Folclore e o movimento da Terra | Opinião

Os usos e costumes foram levados mundo fora

As caravelas que levaram os portugueses aos cinco continentes levaram também consigo os nossos usos e costumes, as tradições das nossas gentes, ou não seriam grande parte dos marinheiros que integraram as respectivas guarnições gente simples e humilde do povo.

Não admira, pois, que encontremos encontremos, entre gente distante, inúmeros vestígios do nosso folclore, como sucede em Goa, na Malásia e em algumas ilhas da Indonésia.

Afinal de contas, o sarapatel goês não é mais do que a influência do nosso sarapatel na cozinha tradicional indiana, resultado da combinação das carnes de porco utilizadas na cozinha tradicional portuguesa com as especiarias que então procurávamos na Índia.

Da mesma forma que encontramos surpreendentes semelhanças entre o famoso cozido à portuguesa com todas as suas variantes regionais em relação à tradicional cachupa rica de Cabo Verde.

Também em São Tomé e Príncipe verificamos a representação ao ar livre de um auto popular, em quase tudo semelhante ao “auto dos turcos” ou “Turquia” que o povo representa nalgumas localidades portuguesas como Lamego ou São João da Ribeira, em Ponte de Lima.

Uma das funções dos grupos de folclore

Em síntese, o folclore de um povo constitui uma realidade dinâmica que evolui com a própria sociedade e interage com outras culturas diferenciadas sempre que existe contacto entre os povos, o mesmo é dizer encontro de culturas em tempo e circunstâncias que o permitam.

Os grupos folclóricos constituídos enquanto tal, quero dizer de forma organizada e não como manifestação espontânea do povo no seu quotidiano, não constitui a essência do folclore mas desempenham a função importante de preservar a memória colectiva através da representação, devendo por conseguinte serem incentivados a investigar e aprofundar as nossas raízes culturais de modo a cumprirem o melhor possível a missão para a qual foram criados.

De igual modo, importa não esquecer o carácter dinâmico do folclore e da própria sociedade, compreendendo nomeadamente os fenómenos migratórios cada vez mais acentuados, constituindo aliás um dos grandes flagelos humanos nas sociedades modernas.

A ideia de que só nas respectivas regiões de origem se devem reconhecer enquanto tal os grupos folclóricos, rejeitando-se nomeadamente aqueles que foram constituídos no seio das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, corresponde a um conceito imobilista em certa medida semelhante àquele que ia levando Galileu à condenação por ter ousado afirmar que a Terra move-se.

E, contudo, ela move-se!

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História |Imagem: O Galo de Prata, o Símbolo de Monsanto. As comemorações do cinquentenário do concurso (1988). Foto: António Filino de Almeida