O Povo Ratinho | Jornadas de História e Património Local

 

O fenómeno das migrações sempre foi o reflexo da falta de trabalho nas terras de residência, e foi isso que levou a que elevado número de beirões, a pé ou de burro se metessem a caminho e nos vastos campos do Ribatejo e do Alentejo – e mesmo da Extremadura espanhola – procurassem a sua subsistência. Era gente simples, necessariamente submissa, que não vergava face ao mais duro dos trabalhos, não obstante os miseráveis quartéis em que pernoitavam e à por vezes desumana alimentação. Trabalhar era o verbo que conjugavam sem hesitações. Poupar, um ponto de ordem de que não abdicavam.

Dizia uma senhora que morreu recentemente com 94 anos, que ao temperarem a comida o faziam com um gesto rápido de maneira a que caísse pouco tempero, e contam-me agora que ao começarem mais tarde a fazer o caminho de comboio, a fim de pouparem no bilhete iam a pé até à próxima estação, e se apeavam antes de última

Há quem afirme que sempre foram bem recebidos onde quer que chegassem, mas não seria bem assim, pois quer fossem ratinhos, gaibéus ou caramelos, era mão-de-obra mais barata que inclusivamente não permitia aos locais avançar com algumas reivindicações. Aliás, referem-no José Saramago em “Levantar-se do chão” e Alves Redol em “Gaibéus”.

Entretanto diz-nos o Dr. Aires Henriques, que nem tudo foi necessariamente mau. O convívio com outras terras e gentes alargou os seus conhecimentos e postura de vida. Ali aprenderam também a divertirem-se com as modas colhidas junto de uns e outros camaradas de função, fossem eles caramelos, galegos, avieiros, varinos, minhotos ou picamilhos, vindos das mais diversas zonas do país, As músicas e cantigas “que por lá assimilavam” oriundas do rico folclore do Norte, “cantavam-nas depois nas suas terras, muito orgulhosos pela novidade que transmitiam.”

São estes os vestígios de vivências que tiveram e de experiências que ajudaram a crescer, as quais ainda hoje se encontram e se ouvem nos sons das concertinas” da região, repassadas destas memórias”, que marcam” de modo indelével uma época historicamente difícil. («As andanças dos “Ratinhos” por terras de Espanha, Alentejo e Borda d Água»)

De qualquer modo, e em meu entender, a imagem dos ratinhos legada à posteridade não será a mais correcta, pois foram gente que ajudou a desbravar os nossos campos, a encher os nossos celeiros E não eram uns coitadinhos, pois bastantes por aqui se fixaram, aqui constituíram família, e descendentes seus vêm, aos mais diversos níveis, ocupando cargos de alta responsabilidade. Em meu entender, a imagem do trabalhador mal vestido, que não precisa de se lavar, que se alimenta mal e não puxa pelos miolos, não corresponde totalmente à verdade.

Creio que não está feito um estudo sociológico sobre esta gente “sem eira nem beira”, em “cujos olhos bailava a ternura e que na dor aprenderam a sussurrar a palavra amor” (Aires Henriques). E um passo em frente poderá ter sido dado agora em Montargil, (24/01/09) quando na Casa Regional de Pedrógão Grande e o Grupo de Promoção de Montargil se juntaram para precisamente falar do Povo Ratinho. E um interessado grupo de pessoas (20) esteve atento e conversou sobre um assunto já de aliciante, e que mais enriquecedor se torna quando, como agora, vêm até nós conversar, pessoas de elevada estatura cultural, e com interesse e já algum estudo da matéria:

— Escritor Adriano Pacheco, Dr. Aires Henrique (Presidente da Casa de Pedrógão Grande), Engº João Coelho (Vereador do Município de Pedrógão Grande), Fernando Coelho (que trabalhou como ratinho na região de Tomar) e Dr. Ludgero Mendes (personalidade bem conhecida no mundo ribatejano da cultura e não só).

À memória e à verdade na História devemos um estudo mais profundo sobre a existência do Povo Ratinho.

À margem

………Estiveram presente, igualmente participando, o Presidente da Junta de Freguesia (Prof. Correia Constantino) que apoiou a iniciativa, e o Vereador do Município de Ponte de Sôr (Prof. Luís Laranjeira);

………Não obstante algum frio, a Sala estava acolhedora e ornamentada a condizer com o evento, merecendo algumas referências elogiosas, inclusivamente do senhor Vereador;

………Comemorativo deste “Encontro”, Aires Henriques fez editar, de sua autoria, um pequeno mas significativo livro intitulado «As Andanças dos “Ratinhos” por terras de Espanha, Alentejo e “Borda d Água”» que nos remete ainda para oportunas referências bibliográficas;

………A “Banda da Escola de Música de Montargil”, uma associação-irmã pois do GP nasceu, novamente deu a sua colaboração.

………..Este Encontro com a Tradição constituiu as Jornadas de História e Património Local. E foi também a comemoração (não oficial) dos 638 anos da elevação de Montargil a Vila.

……….Neste momento trabalha-se no sentido de que este projecto, de título provisório “Por caminhos do Povo Ratinho”, possa constituir uma parceria tripartida, com a adesão da Associação Além Guadiana de Olivença

……….Em marcha a publicação de um pequeno livro sobre os caminhos e as vivências deste povo.

Lino Mendes (O Povo Ratinho | Jornadas de História e Património Local – Encontro com a Tradição – 2010) | Imagem de destaque