Os trajes dos saloios (séc. XIX e 1ª metade do séc. XX)

 

As pernas

O saloio usava, obviamente, calças. Calças que, de forma geral, tinham bolsos direitos, apertavam à frente com botões e atrás ajustavam com uma fivela; eram de talhe direito e folgadas ou, mais comummente, justas à perna alargando em baixo de forma a tapar a parte superior da bota. Eram, usualmente, em cotim, às riscas verticais ou lisas, e também em fazenda ou outros tecidos grossos. No trajar mais “cuidado” usavam calças feitas de “pele de diabo” – bombazina.

A saloia usava, obviamente, saias. A saia era sempre comprida, embora nunca fosse aarrastar pelo chão. Em situações de trabalho usava-a um pouco mais curta, de forma a não atrapalhar os movimentos do seu trabalho.

Para além das saias, a saloia usou durante muito tempo a sobresaia que, muito provavelmente, foi mais tarde substituída pelo avental (também chamado anágua). Este objecto não tinha apenas a função utilitária de evitar sujar a saia, mas era igualmente um adorno utilizado não só nos dias de trabalho mas também em situações festivas, onde era costume estrear um avental novo.

 

Os pés

Nos pés os saloios usavam quase sempre botas de couro. No trabalho, na festa, na igreja. Só os mais endinheirados usavam, por vezes, o sapato, embora mesmo estes optassem, frequentemente, pela bota ou botim, talvez uma pouco de melhor qualidade e por conseguinte mais caro.

Eram, normalmente, de couro branco, curtido com o passar do tempo e do uso. Eram também ferrados, com o fim de durarem mais tempo e os saltos tanto podiam ser de prateleira com um pequeno tacão. Tanto estas como as de tacão raso tinham sempre as “tacholas”. Podiam ser de cano inteiriço, até meio da perna, mas o mais natural era serem mais baixas, sobretudo as que eram utilizadas no trabalho do campo.

A saloia também usava bota, normalmente de cano curto e com um pequeno salto.

Em dias de festa deixava, por vezes, as botas e calçava sapatos rasos de cordovão de cabedal branco. Também havia aquelas que cobriam os pés com umas grossas botifarras de couro atanado, de cano alto e fechadas verticalmente por meio de uma carreira de botões.

 

Roupa interior

De alguma roupa interior já aqui falámos. Mas devemos agora dizer que esta era quase sempre de cor branca. A excepção mais notada era, como já vimos, a camisola que o homem usava por debaixo da camisa, que era, muitas vezes, de cor escura. Os homens, por debaixo da roupa “exterior” usavam umas cuecas ou mais comummente ceroulas e meias geralmente de lá grossa.

Nas mulheres, a roupa interior era mais complexa. Usavam no busto os corpetes ou os espartilhos, usavam também cuecas (anteriormente usavam os culotes) e saiotes – ou anáguas. As meias era, por vezes, de renda e muito trabalhadas, sendo apertadas um pouco acima do joelho por meio de uma liga ou atilho.

 

Acessórios

Os saloios e as saloias nunca foram de muitos enfeites, sobretudo aqueles considerados como mais ou menos supérfluos. E aqui, quando falamos de acessórios, referimo-nos a objectos de utilidade, cumprindo, por conseguinte, uma função específica no trajar destas gentes, ou complementando essa forma de trajar.

É assim que no homem é indispensável o uso do varapau ou cajado. Todo o saloio que se preza o usa, servindo-se dele como elemento decorativo, mas, igualmente, como apoio e “arma” de auto defesa em caso de rixas (muito comuns nas feiras ou romarias), ou então quando era vítima de alguma eventual tentativa de assalto.

Também alguns homens usavam, embora só em alturas festivas, um relógio de bolso, com a respectiva corrente pendente de um bolso para o outro do colete.

A saloia nunca foi mulher que fizesse muito uso da ostentação. Esta mulher do campo raramente usava pulseiras ou fios de ouro, a não ser em ocasiões muito raras e muito festivas. Os seus ornamentos eram um vestido mais novo e mais colorido que o usado nos dias normais.

No entanto, podemos falar de acessórios, também eles de muita utilidade prática, como eram as bolsas onde guardavam alguns haveres pessoais mais essenciais ao seu dia-a-dia, como um lenço de assoar ou algum, pouco, dinheiro. Esta bolsa era feita em pano e tinha forma quadrada ou arredondada, Por vezes, usava uma outra bolsa, pendente à cintura por meio de atilhos e colocada por dentro da abertura da saia.

Outro acessório muito usado pelas saloias eram os brincos, que lhes eram colocados ainda em criança pelas suas mães.

Já vimos como na cabeça a saloia usava, quase sempre, o seu lenço, mas para segurar o cabelo, por exemplo em carrapito, esta mulher também usava um pente de grande dimensões, feito em tartaruga, que com os seus grandes dentes permitia prender o cabelo, impedindo que este se soltasse. A mulher saloia raramente andava com o seu cabelo (invariavelmente comprido) solto sobre os ombros.

Texto – “O Trajo Saloio” – Brochura editada pela Câmara Municipal de Loures / Departamento Sócio-cultural – Texto e selecção de fotos de Francisco Sousa – Novembro de 1995 | imagem de destaque: “Saloias” por Silva Porto

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