Os ex-libris e sua importância para a Etnografia

Decorreu, em tempos, no Museu de Marinha, em Lisboa, uma interessante exposição acerca de “Ex-Líbris do Mar”. (…)

Organizado pelo Grupo de Amigos do Museu de Marinha, o certame apresentou uma valiosa colecção agrupada por diferentes núcleos temáticos como os Descobrimentos e o Império, monumentos, embarcações, náutica, faróis.

Pelas razões óbvias, despertou-nos particular interesse o tema relacionado com as gentes do mar e outros que incluem motivos etnográficos.

Os ex-líbris constituem marcas de posse que os bibliófilos utilizam para assinalar os seus livros, geralmente formados por pequenas vinhetas coladas no verso da capa ou nas folhas de guarda. Trata-se de uma expressão de origem latina que designa a divisa ou o sinal que utilizam.

No dizer do publicista Fausto Moreira Rato, trata-se do “símbolo pessoal, estampado ou impresso, geralmente em papel – de desenho heráldico, alegórico, simbólico, ornamental ou falante, onde figura também o nome e, facultativamente, a divisa do bibliófilo – que se cola no verso da capa de cada livro possuído para garantir a pertença da obra e favorecê-la com este derradeiro requinte de arte”.

Entre nós, tal prática remonta ao século XVI, pertencendo a Wolfgang Holzschuher, alemão que viveu em Portugal e foi nobilitado por D. Manuel I, o mais antigo ex-líbris até ao momento conhecido em Portugal.

Produzidos através das mais variadas técnicas, desde a xilogravura e a zincogravura à serigrafia e à moderna fotocópia, alguns exemplares são verdadeiras obras de arte às quais a que, não raras as vezes, estão associados consagrados artistas.

A evolução dos ex-líbris

Por conseguinte, também a sua evolução reflecte o progresso das novas tecnologias, tornando o seu uso cada vez mais acessível e generalizado a todos quantos prezam o livro não apenas como repositório do conhecimento mas também como obra de arte.

E obra de arte concebida desde a sua composição e paginação à qualidade de impressão e ao acabamento, incluindo neste a qualidade da sua encadernação, por vezes exibindo nervuras e dourados de primoroso requinte.

Para além do interesse e da intensa procura que os ex-líbris suscitam no mercado do coleccionismo, eles representam ainda um importante documento de carácter iconográfico que contribui nomeadamente para identificar a origem da propriedade dos livros, a natureza das bibliotecas e a sua associação com a vida e os valores que os norteiam ou ao meio a que se encontram ligados.

Por essa razão, encontramos os mais variados motivos locais e etnográficos reproduzidos nalguns ex-líbris como sucede com os que identificam pescadores e ovarinas, embarcações tradicionais e representações estilizadas da filigrana minhota com versos de António Feijó.

A criação de um ex-líbris e a sua disponibilização pode constituir um meio através do qual, as bibliotecas ligadas aos municípios, às associações e museus etnográficos, podem divulgar os seus valores sintetizados na representação iconográfica que é feita por seu intermédio.

O incentivo ao seu uso e estudo pode ainda contribuir para a valorização da arte e do próprio livro, também como elemento de estudo.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

Na próxima página pode ver diversas gravuras extraídas do catálogo da Exposição “Ex-Líbris do Mar