Gastronomia tradicional do distrito de Vila Real

“(…) à trindade tradicional do reino: os presuntos, as alheiras, os salpicões.
Por alturas do Natal, começa a matança. Ao romper da manhã,
a paz de cada povoado é subitamente alarmada. Um grito esfaqueado irrompe do silêncio.
Dias depois desmancha-se a bizarma, e um pálio de fumeiro cobre a lareira.

Quem não comeu ainda desses manjares ensacados, prove…”
(Miguel Torga, in Portugal)

Apesar do distrito de Vila Real ser constituído por zonas, tão distintas entre si, como

as Terras de Basto,

o Barroso,

o Alto Tâmega,

o Douro,

Trás-os-Montes, etc.,

a gastronomia é sempre substancial, na directa proporção com a altura das serras, a largueza de horizontes e a dureza das fainas agrícolas.

O facto do esforço físico despendido pelos trabalhadores agrícolas exigir mais alimento do que o esforço intelectual, aliado ao conhecimento, de «experiência feito», de que o “ar do campo – particularmente o da montanha – abre o apetite”, justifica bem que existam por toda a Região os “pratos de resistência”, magníficos na quantidade, na variedade e na qualidade dos seus ingredientes.

Gastronomia no distrito de Vila Real – cozinha antiga a sábia

É, sem dúvida, uma cozinha antiga e sábia, temperada a preceito, substancial, completa e saudável, que aumenta as saudades da Região a quem, algum dia, teve o privilégio de a experimentar.

As «Carnes», os «Peixes», os «Enchidos» caseiros acompanhados com Pão de Centeio ou Broa de Milho, a que, forçosamente, se devem seguir os bolos, os pastéis e os doces de travessa (herança de antigas tradições conventuais).

Estes manjares exigem vinhos adequados e que não desmereçam: desde os frescos Vinhos Verdes e os sólidos Vinhos de Mesa do Douro, passando pelos refrescantes Rosés, pelo aromático Moscatel de Favaios, pela Jeropiga de Valpaços ou de Chaves.

Para terminar nos Vinhos Finos ou Generosos da Região do Douro (verdadeiras “jóias da coroa” que do Porto apenas têm o nome).

Delícias de montes e vales1

Uma das necessidades básicas do Homem é comer, e quando o faz com arte e engenho, fá-lo da forma mais perfeita, conquistando um lugar de destaque nos marcos da cultura.

A geografia e as condições de vida são determinantes nos costumes e práticas culturais transmontanas.

Os hábitos alimentares são marcados pelo isolamento a que, durante séculos, Trás-os-Montes se viu confinado, sustentado na inexistência ou precariedade de vias de comunicação, e em duas imponentes barreiras naturais, de respeito – a Serra do Marão e o Rio Douro, outrora tumultuoso, além da zona igualmente montanhosa, ou de relevo acidentado, do nordeste do distrito.

Os transmontanos não renegaram a terra, respeitaram-na e souberam moldar as agruras que a definem, às necessidades mais prementes do seu quotidiano, e da sua condição humana.

Assim, de toda a dureza de uma terra, conseguiram, com um esforço hercúleo, fazer brotar dela o alimento, tão rústico quanto saboroso e mesmo saudável.

Começa -se pelo porco

Logo a encimar a arte gastronómica surge o porco, onde cada pedaço é aproveitado, e com a sua expressão mais nobre no Fumeiro, sendo o presunto e os enchidos componente ou complemento habituais, em qualquer ponto ou lugar do distrito.