Trajo de Trabalho do Sargaceiro | Trajes Tradicionais

Trajo de Trabalho do Sargaceiro

Apúlia | Século XX

Branqueia | Acessórios: cinto e chapéu

Casaco designado por branqueia, de burel branco cortado em viés e abotoado com botões do mesmo tecido. Na cintura cinto de cabedal.

Chapéu sueste do mesmo tecido, burel por vezes revestido de um outro tecido impregnado de óleo para o impermeabilizar; a copa é talhada em gomos e a aba, pespontada, é mais larga atrás, para proteger o pescoço.

Trajo profissional todo ele concebido para a função a desempenhar, isto é, proteger o corpo do sargaceiro na água.

A própria designação, branqueta, como se referiu, estendeu-se também ao próprio trajo. Esta peça apresenta um corte invulgar, talvez proveniente do saio medieval, talhado em viés que permite ficar justo ao corpo e alargar-se a partir da cintura facilitando o movimento das pernas.

Vestia-se directamente sobre a pele para evitar perder-se o calor do corpo mesmo depois de molhado.

De assinalar o próprio material em que são feitos os botões de branqueia o que mostra o seu arcaísmo.

O sargaceiro segura na mão um galhapão, espécie de instrumento composto por um saco de rede ligado a uma armação de madeira (boca) e seguro por um cabo do mesmo material, com o qual apanha o sargaço trazido pelas correntes e pela ondulação até à praia1.

A apanha do sargaço pelo Sargaceiro

O minhoto soube aproveitar as condições do meio e fertilizar as areias com os produtos do mar.

A apanha de algas assumiu grande importância ao longo da costa Norte. Os campos estéreis da beira-mar foram enriquecidos com pilado – caranguejos em cardume – e sargaço.

Hoje, com a generalização dos adubos químicos, esta actividade está em declínio. Mas, em certos locais, a apanha das algas tem ainda alguma importância. Em Castelo do Neiva, nas primeiras horas da manhã, ainda é possível observar os apanhadores de algas.

O sargaço é apanhado nos meses de Verão. Os sargaceiros entram no mar e com o redenho recolhem as algas que estão à superfície ou submersas, junto ou próximo da praia.

As “branqueias”

Antigamente, os sargaceiros, antes de entrarem no mar, envergavam branqueias, um casaco de tecido de lã, grosso e branco, que envolve o corpo dos sargaceiros até ao joelho.

Na cintura é cingido por um cinto de couro e a parte de baixo é rodada.

Quando o mar já não permite a apanha, os montes de algas molhadas não transportados para os sequeiros, nas dunas, em cestos, padiolas ou carros de mão com duas rodas.

Nos sequeiros as algas são estendidas com o auxílio do engaço – uma espécie de ancinho.

Uma vez secas, as algas são empilhadas, formando uma palhota. A parte superior é coberta por um telhado de duas águas, construído com colmo. Aí ficam até serem transportadas para os campos que vão fertilizar2.

 

Sargaceiros na Praia da Apúlia. Fonte

Fontes: 1.- “O Trajo Regional em Portugal” – Tomás Ribas | 2.- “Cores, sabores e tradições – Passeios no Vale do Lima” | Imagem de destaque

O Cego e o mealheiro | Conto Tradicional do Povo Português

O Cego e o mealheiro

“Era uma vez um cego que tinha ajuntado no peditório uma boa quantia de moedas.

Para que ninguém lhas roubasse, tinha-as metido dentro de uma panela, que guardava enterrada no quintal, debaixo de uma figueira.

Ele lá sabia o lugar, e quando ajuntava outra boa maquia, desenterrava a panela, contava tudo e tornava a esconder o seu tesouro.

Um vizinho espreitou-o viu onde é que ele enterrava a panela, e foi lá e roubou tudo.

Quando o cego deu pela falta, ficou muito calado, mas começou a dar voltas ao miolo para ver se arranjava estrangeirinha para tornar a apanhar o seu dinheiro.

Pôs-se a considerar quem seria o ladrão, e achou lá para si que era por força um vizinho.

Tratou de vir à fala, e disse-lhe:

Olhe, meu amigo, quero-lhe dizer uma coisa muito em particular que ninguém nos oiça.

Então que é, Senhor Vizinho?

Eu ando doente, e isto há viver e morrer, por isso quero-lhe dar parte que tenho algumas moedas enterradas no quintal, dentro de uma panela, mesmo debaixo da figueira. Já se sabe, como não tenho parentes, há-de ficar tudo para vossemecê, que sempre tem sido bom vizinho e me tem tratado bem. Ainda tinha aí num buraco mais umas peças, e quero guardar tudo junto, para o que der e vier.

O vizinho ouviu aquilo, e agradeceu-lhe muito a sua intenção e naquela noite tratou logo de ir enterrar outra vez a panela de dinheiro debaixo da figueira, para ver se apanhava o resto das peças ao cego.

Quando bem o entendeu, o cego foi ao sítio, encontrou a panela e trouxe-a para casa, e então é que se pôs a fazer uma grande caramunha ao vizinho, dizendo:

Roubaram-me tudo! Roubaram-me tudo, Senhor Vizinho.

E daí em diante guardou o seu dinheiro onde ninguém por mais pintado dava com ele.”

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português – Porto – 1883 (texto editado)

Jogo da Reca | Jogos Populares Tradicionais

Jogo da Reca

Também se chama jogo da choca [jogo da reca] ou da pinha – da choca, por representar a condução de uma vaca ou de uma reca para a corte; da pinha, porque vulgarmente se utiliza uma pinha de pinheiro, que simboliza o animal.

Parece nada ter a ver com o jogo do mail (palavra francesa que deriva do latim malleum, donde também derivam, através de malleolum, as portuguesas alleo e aléu) que se praticava durante a baixa Idade Média na França e pela Europa, mas era precisamente este jogo que atraía de uma forma especial os nobres.

Não é de excluir a hipótese de ser ele o jogo da choca que o 1.º Conde de Vila Real, D. Pedro de Meneses, praticava em Ceuta, logo após a conquista desta praça, em 1415, quando D. João I, preocupado com a sua defesa, o abordou, tendo ele dito que com o alleo (malho ou vara de jogar) defenderia a praça contra os mouros. [Trata-se de uma lenda muito divulgada como facto real!].

O que é certo, porém, é que em Trás-os-Montes e Beira Alta o jogo da choca difere muito do jogo do mail (em que cada jogador dispunha de uma bola, na sua variante individual, e tinha de percorrer um determinado percurso onde havia pedras de toque) e, sendo natural que D. Pedro de Meneses conhecesse o norte do país, é também natural que o jogo que praticava em Ceuta fosse o nosso jogo da reca.

Jogo que tem uma relação visível com o trabalho rural e é caracterizado por uma violência que o afidalgado jogo da choca/mail não permitia.

Regras

1.- Joga-se com uma pinha (ou pequena bola de madeira) que tem o nome de reca, choca ou porca.

2.- Participam cinco jogadores munidos de um aléu (malho ou pau) cada um, o qual pode ser curvo numa das extremidades ou não.

3.- Começa o jogo com as coquerrias da pinha (porca). Chama-se coquerrias ao acto de dar com o pau na pinha, sem a deixar cair ao chão.

4.- O jogador que menos coques der é o que vai com a porca, ocupando cada jogador dos restantes uma nicha.

5.- No centro do terreno há uma nicha ou pequena cova na terra a que se dá o nome de celeiro; em redor deste, à distância de dois a três metros, quatro nichas para os jogadores que o defendem.

6.- Ao jogador que fica com a porca chama-se porqueiro.

7.- O porqueiro tenta meter a porca no celeiro, conduzindo-a com a ponta do pau. Se o conseguir, diz estas palavras: «remeruja, porca suja. (1) Neste caso, os outros jogadores têm de mudar de nicha. O jogador que ficar sem nicha vai com a porca.

8.- Quando o porqueiro tenta meter a porca no celeiro, todos os outros jogadores fazem os possíveis para que ela não entre, evitando também que aquele ponha o pau na nicha.

9.- Depois do tempo terminado (aproximadamente quinze minutos), sem que o porqueiro tenha êxito dizem-se estas palavras: «couto, minha nicha / couto, meu celeiro,/ borro-lhe nas barbas / ao ruim porqueiro».

Os defensores cruzam os paus no celeiro, põem-lhe uma pedra em cima, vão buscar o porqueiro que tenta fugir e dão-lhe com o rabo em cima da pedra.

Assim termina o jogo.

Nota

Podem participar mais de cinco jogadores – sete, por exemplo. Nesse caso as nichas em volta do celeiro são seis.

(1)    Ou «quits, nicha». «Quits» (de quitar) – deixa.

António Cabral “A perspectiva cultural dos jogos populares”, in Estudos Transmontanos, Vila Real, n.º 2, 1984 (texto editado).

O Jogo do Malhão | Jogos Populares Tradicionais

O Jogo do Malhão

“O malhão é uma malha de pedra com cerca de quinze quilos para cujo lançamento se exige força e técnica.

É ir a Barroso ou ao Vale de Aguiar, também às povoações das faldas do Alvão, e ver como os homens, por vezes sem aspecto de valentaças, atiram com o calhau a uma distância de se dar dois assobios admirados.

Como muitos outros jogos, o do malhão procede do trabalho rural.

Imaginemos um agricultor a atirar para a borda do campo ou para um qualquer muragalho as pedras que empecilham o cultivo.

Imaginemos ainda que ele, com uma pedra mais pesada, resolve experimentar a sua força, esforçando-se por que a pedra atinja a distância fixada.

O trabalho ganha assim uma nova dimensão, a do prazer lúdico, e o jogo nasce, convertendo-se em competição se outro agricultor está a seu lado e decide fazer a mesma experiência.

Foi assim que o jogo do malhão nasceu e terá sido assim que a modalidade do disco olímpico nasceu também.

Diz Homero na Odisseia (Rapsódia Um) sobre a participação de Ulisses num torneio de jogos no país dos Feácios: «Tomou o disco… Fê-lo girar com o braço e de sua forte mão despediu a pedra que zunia

Note-se, entretanto, que nas aldeias transmontanas o malhão não tem obrigatoriamente cerca de quinze quilos: o povo é avesso à rigidez do desporto, sendo flutuantes as regras dos seus jogos que se adaptam frequentemente às circunstâncias.

Regras

1.- A pedra a lançar é a mesma para todos os concorrentes e terá aproximadamente quinze quilos.

2.- Cada concorrente tem direito a lançar seis vezes a pedra, alternadamente.

3.- Sempre que caia a pedrinha colocada em cima da vara, a seus pés, o lançamento é considerado nulo, tal como quando o jogador ultrapassa o risco (onde a vara se encontra horizontalmente) no acto ou logo após o lançamento.

4.- É o local onde o malhão bate, mais próximo do local de lançamento, que marca a distância, vencendo o jogador que mais longe o atirar.

Nota: Há vários jogos do malhão. Este pode ser atirado com uma das mãos – de lado, por cima dos ombros ou dentre as pernas, sendo a primeira a modalidade habitual.”

António Cabral “A perspectiva cultural dos jogos populares”, in Estudos Transmontanos, Vila Real, n.º 2, 1984 (texto editado)

Cortar o cobrão | Usos e costumes de Escalos de Baixo

Cobrão

O cobrão é o nome que o povo dá a uma doença de pele caracterizada pelo aparecimento de pequenas vesículas que surgem, segundo a crença, devido à circunstância das roupas interiores, quando se encontram a secar, terem estado em contacto com qualquer bicho peçonhento: cobra, osga, lagarto ou lagartixa, bichos esses que nelas deixaram, como se diz em Cebolais de Cima, o seu rastejo.

É o veneno contido nesse rasto que, em contacto com a pele, desencadeia a doença.

Para curar o doente repetia-se esta fórmula:

Rezado em cruz sete vezes:

Aqui te benzi, aqui te torne a benzer

Para que não cresças, nem inverdeças,

Nem juntes o rabo com a cabeça.

Depois a curandeira pega numa réstia de alhos e desenrola-se entre ela e o doente o diálogo seguinte:

Curandeiro: – Tu tens um cobrão?

Doente: – Ou terei ou não.

Curandeiro: – Corta-lhe a cabeça

Doente: – Corta tu ou não

Curandeiro: – Tu tens um cobrão?

Doente: – Ou terei ou não.

Curandeiro: – Corta-lhe o meio

Doente: – Corta tu ou não

Curandeiro: – Tu tens um cobrão?

Doente: – Ou terei ou não.

Curandeiro: – Corta-lhe o rabo

Doente: – Corta tu ou não

Por fim, queima-se a réstia de alhos e bota-se primeiro mel sobre a parte infectada e, em seguida, a cinza das réstias, para secar o mal.

Esta fórmula oferece a originalidade de apresentar estrutura em diálogo entre a rezadeira e a pessoa doente.

Nesse diálogo, dois pormenores existem que se devem ser revelados: a primeira frase “tu tens um cobrão?” e a repetição quase contínua e exaustiva de “corta-lhe”.

A primeira frase patenteia o costume de se invocar o nome da doença no início da fórmula libertadora; e incidência repetitiva que surge no diálogo em relação a “corta-lhe” reside no facto de ser esta palavra forte, isto é, a palavra através da qual a rezadeira liberta a pessoa do mal que a aflige, a palavra que corta um laço que liga a pessoa à doença.

O número de vezes necessário para eficácia das palavras é de sete.

O gesto enfeitiçante é o sinal da cruz: ao fazer-se a cruz sobre qualquer coisa atraem-se as forças mágicas dos quatro pontos cósmicos, ideia reforçada pelo facto de o sentido esquerda – direita, ao qual o sinal da cruz obedece, representar simbolicamente o passar da morte à vida.

A utilização do mel e das cinzas das réstias de alho, em conjunto com a fórmula libertadora, mostra nesta versão de Escalos de Baixo, uma dupla intenção: a de desligar a pessoa do mal, por um lado, e a de curar, por outro com o auxílio do mel e das cinzas das palhas de alho.

Fonte do texto: “Dança, Canto e Trajos no Concelho de Castelo Branco”, Adelino José Henrique Carrilho e Mónica Liliana Martins Henrique Carrilho

A apanha da azeitona | Actividades agrícolas

A apanha da azeitona

Nos dias de morna suavidade que ora vão correndo, é um verdadeiro encanto ir de longada até aos nossos campos, onde, pelo entardecer, o sol se difunde em ténues polvilhos de ouro, para se conhecer de visu a faina alegre e interessante da apanha da azeitona, prestes a atingir o seu termo.

Pelos extensos olivais que o outono envolve numa carícia invejável, ranchos de formosas camponesas recolhem com afã, ao som das nostálgicas canções do seu torrão natal, aquele belo produto da Natureza, que tempos depois vemos transformado em finíssimo azeite, nas montras dos nossos armazéns de víveres.

Homens e mulheres, vendo-se-lhes estampada no semblante a alegria própria das almas rústicas e boas, lá vão trabalhando de sol a sol com um desprendimento que encanta, até ao dia em que, terminados os trabalhos, o patrão lhes proporcione os folguedos da respetiva adiafa.

É uma faina curiosíssima a chamada safra da azeitona, que, como quase todos os labores agrícolas, tem para mim uma feição espiritual, um não sei quê de enternecedor, por não representar apenas um meio, mais ou menos trabalhoso, de encher os cofres ao lavrador.

De Arabela até hoje, por quantas transformações não tem passado a oliveira e o seu produto imediato: o azeite!

Neste estreito Portugal, foi sempre a região do sul a mais importante na produção oleica, bastando, certamente, para o atestar os belos e extensos olivais da quinta da Alorna, da condessa da Junqueira, os imensos pargais da Golegã e Chamusca, e, entre muitos outros que bordam o vale do Tejo, os da Labruja, do marquês de Castelo Melhor, os da Póvoa, etc.

Passando ao sul, é bem conhecido o grande olival do rico lavrador José Maria dos Santos, em Moura, o de Altas Moras e outros.

Na região de Vila Franca, propriamente dita, são notáveis os olivais do sr. Palha Blanco e a extensa linha de oliveiras que ornamenta os diques defensores das lezírias, e que são propriedade da Companhia das Lezírias do Tejo e Sado.

Na charneca do lnfantado, além Sorraia, procura atualmente a mesma Companhia valorizar uma extensa gleba com a área de 2.000 hectares, plantando-a de escolhidas variedades de oliveira, que, depois de completa, comportará 200.000 pés.

Será este o maior olival do mundo, de que Portugal se poderá orgulhar, como já se orgulha de possuir a primeira vinha, a do Poceirão, que tem sido objeto de entusiásticas apreciações de nacionais e de estrangeiros.

Está, como já disse, prestes a concluir entre nós a safra da preciosa azeitona, da qual, precisamente um terço, tem sido enviada para a praça.

A restante é aqui transformada em finíssimo óleo que pena é não ser trabalhado em aperfeiçoados lagares e pelo moderníssimo sistema Acapulco.

Formas de reprodução da oliveira e castas

São variadas as formas que nesta região se empregam para a reprodução da oliveira, e que vão desde o condenado processo da tanchoeira até ao emprego da pequena estaca criada em vaso com escala pela sementeira, que se faz ainda por duas formas diversas: quebrando o caroço, ou empregando-o inteiro, sendo no último caso mais morosa a germinação.

Muito proprietários importam hoje, em grande quantidade, as plantas de Itália, preferindo a maior parte reproduzir por estaca ou enxertia, as nossas conhecidas castas Cordovil, Bical e Galega.

Sabendo-se que o nosso país, pelas suas ótimas condições climatéricas, se poderia transformar – desculpem o devaneio – num extensíssimo olival, não é de estranhar que em princípios de 1908 se calculasse a área de olivais, no continente, em 329.155 hectares.

O distrito que mais concorria para este número era o de Santarém, que tinha então 75.142 hectares destinados à cultura da oliveira, e, logo a seguir, os de Leiria e Castelo Branco, que possuíam olivais, respetivamente, numa área de 35.240 e 33.968 hectares.

Não possuo elementos que me possam indicar a área que representarão atualmente todos os olivais de Portugal.

É de crer, no entanto, que ela tenha aumentado consideravelmente nos últimos cinco anos, marchando ainda na vanguarda o distrito de Santarém, que muito deve ter aproveitado com as plantações da Companhia das Lezírias.

Daí, a prolongação do aforismo correr Seca e Meca e olivais de Santarém

Na região ribatejana vai-se pondo de parte o retrógrado sistema do varejo para se apanhar a azeitona, por destruir, geralmente, uma grande parte da colheita seguinte.

Muitos proprietários mandam agora ripar as suas árvores por grupos de raparigas que trepam às oliveiras para apanhar o precioso fruto nos próprios ramos onde se forma.

Sendo Portugal um país agrícola mas onde, na opinião de muitos entendidos, pouco se cuida dos interesses agrícolas, é para lamentar que a cultura da oliveira se não tenha desenvolvido mais, para não sofrermos carestias de azeite como a do ano passado, em que este género de primeira necessidade chegou a atingir um preço verdadeiramente fabuloso.

Se um hectare comporta geralmente 100 pés de oliveira, e se cada uma destas árvores pode produzir, em média, 10 quilogramas de azeitona, calcule-se a riqueza que Portugal podia ter anualmente na produção dos seus olivais!…

Quando fruirá o nosso país a parcela de felicidade a que tem direito, pela doçura do seu clima, pela fertilidade da sua terra?

Vila Franca, novembro de 1912.

F. dos Reis Sousa

Ramo da paz, ramo da abundância

 

À volta da apanha da azeitona

 

O rabisco

 

As varejadoras depois do trabalho

 

A azeitona caída

 

Escolhendo a azeitona para a praça

 

Uma oliveira carregada: sobre os ramos a mulher colhendo os frutos

 

O negociante sr. José Salgado, pedindo notícias do seu rancho

 

Outra varejadora

In “Ilustração Portuguesa”, nº 354 – 1912 | (Clichés do dr. J. Coutinho, de Vila Franca de Xira)

Ervas místicas | Superstições e crendices

Ervas místicas

Reputo elemento complementar para a seriação dos costumes nacionais enumerar as diversas «ervas místicas», umas constituindo verdadeiros amuletos, outras atributadas de virtude medicinal.

Se bem que, na cantiga referida por Eça de Queiroz

Todas as ervas são bentas
Em manhã de S. João

o certo é que se torna sobremodo arrojado catalogar todas aquelas que de facto o sejam, sob o ponto de vista popular.

Não pode, pois, revestir pretensões a exígua coletânea que damos agora e perante a qual seria justificada a desaprovação dos botânicos, ou ainda, a dos ervanários.

Um dia, Ramalho Ortigão, que soube, como poucos, servir a nossa terra, não teve mão em si que não firmasse um rosário de «sanjoaneiras», onde há quadras, como estas, típicas:

Nos campos d’ Aljubarrota
S. João botou chamados
Para ressurgirem os mortos
Da ala dos namorados.

À beira do mar sentado
S. João tocou trombeta
Para dar noivas aos noivos
Da antiga nau Catrineta.

No claustro d’Odivelas
S. João tocou tambor
Para acordar almas de freiras
Que morreram por amor.

Pois bem! Com não menor carinho pelos costumes humildes do rincão bem amado, eis o que, em jornadas por diferentes pontos, apreciei, quanto a «ervas místicas».

Possível é que a mesma planta surja com dois ou três nomes diferentes, outorgados pelas várias regiões onde lhes colhi a designação.

A destrinça, todavia, não cabe ao escritor que a si unicamente se reserva a tarefa de constatar o facto, pelo que a ele se prende de nobremente tradicional:

Eis, pois: Alecrim, alfádega, alfazema, almíscar, arruda, funcho, erva-doce, erva-cidreira, hortelã-pimenta, maçã camoeza, manjericão, manjerona, malva-rosa, murta, nêveda, limonete, rosmaninho, salva, segurelha, serpão, tomilho, trevo, vergamota.

E não nos despedimos, por enquanto, do inquérito, que prosseguirá a seu tempo.

Severo Portela

Fonte: “Terra Portuguesa”, nº27-28 – Out-Nov de 1918

Lisboa pelo Natal (1908) | Usos costumes e tradições

Lisboa pelo Natal

“«Ande o frio por onde andar, pelo Natal há-de chegar» assim se costuma dizer desde que há frio e desde que há Natal.

É o inverno, e ele cá está nesta Lisboa temperada, que não lhe vale a sua exposição ao sul, para que o lisboeta deixe de tiritar com frio, como qualquer siberita, ainda que o termómetro marque tantos graus acima de zero como na Sibéria os marca abaixo.

É o inverno, e tudo muda em Lisboa.

A população recolheu toda à cidade, chegaram os últimos banhistas, acabaram-se as vilegiaturas, regressa-se das viajatas pelo estrangeiro, as ruas têm mais movimento, de dia, à noite, a todas as horas.

Abriram-se os teatros, e rodam os trens e automóveis para S. Carlos, para D. Maria, para o D. Amélia para a Trindade e Ginásio, para o Coliseu, para toda a parte onde haja espetáculo, que o lisboeta não sabe que fazer à noite, se não houver divertimento. Feliz lisboeta!

É o inverno, e logo pelas ruas se ouve apregoar as castanhas, quentes e boas a escaldar, o marmelo assado no forno, as azeitonas novas, a broinha de milho com erva-doce e o casal de perus, o mais característico, porque nos diz que está o Natal à porta, sem ser preciso consultar a folhinha.

É o inverno, em cheio, com os dias de 8 horas e as noites uns anos; dias sem sol, noites sem luar, e os poetas tristes, tão tristes como os perus soltando os seus melancólicos grus grus ocarinos; tristes estes pela sorte que os espera na mesa dos ricos, tristes aqueles porque os não têm à sua mesa.

E pelas ruas os bandos de pernaltas lá vão saltitando pela lama, transidos de frio, gru-gru, apanhando o seu carolo com a cana do vendilhão, que apregoa aos quatro ventos é casale de piruns.

Outros vão mais comodamente para o suplício ao colo de moços.

Vão de presente dar as boas festas às pessoas de representação, como ia o peru de Nicolau Tolentino com estes choramingados versos:

Airoso, gordo peru
É hoje o meu presente
Traz inda as penas molhadas
Com o pranto da minha gente.

A quantos sucederá o mesmo: não o comem para o mandarem de presente, como melhor empenho para aplanar dificuldades de qualquer pretensão, se o potentado não for como aquele exigente juiz do Bairro Alto, que não se contentava com presentes de cá cá rá cá.

O peru, por este tempo sem grande influência na nossa sociedade, não só pela boa canja que lhes fornece, mas pelas provas de gratidão que lhes permite.

O peru paga com a vida os favores concedidos a outrem; conquista a benevolência de muitos, e até os pais tiranos se comovem se o pretendente à mão da herdeira lhes mandar um casal de perus.

Na véspera do Natal a canja fumegante convida a fazer a meia-noite, tradicional uso no seio das famílias, pretexto para uma ceia obrigada a peru e a boroas com seu copinho de aguardente de erva-doce.

Alguns não chegando aos perus, contentam-se com a boroa e a aguardente, mas faz-se a meia-noite, depois da Missa do Galo, em que toca a primitiva e alegre gaita-de-foles, a tocariam os pastores no presépio de Belém saudando o nascimento do Redentor.

Por altas horas, na noite de Natal, ouvem-se repicar os sinos ecoando pela calada os seus toques, a um tempo alegres e melancólicos, anunciando o nascimento de Jesus, que vem encher de consolações o coração dos crentes.

Enchem-se nas cidades as igrejas, nas aldeias os ermitérios. Nestes há mais poesia; naqueles há mais divertimento.

Lisboa, se não conserva intata a crença de seus maiores, desenvolve a paixão dos gozos, de modo que se não vai à Missa do Galo com aquela fé que animava nossos avós, vai, pelo menos, procurar uma distração diferente das que ordinariamente a divertem e só encontra uma vez por ano.

Distração e namoros porque hoje como dantes, a Missa do Galo é um grande refúgio para namorados, única tradição que tem resistido a todos os tempos.

Que chova ou vente eles lá vão:

«Na esteira de esquiva dama
«Que de pedrinha em pedrinha salta.

embrulhada em seus abafos, e eles de golas de sobretudos levantadas, de mãos nas algibeiras, luzindo-lhe o lume do charuto, como farol no mar da vida, por entre a escuridão da noite.

São os maiores devotos da Missa do Galo.

(…)”

Caetano Alberto

Vendedores de perus aguardando os fregueses

 

Os casais de perús no Largo de S. Domingos

 

«Quentes e boas»

 

«Azeitonas novas»

 

Broinhas de milho com erva-doce

in “Ocidente”, nº1080 – 1908 (texto editado e adaptado)

A Feira de São Marcos (Évora Monte) em 1919

A Feira de São Marcos

“A dois quilómetros de Évora-Monte, fica a capelinha de São Marcos que é uma das mais devotas e pitorescas do Alentejo.

Évora-Monte, como se sabe, é a antiga vila que se ergue sobre um escarpado monte, perto da estrada de Extremoz a Évora, com suas muralhas e castelo da época dionisiana, tendo suas origens árabes.

A São Marcos afluem todos os anos, a 25 de abril, os de Évora-Monte e de outras vilas para festejarem, num misto religioso e pagão, o santo evangelista.

Em volta da capela armam-se barracas, os festeiros satisfazem a fé religiosa e ao mesmo tempo as exigências de estômago e ninguém ignora como os alentejanos gostam de boa e suculenta cozinha.

As merendas à sombra das carvalheiras improvisam-se, juntam-se famílias, organizam-se bailaricos, enchem-se os ares com descantes característicos, reúnem-se as mais lindas caras dos arredores, acotovelam-se os camponeses com a gente ajanotada das vilas e a alegria reina durante um dia inteiro naquele sítio encantador digno de ser visitado pelos nossos artistas e reproduzido nas telas.

Alberto Sousa, o pintor insigne do Alentejo, talvez já tenha fixado os interessantes aspectos do arraial de S. Marcos; se o não fez, decerto o fará, juntando à sua admirável galeria de quadros que são a história e a vida de uma das mais curiosas e ricas províncias de Portugal novos trechos de pintura para o que lhe abundarão os temas cheios de movimento e de cor.

A nossa terra é um país de arraiais, procissões e romarias. Pensar em pôr-lhes termo seria rematada loucura. O povo precisa, precisou sempre, dessas distrações, desses desafogos, d’essas válvulas.

Desde tempos imemoriais que assim foi.

De norte ao sul do país, às festividades a santos e santas, à Virgem sob as mais diversas invocações, aos doutores, aos mártires, aos confessores, aos apóstolos e evangelistas, a todas as potestades do céu, servem de pretexto ou para melhor dizer são um motivo, um importante factor, do tráfico comercial e industrial e um dos meios mais correntes e mais fecundos para o contacto das populações e para o estreitamento das relações que os prendem…”

Na feira de S. Marcos (Évora-Monte) – Merendando

 

A capela de S. Marcos, em volta da qual se realiza a tradicional feira e romaria de S. Marcos

 

Na feira e romaria de S. Marcos

 

Na feira e romaria de S. Marcos

 

Os nossos dois colaboradores à lareira

In “Ilustração Portuguesa”, nº691 – 1919 (texto editado e adaptado) | (Clichés dos distintos colaboradores artísticos da Ilustração Portuguesa, srs. Maia Mendes Lopes e Braz Simões de Sousa)

Nota sobre as adivinhas populares portuguesas

Adivinhas populares portuguesas

No estudo das adivinhas populares portuguesas oferecem-se dois factos sobremodo interessantes:

– um é que elas têm fórmulas inicias (e às vezes finais) diversos segundo as localidades;

– outro é que o assunto sai principalmente das coisas domésticas e da lavoura.

Estes factos referem-se portanto à forma e à essências das adivinhas.

Fórmulas iniciais

Da observação de mais de trezentas adivinhas que tenho recolhido, posso concluir que a fórmula inicial = que é, que é = predomina no Minho e Trás-os-Montes.

Também se encontra na Beira Baixa e no limite (Pesqueira) desta província com a Beira Alta. Às vezes aquela fórmula é substituída só por = que é a coisa, etc.

A fórmula = qual é a coisa, qual é ela = domina (se não é única) nos arredores de Lamego e Viseu (Lamego, Mondim, S. Martinho de Mouros, Cinfães, S. Pedro do Sul, Mortágua, Vouzela, etc.).

Possuo adivinhas onde apenas se lê = qual é a coisa (Porto, Feira, Amarante) e possuo outras que começam = qual é ele, qual é ela = (Guimarães, etc.).

Em Paços de Ferreira aparece esta fórmula inicial = adivinhas uma adivinha?=

Fórmulas finais

As fórmulas finais variam igualmente.

Algumas dizem adivinhai, bacharéis (Minho); não adivinhas este ano, nem para o ano que vier, só se t’o eu disser (Porto, etc.).

Adivinha, tolo (Trás-os-Montes), à maneira dos contos populares cujo termo é: adeus ó Vitória, acabou-se a história, etc. (Minho).

Com relação ao segundo facto, o assunto muitas vezes é tirado de outras partes, mas dá-se de quando em quando a coincidência de se ir buscar à lavoura, por ex., o objecto da comparação.

Assim uma adivinha de Tabuaço, na qual se representa o ar, as estrelas, o vento e o sol, diz:

Qual é a coisa,
Qual é ela,
Lameiro redondo,
Pastorinhas ao longo,
Cão raivoso,
Pastor formoso?

Quando se estuda o nosso país, nota-se que de província para província há uma variedade nos terrenos, na flora, na linguagem, nos trajos, nos costumes; por isso não admira que as fórmulas das adivinhas ofereçam diferenças locais.

Como os nossos enigmas se encontram ao mesmo tempo na Galiza, Catalunha, Baixa Bretanha e outros povos, somos levados a concluir que eles não têm origem portuguesa.

Por isso, das ideias ai expressas, alguns ensinamentos se devem tirar a respeito dos povos que os transmitiram, – povos civilizados, essencialmente conhecedores da agricultura.

Eis um exemplo da importância das tradições populares, e eu os ofereço àqueles que, com uma teima inepta, não se cansam de atirar zombarias às crenças do povo.

J. Leite de Vasconcelos

in “O Pantheon”, nº13 – 1881 (texto editado e adaptado)

Paisagem de Monsanto e das suas almas

Monsanto – Beira Baixa

“E é Monsanto que surge na sua rigidez de estátua:

«Num plaino ligeiramente montanhoso, a aldeia aninha-se no flanco de um pico, estalagmite monstruosa que, em dias de céu baixo, atravessa as nuvens.

As suas casas de telhas vermelhuscas trepam em caracol ao longo do castelo. Muitas delas, simples trogloditas, parecem enterrar-se na parede, em sinal de mau humor.

É que Monsanto não sabe sorrir!

Monsanto tem a pele coriácea e tem mau génio; sabe-o bem, e não faz segredo disso.

As suas muralhas, mil vezes cercadas, jamais cederam.

Pesada herança de glória, julgareis, que deve dar à gente de Monsanto não pequena arrogância!

Desenganai-vos. Apesar do ambiente rugoso, lê-se nos olhos dos seus habitantes docilidade e, desde que se não sintam observados, certa indiferença melancólica.»

Depois, esta visão dos homens, do elemento humano integrado na paisagem:

«Em Monsanto abundam os camponeses que, num abrir e fechar de olhos, transformam a sua placidez em energia.

Basta um rufar de tambor, uma estrofe de velho romance, e ei-los capazes de cantar e dançar horas a fio, sem que uma gota de suor lhes corra pela face.

As danças portuguesas não têm, bem sei, aquela fúria das de Espanha, que esvazia os pulmões e quebra as vértebras; mas, quanto ao ritmo, excedem largamente em velocidade as nossas danças rústicas.

Uma vez terminadas, a melancolia reaparece. Nem mais um sinal de alegria! A seriedade reencontra nas rugas dos rostos o seu trilho habitual.

No dia seguinte, esta gente empunhará, como na véspera, a rabicha do arado

Danças e cantares

A apoteose monsantina não é contada, mas pintada, vigorosamente, por Villeboeuf:

«Aparte pequenos pormenores, as festas de Monsanto oferecem os mesmos hábitos, as mesmas cerimónias que as do Paúl; impregnadas, no entanto, de mais solenidade, acabam, ao fim do dia, por uma alegoria excepcionalmente grandiosa.

É preciso ter visto o início do espectáculo, de longe, na planície, para se avaliar bem como Monsanto, bloco insólito, rodeado de caminhos pedregosos, se assemelha a uma torre de Babel que uma multidão imensa, vinda dos quatro pontos cardiais, tomasse de assalto.

É num ritmo veloz, em passadas de caçador alpino, por caminhos de cabra e atalhos, que se faz a escalada; e dir-se-ia, ao contemplar o enorme cabeço, um torrão de açúcar subitamente coberto de formigas trepando em espirais para o cimo …

Já a vanguarda dos assaltantes ocupa o alto da cidadela, velha fortaleza de numerosas cercas, amontoado de pedra e de granito a que o tempo quebrou os dentes, e ainda a retaguarda se encontra nas primeiras muralhas. É com ela que inicio a subida.

Valendo-se das mãos e dos joelhos, de talude em talude, um bando de garotos fura, alegremente, por entre as pernas dos orfeonistas esbofados, de trombone às costas e tambor rufando aflitivamente.

Subimos. Uma capela romana corta-nos o caminho.

Mais uma volta, e continuamos a subir. Atinge-se a primeira muralha; e quando, chegados à terceira, nos debruçamos daquele ninho de águias que é a fortaleza, surge-nos um majestoso panorama.

Sob um vento fustigante, o horizonte estende-se até perder de vista, como vaga desdobrando-se para o infinito. Dir-se-ia estarmos na barquinha de um balão cativo.»

Após a noite densa, quási de medo, fora a vibração triunfal do meio-dia.

Dali, dessa barquinha de que fala Villeboeuf, olhávamos, em êxtase, a paisagem circundante, que apanha já terras de Espanha.

Sentíamos todos que o castelo permanecerá inexpugnável, enquanto o seu guarda, o monsantino, souber defender, como bandeira festiva, o seu amor à terra e às vozes ancestrais – sem deixar, evidentemente, de abrir os braços ao progresso civilizador.”

Adolfo Simões Muller

Um curioso espécime de trajos popular: «Capucha» – Monsanto – A Aldeia Mais Portuguesa – Beira Baixa
Galo de Prata- Prémio atribuído a Monsanto, eleita a Aldeia mais Portuguesa de Portugal
A torre onde foi colocado o Galo de Prata que o S.P.N. conferiu a Monsanto
Mulheres de Monsanto tocando adufes (Apontamentos de Paulo Ferreira)
Interior de casa monsantina (Apontamentos de Paulo Ferreira)
Casa dos priores
Tipos de Monsanto
O castelo domina a imponente paisagem
Festa popular em Monsanto (Página de álbum de Paulo Ferreira)

in “Panorama”, nº02 – Julho de 1941 (texto editado)

Exit mobile version