Música Popular Polifónica Vocal – O Cante Alentejano

Esquemas musicais importantes

E, entre os esquemas musicais mais importantes, nota-se:

1) «Modas» que principiam em subdominante;

2) «Modas» que aparecem em escalas sucessivas e independentes;

3) «Modas» onde se emprega o tritono («diabolus in musica»);

4) «Modas» formadas por vários esquemas.

Tipo musical destes corais

Quanto à questão do tipo musical destes corais, F. Lopes Graça (A Canção Popular Portuguesa, p. 43), vê neles,

– a par de uma sedimentação antiga, «de uma antiguidade que não é fácil determinar, que abrange naturalmente… diferentes épocas, mas que não será muito aventuroso levar nalguns espécimes até aos tempos medievais»,

– outra «moderna, ou em todo o caso relativamente recente (talvez não ultrapassando o século XVIII)», que compreende «canções de estrutura tonal maior-menor, ritmicamente simétricas, morfologicamente rudimentares».

Canto alentejano

O P. António Marvão, definindo o canto alentejano como uma forma polifónica (que, como tal, se pode filiar na polifonia clássica arcaica dos fins do século XV e princípios do século XVI — que se revela no acorde incompleto de tónica e dominante e nas tonalidades diferentes em escalas sucessivas e independentes — simplificada pelas escolas de canto da vila de Serpa, combinada com o fabordão antigo), e antifónica (que, como tal, se pode considerar como um resto do canto «a capella» também do século XV, «bem vivo e expresso no Alto ao apoderar-se da moda iniciada pelo Solista»), distingue «modas» e «canções alentejanas»:

– as primeiras filiadas directamente nessas formas originárias — e parecendo mesmo mostrar, por vezes, nítidas influências gregorianas —,

– as segundas, que representam o estrato recente, inseridas nos moldes do folclore musical alentejano, mas afastadas dos seus cânones, influenciadas pelas rígidas regras da matemática musical: o tempo e o compasso;

Canções e velhas modas

«Estas «canções», de constituição polifónica idêntica à das velhas «modas», mas de inspiração e interpretação diferentes, caracterizam-se pelo «rigor musical das suas melodias e compassos, a contrastar com as verdadeiras “modas”, de melodias leves e simples, sujeitas às rígidas regras dos seus variados esquemas», e «de feição puramente popular, espontâneo, todo ligado».

Esta revolução tem na sua base «o aparecimento da música moderna, do fado e da canção popular, vulgarizados através da rádio, do teatro e do cinema». Por volta de 1935 «não havia ainda aparecido», segundo o Autor, «a primeira “canção” alentejana». O movimento parte sobretudo da margem esquerda do Guadiana, e a Amareleja parece ser um dos grandes focos de difusão desse género novo.

Modas dobradas pianinhas

Armando Leça (Música Popular Portuguesa, pp. 21-40), refere também «as modas dobradas pianinhas, entoadas por trabalhadores rurais — ponto, alto, requinta, baixos, com predomínio das vozes masculinas —, nas arruadas, nos sábados à noite, aos domingos, em passeio, “em calhando”»: «o grupo caminhava vagaroso, unido, encostados os homens ombro a ombro». «Alguns destes corais são comuns a todo o Baixo Alentejo, mas a predilecção por este ou outro, as variantes de timbre, a colaboração feminina, a musicalidade dos pontos, altos ou requintas, dão-lhes sonoridades imprevistas, que os renovam na expressividade».

O mesmo Autor (Da Música Portuguesa, p. 69), nota: «A canção orfeónica do Baixo Alentejo é mais ousada nos intervalos, mas tem na sua linha melódica uma similitude, uma lentidão, que, se a caracteriza, dá-lhe também poucas variantes».