Lenda do Galgo Preto - Ponte de Lima - Minho

Lenda do Galgo Preto | Ponte de Lima – Minho

Preso de amores ficára D. Ruy, e ainda se não atrevera a confessal-o; por isso era maior o encantamento em que viviam os dois. Mas o amor é como que o ultimo brinco da gente moça, e alguma coisa traz de certo das contradicções da meninice.

As creanças são tanto mais felizes com o brinquedo, quanto maior é o segredo do seu engenho; não descansam porém se o não partem, para satisfazer a curiosidade, e, ao approximar-se o desvendar do mysterio, redobram de alvoroço, não reparando que vão assim estragar o que havia de melhor no entretenimento.

Um dia ao entardecer encontraram-se ambos, ao fundo da modesta horta banhada pelo rio.

El-Rei regressa à corte

Era a vespera da partida, EI-Rei voltava à côrte, e a D. Ruy forçoso era acompanhal-o.

Estavam tristes e scismadores; talvez o coração lhes presagiasse que seria aquelle o derradeiro crepusculo em que assistiriam juntos ao apparecer das estrelas, a essa especie de saudação garrida que a noite manda aos que têm a cortezia de a esperar com respeitosa affeição. Talvez; Mas nem por isso eram menos felizes: ha contentamentos e tristezas que andam tão confundidos no coração!

Como se quebrou este enleio dos dois enamorados, não o diz a lenda, que só nos transmittiu as ultimas phrases do dialogo que após elle tiveram;

phantasie cada um, como as suas lembranças lho consentirem, e, se quizer imaginar com mais probabilidades de acerto, vá sentar-se na relva à sombra das duas grandes arvores que estão no sitio, e são ainda as mesmas que presenciaram a scena, a acreditar no asserto do povo. Eu por mim acredito.

A tradição conservou apenas o final do colloquio, e esse deve ser textual, porque toda a gente o conta do mesmo modo:

– Juras? – perguntou Beatriz.

– Juro.

– E atreves-te a jurar sobre as aguas, correntes? – insistiu a donzella, faiscando-lhe no olhar esse não sei quê da sua natureza que não provinha do ceo.

– Juro! -confirmou o mancebo, estendendo as mãos para o rio – e se eu faltar seja negra a minha alma enquanto estas aguas correrem!

A sua alma há-de ser negra

Decorreu apenas um anno. É grande a azafama no palácio dos Mendonças, em Lisboa. O dono da casa vai finalmente participar a toda a côrte estar justo o casamento de sua filha, herdeira de seus grandes haveres e nobreza, com o único parente que poderia continuar aquella representação na mesma varonia.

As instancia do Rei, e todas as rasões heráldicas da família não tinham por muitos mezes conseguido resolver D. Ruy a julgar-se indispensável para conservar sem quebra uma raça de cortezãos.

E nunca o resolveriam certamente essas considerações. Estou até em afirmar que poderá muito mais com elle a beleza magestosa da prima, e não menos a esperança de uma vida com fausto e poderio.

As riquezas do oriente iam perturbando as imaginações, e os netos dos cavalleiros da Ala dos Namorados necessitavam preparar-se com tempo no exagero do luxo e dos prazeres materiaes, para darem de si como presente á sua terra esses grandes senhores que haviam de entregar um dia a Castella o reino, conquistado ás lançadas pelos seus rijos antepassados.

(…) Vai grande azafama no palacio dos Mendonças. As salas enchem-se de convidados, e todos esperam contentes ou invejosos a noticia formal de estar satisfeita a prosapia do neto dos soberanos de Biscaia. Só o noivo é quem falta ainda.

( … ) Vai grande tristeza no palacio dos Mendonças. Morreu de repente, ao entrar para o coche, D. Ruy, o perjuro.

(…) Desde essa noite em diante começou a apparição do Galgo preto nas margens do rio Lima!

A sua alma ha de ser negra enquanto as águas correrem!

*

Leitor ousado que te ris da crendice popular, ouve-me por piedade. Se alguma vez fores à beira Lima, não faças juras fataes sobre as aguas correntes. Naquelle rio escondem-se terríveis segredos, e lá anda pelo norte, espalhado em certos olhares, esse algo subtil que não provem do ceo.

Por piedade, sobre as aguas correntes não faças juras fataes!

Fonte: Conde de Bertiandos, O Galgo Preto, in Lendas, 1898 | Imagem

 

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