O Ribatejo e o seu Folclore | Textos e opiniões

 

Como a sua própria designação indica, o Ribatejo constitui a vasta região geográfica situada junto ao rio Tejo depois deste ter passado os contrafortes da serra da Estrela, que vai das encostas de Ansião e Alvaiázere a cujos pés correm os rios Nabão e Zêzere, até às planuras do Alto Alentejo. Não obstante o Ribatejo não possuir limites geográficos, orográficos e mesmo etnográficos definidos, tornou-se vulgar dividir esta região em três zonas geo-etnográficas distintas, a saber: a lezíria ou borda d’água, o bairro e a charneca.

O bairro ou “os bairros” situam-se a norte, na margem direita do rio Tejo, em terras argilosas e calcárias onde predomina a figueira e a oliveira, denotando-se aqui no emparcelamento e também na habitação rural uma clara influência das villae criadas pelos romanos.

Por seu turno, a charneca localiza-se a sul, na margem esquerda do rio Tejo onde a influência árabe é mais visível, caracteriza-se por extensas áreas arenosas onde domina o cultivo da cenora, as searas de tomate e outras culturas rasteiras ou, à medida que nos aproximamos do Alentejo, as zonas de sobreiro.

Entre ambas fica a lezíria constituída pelas extensas planícies de aluvião onde o touro apascenta e o campino percorre à desfilada na sua montada brandindo o pampilho, terrenos particularmente férteis também utilizados nas culturas de cereais e da vinha.

Na margem direita do rio Tejo, sobretudo nos concelhos mais próximos de Lisboa, o Ribatejo confunde-se com a região saloia no seu folclore enquanto mais a norte se encontram muitas semelhanças entre a região de Tomar e Ourém nomeadamente, razão pela qual há quem considere que toda a área desta província a norte do rio Tejo um prolongamento da Estremadura. De igual forma, localidades como Ponte de Sor pouco se distinguem de terras vizinhas do Alto Alentejo.

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No Ribatejo dança-se o bailarico saloio como se dançam as saias, tal como sucede respectivamente na Estremadura e no Alto Alentejo, diferenciado-se contudo no fandango com o seu ágil sapateado que, defendem uns, constitui um torneio que tem por objectivo atrair as atenções das moças enquanto outros garantem, também estas o dançavam nos bailes, nos terreiros em dia de romaria, razão pela qual nalguns grupos folclóricos esta dança é executada pelos seus componentes femininos.

Do ponto de vista administrativo, aspecto que não tem forçosamente a ver com definições de natureza geo-etnográfica, o Ribatejo constituiu uma província criada em 1936, tratando-se de uma forma de divisão político-administrativa que já não se encontra em vigor desde há várias décadas. Com efeito, é o rio Tejo que constitui a razão da sua existência como espaço geográfico e o caracteriza do ponto de vista etnográfico, possuindo aqui o touro, o cavalo e o campino um conjunto verdadeiramente emblemático que identifica o Ribatejo.

Controvérsias à parte, o Ribatejo possui particularidades que a distingue de outras regiões, pelo seu colorido e vivacidade, os costumes das suas gentes, as suas festas e romarias, a destreza e valentia dos seus campinos, o garbo com que desfilam a cavalo ou nos atrelados.

Elas são as largadas de toiros em Vila Franca de Xira, na Moita, Benavente e Alcochete desafiando os mais afoitos, os cavalos na Golegã e a procissão em Honra de Nossa Senhora da Boa Viagem, em Constância, com os barcos engalanados descendo o rio Tejo desde a sua confluência com o Zêzere. E a sua gastronomia onde se evidenciam naturalmente as caldeiradas de peixe e as enguias, os vinhos maduros, o melão e a famigerada “sopa da pedra” tão característica de Almeirim.

É aqui que, derivando de uma velha tradição que noutras regiões adquiriu formas diferenciadas, se organizam os “grupos de forcados” formados por valentes rapazes que pegam o toiro de cernelha com as suas próprias mãos, constituindo este um costume único no mundo que evidencia a bravura da gente portuguesa.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História | Imagem de destaque

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