam-se grandes legiões comandadas pelos melhores generais romanos.

Á cuidada preparação dos legionários, à sistemática instrução que, quer no manejo das armas quer nos exercícios atléticos, lhes era ministrada na Urbs, antepunham os lusitanos o seu grande amor ao torrão natal, a agilidade de movimentos através as mais duras sinuosidades do terreno, a sobriedade na comida e no vestuário, a resistência indómita de quem, acima de tudo, quer viver independente e livre.

A raça de que descendemos soube e pôde assim quebrar, durante anos, os ímpetos do maior exército do mundo, inflingindo-lhe por vezes derrotas sanguinolentas. E legiões vieram e legiões partiram sem que consigo podessem levar ao Forum a grata notícia da submissão dos montanheses dos Hermínios.

Roma viveu dias de pânico, chegando mesmo a recear pelo resultado final!

Corriam os primeiros anos do segundo século antes de Cristo. A cidade de Egitania (Idanha-a-Velha) caíra já em poder dos romanos.

Dentro e fóra de suas muralhas ia uma vigilância aturada: dentro, a dos invasores, preparando-se para novas surtidas, fóra, a dos lusitanos, esperando, através duras e constantes vigílias, o momento azado para lhes inutilizarem a acção.

O Procônsul resolveu um dia inflingir severo castigo aos audaciosos indígenas cujo atrevimento chegara ao ponto de virem ali mesmo, às portas da cidade, espreita-los e desafia-los.

Uma surtida romana no campo inimigo

Para isso dirigiria êle próprio uma surtida no campo inimigo. E, de facto, marchando como para triunfo certo, por uma das portas da cidade foi saíndo, Procônsul à frente, em certo dia, boa parcela do exército romano.

Os soldados lusitanos que próximo, por entre os densos matagais, os espreitam, fremem de raiva ante a superioridade do número.

Aprestam os escudos, enrijam os musculos e emquanto os legionários avançam, aproximam-se da estrada. Estão quási à mão! Mais um momento! E como feras, como gigantes, aquele punhado de heróis e de valentes cai à cutilada, à machadada sôbre os invasores. A luta é dura porque é desigual.

Muitos pagam com a vida a sua devoção patriótica, mas no campo inimigo a mortandade é tal que, desde então, para se continuar até hoje, o local, pequeno vale entre a estrada e o rio, ficou conhecido pelo Vale da Matança.

E mal ferido, e entre as vascas da agonia, o Procônsul, que a custo se arrastara até junto do rio, ali exalou o último suspiro. (1)

E do facto, igualmente resa a tradição, ficou ao rio o nome de Procônsul para, com o andar dos tempos, se chamar, como ainda hoje se chama, Ponsúl.

(1) Para Roma, diz o povo, foi o cadáver do Procônsul envolvido em mel dentro de um ôdre de pele de boi.

Fonte: Etnografia da Beira, Jaime Lopes Dias (foi mantida a grafia original) | Imagem de Wajari Velásquez

Lenda de Nossa Senhora da Enxara – Campo Maior

Nossa Senhora da Enxara

Reza a lenda de Nossa Senhora da Enxara que, certo dia, uma mulher estava a lavar roupa no rio, tendo por única companhia a sua filha que brincava.

A criança, depois de se ter afastado da mãe para brincar, regressou pouco depois trazendo um brinco de ouro. Afirmava que o mesmo lhe tinha sido oferecido por uma senhora muito bonita.

Rapidamente, a mãe quis saber onde estava a tal senhora. Quando chegaram ao local onde a menina diz ter encontrado a senhora, viram uma imagem de Nossa Senhora sobre uma pedra redonda.

Esta é a imagem que se encontra hoje no Santuário.

A população, ao ter conhecimento do sucedido, decidiu construir uma capela a meio do caminho. No entanto, todas as manhãs a imagem da Senhora desaparecia para logo ser encontrada no local original.

Consciente de qual era a vontade da Senhora, a população decidiu construir um Santuário, no local onde a imagem tinha sido encontrada. Deste modo, guardavam e homenageavam a imagem de Nossa Senhora da Enxara.

Diz a tradição que, quando não havia água nem chovia em Campo Maior, se realizava uma procissão.

Durante este procissão, os habitantes locais deitavam a pedra ao rio, para que Nossa Senhora fizesse chover.

Quando tal acontecia, procediam então ao ritual inverso: retiravam a pedra do rio, iam colocá-la de novo na Capela e sobre ela recolocavam a imagem de Nossa Senhora.

Romaria de Nossa Senhora da Enxara

Na vasta região do Alentejo, em pleno concelho de Campo Maior e próximo da freguesia de Ouguela, está localizado o Santuário de Nossa Senhora da Enxara, famoso pelas festividades características que se realizam em cada Semana Santa.

Todos os anos, na Quinta-Feira Santa, a imagem de Nossa Senhora da Enxara é transportada em solene procissão desde a Igreja da Ouguela até ao Santuário, situado a alguns quilómetros de distância, regressando ao local habitual na Segunda-feira a seguir à Páscoa.

No fim-de-semana da Páscoa (entre Sexta-Feira Santa e Segunda-Feira), o Santuário de Nossa Senhora da Enxara, ao qual está ligado aquela antiga lenda, enche-se de visitantes e curiosos, mas principalmente de fiéis que celebram a sua fé através da devoção Mariana.

A Festa consiste, essencialmente, numa Missa campal e procissão, tourada e outros divertimentos (carrosséis, barracas de comeres, baile, etc.).

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Lenda do Menino Jesus da Cartolinha | Miranda do Douro

O Menino Jesus da Cartolinha

A lenda mais conhecida de Miranda do Douro, cidade do distrito de Bragança, no nordeste transmontano, banhada pelos rios Fresno e Douro e em plena fronteira com Espanha, é a do Menino Jesus da Cartolinha.

Conta a tradição que a cidade se encontrava cercada de tropas espanholas, estando estas na eminência de tomarem as muralhas, muito cobiçadas pela sua importância estratégica. De repente surgiu, não se sabe de onde, um jovem que ia gritando pelas ruas, incitando toda a população à defesa da localidade.

A população já se encontrava descrente e sem forças não podendo oferecer resistência por muito mais tempo, pois o cerco mantinha-se há vários meses. A fome e a sede eram os principais inimigos da população sitiada.

Mas, como por milagre, o incitamento feito por aquele jovem fez renascer as forças já quase esgotadas, e, após uma dura batalha, os invasores foram expulsos.

A praça de guerra foi salva! Procuraram o menino-prodígio! Queriam homenageá-lo, honrá-lo, mas não o encontraram. Como aparecera assim também desaparecera!

Foi um milagre de Jesus”- do Menino Jesus da Cartolinha – disse o povo.

Outra lenda!

Outra lenda conta que havia na cidade um jovem oficial, noivo de uma senhora da Corte, com a data de casamento marcada.

Na defesa da praça, cercada por tropas espanholas, esse jovem, que teria uma brilhante carreira militar, morre. A noiva fez então a promessa de lhe honrar a memória, oferecendo ao Menino Jesus a farda correspondente à que o seu noivo iria vestir depois da guerra.

Os mirandeses têm tanta fé no seu “Menino” que ainda hoje exclamam em momentos de grande aflição “Ai, Meu Menino! Ai Meu Menino!”.

Estas lendas podem estar relacionadas com a Guerra da Restauração da independência (1640-1668) ou com a Guerra da Sucessão espanhola.

A figura do Menino Jesus da Cartolinha está na Sé Catedral de Miranda, em altar próprio. A imagem sai em procissão no Dia de Reis, vestido com a tradicional capa de honras mirandesa, e o seu andor é carregado por quatro crianças.

Fonte (texto adaptado) | Imagem

 

Lenda do Galo de Barcelos | Lendas de Portugal

Lenda do Galo de Barcelos

Ao cruzeiro setecentista que faz parte do espólio do Museu Arqueológico de Barcelos, está associada uma curiosa lenda – a Lenda do Galo de Barcelos.

“Os habitantes do burgo andavam alarmados com um crime e, mais ainda, por não ter descoberto o autor.

Certo dia, apareceu um Galego que se tornou de imediato suspeito do dito crime, visto que ainda não tinha sido encontrado o criminoso. As autoridades condais resolveram prendê-lo e, apesar dos seus juramentos de inocência, ninguém o acreditou.

Ninguém julgava crível que o galego se dirigisse para Santiago de Compostela em cumprimento de uma promessa como era tradição na época, e fosse devoto fiel de S. Paulo e da Virgem Santíssima.

Por isso foi condenado à forca.

Antes de ser enforcado, pediu que o levassem à presença do juiz que o havia condenado a tal destino.

A autorização foi-lhe concedida, e levaram-no à presença do dito magistrado, que nesse momento se deleitava e banqueteava com os amigos.

O galego reafirmou a sua inocência…

O galego reafirmou a sua inocência, e perante a incredulidade dos presentes, apontou para um galo assado que se encontrava no centro de uma grande mesa, exclamando:

«É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem.».

Isto, perante gargalhadas e risos, que não se fizeram esperar, mas pelo sim e pelo não, ninguém tocou no galo.

O que parecia impossível aconteceu. Quando o peregrino estava a ser enforcado, o galo ergueu-se na mesa e cantou!

Após tal acontecimento mais ninguém duvidava da inocência do Peregrino. O Juiz correu à forca e, com espanto, vê o pobre homem de corda ao pescoço, mas com o nó lasso, impedindo o estrangulamento.

O homem foi imediatamente solto e mandado em paz.

Volvidos alguns anos, voltou a Barcelos e fez erguer um Monumento em louvor à Virgem e a Santiago.”

Fonte