LENDA – coisas que devem ser lidas!

 

[Do lat. legenda, “coisas que devem ser lidas”.]

Originalmente, a palavra [lenda] designava histórias de santos, mas o sentido estendeu-se para significar uma história ou tradição oriunda de tempos imemoriais e popularmente aceite como verdade. É aplicada hodiernamente a histórias fantasiosas ligadas a pessoas verdadeiras, acontecimentos ou lugares. Lenda e mito são relacionados, mas a lenda tem menos a ver com o sobrenatural.

A lenda frequentemente diz respeito a personagens famosas, populares, revolucionárias, santas, que vivem na imaginação popular. A lenda é sustentada oralmente, cantada em versos tradicionais ou em baladas, e posteriormente escrita. A literatura de cordel inclui muitas histórias lendárias em torno de figuras populares ou da vida política. Na lenda, facto e fantasia são interligados.

Nos folclores português e brasileiro, a lenda ocupa lugar de destaque. Alexandre Herculano deu-nos uma obra clássica no género na literatura portuguesa: Lendas e Narrativas (1851) – um conjunto de narrativas que pretendem representar o “velho Portugal”: “A Dama Pé-de-cabra”, “O Bispo Negro”, “A Morte do Lidador”, “O Castelo de Faria”, e outras. No Brasil, Luís da Câmara Cascudo oferece-nos um reportório folclórico: Lendas Brasileiras.

André Jolles (1976) refere que a legenda cristã (vida de santos) apresenta um todo bem delineado e conservou essa forma desde os primeiros séculos da nossa era até dias de hoje. Houve época em que ela é quase a única leitura existente. Assim, durante a Idade Média, exerceram grande influência sobre as artes plásticas e a literatura a Acta martyrum ou Acta sanctorum e a Legenda sanctorum ou Legenda aurea, regista Jolles (onde a palavra “legenda” aparece pela primeira vez), da autoria do bispo italiano Jacobus de Varazzo, obra do século XIII.

Outra referência importante é a Acta sanctorum ou Acta dos Bolandistas (inacabada, pois o nome dos santos podem ser sempre acrescentados). Os dois tomos dedicados ao mês de Janeiro são da autoria de Johannes Bollandus e foram publicados em 1643.

Em 1902, a edição completa atingia 63 volumes. Jolles descreve o processo de beatificação de um santo. A sua virtude faz dele um modelo imitável (passível de imitatio); e sempre que o acontecimento adquire certa configuração e a sua diversidade é apreendida pela linguagem nos seus elementos primordiais, passa e possa ao mesmo tempo querer dizer e significar o ser e o acontecimento, deu-se o nascimento de uma forma simples.

Jolles define: “Legenda é, em primeiro lugar e muito simplesmente, a disposição bem definida dos gestos no interior de um campo.” Explica ainda que legenda é um plural neutro que significa “coisas a dizer” (como vimos) e evoca uma actividade quase ritual; as vidas de santo são lidas pública e solenemente em ocasiões determinadas e para edificação pessoal. No trânsito ou retirada de um elemento de uma determinada disposição mental e da forma que lhe corresponde, para outro universo, a forma perde a sua validade.

Em síntese: “sob o impulso de uma disposição mental, a língua denomina, produz, cria e significa uma figura derivada da vida real e que intervém, a cada instante, nessa vida real.” Ao santo deve corresponder o anti-santo, à legenda, anti-legenda. Por exemplo, O Judeu Errante ou o Doutor Fausto. Segundo Jolles, a lenda perdeu a sua vitalidade universal em momento que coincidiu no final da Idade Média.

Teófilo Braga (1885, citado da ed. de 1986), no vol.II, escreve: “quer o conto se tome como uma realidade acontecida, quer a presente realidade se identifique num tipo novelesco conhecido, essa elaboração popular constitui a criação poética da lenda, donde resultou a fixação da história, como se vê na relação dos Logografos para com Heródoto.”
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Algumas Lendas de Portugal

Lenda da Senhora do Picão | Miranda do Douro
No sítio do Picão situado a quatro quilómetros da Póvoa e a dois do Santuário do Naso, nos finais do séc. XIX e início do séc. XX, na aldeia da Póvoa, concelho de Miranda do Douro [Trás-os-Montes e Alto Douro], algo de milagroso aconteceu a uma menina de nome Mariana dos Ramos João. Continuar a ler

 

Lenda do Naso | Miranda do Douro
A Capela de Nossa Senhora do Naso é um pólo de atracção principalmente em dia de romaria. Embora à volta desta capela se tenham, recentemente, construído algumas outras capelas, reza a lenda que ela foi edificada por um casal mirandês. Continuar a ler

 

A Povoação de Agarez | Lendas de Portugal
Relacionada com a Serra do Alvão, cenário das lendas O Calhau do Encanto e As Picaretas de Oiro, existe uma outra que se refere à origem, nome e actividade dos habitantes de Agarez. Agarez é uma risonha e soalheira aldeia, alcandorada nas faldas da Serra do Alvão, a oito quilómetros, aproximadamente, de Vila Real. Foi notável pelo artesanato do linho que os seus moradores cultivavam, teciam e bordavam primorosamente.  Continuar a ler

 

O Calhau do Encanto | Lendas de Portugal
A Serra do Alvão, com os seus ciclópicos penedos e ravinas alcantiladas, vestida de branco no Inverno e de verde no Verão, com ar severo e misterioso, era ambiente propício para excitar a imaginação dos que por lá andavam a ganhar o pão ou por lá passavam, a caminho de Vila Real. Não admira, pois, que, à sua volta, as lendas surgissem, com toda a naturalidade. Continuar a ler

 

Lenda do Vale da Crima | Martinela – Leiria
O Vale da Crima surge-nos como curiosidade, ao fazermos o levantamento toponímico da freguesia do Arrabal. Este local verdejante que se situa a sudoeste da Martinela, acompanhado na sua extensão por altas rochas lajeadas fazendo lembrar um mini lapedo, aparece associado às invasões francesas, segundo depoimentos colhidos junto das pessoas mais idosas da região. Continuar a ler

 

Lenda da Cabração | Cabração – Ponte de Lima
«Após o recontro no Rêgo do Azar, quiz D. Afonso Henriques voltear pelas montanhas próximas, caçando ursos e javalis. Convidou alguns poucos ricos-homens e infanções. Quando estavam no sítio que hoje se chama Cabração, apareceu muito açodado o Capelão das freiras de Vitorino das Donas, que à frente de moços com cestos pesados andava desde manhã à busca do real monteador, com um banquete mandado do Mosteiro. Em boa hora vinha a refeição. Continuar a ler

 

Lenda do Galgo Preto | Ponte de Lima – Minho
Se alguma vez passares ao anoitecer na ponte que dá o nome á encantadora villa do Lima, talvez enxergues uma sombra dando reviravoltas no areal, aproximando-se do rio, parecendo beber com sofreguidão, quedar-se a olhar atonita para a corrente das águas, e depois caminhar vagarosa e cabisbaixa para os lados de Vianna, até desaparecer de todo. Continuar a ler

 

Lenda do Rio Lima – Rio Lethes | Ponte de Lima
“Comandadas por Décios Junos Brutos, as hostes romanas atingiram a margem esquerda do Lima no ano 135 aC. A beleza do lugar as fez julgarem-se perante o lendário rio Lethes, que apagava todas as lembranças da memória de quem o atravessasse, os soldados negaram-se a atravessá-lo. Então, empunhando o estandarte das águias de Roma o comandante chamou da outra margem a cada soldado pelo seu nome. Assim lhes provou não ser esse o rio do esquecimento.” Continuar a ler