Manuel Francisco Estanco Louro – síntese biográfica

Estanco Louro

Manuel Francisco Estanco Louro nasceu no sítio do Alportel [Algarve], a 6 de Setembro de 1890, no seio de uma família de modestos recursos económicos com nove filhos.

Dr. Estanco Louro

Desde tenra idade revelou-se possuidor de viva inteligência. Tal levou os seus pais a matriculá-lo no Seminário de Faro, com o objectivo de cultivar essa inteligência e fornecer à família um sacerdote, como era costume naquele tempo.

Por manifesta falta de vocação, abandonou o Seminário, anos depois. Terminou o Curso dos Liceus, em 1912, no Liceu de Faro, com altas classificações, e em apenas dois anos, não só com os conhecimentos trazidos do Seminário como também por méritos próprios.

Aos 22 anos, escreve um romance inédito, intitulado “O Revoltado“, em que evidencia bem toda a sua sede de justiça social.

Matricula-se, no ano lectivo de 1912-13, em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa. Interrompe o curso para cumprir o serviço militar no período da Grande Guerra (1914-18).

Participou na Primeira Guerra Mundial

Parte, em 1917, para a Flandres, França, como alferes miliciano do Regimento de Infantaria 1, tendo participado na célebre Batalha de La Lys.

Esta terrível experiência de guerra mereceu-lhe páginas muito emocionantes, testemunhando o que viu e sentiu na Flandres. Este trabalho ficou inédito até 9 de Abril de 1924, quando o apresentou sob a forma de conferência proferida no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa.

Regressa de França, termina o curso na Faculdade de Letras e publica, em 1919, “Do Ensino da Língua Francesa, em Portugal, especialmente na Instrução Secundária (O que se tem feito e o que se deve fazer)“, que foi a tese da sua licenciatura em Filologia Românica.

Estudos universitários na Faculdade de Letras

Frequenta o curso de habilitação para o Magistério Liceal (Letras), tendo sido aprovado no Exame de Estado com a classificação de quinze valores e ficado habilitado a exercer aquele Magistério em Janeiro de 1921.

Também, neste ano, se casa com D. Albertina Emília Freire, finalista do Curso de Filologia Clássica, e sua colega da Faculdade de Letras.

Ao mesmo tempo que cursa a Faculdade de Letras e a Escola Normal Superior – onde fez Exame de Estado – matriculou-se na Faculdade de Direito, cuja licenciatura concluiu em 1922.

É nomeado professor efectivo do Liceu Fialho Gouveia, em Beja, onde lecciona de 1921 a 1923. Exerce ao mesmo tempo advocacia. Em 1923, é transferido para o Liceu Central Pedro Nunes, em Lisboa.

Frequenta, na Faculdade de Letras o curso de Estudos Camoneanos, regido pelo sábio Doutor José Maria Rodrigues, tendo no final defendido dissertação e ministrado lição pública aos alunos. Foi o único diplomado com distinção nesta cadeira de Estudos Camoneanos.

O intenso labor literário, pedagógico-didáctico, de estudos camoneanos, investigação etnográfica e filológica, desenvolvido pelo Dr. Estanco Louro é reconhecido em todo o mundo culto. E é prova disso a enorme correspondência existente no seu arquivo pessoal, toda ela manifestando o enorme apreço em que era tido nos sectores intelectuais mais qualificados, tanto em Portugal como no estrangeiro.

Aderiu, desde a primeira hora, ao grupo da “Seara Nova

– Câmara Reys,

– Aquilino Ribeiro,

– Raul Proença,

– Raul Brandão,

– António Sérgio

– e outros,

de cujos ideais progressistas comungou inteiramente, colaborando na revista “Seara Nova“.

Em Dezembro de 1929, candidata-se ao doutoramento na Faculdade de Letras, apresentando como tese a monografia “O Livro de Alportel“, correspondendo assim a instâncias dos seus ex-professores, entre eles o Dr. José Maria Rodrigues, que lhe reconheciam o trabalho e o valor.

Prejudicado pelas alterações políticas

Entretanto, a viragem política começava a intensificar-se, favorecendo na Faculdade conluios e compadrios que contribuíam para afastar homens com o perfil do Dr. Estanco Louro.

Este amava a Justiça e a Verdade, adverso a oportunismos, trabalhador, estudioso e pesquisador. Estas características estão vincadas nas suas muitas obras, tanto publicadas como inéditas, e que os seus modestos recursos de professor liceal não lhe permitiram ver impressas.

Num processo, largamente divulgado nos meios intelectuais da época, e que está descrito em quarenta e oito densas páginas inéditas, o doutoramento foi interrompido, sem que houvesse desistência nem reprovação do candidato.

Face ao insólito desfecho do exame de doutoramento, o Dr. Estanco Louro não teve acesso a cátedra da Faculdade de Letras, tendo sido igualmente impedido de reger a Cadeira de Estudos Camoneanos, para a qual era o único diplomado.

A mágoa, a injustiça e o prejuízo que estes lamentáveis eventos lhe causaram não o impediram de prosseguir no seu intenso labor criativo.

Soube ser solidário

Em 1931, em consequência de um decreto do então Ministério da Instrução, alterando a constituição do corpo docente do Liceu Pedro Nunes, os professores foram distribuídos por outros liceus, conservando-se ali apenas os professores Estanco Louro e Prado Coelho.

Apesar de contrariar seus interesses, estes dois professores, num acto de solidariedade com os colegas obrigados a sair, pediram a colocação no Liceu Camões.

Aqui o Dr. Estanco Louro exerceu o professorado até à sua reforma em 1952, quando se retirou para a sua casa de Barranco do Velho. Continuou a trabalhar até ao fim da vida, numa obra que envolvia aturada investigação e pesquisa local, e que intitulou “Toponímia Algarvia“.

Fez ainda parte dos corpos directivos

– da Casa do Algarve,

– da Cooperativa “Padaria do Povo”, de gloriosa tradição democrática,

– e da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, em cujo talhão foi sepultado em 23 de Setembro de 1953.

O seu desvelado amor à terra natal, dada a impossibilidade de nela ficar sepultado, está perpetuado, conforme sua vontade, com um singelo monumento de pedra junto à casa onde nasceu.

Mas o maior monumento que perpetuará para sempre a sua memória é, sem dúvida, entre outras obras notáveis da sua erudição e cultura, esta monografia sobre S. Brás de Alportel.

S. Brás de Alportel, 31 de Outubro de 1985″

João Pires da Cruz, Prefácio d’ “O Livro de Alportel” (texto editado e adaptado)