O Cego e o mealheiro | Conto Tradicional do Povo Português

O Cego e o mealheiro

“Era uma vez um cego que tinha ajuntado no peditório uma boa quantia de moedas.

Para que ninguém lhas roubasse, tinha-as metido dentro de uma panela, que guardava enterrada no quintal, debaixo de uma figueira.

Ele lá sabia o lugar, e quando ajuntava outra boa maquia, desenterrava a panela, contava tudo e tornava a esconder o seu tesouro.

Um vizinho espreitou-o viu onde é que ele enterrava a panela, e foi lá e roubou tudo.

Quando o cego deu pela falta, ficou muito calado, mas começou a dar voltas ao miolo para ver se arranjava estrangeirinha para tornar a apanhar o seu dinheiro.

Pôs-se a considerar quem seria o ladrão, e achou lá para si que era por força um vizinho.

Tratou de vir à fala, e disse-lhe:

Olhe, meu amigo, quero-lhe dizer uma coisa muito em particular que ninguém nos oiça.

Então que é, Senhor Vizinho?

Eu ando doente, e isto há viver e morrer, por isso quero-lhe dar parte que tenho algumas moedas enterradas no quintal, dentro de uma panela, mesmo debaixo da figueira. Já se sabe, como não tenho parentes, há-de ficar tudo para vossemecê, que sempre tem sido bom vizinho e me tem tratado bem. Ainda tinha aí num buraco mais umas peças, e quero guardar tudo junto, para o que der e vier.

O vizinho ouviu aquilo, e agradeceu-lhe muito a sua intenção e naquela noite tratou logo de ir enterrar outra vez a panela de dinheiro debaixo da figueira, para ver se apanhava o resto das peças ao cego.

Quando bem o entendeu, o cego foi ao sítio, encontrou a panela e trouxe-a para casa, e então é que se pôs a fazer uma grande caramunha ao vizinho, dizendo:

Roubaram-me tudo! Roubaram-me tudo, Senhor Vizinho.

E daí em diante guardou o seu dinheiro onde ninguém por mais pintado dava com ele.”

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português – Porto – 1883 (texto editado)

“Era o Mário Morais” | Romanceiro de Trás-os-Montes

Era o Mário Morais

Era o Mário Morais
E vivia com seus pais
Que eram gente de dinheiro.
Era de filhos, sozinho,
Davam-lhe muito carinho,
Por ser o único herdeiro.

Quando à mesa de sentavam,
Sempre lhe recomendavam
Não cases com mulher pobre
Arranja esposa de bens.
Com aquilo que já tenha
Serás mais rico e mais nobre”.

Esta recomendação
Feria o seu coração,
Àquele rapaz tão nobre.
Que ele sem ninguém saber
Jurara até morrer
Casar com Beatriz, que era pobre.

Mas naquela freguesia
Uma outra família havia,
Que era gente de dinheiro
Combinou-se o casamento
E a toda a hora e momento
Viam-se o dia inteiro.

Quando iam para a igreja,
Beatriz veio à janela
Ver o seu Mário querido.
Sorria sem ter inveja
E Mário olhou para ela
E ficou muito comovido.

Quando na igreja entrou
Ao altar se ajoelhou
A pensar em Beatriz.
Levantou-se extraviado
Antes de estar casado
Não quebro a jura que fiz”.

Sugestão: Gastronomia tradicional das Terras de Ribeira de Pena

No seu carro então entrou
E à pressa se atirou
Para casa de Beatriz.
Mas quando à porta chegava
Já a família gritava
A morte da infeliz.

Ao seu peito de abraçou
E o nome dela gritou
Como um menino perdido.
Quando os foram separar,
Não puderam evitar
Pois já tinha endoidecido.

In Monografia do Concelho de Ribeira de Pena, 1995 | Imagem (meramente ilustrativa): Festas de São Gualter – Guimarães – 1910

Dona Silvana | Romanceiro de Trás-os-Montes e Alto Douro

“Dona Silvana”

É um dos romances mais divulgados na região de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Também se chama:

Conde de Alemanha, em Sabroso e Jales – V. Pouca de Aguiar

Conde de Almana, em Lamares – Vila Real

Conde Alberto, em Sanguinhedo e Sabroso – Vila Real

Conde Yanno, em Garrett

D. Silvana, em Pires de Lima

*****

Estando a D. Silvana

Em uma grande agonia,

Acordou seu pai na cama,

Com o choro que fazia.

– Tu que tens, D. Silvana,

Tu que tens, ó filha mia?

– Das sete irmãs que nós somos

Já todas têm família.

E eu, que sou a mais formosa.

Sem me casar ficaria?

– Mas no meu reino não há

Ninguém que te merecia.

Já corri sete reinados,

Também lá os não havia.

Só o conde de Alemanha

Bem digno de ti seria.

– Mande-o chamar, meu pai,

Que esse bem me agradaria.

– Mas o Conde de Alemanha

É casado, tem família.

– Mande-o matar a condessa,

Que já livre ficaria.

Mandou-o El-Rei chamar,

Em missão de cortesia.

Passados alguns momentos,

O Conde à porta batia:

-Que deseja V. Alteza,

Que quer V. Senhoria?

– Que tu mates a Condessa,

Pra casar co’a filha mia,

E me tragas a cabeça

Nesta dourada bacia.

– A Condessa não a mato,

Que ela não o merecia.

– Mas mata-a e traz-me a cabeça

Nesta dourada bacia.

Regressou o Conde a casa,

Não falava nem comia.

Ao ver a sua tristeza,

A Condessa lhe dizia:

-Conta, Conde, Conta, Conde,

Conta-me a tua agonia.

-Vamos antes pró jardim,

Que eu aí te contaria.

Foram ambos pró jardim,

Nem um nem outro colhia.

– Conta, Conde, conta, Conde,

Conta-me a tua agonia.

-Vamos antes para a mesa,

Que eu aí te contaria.

Foram ambos para a mesa,

Nem um nem outro comia.

– Conta, Conde, conta, Conde,

Conta-me a tua agonia.

– Vamos antes para a cama,

Que eu aí te contaria.

Foram ambos para a cama,

Nem um nem outro dormia.

– Conta, Conde, conta, Conde,

Conta-me a tua agonia.

– El-Rei manda que te mate,

Pra casar co´a sua filha,

E leva a tua cabeça

Nesta maldita bacia.

– não me mates querido Conde,

Não faças tal vilania.

Manda-me para meu pai,

Que ele me sustentaria.

– Mas El-Rei quer-te a cabeça

Nesta maldita bacia.

– Manda-me pôr numa torre

Que eu à fome morreria.

– Mas El-Rei quer-te a cabeça

Nesta maldita bacia.

-Manda chamar o barbeiro

Que me faça uma sangria.

– Mas El-Rei quer-te a cabeça

Nesta maldita bacia.

-Mata a nossa cadelinha

E manda-lha na bacia.

– Mas El-Rei é muito esperto,

E logo descobriri-a.

– Deixa-me então despedir

Do meu querido jardim:

Adeus, cravos, adeus, rosas,

Adeus, flor do alecrim…

Venham agora os meus filhos,

Filhos do meu coração,

Que amanhã, por esta hora,

Comigo já não estarão.

Anda cá, filho mais velho,

Anda-me beijar a mão,

Que amanhã, por esta hora,

Outra mãe te arranjarão.

Anda cá, filho do meio,

Vou dar-te a minha bênção,

Que amanhã, por esta hora,

Já terás outra mansão.

Anda cá, filho mais novo,

Mama o leite da paixão,

Que amanhã por esta hora,

Já eu estarei no caixão.

Mama, mama, meu filhinho,

Este leite de amargura,

Que amanhã, por esta hora,

Já estarei na sepultura.

Tocam os sinos na Sé…

– Ai, Jesus, quem morreria?!

Responde o filho mais novo,

Que ainda falar não sabia:

– Morreu a D. Silvana,

Pela traição que fazia,

E o malvado do Rei,

Que também o merecia,

Por descasar bem-casados,

Coisa que Deus não queria!

(*) In “Romanceiro – Literatura de Trás-os-Montes e Alto Douro”, de Joaquim Alves Ferreira | Imagem

Romanceiro – Romances religiosos e profanos

”Romance”

«A palavra “romance”, que primitivamente significava a língua falada em Portugal até ao aparecimento do português proto-histórico, passou, depois, a designar história em verso, feita por autor desconhecido, e que o povo cantava nas suas actividades.

A hipótese de autoria colectiva, perfilhada por Almeida Garrett, está posta de parte.

Só poderá falar-se de romances do povo, na medida em que ele os assimilou e modificou, acrescentando, suprimindo, adaptando e até interpolando, umas vezes consciente, outras inconscientemente. (…)

Podemos considerar os romances poemas lendários com fundamento histórico, de forma épica ou épico-lírica, narrativa ou dramatizada.

Garrett admite duas espécies de histórias: o romance, que é todo narrativo, e a xácara, que é toda dramatizada.

Mas muitas vezes coexistem o romance e a xácara. Então, chama-se romance-xácara, se predomina a fala do autor; e xácara-romance, se predomina a fala dos personagens. Quando a história é triste, chama-se solau.

Entre nós, também se lhes chamou: rimances, romanças, trobos, trovas, motes ou simplesmente versos. Os romances religiosos de carácter laudatório também se chamam loas.

Os romances religiosos estão relacionados com a vida de Jesus, de Nossa Senhora e dos Santos.

Os profanos evocam episódios da reconquista cristã aos Mouros, ou falam de amor e de dramas passionais, provocados pela infidelidade das esposas, na ausência dos maridos, e pelo perjúrio dos namorados, em vésperas de casamento.

A maior parte dos romances peninsulares teve o berço em Castela e nasceu dos Cantares da Gesta, na opinião de Carolina Michaelis. Daí irradiou para toda a Península, por via oral, através das migrações para guerras, trabalhos, feiras e festas. (…)»

Joaquim Alves Ferreira, in “Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro” (texto editado e adaptado)

Romances religiosos

O Divino Pobrezinho ou o Lavrador da Arada

Trás-os-Montes e Alto Douro

Manharinha de S. João

Outro exemplo de romance (este de carácter religioso) utilizado nas segadas (11 horas da manhã). A melodia desenvolve-se no âmbito de uma oitava distribuída por dois cantores: um pentacorde inferior confiado à voz masculina, e um tetracorde jónio superior (à guisa de resposta), confiado à voz feminina.

Trás-os-Montes

Romances profanos

Dona Silvana

Trás-os-Montes e Alto Douro

Era o Mário Morais

Ribeira de Pena – Trás-os-Montes

A Costureira

Ribeira de Pena – Trás-os-Montes

De uma filha que se sentia desprezada pelos pais em favor de uma irmã e preferiu matar-se a sofrer essa diferença

Ribeira de Pena – Trás-os-Montes

O Caloteiro

Constantim – Vila Real – Trás-os-Montes e Alto Douro

Dona Ancra

Belo romance talvez corruptela ou deformação sónica de Dona Ângela, romance vulgarizado em Trás-os-Montes e em Espanha, nesta conhecido pela designação de La novia del duque de Alba.

Trás-os-Montes

Mineta

Versão transmontana de muito espalhado romance O Cego, também conhecido sob a designação de O rei e a pastora, Aninhas. Canção usada no trabalho de fiar o linho.

Trás-os-Montes

A mal-casada

Cantiga de «malhas» (romance)

Trás-os-Montes

Romances Pastoris

Deus te salve, Rosa

Encantador romance pastoril. A melodia em maior e de regular ritmo binário, semelha uma graciosa ronda infantil.

Trás-os-Montes

O Menino e a Lua | Contos populares portugueses

O Menino e a Lua

Era uma vez um pai que tinha um filho que, desde muito pequenino, costumava ir para o alto de um monte olhar para Lua.

Um dia o pai foi ter com ele e perguntou-lhe para que estava ele olhando para a Lua. O menino respondeu:

É que a Lua tem-me dito muitas vezes que meu pai ainda me há-de querer deitar água nas mãos e eu recusar.

Foi o pai para casa e contou à mulher o que o menino lhe tinha dito e ela respondeu-lhe:

Vejo que o nosso filho quer dizer que nós ainda havemos de ser criados dele; o melhor será deitá-lo ao mar.

O caixão andou três dias no mar até que foi ter a uma terra muito longe e os pescadores, julgando que nele houvesse algum tesouro, foram levá-lo ao rei.

O rei mandou-o abrir para ver o que tinha e, vendo que era um menino muito formoso, disse que tomava conta dele e seria seu filho adoptivo.

Mandou o rei educar o menino como se ele fosse um príncipe e, quando chegou a idade dos vinte anos, deu-lhe dinheiro para viajar com uma grande companhia de gente, como lhe era dado.

Ora o pai e a mãe do menino tinham caído na pobreza e foram pôr uma estalagem em uma terra para ganhar para viver e tinham sempre grandes remorsos pelo que tinham feito ao filho.

Chegou o príncipe com a sua companhia àquela terra e foi hospedar-se em casa de seu pai, sem que o conhecesse.

Apenas ali tinha chegado, veio logo o pai para deitar água nas mãos do príncipe para ele se lavar; mas o príncipe recusou e o pai estremeceu.

Então o príncipe, notando isso, perguntou-lhe:

Porque é que estremeceste quando me deitaste água nas mãos?

O pai respondeu-lhe:

É que eu me lembrei agora de que tive um filho que, se agora fosse vivo, teria a vossa idade e que o deitei ao mar, porque ele me disse um dia que eu lhe havia ainda de deitar água nas mãos para ele as lavar e ele recusar.

Mas que tenho eu com o teu filho? -respondeu o príncipe.

Não tendes nada; vos sois filho do rei e eu sou um pobre estalajadeiro.

Foi o príncipe contar tudo ao rei e, depois de muitas perguntas e respostas, veio-se ao conhecimento de que o príncipe era filho do estalajadeiro.

Então, este já queria que o seu filho fosse viver com ele e com sua mãe, mas o rei ordenou que fossem eles para o palácio, pois por sua morte o príncipe havia de ficar no lugar dele, como rei.

Adolfo CoelhoContos Populares portugueses

A cabra e o cabrito de ouro | Lenda de Belmonte

A cabra e o cabrito de ouro 

Conta-se que em tempos existia um pastor em terras de Belmonte que sonhou três vezes seguidas com a seguinte frase: “Vai a Belém, que lá encontrarás o teu bem”.

O pastor, cansado de ouvir essa voz que insistentemente se repetia, pôs-se a caminho.

Em Belém procurou, procurou, mas nada encontrou que lhe respondesse a tão estranho chamamento.

Desanimado e quase a desistir de procurar, encontrou um outro pastor que lhe perguntou a razão de tão profunda tristeza.

O pastor de Belmonte resolveu contar o sonho. E o outro falou:

Então, vós ainda acreditais em sonhos? Eu também costumo sonhar que numa terra chamada Belmonte há uma laje onde todos os dias se deita uma cabra amarela e que debaixo dela existe um tesouro, mas eu não acredito em sonhos!

O pastor, ao ouvir isto, deu um salto e pôs-se a caminho de casa. Ele sabia bem qual era a laje e a cabra a que o outro pastor se referia.

Quando chegou à sua terra, logo se dirigiu à laje. Levantou-a e escavou até encontrar o tesouro: uma cabra e um cabrito de ouro.

Decidiu dividir o tesouro com o Rei, mas os conselheiros, não o querendo deixar entrar, responderam-lhe:

Deixa-nos o presente, que nós mesmos o entregaremos ao Rei.

O pastor, nada convencido, não arredou pé enquanto o não levaram à presença do Rei. E este, perante a insistência do pastor, acabou por recebê-lo.

Quando o pastor entrou na sala real, perguntou:

– Onde está sua Majestade, o Rei?

– Aqui, o que queres?-perguntou o soberano.

– Senhor, trouxe-vos um presente: uma cabra e um cabrito. Qual quereis?

– Quero o cabrito, sempre será mais tenro que a cabra.

O pastor entregou-lhe o cabrito, mas ao ver que era de ouro, exclamou:

– Agradeço o presente, mas tenho pena que o cabrito fique órfão!

A isto o pastor retorquiu:

– Senhor, não tenhais dó, que eu também vos deixo a mãe do cabrito!

Por tão grande gesto de generosidade e lealdade, o Rei decidiu recompensar o pastor. Mandou-o ir à sua cavalariça escolher o melhor cavalo. E disse-lhe que todas as terras que percorresse em Belmonte, desde o nascer ao pôr-do-sol, seriam para sempre suas.

Lenda de Belmonte | Imagem: “Pastor da Serra da estrela” (pormenor) – Ilustração Portugueza, nº 256, 16 de Janeiro de 1911

O gigante | contos populares portugueses

O gigante

Um pai tinha três filhos.

O mais velho quis a sua parte e foi correr mundo. Foi servir para casa de um mercador.

Um dia o irmão do meio quis ir ter com ele. Como o pai não queria deixá-lo, foram os dois irmãos e o pai.

Chegaram, à aventura, a casa do mercador. Lá perguntou o pai pelo filho, até que ele apareceu.

Depois foi o pai, quando o achou, com os três filhos para casa.

Perderam-se no caminho e meteram-se por um arvoredo.

Como já era noite, ficaram ali a dormir aquela noite. Mas o mais novo não dormiu.

Sentiu cantar umas rãs e logo viu que ali havia lenteiros (terrenos húmidos).

Dirigiu-se para lá, mas as rãs cantavam sempre cada vez mais longe. Até que foi dar a um palácio que tinha três luzes.

Viu uma menina estar ao pé da janela, e ele pediu-lhe um copo de água.

Ela deu-lho e disse se ele era capaz de a desencantar e mais às três irmãs e ao pai, que o seu encanto era um gigante.

O rapaz voltou para o monte e lá no fundo de uma cova viu estar um gigante a assar um boi.

O rapaz dirigiu-se a ele e perguntou-lhe para que era aquele frango que ele estava a comer.

O gigante ficou muito admirado de ele chamar aquilo um frango.

O rapaz disse que costumava comer três daqueles ao jantar.

O gigante, então, disse que ele havia de comer aquele, senão que o matava.

O rapaz disse que sim e, como não podia mexer o boi, disse ao gigante que ele é que o havia de voltar.

Quando o viu assado comeu um bocado até se fartar e depois disse ao gigante que o não queria, que estava mal feito.

O gigante comeu-o.

Depois disse-lhe que fossem ver quem era capaz de subir mais depressa a escada do palácio.

O rapaz disse que sim; mal lá chegou, subiu muito depressa, agarrou numa grande bola de ferro e atirou-a à cabeça do gigante, que o matou.

Logo a primeira princesa se desencantou.

Ela disse que o encanto da segunda era um mocho.

O rapaz matou o mocho e a segunda ficou desencantada.

Depois a primeira disse-lhe que o encanto da terceira era um galgo.

O rapaz armou-lhe um laço e desencantou-se a terceira e o rei, pai delas.

Depois voltou para onde estava o pai e os irmãos a dormir.

Quando acordaram foram a uma estalagem, onde já estavam o rei e as três filhas desencantadas.

A primeira casou com o rapaz e as outras casaram cada uma com o seu irmão, e ficaram depois todos juntos e muito felizes.

Consiglieri Pedroso – Contos Populares Portugueses

A Capela de Nª Sª de Guadalupe – Vila Real | Lenda

Na aldeia de Ponte – Mouçós

Ao lado de Ponte, aldeia da freguesia de Mouçós, concelho de Vila Real, há um valioso santuário, de estilo românico, dedicado a Nª Sª de Guadalupe.

E muito próximo, num monte que dá para o Rio Corgo, está uma capelinha, com uma cavidade redonda na parede lateral, onde as pessoas costumam meter a cabeça, porque de lá, dizem, se consegue ouvir o mar.

Foi ali que el-rei D. Afonso III, […], quis fundar uma vila para ser a capital da região de Panóias, chegando a conceder-lhe o respectivo foral.

Tal desiderato não se concretizou, por várias razões; e seu filho, D. Dinis, mandou-a edificar uma légua mais a sul, a qual, pela sua origem régia, tomou o nome de Vila Real.

Mesmo em frente do local onde se construiu a capela de Nª Sª de Guadalupe, passava a estrada romana, por onde se deslocavam as mencionadas quadrigas romanas, a caminho de Braga, pela ponte de Piscais.

Por ali passou também a lenda, que atribui a construção das duas capelas, não aos Romanos como seria mais lógico, mas aos Mouros, que, talvez por afinidade geográfica e cultural, marcaram profundamente a tradição do nosso povo.

E a lenda diz que os Mouros, derrotados pelas aguerridas tropas portuguesas, fugiram para aquele local, onde se instalaram com todos os seus haveres.

Capela de Santo Cabeço

Escolheram para o efeito uma gruta situada no cimo do Monte Cabeço, voltada para o rio, um sítio inexpugnável e invisível, onde poderiam viver tranquilos, ao abrigo dos olhares indiscretos e incómodos dos povos das vizinhanças.

Mas, nunca fiando, à cautela, não deixavam de tomar todas as precauções.

Para não serem surpreendidos, passavam os dias recolhidos na gruta, donde só saiam à noite, para ir ao rio buscar água e aos campos, para procurar alimentos.

Como não gostavam de estar ociosos e havia muitas pedras no desfiladeiro, resolveram fazer alguma coisa com elas. Arrancaram-nas, levaram-nas para o interior da gruta e aparelharam-nas.

Depois, construíram com elas, mesmo em cima da gruta, uma capelinha que tem na parede voltada ao Sul a tal cavidade redonda que o povo diz que servia para os Mouros meterem lá a cabeça e ouvirem o mar.

Ainda agora algumas pessoas têm o costume de fazer o mesmo: umas para ouvirem o sussurro semelhante ao das ondas, outras para aliviarem as dores de cabeça. Por essas razões, puseram ao local o nome de Monte Cabeço e à capela o nome de capela de Santo Cabeço.

Animados com esta experiência feliz, decidiram tentar uma outra de maior amplitude.

Capela de Nª Sª de Guadalupe

Para tanto, escolheram um local mais abaixo, junto da via romana, que se coadunava melhor com o ambicioso projecto, mas que apresentava um alto risco, porque ali passava muita gente e seriam fatalmente descobertos.

Para evitar esse risco, teriam de concluir o trabalho numa só noite, tarefa só viável, graças ao seu grande poder de acção e à sua prodigiosa imaginação.

Depois de planearem cuidadosamente a obra, prepararam previamente todas as pedras necessárias e marcaram nas com um sinal convencional, que ainda agora se pode ver, para não se enganarem ao assentá-las. Segundo os cálculos do autor do projecto, ou havia de faltar uma ou sobrar uma.

Terminado esse trabalho, esperaram pela estação do Inverno, cujas noites são maiores, e iniciaram a segunda fase: o assentamento das pedras.

Então, começou a insana lufa-lufa do levantamento da obra: uns a transportar as pedras, outros a assentá-las.

Trabalharam como moiros toda a noite, sem descanso; mas, ao raiar a madrugada, graças a Alá, o monumento estava pronto!

E correu tão bem que não faltou pedra nenhuma, antes, pelo contrário, sobrou uma que la deixaram e ainda se encontra guardada na sacristia, como recordação.

Os primeiros transeuntes que por lá passaram, no dia seguinte, para o trabalho ficaram muito surpreendidos com o que viram: uma grandiosa capela feita da noite para o dia. E não tiveram dúvidas: aquilo só podia ter sido obra de moiros.

E foi essa explicação, apresentada para a existência da grandiosa capela de Nossa Senhora de Guadalupe e da humilde capelinha do Santo Cabeço, que passou de geração em geração e que ainda perdura entre a gente simples da terra.

Fonte: “Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro”, por Joaquim Alves Ferreira (5 volumes) – texto editado | Imagem: Postal ilustrado – Fototipia – c. 1920 a 1926 – Editor: Miguel Monteiro

Lenda d’O Caso da Lagoa – Palaçoulo – Miranda do Douro

Uma lagoa em Palaçoulo

Naquele tempo existia, em Palaçoulo, uma lagoa de água retida e insalubre, ao fundo da Praça da Cruz, onde esteve implantado um edifício público, conhecido como Casa do Povo. Mas apenas ocupa uma parte, pois a lagoa era mais ampla, em todos os sentidos.

Lá bebiam as vacas, até sem que fosse preciso assobiar-lhes. Via-se e ouvia-se chuparem aquela água estagnada, com gosto preferencial em relação a qualquer outra…

Aquela mesma lagoa, no Inverno cobria-se de gelo.

Então, havia rapazes, jovens e homens adultos que se divertiam a escorregar naquela espessa geleira. Por isso, ainda há quem se recorde de um palaçoulense que se deparou com sérias dificuldades em sair de lá, porque o gelo se partiu.

Salvou-se, com a ajuda de outros conterrâneos que, da margem, lhe lançaram os paus e a ponta de uma corda grossa. Localmente, esta corda é denominada “lúria”, utilizada para apertar as carradas grandes, geralmente de lenha ou molhos de cereais. Assim que o resgataram, já teso com o frio e semi-afogado.

Bom! Depois desta descrição, passamos a contar o que aqueles tais jovens fizeram, de sua espontânea e livre opção.

Uma brincadeira de rapazes 

Com baraços e cordéis apertados, fizeram como que um feixe dos destroços acabados de recolher daquela dupla imagem desmantelada.

E zumba! Aí vai aquilo tudo para a lagoa, para que o diabo ou demónio, que ali tinha uma boa parte do seu focinho, feio de meter medo, se afogasse de uma vez para sempre.

Mas o que é que havia de acontecer? O inesperado daquele improvisado feixe teimava em não se afogar e até parecia que “refunfunhegava” cada vez mais, provocantemente, com tantas bolhas sonoras de agua que emitia, à medida que se introduzia nos muitos buracos feitos pelo caruncho e por umas “rachicas” que tinha o “caramono”.

Então, os rapazes, para que se afogasse e parasse de refilar, toca de lha atirarem com calhauzada, pois naquele tempo, pedras era o que mais havia por ali.

Ao mesmo tempo, invectivavam-no com veemência: “inda refunfunhegas, caramonico de mil demonhos”?!

E continuaram a lançar-lhes pedras e o mais que encontravam, para que aquele embrulho maléfico e provocante desaparecesse para o mais fundo da lagoa, também persistentemente empurrado pela talvez ingénua, constante e aparente diabrite expressa no mesmo “inda refunfunhegas, caramonico de mil demonhos”?!

Sem puderem voltar atrás

Assim foi, até que com o peso das pedras lançadas para cima, aquele estranho conjunto já estava quase totalmente submerso quando uma onda de alvoroço começou a correr pelo povo, relativamente à pirraça, “perrice” ou simplesmente inadvertido divertimento da rapaziada, mas já não foi possível evitar nem remediar, o que já era façanha consumada.

O próprio Cura, advertido foi até a lagoa, mas já nada conseguiu ver nem vestígios do malfadado feixe de bocados, nem bolhas a “refunfunhegar”, nem sequer a rapaziada que tinha totalmente desaparecido, amedrontada, cada um para seu lado.

O caso foi aproximadamente assim, simples, mas iria ficar na lembrança de gerações.

Extraído de: Fernandes, José Francisco (2001), Mirandês e Caramonico. Caramonico – Associação para o Desenvolvimento Integrado de Palaçoulo, 188-190 (texto editado)

Lenda de Santarém – Scalabis | Lendas de Portugal

Lenda de Santarém

Santarém foi uma antiga cidade lusitana antes de por ela passarem romanos, alanos, vândalos, suevos e árabes, tornando-se definitivamente cristã em 1147.

A lenda de Santarém remonta ao ano de 1215 a. C., quando reinava na Lusitânia o príncipe Gorgoris, chamado de “O Melícola”, por ter ensinado o seu povo a extrair mel dos favos das abelhas.

Um dia, Ulisses de Ítaca chegou à foz do Tejo com os seus navios onde decidiu descansar por algum tempo, antes de regressar à Grécia.

Hóspede de honra de Gorgoris, Ulisses conheceu a sua filha “Calipso” por quem se apaixonou. Do amor de Ulisses e da bela “Calipso” nasceu um filho, “Ábidis”.

Quando Gorgoris soube do sucedido perseguiu Ulisses para o castigar, mas este, avisado da fúria de Gorgoris, fugiu para Ítaca.

Para esconder a desonra de sua filha, Gorgoris mandou que pusessem Ábidis dentro de um cesto e o atirassem ao Tejo.

Atirado ao rio Tejo

O cesto boiou nas águas e, em vez de se perder no mar, subiu pelo rio até encalhar perto de uma gruta que servia de covil a uma loba. A loba adoptou a criança, amamentou-a e protegeu-a.

Ábidis” tornou-se um belo rapaz que se alimentava de peixes do rio e frutos silvestres, e estava habituado a conviver com os animais.

Mas um dia, uns caçadores surpreenderam aquele rapaz selvagem, capturam-no e levaram-no à presença de “Calipso” – sua mãe. “Calipso” reconheceu em “Áibis”, através de um sinal de nascença, o seu filho roubado de seus braços.

Quando soube que o neto tinha sido encontrado, Gorgoris que não tinha herdeiro varão resolveu educá-lo como seu sucessor.

Ádibis” tornou-se assim no rei dos lusitanos, um rei justo, sábio e humano que mandou edificar uma cidade no lugar onde viveu os primeiros vinte anos de sua vida.

A essa cidade chamou “esca-ábidis”, que significa manjar do príncipe Ábidis, o primeiro nome da cidade de Santarém, cujos habitantes são hoje conhecidos por escalabitanos.”

Fonte: forumpatria.com | Imagem: Feira da Piedade em Santarém em 1912

A lenda de Fátima, filha do rei mouro de Manteigas

Manteigas – Serra da Estrela

Manteigas, na Serra da Estrela, é uma vetusta povoação que já no tempo da romanização possuía uma certa importância.

Na época da dominação muçulmana, teve direito a alcaide ou emir, autoridades que a tradição popularizou sob a designação de reis.

A cerca de duas léguas de Manteigas ergue-se o píncaro de Alfátema. É o cabeço mais elevado da serra da Estrela, amiúde revestido de alvo manto de neve.

De Alfátema falará a nossa lenda, que se passa nessa época em que o montante cristão não dava descanso ao alfange muçulmano.

Os mouros iam perdendo terreno de combate em combate, e a perseguição que os cavaleiros cristãos lhes moviam era tão rápida e implacável que se lhes revelava impossível pôr a salvo todas as riquezas que tinham acumulado ao longo dos séculos.

Assim, escondiam os tesouros nos sítios que julgavam mais adequados, ocultando-os muitas vezes por artes mágicas. Isto que levava o povo a dizer que eles estavam guardados por mouras encantadas.

Lenda de Fátima

Conta a lenda que o rei mouro de Manteigas tinha uma filha, chamada Fátima, e que era formosa como uma visão magnífica do paraíso de Alá.

Os cristãos das vizinhanças empregavam todos os seus esforços para se apoderarem do território do Rei, da sua Fátima tão linda e de todas as suas jóias e bens.

Ainda quis resistir, o rei, abrigado como estava dentro do seu castelo. Mas o número dos assaltantes era tal que lhe pareceu loucura ficar e resolveu fugir pelos carreiros escusos da serra, levando a filha e o que das riquezas ainda não pusera a salvo.

Era madrugada quando fugiram de Manteigas por uma pequena porta dissimulada nas muralhas.

Andaram, andaram todo dia por entre penedos e escarpas e, ao anoitecer, Fátima morria de cansaço e não conseguia dar nem mais um passo porque os seus pés estavam em chaga. Que fazer ali no sítio mais solitário da serra?

A quem pedir socorro naquele momento terrível?

Subitamente, abre-se-lhes em frente um caminho esplêndido, todo ele florido, calçado de pedras finíssimas e iluminado, lá no fundo, por um foco de luz tão intenso que mais parecia provir de uma estrela particular.

Alá fizera o milagre! A esperança renasceu em todos os corações e, num inesperado alento, entraram na senda que se lhes abrira como se nesse momento tivessem começado a caminhada.

Ao fundo da estrada, a luz que haviam divisado revelou-se-lhes um palácio resplandecente, tão cheio de magnitude que se quedaram estarrecidos.

Pastores desconhecidos

O que depois se passou ninguém o soube. Mas, nos dias imediatos, os serranos viram subir e descer a encosta vários pastores totalmente desconhecidos na localidade.

Duraram algum tempo aquelas idas se vindas ao Coruto de Alfátema, como chamavam àquele sítio, e um belo dia os pastores desapareceram sem deixar rasto.

Os pastores desconhecidos eram mouros disfarçados e foi por indiscrição de uma deles que se soube que uma fada boa, madrinha de Fátima, a guardaria no seu palácio encantado do Coruto, sempre jovem e formosa, até ao dia em que os fiéis sectários do Corão reconquistassem Portugal.

Tão arreigada ficou esta crença no espírito dos serranos que, durante os séculos XII e XIII, as pessoas várias vezes entraram em pânico por acreditarem ver chegar, ao longe, os esquadrões mouriscos em busca da bela Fátima.

E a lenda tomou ainda mais corpo no espírito crédulo dos aldeões quando, alguns anos depois de os cristãos terem tomado Manteigas, aconteceu o que vamos contar a seguir.

Um dia, uma mulher, das mais miseráveis da localidade, teve de passar na madrugada de S. João no Coruto de Alfátema.

Fatigada, sentou-se a descansar num penhasco enquanto ia comendo uma côdea de broa que trazia.

O pão era duro de muitos dias e, quando a mal-aventurada ia a dizer mal da sua vida, viu a seu lado um vasto estendal de figos secos.

Comeu uns quantos, feliz por quebrar inesperadamente a sua pobre dieta, e, lembrando-se dos filhos, encheu deles uma cesta que levava.

E, rápida e alegre, dirigiu-se à sua choupana, antegozando a alegria das crianças ao comerem os figos.

Figos transformados…

Mas, uma vez chegada a casa, ai destapar a cesta, ficou pasmada: no lugar dos figos encontrou diamantes e moedas de ouro, tudo reluzente e novo.

Estava rica! Mas a mendiga de há um minuto, conformada com o naco de pão duro, sentiu a mordedura da ambição.

Não lhe bastando o que já tinha, quis tudo o que ficara no Coruto e voltou a correr ao local onde deixara os restantes figos.

Entretanto, Sol subira no horizonte e estava agora no meio de um céu sem nuvens. Passara a hora dos encantos e, dos figos, a mulher encontrou apenas o lugar.

Desesperada, começou arrancar os cabelos e ia blasfemar quando uma voz suavíssima – a de Fátima, sem dúvida – caiu sobre si cantando:

Era teu tudo o que viste:
Agora tornaste em vão!
Não passes mais neste sítio
Na manhã de S. João.
Não te perdeu a pobreza
Pode matar-te a ambição!

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