Elementos para uma Carta Coreográfica de Portugal
Danças populares das Beiras ao Algarve
Beira Alta
A maior parte das danças da Beira Alta são «danças de roda», quer aos pares, quer de mão dada: a Carqueijinha, o Cravo Roxo, a Carolina, a Pastorinha, o Ó Redondo, o Ó Redondinha, a Lavadeira, a Laranja da China, o Bate as Palmas, a Dobadoira, o Mulato da China, o Ai quem me Acode, etc.
Na região encontram-se ainda danças com complicada coreografia: a Farrapeira (que é uma chula), a Retaxeira, o Tareio, a Moda do Indo Eu (que é uma brincadeira ou jogo bailado) e a tão teatral O Frade Capucho.
Beira Litoral
Pela sua extensão e diversidade de modos de vida das suas populações (as quais apresentam várias mas diferentes características: serranas, piscatórias, influência burguesa de Coimbra, pastoris, simultaneamente rurais e marítimas) a Beira Litoral é, do ponto de vista coreográfico, uma província muito complexa e variada recebendo as suas danças influências de áreas e regiões etnográficas das províncias e concelhos limítrofes.
Principais danças: a Farrapeirinha, a Farrapeira, o Regadinho, a Ramaldeira, a Ribaldeira, a Tirana, o Estalado, o Lambão, o Real das Canas, o Vira Valseado (Moldes, Arouca), o Vira de Cruz (Moldes-Arouca), a Cana Verde de Oito (Moldes-Arouca), o Malhão, a Tirana, a Ciranda, a Carrasquinha, a Cana Verde, a Moda Nova, o Senhor de Pedra, o Verde-Gaio, o Vira (em várias modalidades: Vira Flor, Vira Travado, Vira de Treme, Vira Roubado, Vira de Roda, Vira Pulado, Vira Serrado, Vira Valseado, Vira Vareiro (com «marcador»).
Beira Baixa
«Modas de romaria» ou «danças de romaria» são as principais danças da Beira Baixa. Com vários nomes mas com o mesmo ritmo musical e pouca diferença coreográfica entre si, as «modas de romaria» diferem umas das outras sobretudo nas suas melodias.
Entre outras danças destacam-se: o Tareio e a Moda do Indo Eu, esta sempre com o seu aspecto de brincadeira ou jogo coreográfico. Em Escalhão baila-se uma Gota, de leve sabor espanholado, que parece ser uma dança raiana popularizada na Beira Baixa.
Nesta província, de belíssimo e muito antigo folclore musical na sua expressão vocal, encontramos ainda algumas danças arcaicas que possivelmente serão reminiscências de danças rituais, religiosas ou guerreiras: a Mourisca, a Dança da Tranca (de Silvares, que é um fandango), a Dança das Trancas (de Verdelhos, possível reminiscência de uma dança de trabalho), a Dança da Genébres (Lousa).
Estremadura
Apesar de na Estremadura se situar Lisboa, a capital, que, de certo modo, influencia toda esta província, ainda a sua música e as suas danças apresentam aspectos muito arcaicos e declaradamente rurais, a par de, em determinadas áreas, serem evidentes as influências quer da Beira Litoral quer do Ribatejo.
Principais danças: a Ramaldeira, a Ramadeira, o Enleio, a Carreirinha, o Chicote, os Reinadios, alguns Viras (da Beira Litoral), algumas Saias (do Alto Alentejo), o Verde-Gaio, a Ciranda, a Xotiça, o Passo-a-Quatro, a Machadinha, o Fandango e o Bailarico que, embora bailado em toda a Estremadura, tem a sua melhor expressão na região saloia.
Ribatejo
Fandangos, Bailes de Roda e Viras (de várias modalidades) são, com danças ao ritmo de valsa, de polca e de mazurca, o aspecto coreográfico mais característico do Ribatejo onde também ainda se baila: a Farrapeira, o Enleio («moda nova» à maneira das saias), a Chotiça com Marcador, a Moda dos Dois Passos, o Verde Gaio, o Corridinho, o Fadinho (um fado corrido), etc..
Danças a que o ribatejano imprime um forte cunho pessoal, evidente no acelerado ritmo, no acelerado rodopiar dos pares e nos característicos passos de «sapateado» e «escovinha».
Com forte influência da Lisboa burguesa e fidalga do século passado, as danças ribatejanas recorrem muito aos ritmos das danças estrangeiras de salão outrora em voga: a Salteada é uma valsa de ritmo acelerado, a Moda de Roda é uma polca e a Moda dos Dois Passos é uma mazurca.
Alto Alentejo
Talvez a mais pobre e menos original região coreográfica do país mas musicalmente uma das mais ricas, o Alto Alentejo tem, no distrito de Portalegre, uma das mais belas e características danças populares portuguesas: as Saias.
A par destas, no Alto Alentejo ainda se baila: o Salto em Bico, os Bailhos Campaniços, os vários Balhos de Roda, o Puladinho, os Balhos de Cadeia, o Fandango e até o Vira. Quase caiu em desuso a Dança do Mastro.
Baixo Alentejo
Balhos de Cadeia e Balhos de Roda são as principais modalidades coreográficas desta província, algo pobre de danças e tão rica de música coral.
Apesar disso ainda nela deparamos com algumas outras danças de sabor e prática locais: o Marcadinho, o Puladinho, o Tope, a Redondinha, o Chegadinho e as Seguidilhas (dança raiana espanhola popularizada em Barrancos).
Há muito que desapareceram algumas «danças religiosas» que outrora se bailaram no Baixo Alentejo onde, contudo, ainda as pessoas mais idosas recordam o Maquinéu, os Pinhões, o Fandango, os Escalhavardos, o Sarilho, o Fogo del Fuzil ― danças outrora bailadas na margem esquerda do Guadiana e hoje caídas em desuso ― e as de meia-idade são capazes ainda de bailar o Seu Pézinho e as belíssimas Danças de Amor (bailes de roda, ao meio e aos pares)
Algarve
Embora o Corridinho, os Bailes Mandados e os Bailes de Roda sejam as mais características e praticadas danças algarvias, existem no Algarve muitas outras danças locais ou popularizadas (mas a que o algarvio imprimiu o forte cunho do seu temperamento) ainda hoje em uso: o Balso Marcado ou Balso Rasteiro (que é uma valsa amazurcada), o Regadinho (em forma de quadrilha), o Balso Pulado (que é uma polca), a Contradança, o Bailarico.
Na categoria de «bailes de roda» há inúmeras danças, tais como a famosa Tia Anica de Loulé, a Amendoeira, a Libra, o Papelinho e tantas mais.
Do «corridinho» (que na sua estrutura é um «fado corrido» que no século passado, no seu aspecto de dança, tomou o ritmo de polca – amazurcada) existem ainda, no interior da província, alguns espécimes bastante antigos.
In “Danças Populares Portuguesas“- Biblioteca Breve (Série Artes Visuais) Tomaz Ribas



