Ourivesaria Popular Tradicional | Usos e costumes

Com a espessura de um cabelo…

Corrido o fio, este, passa no estiolo mediatamente inferior e assim sucessivamente até que se consiga obter a espessura do cabelo. Este fio é então torcido com outro de igual espessura parecendo formar um só e tornando-se no principal elemento da filigrana. A partir daqui há que dar lugar à surpreendente técnica e imaginação do ourives na formação de entrelaços, círculos ou SS, de ornamentos e imbricados.

Para curvar e enrolar o fio em SS emprega-se a buxela4. Sobre o tabuleiro em ferro, o fio é torcido lentamente até se conseguir a forma desejada e depois cortado com um dos gumes logo que o S ou espiral atinjam o enrolamento e dimensão necessários. É através da buxela que se obtêm os rodilhões. Procede-se, depois, ao enchimento das armações. No seu interior vão entrar tantos rodilhões quantos os necessários para formar a peça desejada.

Finda esta operação, que requer muita técnica, vai proceder-se a outra não menos cuidadosa, a soldadura. O maçarico vai cumprir agora a sua função. A soldadura terá

De ser executada de forma que não seja perceptível a olho nu, daqui residindo a suprema habilidade do artífice.

A solda é formada por metade de ouro e outra metade compõe-se de um terço de cobre e dois de prata, em Travassos porque, segundo fomos informados, não acontece de igual modo em Gondomar, local onde predominam os fabricantes de filigranas.

Uma vez completa a soldadura da peça em ouro, esta vai ser recozida para que desapareçam os efeitos do fumo e da soldadura. Enchem-se dois recipientes de barro justapostos pelas bocas, com carvão de urze, onde já foram introduzidos os objectos de ouro.

Aquecidos na forja…

Estes recipientes são levados em seguida à forja onde vão ser aquecidos a alta temperatura. As peças não serão prejudicadas com este aquecimento já que não têm contacto directo com o fogo. Finda esta operação, as peças vão ser esfriadas e levadas a embranquecer numa vasilha contendo uma solução bastante diluída de ácido sulfúrico. Depois de limpar, irão a corar. Para o efeito é preparada uma massa composta por 2 partes de salitre, 1 de sal e outra de pedra-ume.

Esta composição será devidamente misturada e adicionada com um pouco de água, sendo levada a ferver e depois arrefecida e seca. É nessa massa, previamente preparada com mais água, que se vão introduzir as peças que serão levadas novamente ao fogo, até que a pasta entre em ebulição. O amarelecimento mais ou menos carregado depende do tempo que as peças demorem no fogo.

Finda mais esta tarefa, as peças serão areadas ou polidas com areia fina, água e uma escova, operação que lhe vai dar o brilho que lhe conhecemos. Voltam de novo à massa anterior para que, caso os haja, sejam tirados quaisquer defeitos e fixarem o tom definitivo. Falta apenas brunir, última operação que consiste na hábil do brunidor5 na peça.

Foi assim que vimos nascer inúmeras e lindíssimas peças de ouro ou prata. Brincos ou arrecadas, fios e colares, cruzes e relicários, pulseiras e braceletes, com extraordinários rendilhados, jóias que são o enlevo das nossas populações rurais.

Em Travassos e Sobradelo da Goma, pudemos verificar as extraordinárias possibilidades artísticas dos nossos artesãos da ourivesaria popular tradicional. Há que preservar e acarinhar esta arte, enquanto arte.

Notas:

1.- Espessa placa de aço crivada de orifícios com os calibres sucessivamente decrescentes e através dos quais o ouro ou a prata são levados à espessura de um cabelo.

2.- Molde de ferro onde é vazado metal fundido para fazer chapas.

3.- Instrumento rotativo em que são enrolados os fios.

4.- Espécie de pinça de aço cujas pontas findam em gumes.

5.- Haste de aço muito polida e cilíndrica.

Vasco Teixeira