É tempo de vindimas em Joanicas, Cartaxo (1916)

Tempo de vindimas em Joanicas

Já o sol do outono vai desnudando as vinhas; desprendem-se dos pâmpanos as parras amarelecidas, escarlates; os cachos de uvas doiram-se, perfumam-se.

Principiam as vindimas.

Estamos no Ribatejo. Uns passeios de algumas léguas em volta do Cartaxo mostram a riqueza e fartura da região.

A vinha sobressai de toda a paisagem, mas dentre ela depara-se, aqui uma horta, ali um pomar, mais adiante um olival, uma campina que foi seara.

Com esta variedade de cultura há recantos que parecem um jardim.

Atravessamos lindas aldeias, aconchegadas num delicioso afago de sombra, afestoadas pela moldura verde-negra duns pinheiros tristes, pensativos, que põem uma nota de poesia e de recolhido silêncio em todo o campo.

Há nesgas de paisagem que são o enlevo do espírito, conforto rara uma alma sofredora, refúgio apetecido para o recordar de uma saudade…

A curva deliciosa dum carreiro desenha um branco fio de luz nos socalcos duma colina. Dela vem agora o rumor dum indeciso sussurro.

Divisa-se numa das suas voltas um rancho de camponeses.

É a «malta», raparigas e ganhões contratados para a faina da vindima.

Uns são do Casal do Ouro, outros do Casal de Além, do Casal da Charneca.

Vão a caminho de várias herdades; uns para a quinta de Cima, outros para Joanicas.

Estes, dentro em pouco, passam na estrada, junto de nós, numa tagarelice moça, passo firme, ligeiro, rosto alegre, sadio, olhar sincero, contemplativo, voz sonora, cantante:

Bom dia, nos dê Deus!…

O sol ergue-se rubro, ofegante de luz e de vida, na fímbria dourada dum cabeço.

Pelo ar esgaça-se, preguiçoso, o tilintar dos chocalhos dum rebanho, retouçando no mato… e um voo de aves corta o espaço, num murmúrio amoroso, como se fosse resposta à saudação dos camponeses:

Bons dias!… Bons dias!…

Como são as vindimas?

É o ruflar de asas dum bando de perdizes, saindo debaixo das trovisqueiras.

Avista-se Joanicas. Detemo-nos. Vamos assistir às suas vindimas.

Começou a tarefa.

Enquanto o sol não aperta mais, o trabalho faz-se ligeiro. Mulheres e homens mourejam com afã e alegria, no corte dos cachos, limpando-os dos bagos verdes ou podres, tirando-lhes o resto de alguma parra murcha, entranhada no fruto.

Mãos semi-tintas do perfumado e doce sumo da uva lançando dezenas de cachos em cestas, que por seu turno, esvaziadas duas, três, quatro vezes, enchem os cestos vindimos.

Já um formigueiro de vindimadores trepam os carreiros, conduzindo a uva para as dornas colocadas sobre os carros de bois, para estes as levarem ao lagar.

A chuva de fim de Setembro fez fundir a uva, isto é, aumentou-lhe a quantidade de sumo; a pisa dará mais mosto, e este produzirá mais número de pipas de vinho.

Contudo, mesmo sem esse benefício, pode dizer-se que a colheita deste ano é abundante, recompensando bem o trabalho e as despesas do lavrador.

De tal benefício não poderá talvez compartilhar o consumidor, porque…

Porque há- de ser?! …

Porque a guerra continua, e, por isso, toda a abundância de géneros é sempre mesquinha para as necessidades do momento atual.

Assim, o povo continuará a pagar caro a sua pinguinha de vinho!…

Entretanto, por toda a vinha continua esvoaçando a alegria própria da faina da vindima.

A boca gulosa das raparigas só se emudece da tagarelice para provar os bagos mais douradinhos, mais de apetecer.

A prova aguça o apetite. A uva é magnífica, perfumada, doce melosa, e da prova passa-se ao gozo de comer duas, quatro, seis cacheiras, das maiores.

Vinhas do Ribatejo

As vinhas do Ribatejo são extensas; os donos são liberais, e a falta duma dúzia de cestos não empobrece o lagar.

O terreno é fértil. Vemos cepas a produzir, com um ano de enxertia; outras, soberbas, no seu primeiro ano de talão.

Na idade, são o contraste da cepa de Almoster, onde a fomos fotografar, numa devoção de alma pelos seus 290 anos de existência.

A cepa de Almoster. Duzentos e noventa anos de vida!

… Já os dedos das vindimadoras se enegrecem das nódoas rubras do sumo do fruto, e os lábios de cada uma, já de si carminados, mais e mais se retingem da cor sanguínea do líquido apetecido.

A ardência do sol morde o rosto afogueado das camponesas, cresta-lhes a pele. O peito anseia-lhes.

Um companheiro de tarefa, rendido de amores, sob a luz duns olhos negros, dirige à sua conversada palavras de intencional depreciação da sua formosura.

Ouve-se, então, o remoque duma conhecida trova, perpassando magoada:

Chamaste-me trigueirinha,
Eu não me escandalizei;
Trigueirinha é a pimenta,
E vai à mesa do rei!

Queda-se toda a falácia dos vindimadores, para só se sentir, fresca, perfumada, subindo pelo espaço, a voz cantante e amorosa da camponesa.

Sugestão: «Cancioneiro da Serra d’Arga» – Quadras de Amor

Trabalho e amor! Eis a divisa que regula a existência serena e feliz do rude camponês.

Trabalho e amor! É o divino perfume de vida que envolve, instante a instante, numa bênção de paz, cada lar, cada aldeia da nossa terra querida.

E não há trabalho, não há canseira que intimide, que faça desanimar e enfraquecer a energia do homem do campo.

Quanto trabalha o camponês?

Ele não conta, como nós, as horas, o tempo que dura a tarefa do seu labor.

O trabalhador rural nunca soube o que era trabalhar oito, dez horas, por dia! Começa trabalhando ao romper da madrugada, «despega-se» do trabalho, ao pôr-do-sol.

O sol é o seu único relógio! Só ele lhe marca o tempo e a extensão do trabalho.

No decorrer da vindima assim o observamos:

O Mateus e o Nicolau, dois dos vindimadores, sorriram-se na nossa presença e na do proprietário de Joanicas, o nosso amigo Luiz Leite de Sousa e Noronha, ao observar-lhes que era meio-dia oficial, hora de jantar.

À hora do jantar

“- Não serve para a gente essa coisa das horas adiantadas… Olhe o patrão para o sol! Qual meio-dia, qual forca… Pouco passa das dez e meia! Meio-dia?!… Onde vem ele ainda!… Daqui até lá, muita sede de água havemos ter!…”

O sol queimava! Às gargantas ressequidas das vindimadeiras já não apetecia a uva.

Da fonte, de cântaro à cabeça, vem uma camponesa, para fornecer a cada companheira água fresquinha, saborosa.

A essa hora, era para contemplar, com enternecimento a opulência da vinha.

Despedimo-nos da vindima.

Sugestão: Sobre as vindimas e o vinho no início do séc. XX

Atravessamos milhares de videiras.

Ramadas de parras pareciam sentir connosco a mágoa da saudade em as deixarmos; roçavam-nos pelo peito, pelos ombros, no afago dum abraço, como a soluçar um adeus!

António M. Lopes

Condução da uva para o lagar

 

O lavrador e a sua família

 

Vida doméstica no tempo das vindimas. Preparo das passas

 

No fim da vindima

 

Água para os vindimeiros

Fonte: “Ilustração Portuguesa” – nº556, 1916 (texto editado e adaptado) | Clichés do autor | Imagem de destaque: “A vindima em Joanicas (Cartaxo)