Lendas e Contos infantis de Trás-os-Montes e Alto Douro

 

«As Lendas e os Contos são, por assim dizer, dois irmãos quase gémeos, na estrutura e no conteúdo. Ambos serviam para alegrar os serões à lareira, nas longas noites de inverno. Há, no entanto, algumas diferenças entre eles: as Lendas têm lugar data, e servem para descrever acontecimentos e exaltar heróis, imaginários, ou reais, mas romanceados; os Contos, pelo contrário, não têm espaço nem tempo e têm sobretudo a função de divertir ou moralizar. Por isso, começam sempre por: era uma vez, num lugar muito distante…

Ambos são muito antigos. Podemos dizer que são tão antigos como o próprio homem. Entre nós, as primeiras lendas aparecem já documentadas nos primeiros livros em prosa, os Nobiliários, onde aparece, entre outras, a célebre Lenda de Gaia.

Não há terra que não tenha uma ou mais lendas e muitas histórias para contar.

As Lendas conhecidas podem agrupar-se em quatro classes:

As Lendas de carácter histórico, que relatam feitos, como a tomada de castelos aos moiros, ou de calamidades públicas, como a praga dos gafanhotos.

As Lendas etiológicas, que procuram explicar a origem dos nomes de terras, das actividades agrícolas, artesanatos, costumes e tradições.

As Lendas de carácter religioso, que descrevem aparições sobrenaturais, sobretudo de N. Senhora, a crianças que guardavam os seus rebanhos, nos montes.

E, finalmente, as Lendas mouriscas, que falam de mouras encantadas e infelizes, embora rodeadas de grandes tesouros, à espera de alguém que as fosse desencantar.

Segundo José Leite de Vasconcelos, estas lendas estavam relacionadas com o culto de antigas divindades e cada um dos seus elementos tinha um significado religioso.

Partindo deste pressuposto, podemos dizer que o agente da acção é o homem em geral à procura da felicidade. O tesoiro escondido é a felicidade procurada. Os gigantes, dragões, serpentes e bruxas, símbolos do Diabo, são as forças do mal que tentam impedir o homem de encontrar o almejado tesoiro. Pelo contrário, as fadas com a sua varinha de condão, as pombas brancas, as águias, rainhas das aves, os leões, reis dos animais, as velhinhas conselheiras, Nossa Senhora, símbolos da divindade, representam as forças do bem, ou forças adjuvantes, que procuram ajudar o herói a vencer a luta contra as forças do mal, ou forças oponentes.

A hora da acção é a noite, símbolo da morte, iluminada pela claridade do luar, símbolo da ressurreição e do encontro com a Divindade, o verdadeiro tesoiro.

O local da acção é o subterrâneo ou o interior duma rocha, símbolos do tártaro ou do inferno, e o palácio doirado cheio de saborosos manjares, símbolo do nirvana ou paraíso.

Para atingir este último estádio, é preciso ser muito corajoso e colaborar com as forças adjuvantes.

Estes géneros tão populares difundiram-se tão depressa e tão cedo, que já S. Paulo, na epístola dirigida ao seu discípulo Timóteo, lhe recomendava: acautela-te das fábulas e dos contos de velhas e exercita-te na piedade. Mas, se quisermos recuar no tempo, podemos encontrá-los também na própria Bíblia e já no Antigo Testamento. Para exemplificar e concluir estas considerações preambulares, não resisto à tentação de transcrever um exemplo, pequeno mas interessante, extraído do Livro dos Juízes, capítulo IX, versículos 8 a 11:

«Um dia, as árvores resolveram eleger um rei. Foram ter com a oliveira e disseram-lhe: oliveira, reina sobre nós.

Mas a oliveira respondeu: Porventura posso eu deixar o meu óleo, de que se servem os deuses e os homens, para reinar sobre vós?

Então, as árvores foram ter com a figueira disseram-lhe: vem, reina sobre nós

Mas a figueira respondeu: Porventura posso cu deixar a doçura dos meus frutos suavíssimos, para reinar sobre vós?

Foram depois ter com a videira e disseram-lhe também: vem, reina sobre nós.

Mas a videira respondeu: porventura posso cu deixar o meu vinho, que faz a alegria de Deus e dos homens, para reinar sobre vós?

Foram, por fim, ter com o espinheiro e disseram-lhe: vem, reina sobre nós.

E o espinheiro respondeu: se quereis que eu reine sobre vós, vinde e repousai debaixo da minha sombra; mas, se o não quereis, saia fogo do espinheiro e devore os cedros do Líbano».

Mas, se a Bíblia sofreu influência desta cultura popular, também aconteceu o inverso. A lenda da tomada do castelo do Pontido, adiante apresentada, é quase cópia da tomada da cidade de Madiã por Gedeão, que vem relatada no já citado Livro dos Juízes, cap. VIII, vers. 19 a 24, e me abstenho de transcrever, para não me alongar mais.»

Joaquim Alves Ferreira, Literatura de Trás-os-Montes e Alto Douro – Lendas e Contos Infantis (V volume) | Imagem de DarkWorkX por Pixabay

 

Algumas Lendas de Trás-os-Montes e Alto Douro

Lenda da Senhora do Picão | Miranda do Douro
No sítio do Picão situado a quatro quilómetros da Póvoa e a dois do Santuário do Naso, nos finais do séc. XIX e início do séc. XX, na aldeia da Póvoa, concelho de Miranda do Douro [Trás-os-Montes e Alto Douro], algo de milagroso aconteceu a uma menina de nome Mariana dos Ramos João. Continuar a ler

 

Lenda do Naso | Miranda do Douro
A Capela de Nossa Senhora do Naso é um pólo de atracção principalmente em dia de romaria. Embora à volta desta capela se tenham, recentemente, construído algumas outras capelas, reza a lenda que ela foi edificada por um casal mirandês. Continuar a ler

 

A Povoação de Agarez | Lendas de Portugal
Relacionada com a Serra do Alvão, cenário das lendas O Calhau do Encanto e As Picaretas de Oiro, existe uma outra que se refere à origem, nome e actividade dos habitantes de Agarez. Agarez é uma risonha e soalheira aldeia, alcandorada nas faldas da Serra do Alvão, a oito quilómetros, aproximadamente, de Vila Real. Foi notável pelo artesanato do linho que os seus moradores cultivavam, teciam e bordavam primorosamente.  Continuar a ler

O Calhau do Encanto | Lendas de Portugal
A Serra do Alvão, com os seus ciclópicos penedos e ravinas alcantiladas, vestida de branco no Inverno e de verde no Verão, com ar severo e misterioso, era ambiente propício para excitar a imaginação dos que por lá andavam a ganhar o pão ou por lá passavam, a caminho de Vila Real. Não admira, pois, que, à sua volta, as lendas surgissem, com toda a naturalidade. Continuar a ler