É hora das vindimas em terras ribatejanas (1911)

Vindimas no Ribatejo (1911)

Chega Setembro; veem as vindimas.

Acabaram de amadurecer as uvas pelas vinhas, não há lavrador que deixe de as espreitar desde os meados de Agosto e de ajoelhar ao pé dos grandes cachos, sopesando-os com um bom sorriso:

– Assim ele vingue que nunca por cá se viu outro…

É sempre assim um cacho de maravilha que vai fazer abrir a boca aos vindimadores já de dentes gastos e a quem eles nasceram no ofício e dar que falar léguas em redondo, talvez até que nas gazetas [jornais].

Vai-se aproximando o tempo dele amadurecer; há extensões de uva negra, luzidia, que a poeira do campo mal empana, outros de bagos loiros sob as folhas loiras.

Já se contrataram ganhões e vindimadores e do nascer do sol ao seu declinar por detrás dos montes, eles andarão cantando entre a vinha, tingindo as mãos no sumo dos cachos que se esborracham e que se vão colhendo alegremente.

São muitas as mulheres, lindas raparigas de trajos garridos e leves, arremangadas, saias curtas, pé e perna, entre a folhagem umas debruçadas outras ao alto, colhendo ou ajudando a carregar os cestos que vão depois aos ombros, num carreiro de formigas pelo branco dos atalhos até aos carros onde as dornas altas já os esperam.

Os bois pachorrentos, cor de cobre, lambendo-se na soalheira ou sacudindo o moscardo com a borla da cauda estão atrelados; ao sentirem junto deles a ferroada, o boieiro espera; no topo do carro um homem vai despejando o cesto para a dorna e toca a caminho do lagar onde se pisará a uva.

As mulheres cantam enquanto trabalham

Vindimadoras

Elas entre as folhas vão enchendo sempre os cestos, vão cortando, parando uma cantiga para darem uma resposta ou submetem-se esmagadas pela calma quando a soalheira aperta e não há água que refresque os obreiros que colhem a matéria-prima do vinho.

Ao raiar das manhãs marcha-se com alegria; dormiu-se um demorado sono na palha da arribana ou ainda ao ar livre se as noites vão quentes.

Até à hora do almoço a faina caminha apressada, as cabeças baixas, os lenços garridos saindo dentre a folhagem; depois lá vem um alto, um momento em que una ou outra responde no desafio dum sabido mote mas depois, no decorrer do dia, suando em bica, elas são bem como escravas, a pele a tisnar-se, as costas a arder nas frechas do sol, todo o corpo a derrancar-se numa ansiedade louca de que chegue a sesta ou um momento de descanso, mesmo ali à sombra das cepas, nas terras, onde as árvores ficam ao longe para não ensombrarem os bagos que sem a mordedura do sol não retingem, não enlourecem.

O melhor bocado é à tarde, quando refresca.

Então volta a alegria e da vindima festa pagã, alguma coisa parece ter ficado.

Para as povoações miseráveis a sega e a vindima são fortunas. Os corações de segadores e vindimadores batem durante todo o ano na esperança de que a colheita seja farta.

Quanto mais houver para segar em pão ou para vindimar em cachos mais dinheiro eles ganharão e mais fartura terão nos lares.

Este ano a colheita deve ser boa.

Vindimas no Ribatejo campos torrejanos

Já por esse Ribatejo e campos torrejanos andam as mulheres vindimando; já se alegram as campinas pelas tardes com as suas canções que durarão muito, que se vão ouvir até mesmo quando o inverno chegar porque lá diz o provérbio que até ao lavar dos cestos é vindima.

Toda aquela uva colhida segue nas dornas para o fabrico.

Nuns sítios onde ainda não há engenhos e onde não estão preparados à moderna os aparelhos, o vinho fabrica-se como nas antigas eras.

Homens robustos, meios nús, entram no lagar e vão pisando, como bois numa eira fazem a debulha, os cachos que se despejam dos cestos para os lagares e eles nos momentos de descanso, sarapintados os braços, tintas as pernas, salpicados os rostos, evocam sem querer os faunos das festas báquicas para o que lhes falta apenas os pâmpanos.

Mas os processos modernos mataram tudo isso: ou a engaçadeira ou o engenho.

Deste modo, a labuta do vinho perdendo em pitoresco ganhou em ligeireza porque muito mais facilmente se fabrica.

Depois, é esperar que ele ferva no seu mosto, e aguardar o São Martinho, em que os campónios que andaram na tarefa já provam o vinho novo e dançam em sua honra com as belas e sãs vindimadoras.

J.C.

Uma ajuda ao cesto das uvas

 

Na vindima

 

Os melhores cachos

 

O despejar os cestos vindimos

 

Enchendo a dorna

 

Ao pisar da uva

 

O transporte do vinho

Fonte: “Ilustração Portuguesa”, nº291 – 1911 (texto editado e adaptado) | Clichés de Benoliel