Sobre “Etnografia da Beira” de Jaime Lopes Dias

Etnografia da Beira - Jorge Dias

Introdução

À memória da minha mãe

Desde as mais remotas idades que o homem procura conhecer o que o cerca.

Deste sentimento de curiosidade nasceu o conhecimento simplista; do conhecimento simplista o conhecimento reflectido, a indagação das causas produtoras dos fenómenos em sua forma e finalidade.

Surgiram assim as ciências; primeiro as matemáticas, a história, a arqueologia, etc.; mais tarde a sociologia e a etnologia, seguindo-se desde logo, a Etnografia, para o estudo dos povos e das famílias, nos seus costumes, aptidões, génios e crenças.

E por isso, dada a sua importância, dado o seu indiscutível valor histórico, sentimental e prático, ela atingiu, em curto prazo, lugar de relevo.

É que, pela Etnografia, deviam descobrir-se indústrias e artes ignoradas, processos rotineiros de labor industrial, artístico e agrícola a que as estâncias oficiais têm podido pôr termo enviando às diversas regiões técnicos especializados a ensinarem processos novos de maior utilidade e rendimento

Pela Etnografia têm-se desencantado, em lugarejos ignorados e inacessíveis, velhas curandices ligadas a tantos outros processos anacrónicos de curar doenças, a que muitas vezes não falta o uso nocivo de mezinhas.

Em consequência dos estudos etnográficos têm podido, o legislador, o político e o sociólogo, aproveitar as virtudes que eles revelam, combater defeitos e, enfim, dirigir ou educar e não contrariar tendências naturais de reconhecida utilidade.

Na Etnografia, estudo dos costumes, encontra o juiz precioso elemento de colaboração para a aplicação das penas, e, quantas vezes, por disposição da própria lei, aplica o costume como se lei fosse!

A Etnografia e os educadores

Na Etnografia encontram os educadores maravilhosos elementos para a educação das crianças, porque Ela lhes vai descobrindo e fornecendo velhos contos, velhos jogos, velhas lendas, quantas vezes repassadas de sentimento patriótico e de sãos princípios morais!

Mas, a civilização progride e ameaça tudo transformar. Não é preciso ser muito velho para notar grandes mudanças etnográficas. Diz, e muito bem, com a sua indiscutível autoridade de mestre, o sábio dr. Leite de Vasconcellos: «quem, vivendo hoje, nasceu nos meados do século XIX, lidou com patacos, cruzados e peças, viu a liteira, ouviu a sanfona – nada disso existe já hoje!».

Dez, vinte, cinquenta anos bastam para fazer esquecer ou transformar, adulterando-os, costumes velhos, usanças antigas.

Tem-se dito e repetido que é preciso e urgente recolher e guardar com cuidado e com carinho o que ainda nos resta, para que nem tudo se perca.

O presente volume de «Etnografia da Beira» não é mais que a minha quota parte de trabalho e de investigação referente ao distrito de Castelo Branco.

Possível é que às páginas que vão seguir-se outras se sucedam.

Oxalá os meus conterrâneos queiram continuar a dispensar-me o seu auxílio e o seu incitamento.

Jaime Lopes Dias

Fonte: Etnografia da Beira, de Jaime Lopes Dias (textos editados e adaptados)

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