Música tradicional portuguesa – metodologias de recolha (I)

Continuação daqui 

Recolhas e ensaios – metodologias e meios utilizados

Todas as recolhas e ensaios que até aqui referimos concernem, pela metodologia e meios utilizados, ao que na história dos estudos etnomusicológicos portugueses poderíamos designar como período do lápis e do papel, caracterizado, nas palavras de Fernando Lopes Graça, pelo «velho método da anotação de ouvido».

A divulgação do fonógrafo veio determinar o início de outro período, marcado pela reprodução em princípio exacta, ou pelo menos adequada, do objecto em estudo, já não mediatizado por uma representação musical escrita.

É o que o mesmo Lopes Graça designou de «recolha da música tradicional mecânica»

No «Estudo crítico que precede a colectânea Cantares do Povo Português, redigido por meados da década de 30, Rodney Gallop lamenta a inexistência em Portugal de recolhas fonográficas de música tradicional, que no caso de algumas zonas da Europa remontavam ao princípio do século.

Na extensa «Introdução» às Velhas Canções e Romances Populares, de Pedro Fernandes Tomás (1913), António Arroio dissera haver já procedido a gravações de música tradicional portuguesa, certamente irrecuperáveis hoje em dia, e quando da sua permanência em Trás-os-Montes, em 1932, também Kurt Schindler terá utilizado o fonógrafo.

Tanto quanto sabemos, as mais antigas gravações sonoras de música tradicional portuguesa que pelo menos em parte subsistem, além das de Kurt Schindler eventualmente, resultam da pesquisa em 1940 cometida a Armando Leça pela Comissão Executiva dos Centenários e efectuada com registo de som da Emissora Nacional, pesquisa que se saldou na recolha de centenas de espécimes.

Recuperado pela edição moderna, que se impõe, destes documentos, ou de parte representativa dos mesmos, este será porventura o trabalho mais relevante que aquele investigador ficará a dever a etnomusicologia portuguesa, visto o menor interesse dos dois livros que sobre o assunto publicou: Da Música Portuguesa (1942) e Música Popular Portuguesa.

Os contributos da Emissora Nacional de Radiodifusão

A rádio, vista por alguns como um dos inimigos maiores da preservação da música tradicional numa mítica pureza originária, não deixa de, através da Emissora Nacional de Radiodifusão, criada pelo Estado em 1937, atender a este sector do património cultural português, acolhendo vozes que clamam pela sua defesa e valorização.

Lembramos, a título de exemplo, a série de palestras que, logo nos primórdios da história da estação radiofónica do Estado (1937/1938), profere António Emílio de Campos, apoiando-se simultaneamente no magistério de Francisco de Lacerda, de quem fora amigo e colaborador, e no de Rodney Gallop.

Já antes das primeiras recolhas fonográficas que efectuou, Artur Santos procedera, através do velho método do lápis e do papel, à colheita de música tradicional portuguesa, de que harmonizara alguns espécimes para canto e piano.

É, todavia, sobretudo como responsável por recolhas e edições fonográficas – solicitadas por instituições diversas, em Angola, Madeira, Açores e Portugal continental, no que foi coadjuvado por sua mulher, Túlia Santos – que o seu legado é merecedor de consideração.

Destas, destacamos as que respeitam a Portugal continental, publicadas pela British Broadcasting Corporation (1956), e ao arquipélago açoriano, onde, com financiamento da Junta Geral do Distrito de Angra do Heroísmo e do Instituto Cultural de Ponta Delgada, foram exploradas, na segunda metade da década de 50 e no início da década seguinte, as três ilhas mais orientais do arquipélago: Santa Maria, S. Miguel e Terceira.

Fernando Lopes Graça e a música tradicional portuguesa

Pertencendo à mesma geração que Artur Santos, Fernando Lopes Graça tem uma relação mais complexa, ou multimoda, com a música tradicional portuguesa. Talvez para chamar a atenção para o facto de ser, e a si mesmo se ver, sobretudo como um compositor, sempre lhe escutámos não se considerar um etnomusicólogo.

Sendo evidente que era em boa parte pela necessidade de, enquanto criador musical de orientação nacionalista, se achegar a uma «essência» da música do seu povo que desta se ocupou, nem por isso deverá a dimensão científica do seu contributo ser omitida.

Insistindo na definição da música popular portuguesa como a do património das nossas comunidades rurais, exagerando certamente no seu combate contra a «mitologia fadista», deve-se-lhe um significativo legado em matéria estritamente etno-musicológica, seja pela reflexão produzida sobre a nossa música tradicional (cf. A Canção Popular Portuguesa e vários outros textos sobre o tema, os quais integram alguns dos volumes das obras literárias publicadas), seja por algum trabalho de campo a que também procedeu, só ou acompanhando Michel Giacometti, seja ainda pelo apoio musicológico que a este último não regateou.

A dedicação exclusiva de Michel Giacometti

Talvez o único investigador que acabou, após diversas experiências juvenis, por consagrar-se com exclusividade à música tradicional portuguesa, Michel Giacometti é um corso que em 1959 se fixou em Portugal, onde permaneceu o resto dos seus dias, calcorreando o território metropolitano de lés-a-lés.

Além de um Cancioneiro Popular Português (1981), publicado no final da vida, com transcrições provenientes, em parte, de colectâneas doutros autores, no seu legado avulta o acervo das gravações sonoras, publicadas em sucessivas edições discográficas («Arquivos Sonoros Portugueses» e outras).

Com Giacometti, os valores do registo sonoro são alargados à integral captação do fenómeno musical, no seu contexto, no gesto mesmo que ele representa, mercê do registo «vídeo» – o que está na origem das emissões televisivas Povo Que Canta, as quais representam um conjunto documental a pôr ao alcance de todos, em edição pública.

Apesar dos contributos apreciáveis que vimos de referir, em Portugal não chegou a ser feita a recolha mais ou menos exaustiva, por um lado, e a reflexão aprofundada, por outro, que a canção popular mereceu em alguns países europeus.

Esta lacuna é considerável, e os factores que a explicam requeriam, se para tal dispuséssemos de espaço, análise atenta.

Geralmente, restringem-se os contributos que se verificaram a uma fracção do País, ou quando se consubstanciam em obras intituladas, como a de Rodney Gallop, Cantares do Povo Português, ou A Canção Popular Portuguesa, de Fernando Lopes Graça, constituem uma amostragem limitada, infelizmente não elucidativa do património musical das comunidades rurais portuguesas, na pluralidade das suas formas, na pujante capacidade de variação de muitas delas.

O Cancioneiro Popular Português

Recentemente publicado, o Cancioneiro Popular Português, de Michel Giacometti, aproxima-se, nos duzentos e cinquenta trechos reunidos, dum objectivo de amostragem das tradições musicais do povo português.

Muito antes, ao falecer, em 1934, Francisco de Lacerda deixara, como dissemos, pronta para publicação, uma vasta colectânea, de mais de meio milhar de espécimes harmonizados para canto e piano, da qual chegaram a publicar-se postumamente, em seis fascículos, poucas dezenas de canções.

No que respeita às publicações fonográficas efectuadas, também elas representam uma amostragem apenas do património etnomusicológico português, ou, quando mais minuciosas, circunscrevem-se a parcelas do território nacional.

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Fonte: “O essencial sobre a Música Tradicional Portuguesa”, José Bettencourt da Câmara (texto editado e adaptado) | Imagem: “No Minho, a afamada «Música do Zé Pereira» que, com as suas execuções, muito alegra as romarias” (“Ilustração Católica”, nº327 – 1928)

Trajos de Entre Douro e Minho | Lavradeira e Trajo de Afife

Trajo à Lavradeira

O que no país se chama trajo à minhota, à moda do Minho, à vianesa, não é próprio de todo o Minho, como toda a gente sabe naturalmente: em regra è próprio de Viana de Castelo.

No Minho chamam-lhe trajo à lavradeira.

É próprio da aldeia de Santa Marta de Portuzelo, no concelho de Viana do Castelo.

Desnecessário é descrevê-lo: é conhecimento geral e aparece muito particularmente na época carnavalesca.

Mas, diga-se de passagem, que perde muito fora do corpo forte das lavradeiras do Minho, porque só elas sabem luzi-lo, com a sua mobilidade extrema, que lhes dá inimitável graça e donaire.

Trajo de Afife

Outro vestuário típico de Viana do Castelo é o de Trajo de Afife.

As mulheres trazem uma blusa justa ao busto, adulteração do primitivo trajo aldeão. Foi influência da cidade, que é perto.

A saia diferença-se da de Santa Marta de Portuzelo em certas listas serem mais largas, as fundamentais.

Por exemplo: listas largas vermelhas e entre elas uma listazinha preta ladeada por listazinhas brancas.

O forro da saia (isto é, a barra da saia) é, em geral, preto, ao passo que em Santa Marta de Portuzelo é vermelho.

O lenço é semelhante ao de Santa Marta, mas mais franjado.

O avental é semelhante aos da cidade: estreito e não tecido.

Sobre o peito traçam, nem sempre, em lenço, em geral cor de canário.

Usam sombrinha como a das senhoras da cidade.

Extractos de um estudo sobre o trajo minhoto apresentado a José Leite de Vasconcelos, por António de Jesus Gonçalves, estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, em 04.07.1916.

“Uma lavradeira de Afife provida de uma sombrinha luxuosa”

Informações retiradas de “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos (texto editado e adaptado) | Imagem: “Ilustração Portugueza” nº181 – 9 de Agosto de 1909

Trajos de Entre Douro e Minho – Vila Nova das Infantas

Traje característico das mulheres de Vila Nova das Infantas nos arredores de Guimarães

Traje de andar a cotio ou dos dias da semana

As mulheres têm duas espécies de trajo: o de andar a cotio ou dos dias de semana e o dos Domingos.

O trajo de andar a cotio ainda varia conforme se está no Verão ou no Inverno

No Verão é extremamente simples: camisa de tomentos encabeçada de linho ou estopa fina de meia manga rematada por entremeio e renda de croché, cingida ao corpo pelo original colete de rabos, profusamente guarnecido de fitas de cor, franzidas, ao sabor da fantasia da possuidora.

Este colete é extremamente elegante: nas costas não tem mais de um decímetro de largura, e pelas cavas, fundas, aparecem as ombreiras da camisa, com pregas bordadas a algodão vermelho.

Este colete, muito curto de cinta, termina por seis rabos, dois largos à frente, dois menos largos atrás e entre estes, outros dois estreitos, talvez de um centímetro.

As saias brancas de farta roda são geralmente de pano-cru e por sobre três ou quatro destas saias cai uma outra de riscado, chita ou de um tecido misto (linho de lã) de cor escura.

Um avental grande, também dos mesmos tecidos, cobre a saia até quase à fímbria.

Um lenço de chita, com ramagens, que lhe envolve o busto, cruzado no peito, e um outro apertado no alto da cabeça completam o vestuário usado todos os dias.

Os pés, quase sempre nus, ou, quando muito, dentro de uns socos grosseiros e já concertados (socos tachados).

No Inverno, algumas das saias brancas são substituídas por um saiote vermelho, e por sobre o colete e o lenço de chita usam um casaco redondo, que apenas chega à cintura.

Trajo de Domingo

O trajo de Domingo pode ser igual, mas com maior riqueza, isto é, a camisa toda de linho e bordada nas mangas, o colete de veludo, as saias de fazenda, os aventais de veludo bordado a vidrilhos (mendrilhos, segundo elas), os socos de verniz e forrados, ou então chinelas e meia branca.

Os lenços são: de seda, o da cabeça; um cachené, o do peito.

Às vezes acrescentam a isto o tal casaco redondo, de fazenda leve, com pele a debruá-lo.

Completa o vestuário domingueiro um lenço de bolso, de linho, com entremeio e renda bastante larga, todo bordado a vermelho.

O assunto desse bordado é quase sempre amoroso: uma pomba com uma carta no bico, dois corações juntos engrinaldados de flores, etc., e sempre com uma quadra.

De uma delas me lembro eu:

Nos nossos corações unidos
Brotam sempre lindas flores;
No teu brotam malmequeres;
No meu perfeitos amores.

Extractos de um estudo intitulado “Traje característico das mulheres de Vila Nova das Infantas nos arredores de Guimarães” feito por Beatriz Aurora Maria de Almeida, estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, datado de 10.07.1916.

Lavradeiras negociando a troco de dez rezinhos para a santa da sua invocação o seu grande ramo de flores (Na romaria de São Tiago – Guimarães)

Fonte: “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos | Imagem (meramente ilustrativa): Lavradeiras minhotas na Romaria de São Tiago – Guimarães (“Ilustração Portuguesa” – 1913)

Trajos de Grândola e Trajos de Arronches | Trajos do Alentejo

Trajo de Grândola

O trajo dos pastores pouco difere dos demais trabalhadores rurais, que vivem nas casas de campo.

No entanto é neles mais frequente o uso

– dos botins (bota pelo meio da perna),

polainas (a que noutro tempo ouvi chamar geralmente botinos),

samarra (casaco de pele do ovelha, sem mangas e com uma pequena aba a proteger os úmeros),

pelico de pele de ovelha e semelhante à samarra, mas talvez mais curto diante e com aba da parte de trás (o tapa-cu), para cobrir o espaço debaixo a descoberto pelo guarda-matos (nome vulgar dos safões), podendo a samarra e o pelico terem mangas ligadas por cordões ou correias.

Usam também os trabalhadores de enxada e os ganhões (assalariados com contrato por ano, que se empregam geralmente em trabalhos de culturas e de colheitas) umas metades de chapéu ligadas em volta dos tornozelos, caindo sobre os sapatos para evitar a entrada de terra nestes, a que dão o nome de enteparras (por entreparras ou enteparras, decerto) e semelhantes às polainas vulgares.

Apontamento do Dr. Manuel Matos

Trajo de Arronches 

O alentejano da minha terra, ao contrário de que sucede em outras regiões de Portugal, não prescinde das ceroulas de pano cru e das meias grosseiras, de cores vivas, feitas em casa, por mãos de velhas nos serões de Inverno e nas tardes estivais.

Veste ordinariamente calça de casimira grosseira, que se ajusta inferiormente à perna e se chama por tal motivo calça de boca de sino. Por sobre a camisa ornada de colarinho mole, mas sem gravata, usa o colete quase sempre desabotoado.

Quando o tempo é quente a roupa de cima não vai além das peças já iniciadas, sucedendo usar-se às vezes a jaleca ao ombro. Quando o tempo, ao contrário, é frio, veste a sua jaqueta ou jaleca, talhada sempre curta e ajustando-se ao corpo de uma maneira apertada.

As golas de atraçã, os vivos ou debrunas de fita preta, as alamares de prata – tudo isto hoje está em desuso já, e apenas se conhece de memória e de tradição. O calçado é quase sempre branco – botas e sapatos.

Só domingueiramente se usa o calçado engraxado. A bota alta de montar e a polaina empregam-se apenas quando as necessidades rústicas o exigem. O chapéu usado é o chapéu braguês de aba comprida e larga, chapéu de enormes proporções, que antigamente possuía como ornamentos grandes borlas pretas, hoje desusadas também.

O tipo do capote alentejano é conhecido. Só com a gravura respectiva o poderia descreves competentemente. Os safões ou ceifões de pele de chibo comprados nas feiras usam-se apenas quando as necessidades da vida agrícola aconselham a sua convivência.

Vestuário feminino

O tipo do vestuário feminino está-se incaracterizado também.

As saias de cima, quase sempre de cores vivas, têm comummente muita roda e usam-se sempre compridas.

A mulher da minha terra não sofre como a mulher de Nisa, põe exemplo, a moda da saia curta. As blusas ou roupinhas duma simplicidade extrema, ajustando-se ao corpo e deixando conjecturar toda a plástica do busto.

Quase sempre se usa o lenço na cabeça, ora atado com um nó sob o queixo ora atado com um nó também no alto da cabeça. Este lenço da cabeça e às vezes um lenço de malha próprio usam-se no busto, caindo em pontas sobre as costas e abrindo em decote sobre o peito. A mulher da minha terra nunca anda sem meias ou sem sapatos.

Xaile e mantilha

O xaile, grande xaile de merino, é peça de roupa indispensável. Pode usar-se dobrado em bico ou em ar de manta. Este último processo é considerado um processo fino de usar o xaile.

Hoje já não se veem mantilhas; muito raramente também se vê o bioco. Este é caracteristicamente regional, penso eu. É uma espécie de capa de um tecido preto, deixando cair à frente sobre a cabeça e o rosto um véu de tecido preto por igual e transparente.

Era dantes muito usado nos domingos e dias de festa. Foi peça de roupa imprescindível num bragal completo e trajava-se quando ia à missa.

Hoje, como o culto católico está muito em decadência, como quase ninguém vai à missa e as igrejas estão fechadas, o bioco só muito raramente se vê em mulheres de certa idade, que ainda se conservam fiéis ao cumprimento dos preceitos religiosos tradicionais com que foram criadas.

Extractos de um estudo acerca do trajo de Arronches, feito por Teófilo de Oliveira Júnior, estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, datado de Julho de 1916

Fonte: “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos (texto editado e adaptado) | Imagem (meramente ilustrativa): “Tipo do Alentejo” – Boletim Fotográfico – nº10 e 11 – Out e Nov de 1900

Trajos de Entre Douro e Minho | Trajos tradicionais

Trajo da semana

O trajo da semana é pobríssimo, principalmente o das pessoas de idade mais avançada, e compõe-se do que passo a dizer:

– saia de serguilha tecida de lã, avental igual, colete (espartilho) redondo com quatro espigões, de cana à frente, com uma cinta de veludo guarnecida com lãs de várias cores e algumas lantejoulas;

– camisa de linho e um saiote branco com barro de chita, aparecendo por espaços remendos de diferentes cores;

lenço de chita ordinária ao pescoço e idêntico na cabeça;

– pequenas argolas e um fio de contas;

– andam descalças ou calçam uns socos (tamancos) muito usados.

Quando saem para a rega (para regar o milho) ou outro trabalho, usam o mesmo fato, apenas arregaçam as saias por causa da humidade, o que elas chamam ensacar. Na ceifa do centeio ou milho usam um chapéu de palha atado com as pontas do lenço que trazem na cabeça.

Trajo para a igreja

Para a igreja, principalmente em dias solenes, o trajo mudo:

– calçam chinelas pretas com um laço na parte superior e as mais das vezes são cheias de ramalhetes de algodão de várias cores;

– meias de cor, geralmente tecidas por elas;

– vestem quatro, cinco, e quantas vezes seis saias brancas de linho com folhos de morim, com um pequeno bico de croché;

– por cima destas um saiote de pano vermelho com duas barras estreitas de veludo preto, e por cima de tanta saia e saiote vestem a saia de beata preta, também com barras de veludo, avental do mesmo tecido com um folho de setim, chambre de cor com guarnições garridas e lacinhos na frente;

– três, quatro, cinco e mais fios de contas, grilhões em enormes medalhas de ouro, onde colocam os retratos dos seus tones (namorados).

– Das orelhas pende um ou dois pares de argolas grandes.

O penteado é com uma poupinha à frente, muito brilhante devido à banha de porco que elas usam, caindo sobre a testa caracóis ou cachos, que elas fazem com o auxílio de um rabo de garfo; lenço na cabeça completamente variado nas suas cores e cheio de enfeites.

Trajo de feira

O trajo da feira compõe-se do mesmo calçado, saia de anil com silvas de lã de diversas cores, avental do mesmo gosto, algibeira ao lado direito, bordada de missanga e lãs, com o nome de pessoa, onde se vê um lenço branco, marcado com algodão vermelho, tendo nos quatro cantos dizeres engraçados e curiosos;

ao meio do lenço sobressaem certos enfeites, que em geral são: um coração, um amor, um cravo, etc.;

colete vermelho guarnecido de sotage e missanga;

uma camisa alvíssima de linho com punhos ramalhados de vermelho ou azul;

um lenço franqueiro na cabeça;

muito ouro.

A propósito de ouro costumam dizer: «Para a missa o que puderdes, para a feira quanto tiverdes.»

Na mão esquerda usam muitos anéis de prata, naturalmente para indicarem o seu estado de solteiras.

Trajo para ocasião de luto ou dó

Quando é ocasião de luto ou dó vestem-se de preto, cobrem as argolas com pano da mesma cor e deitam uma saia pela cabeça.

Se os maridos se ausentarem por muito tempo, para o estrangeiro, principalmente para o Brasil, também usam o mesmo vestuário triste.

Trajos de homem

Os homens, no seu trajo mais simples, usam nos dois dias de trabalho calças de linho, não trazem casaco, ou, se trazem, é esfarrapado, servindo o próprio forro remendado; na cabeça põem uma carapuça ou chapéu esfuracado.

Para a feira levam calças brancas, se é no Verão, e no Inverno outras quaisquer;

faixa azul ou vermelha em volta da cinta, colete de pele de coelho ou lebre;

corrente de prata com peças antigas, anéis e os retratos das tónias;

casaco preto, chapéu castanho;

sapatos de couro branco com a biqueira voltada para cima, ou então tamancos de couro preto com biqueiras amarelas.

Extractos de um estudo feito por Júlio Pereira Pinto Júnior, estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, datado de 02.03.1917.

Lavradeira dos arredores de Viana do Castelo

Fonte: “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos (texto editado e adaptado) | Imagem: “Ilustração Portugueza” – nº216, 11 de Abril de 1910.

Trajo regional de Portalegre | Trajos do Alentejo   

Trajo regional de Portalegre  

“Foi nomeada uma comissão oficial sob a presidência do Sr. Dr. Virgílio Correia, para colher todos os elementos de elucidação que permitam organizar uma espécie de cadastro da indumentária regional portuguesa, tão curiosa, variada e, por vezes tocada de revivescências multisseculares.

Li algures que essa comissão pensa em distribuir largamente um questionário, para a sua colheita de informações.

Como, porém, é de uso não responder a estas coisas, não por menos consideração, mas por feitio nosso, anteciparei duas palavras acerca de tão interesse contribuição etnográfica.

O trajo masculino desta região, de uso habitual, conta essencialmente das seguintes peças:

– jaqueta, ou jaleca à alentejana, de surrobeca, e colete;

– calça da mesma fazenda, justa à perna, caindo em polaina sobre o sapato;

– cinta de merino preto; de atanado branco com salto de prateleira;

– camisa branca engomada, com colarinho fechado por botões duplos, de ouro ou prata;

– capote à alentejana, de burel, farto, cómodo, que se veste ou despe rapidamente, a pé ou a cavalo; ou manta alentejana, que se conduz ao ombro.

Na estação invernosa aparece a vestimenta de peles, que se compõem destes artigos:

Safões e pelico

Safões: constam de duas peles, geralmente de carneiro, com a lã para o exterior, reunidas de modo a adaptarem-se à cintura, cobrindo as calças e revestindo as pernas.

Seguram-se por meio de correias, fivelas e botões, que abotoam pelo lado interior das pernas. Também se fazem de peles curtidas. Há-os de luxo e modestos.

Foram usados em França pelas tropas portuguesas nos serviços das trincheiras.

Pelico: é de pele de cabra ou de cão, com o pêlo para fora. Introduz-se pela cabeça, caindo pela frente das costas, cobrindo o tronco.

Não tem mangas. Completa-se com o tapa…, em que a reticência cobre discretamente um elemento monossilábico do nome composto, que só interessa ao vocabulário rústico.

É uma pele rectangular que cobre as nádegas, munida de duas correias que a fixam à cintura.

Dá ao pelico o aspecto duma casaca e usa-se, quando se trabalha na terra, à chuva.”

Extracto de artigo de F.S. de Lacerda Machado, publicado no DN, em 9.02.1926

Alentejanos vestidos de pelico e safões (Alandroal – Alentejo)

Informações retiradas de “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos (texto editado e adaptado)

A cabra e o cabrito de ouro | Lenda de Belmonte

A cabra e o cabrito de ouro 

Conta-se que em tempos existia um pastor em terras de Belmonte que sonhou três vezes seguidas com a seguinte frase: “Vai a Belém, que lá encontrarás o teu bem”.

O pastor, cansado de ouvir essa voz que insistentemente se repetia, pôs-se a caminho.

Em Belém procurou, procurou, mas nada encontrou que lhe respondesse a tão estranho chamamento.

Desanimado e quase a desistir de procurar, encontrou um outro pastor que lhe perguntou a razão de tão profunda tristeza.

O pastor de Belmonte resolveu contar o sonho. E o outro falou:

Então, vós ainda acreditais em sonhos? Eu também costumo sonhar que numa terra chamada Belmonte há uma laje onde todos os dias se deita uma cabra amarela e que debaixo dela existe um tesouro, mas eu não acredito em sonhos!

O pastor, ao ouvir isto, deu um salto e pôs-se a caminho de casa. Ele sabia bem qual era a laje e a cabra a que o outro pastor se referia.

Quando chegou à sua terra, logo se dirigiu à laje. Levantou-a e escavou até encontrar o tesouro: uma cabra e um cabrito de ouro.

Decidiu dividir o tesouro com o Rei, mas os conselheiros, não o querendo deixar entrar, responderam-lhe:

Deixa-nos o presente, que nós mesmos o entregaremos ao Rei.

O pastor, nada convencido, não arredou pé enquanto o não levaram à presença do Rei. E este, perante a insistência do pastor, acabou por recebê-lo.

Quando o pastor entrou na sala real, perguntou:

– Onde está sua Majestade, o Rei?

– Aqui, o que queres?-perguntou o soberano.

– Senhor, trouxe-vos um presente: uma cabra e um cabrito. Qual quereis?

– Quero o cabrito, sempre será mais tenro que a cabra.

O pastor entregou-lhe o cabrito, mas ao ver que era de ouro, exclamou:

– Agradeço o presente, mas tenho pena que o cabrito fique órfão!

A isto o pastor retorquiu:

– Senhor, não tenhais dó, que eu também vos deixo a mãe do cabrito!

Por tão grande gesto de generosidade e lealdade, o Rei decidiu recompensar o pastor. Mandou-o ir à sua cavalariça escolher o melhor cavalo. E disse-lhe que todas as terras que percorresse em Belmonte, desde o nascer ao pôr-do-sol, seriam para sempre suas.

Lenda de Belmonte | Imagem: “Pastor da Serra da estrela” (pormenor) – Ilustração Portugueza, nº 256, 16 de Janeiro de 1911

GF Casa de Portugal apresenta livro “Memórias de prata”

Livro “Memórias de prata”

No próximo dia 29 de abril, quinta-feira, pelas 20h00, no Complexo Cultural da cidade de Encamp, o Grupo de Folclore Casa de Portugal vai fazer o lançamento do livro “Memórias de prata”.

Esta iniciativa está integrada no programa das comemorações do 25º aniversário deste Grupo, que está sedeado no Principado de Andorra, e onde é particular embaixador das terras e gentes do Minho.

A cerimónia de apresentação vai contar com a presença da Ministra de Cultura e Desporto, Silvia Riva, bem como do vereador de Cultura do Comú d’Encamp, David Cruz, e ainda dos membros e ex-membros do Grupo que poderão relembrar as vivências que a coletividade realizou durante 25 anos.

A obra “Memórias de prata”, escrita em português e catalão, idioma oficial do Principado, é constituída por 180 páginas.

Nelas se podem observar as fotografias mais significativas da atividade do Grupo desde a sua fundação no ano 1996, até aos dias de hoje.

Conta, também, com uma recolha dos acontecimentos mais destacados e marcantes que a entidade cultural portuguesa no Principado de Andorra organizou ou deu o seu apoio, enriquecendo a oferta cultural do Principado, através da cultura tradicional nos seus diversos aspetos, potenciando, assim, a portugalidade nos vales de Andorra.

Várias iniciativas para celebrar Bodas de Prata

A apresentação do referido livro faz parte dum conjunto de iniciativas culturais que o Grupo programou, durante este ano, para celebrar as suas Bodas de Prata.

No âmbito das celebrações do 25º aniversário do GF Casa de Portugal, já foi feita a plantação de uma árvore no Parque Central de Andorra la Vella, no passado dia 21 de março. E, no próximo mês de maio, vai acontecer a inauguração de uma exposição fotográfica, que estará presente em vários museus do país.

Devido às medidas de proteção originadas pela emergência sanitária provocada pela Covid-19, o acesso será limitado e obriga a reserva prévia.

Nota à Imprensa do GF Casa de Portugal – Andorra (texto editado e adaptado)

O gigante | contos populares portugueses

O gigante

Um pai tinha três filhos.

O mais velho quis a sua parte e foi correr mundo. Foi servir para casa de um mercador.

Um dia o irmão do meio quis ir ter com ele. Como o pai não queria deixá-lo, foram os dois irmãos e o pai.

Chegaram, à aventura, a casa do mercador. Lá perguntou o pai pelo filho, até que ele apareceu.

Depois foi o pai, quando o achou, com os três filhos para casa.

Perderam-se no caminho e meteram-se por um arvoredo.

Como já era noite, ficaram ali a dormir aquela noite. Mas o mais novo não dormiu.

Sentiu cantar umas rãs e logo viu que ali havia lenteiros (terrenos húmidos).

Dirigiu-se para lá, mas as rãs cantavam sempre cada vez mais longe. Até que foi dar a um palácio que tinha três luzes.

Viu uma menina estar ao pé da janela, e ele pediu-lhe um copo de água.

Ela deu-lho e disse se ele era capaz de a desencantar e mais às três irmãs e ao pai, que o seu encanto era um gigante.

O rapaz voltou para o monte e lá no fundo de uma cova viu estar um gigante a assar um boi.

O rapaz dirigiu-se a ele e perguntou-lhe para que era aquele frango que ele estava a comer.

O gigante ficou muito admirado de ele chamar aquilo um frango.

O rapaz disse que costumava comer três daqueles ao jantar.

O gigante, então, disse que ele havia de comer aquele, senão que o matava.

O rapaz disse que sim e, como não podia mexer o boi, disse ao gigante que ele é que o havia de voltar.

Quando o viu assado comeu um bocado até se fartar e depois disse ao gigante que o não queria, que estava mal feito.

O gigante comeu-o.

Depois disse-lhe que fossem ver quem era capaz de subir mais depressa a escada do palácio.

O rapaz disse que sim; mal lá chegou, subiu muito depressa, agarrou numa grande bola de ferro e atirou-a à cabeça do gigante, que o matou.

Logo a primeira princesa se desencantou.

Ela disse que o encanto da segunda era um mocho.

O rapaz matou o mocho e a segunda ficou desencantada.

Depois a primeira disse-lhe que o encanto da terceira era um galgo.

O rapaz armou-lhe um laço e desencantou-se a terceira e o rei, pai delas.

Depois voltou para onde estava o pai e os irmãos a dormir.

Quando acordaram foram a uma estalagem, onde já estavam o rei e as três filhas desencantadas.

A primeira casou com o rapaz e as outras casaram cada uma com o seu irmão, e ficaram depois todos juntos e muito felizes.

Consiglieri Pedroso – Contos Populares Portugueses

As picaretas de ouro | Lenda da Serra do Alvão

As Picaretas de ouro

O famigerado Penedo Negro tem ainda outras lendas, ligadas também à actividade dos povos da serra e relacionada principalmente com o fabrico do carvão que os carvoeiros vinham vender a Vila Real.

Foi na realização deste trabalho que se deu o acontecimento maravilhoso que o povo conta assim:

Um dia, ainda de manhãzinha, antes de o sol pintar na serra, o senhor Mota saiu de casa, como de costume, para fazer carvão, que era o seu modo de vida.

Mas, quando chegou junto do Penedo e se preparava para arrancar as zogas das urgueiras, verificou, muito contrariado, que se tinha esquecido da picareta.

Ia já para voltar a casa buscá-la, quando deu de frente com uma Senhora, jovem e formosa, sentada, a pentear-se com um pente de oiro e com muitas picaretas, também de oiro, a seu lado.

O carvoeiro ficou de boca aberta, a olhar, muito espantado, para aquela maravilha!

Então a Senhora dirigiu-lhe a palavra:

– Não precisas de ir buscar a tua picareta. Tens aqui muitas. Escolhe a que quiseres. Mas, antes, diz-me uma coisa: gostas mais das picaretas ou de mim?

O senhor Mota, que não tirava os olhos das picaretas de oiro, a brilhar aos primeiros raios de sol, e que não sabia mentir, disse com a sua franqueza e simplicidade:

– Gosto mais das picaretas.

Oh! Palavra que tu disseste! A Senhora, com o rosto coberto de tristeza, deu um suspiro profundo e exclamou:

– Então fica com ela. Já que escolheste a picareta e não a mim, continuarás pobre e eu continuarei encantada.

E desapareceu, misteriosamente, no interior do Penedo Negro, deixando só uma picareta e levando consigo todas as outras.

Quando o ambicioso carvoeiro pegou na picareta de oiro, a pensar que ia ficar rico, ficou sem pinta de sangue, porque ela se transformou, ao tocar-lhe, num pedaço de carvão, a única coisa em que tinha tocado em toda a sua vida.

Então arrependeu-se amargamente da sua escolha desastrada, mas já nada pôde fazer. Teve de continuar pobre e a fazer carvão como os seus vizinhos, para sustentar uma ninhada de filhos.

E a Senhora lá continuou, continua e continuará eternamente, encantada, no Penedo Negro, a guardar as suas picaretas de oiro!

Fonte: “Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro”, por Joaquim Alves Ferreira (5 volumes) – texto editado | Imagem

Amadeu Alberto Lima da Costa, etnógrafo vianense

Amadeu da Costa, etnógrafo

Amadeu Alberto Lima da Costa, etnógrafo, investigador e dinamizador cultural, nasceu a 23 de outubro de 1920 e faleceu em 30 de março de 1999, em Viana do Castelo, capital do Alto Minho.

Nascido no bairro da Ribeira, na Rua do Loureiro, troço atualmente denominado Rua Monsenhor Daniel Machado, Amadeu Costa foi um incansável lutador pela criação de um museu dedicado ao traje regional em Viana do Castelo.

No momento da aquisição do edifício do Banco de Portugal para a instalação desse Museu, em 1996, foi ele que organizou a exposição Traje Regional, a primeira que aí se realizou. Também por esta razão, o Museu atribuiu a uma das suas salas o nome de Galeria Amadeu Costa.

Como profissão principal tinha a de técnico de contas.

Trabalhou, enquanto estudante, no jornal “A Aurora do Lima”, onde deu os primeiros passos no jornalismo. Nos anos 1960/70, foi correspondente dos jornais lisboetas “O Diário de Lisboa” e” A Capital“.

Nos anos 1950/60, esteve ligado à Fábrica de Louça da Meadela. Nesse período de grande criatividade e renovação da cerâmica aí produzida, supervisionou as mostras organizadas com grande êxito em diversos locais do país.

Calígrafo iluminador, executou vários pergaminhos, alguns em parceria com Araújo Soares, destinados a entidades diversas, entre elas a Presidência da República Portuguesa e a Rainha Isabel II de Inglaterra.

Figura incontornável da cultura tradicional

Amadeu Costa foi uma figura incontornável da cultura tradicional de Viana do Castelo pelo estudo e divulgação que dela realizou ao longo de toda a sua vida.

Sempre assumiu o seu amor pela divulgação dos usos e costumes locais, mormente o traje à vianesa, além da organização das Festas em Honra de Nossa Senhora da Agonia, que ajudou a promover durante cerca de trinta anos, enquanto membro da Comissão de Festas.

Falecido em 1999, a família, num ato de generosidade, estabeleceu com a autarquia vianense um protocolo de doação de uma valiosa coleção de trajes que pertenciam a Amadeu Costa ao Museu do Traje.

Esta doação incluiu 750 peças e 53 de trajes completos, incluindo algibeiras, aventais, saias, coletes, casacas, camisas, lenços, calçado, meias, toalhas e trajes de homem e mulher, enriquecendo o património do espaço museológico.

Foi condecorado por imensas instituições, destacando-se a medalha de ouro da cidade de Viana do Castelo, com a qual foi agraciado em 1989.

Fonte (texto editado e adaptado)