Há Grupos que dizem “representar” o século XIX…

Existem Grupos de Folclore que “representam” o século XX quando afirmam representar o Folclore do final do século XIX

Em geral, todos os grupos folclóricos afirmam representar os usos e costumes das gentes da sua região a um tempo que remonta aos finais do século XIX.

Porém, na realidade, poucos são os que realmente o fazem.

Sucede que a sua maioria inclui elementos temporalmente mais próximos de nós, nomeadamente no traje, na música, nas coreografias das danças e até os instrumentos musicais que utilizam são de origem bem mais recente.

Por conseguinte, esses grupos representam já uma época situada algures em meados do século XX, na qual tais costumes há muito haviam desaparecido do quotidiano do povo para serem transformados em cartaz de turismo ou, quando muito, em peça de museu a evocar vivências de um tempo que não volta mais.

Os trajes

O traje adquiriu novas formas por vezes mais estilizadas e perderam o aspecto sóbrio que originalmente o caracterizava.

Passou a incluir botões e outros acessórios de plástico de invenção recente e as saias tornaram-se mais curtas e rodadas de modo a permitir observar a intimidade das moças, algo que seria impensável nos finais do século XIX.

Introduziram toda a sorte de fantasias no vestuário e, quase sempre, o calçado é de fabrico actual.

O chapéu braguês cedeu o lugar ao chapéu à toureiro e as mulheres da Nazaré passaram a vestir mais saias do que as que antes usavam.

Tempos houve que as mulheres usavam franjinha e cabelos curtos e os homens sapatos de verniz.

Músicas e danças

As músicas nem sempre são as originais, mas arranjos feitos ao gosto popular ao tempo do Estado Novo.

E as coreografias frequentemente são inventadas quase ao jeito do teatro de revista. A tal ponto que a mulher algarvia outrora recatada passou a dançar o corridinho de forma assaz atrevida, engalfinhada no seu par.

Quanto aos instrumentos musicais, quase desapareceram a viola beiroa, a braguesa e a campaniça para dar lugar a modelos que não são tradicionais, da mesma forma que o acordeão substituiu a concertina e o harmónio.

Isto para já não falar dos instrumentos improvisados como as sarroncas e os zaquelitraques, as pinhas e os seixos.

Os registos fotográficos e fonográficos

A invenção da fotografia e do registo fonográfico permitiu-nos guardar testemunhos das formas de vivência dos finais do século XIX, constituindo por esse facto uma prova documental que, associado às peças de vestuário e aos testemunhos deixados na imprensa da época e ainda aqueles que foram sendo transmitidos ao longo das gerações mais recentes, dão-nos a possibilidade de reconstituir os seus usos e costumes.

Porém, as alterações que foram, entretanto, feitas acabaram por na maior parte dos casos serem assumidas como genuínas, apenas porque em lugar de investigarem com sentido crítico, os responsáveis dos grupos de folclore limitam-se a reproduzir aquilo que anteriormente foi feito.

E assim se compreende as disputas que frequentemente ocorrem em torno da origem de uma determinada música ou cantiga.

Ninguém com bom senso e sentido da evolução histórica do traje e dos comportamentos sociais pode conceber que, nos finais do século XIX, uma moça pudesse usar saias acima do tornozelo e exibir as suas roupas interiores.

Ou ainda, o homem vestir um casaco ou um colete que não possui qualquer utilidade, apenas porque o seu corte o não permite e apenas se destina a exibir elementos de mera fantasia.

Áreas geo-etnográficas

Outro aspecto que caracteriza muitos grupos folclóricos é o seu carácter híbrido, assim entendido na medida em que procuram representar áreas geo-etnográficas de vasta dimensão, misturando na representação elementos que minimamente não corresponde.

Pese embora as feiras e as romarias terem também servido para aproximar populações de localidades mais ou menos distantes, fazendo-as interagirem do ponto de vista cultural, essa realidade circunscrita a uma época na qual os meios de transporte eram ainda limitados jamais permitiam que tal contacto se exercesse em áreas de dimensão mais vasta, levando um sargaceiro da Apúlia a dançar o picadinho dos Arcos ou um ganhão de Estremoz a dançar uma saia de Portalegre.

Nalguns casos, sobretudo entre as comunidades portuguesas na emigração, este cenário vai ao ponto de colocar um ribatejano a dançar o vira e um minhoto o bailinho da Madeira

Convém saber que muito do que actualmente se apresenta como folclore genuíno não é mais do que estilizações que foram introduzidas ao longo do tempo com o propósito de servir outros objectivos que não a sua preservação.

E, sobretudo, não se deve apresentar como sendo dos finais do século XIX algo que na realidade é de invenção bem mais recente!

A exibição da intimidade seria impensável à mulher dos finais do século XIX.

 

Uma mulher de Barcelos, em 1912.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

A riqueza do passado no presente da Cultura Saloia

Cultura Saloia

“(…). Nós, portugueses, estamos não nas vésperas, mas em plena fase de perdermos toda essa riqueza do passado. Se não corrermos rapidamente a salvar o que resta, seremos amargamente acusados pelos vindouros, pelo crime indesculpável de ter deixado perder o nosso património tradicional, dando mostras de absoluta incúria e ignorância. Se não o fizermos, daqui a duas gerações podemos ser um povo descaracterizado e profundamente pobre… (…)” (Jorge Dias)

Portal do Folclore Português

Permitam-me começar por saudar esta realização, neste território já pertença da Humanidade para abordar o tema da Cultura local, do Folclore e da renovação e reforço do papel dos ranchos etnográficos.

Cultura local, identidade local e memória coletiva constituem o campo folclórico onde interagem os ranchos.

Nada se pode ignorar na perspetiva de que Sintra está num contexto de turismo de elevadas expetativas e a paisagem, as tradições, a gastronomia e tudo o que compõe a imagem que o turista possui, arrastam consigo também implicações para estes especiais agentes e atores culturais, os ranchos etnográficos.

No fundo, estamos a falar de um importante ativo no quadro dos recursos turísticos de uma região.

Também há uma exigência maior dos visitantes, no sentido da compreensão dos lugares visitados e aqui entram os ranchos etnográficos.

Mundo rural em transformação

O processo de ludificação do rural (Baptista, 2004),observáveis na sequência das transformações ocorridas no mundo rural com o declínio da atividade agrícola, veio exigir que se atente à relevância propriamente cultural que vem sendo atribuída ao modo de vida rural, à ruralidade, para a construção de imagens territoriais atrativas.

Poder-se-á dizer que estamos perante uma cultura de paisagem global em redor da agricultura, uma agrocultura (Covas & Covas,2008) dos territórios primários e dos seus atributos mais essenciais, ou seja, uma turistificação do mundo rural, onde é necessário valorizar a identidade sem cair na moda identitária fundamentalista.

É  preciso salientar que os produtos com identidade –  pão saloio, o queijo saloio, o vinho de Bucelas ou Colares – são portadores de atributos fundamentais do território e geram identificação pois são uma imagem genuína desse território.

Não é atrevimento dizer-se que se pode ver ou ler um pedaço de História e cultura local através desses produtos. 

O caldo da cultura é fundamental para este território saloio, Sintra, porque o certifica culturalmente, porque incorporam elementos simbolicamente relevantes e contribuem para a afirmação exterior da região.

O papel dos ranchos

– E onde entram os ranchos?

Na identidade e na autenticidade dos lugares e culturas, no cumprimento dos paradigmas de reconstituição histórica.

O conceito de identidade constrói-se, segundo Duarte e Lima (2005) de quatro princípios básicos: distintividade, continuidade, autoestima e autoeficácia.

Com estes princípios, os ranchos carregam uma elevada carga histórica, sentem orgulho e vivem uma estreita ligação com a Terra. Esta ligação, pela ação dos ranchos, fortalece a coesão social a nível interno e a nível externo, pela noção de autenticidade, abre -se ao turismo.

Mas estejamos atentos que não existem identidades fixas, mas antes processos de identificação, processo móvel.

O património passou a ser uma garantia de autenticidade, embora como refere Urry (2002) o turista saiba e sinta alguma artificialidade, mas continua a procurar o autêntico.

Os ranchos emergem das comunidades em torno de gente conhecedora da história, da música, dos costumes e tradições e  com objetivos de perpetuação e recriação da identidade, neste caso Saloia.

Contudo,  é importante referir que também há espaço para associações que se organizam em torno da designação de ranchos folclóricos mas o que os une é o gosto pela execução musical, canto e dança, porque assim se cria um espaço local de convivialidade intergeracional,  que contraria o afastamento dos destinos laborais e estilos de vida e abre oportunidades de encontro da comunidade.

Portanto, os ranchos folclóricos etnográficos ou simplesmente ranchos folclóricos são instrumentos de animação social local. José Eduardo Janas (1990) refere o seu importante papel ao envolverem a comunidade como expressões ativas de reconstituição de coletividades, afirmações de existência, de recusa de morte social, ou seja, são geradores de vida social.

Estamos num campo de grande importância social.

Diálogo entre realidade

O diálogo entre estas realidades é fundamental para se estimular o interesse pelo saber fazer tradicional, contrariando a inautenticidade de outros.

Ambos são agentes e atores fundamentais no campo folclórico.

Continuando com o mesmo autor, cito “O trabalho etnográfico, para lá da investigação das formas sociais do passado, pode afirmar-se como um trabalho sobre a consciência coletiva do tempo, isto é, sobre o modo como as pessoas pensam o tempo.”

Talvez o trabalho dos grupos folclóricos e etnográficos tenha que se alargar. Não basta a representação no palco, é preciso complementar a informação, pois os comportamentos de hoje não são os comportamentos de ontem, onde o retratado era exatamente esse.

Há que enriquecer e é necessário encontrar as formas adequadas em cada rancho para que um bailarito saloio  tenha mais algo a ensinar do tempo rural, que já não existe – exposições, documentários,  brochuras.

E aqui todos os ranchos podem ser importantes para tornar e criar um produto apetecível cultural e turisticamente, o turismo interno  e externo contribui para que haja benefícios locais.

No fundo, este poderia ser uma verdadeira comemoração da localidade e reflexão sobre a identidade local.

Todos ficaríamos mais ricos. E neste contexto, o papel das autarquias e comissões de festas dariam aos ranchos um espaço de representação e de divulgação com retornos de capital, necessários para a continuidade do trabalho ou da sua existência.

Continuemos com os ranchos folclóricos etnográficos, a sua renovação e credibilização são matéria premente, como já falámos no workshop do dia 16 de novembro.

Participação das novas gerações

O apelo à participação de crianças e jovens-rapazes e raparigas-já é uma estratégia posta em prática por alguns ranchos, mas é fundamental aprofundá-la. Deste investimento depende a passagem do testemunho.

A investigação, o aperfeiçoamento da representação e domínio da história da comunidade, das suas particularidades intrínsecas, carece de registos, de documentos, de imagens comparativas, de verificação do que se fazia e se foi fazendo, o tempo rigoroso a que se refere o registo.

Este trabalho carece da intervenção de novas formas de trabalho e nesse campo, a juventude pode encontrar um importante desempenho. Está nas vossas mãos o registo do património imaterial desta região cultural, que também como já tenho vindo a referir, merece também um carimbo da UNESCO.

Os saloios de Lisboa, as  lavadeiras que enchiam a cidade são um património único a ser registado para  a posteridade. Chianca de Garcia quando retratou Lisboa foi buscar este património.

Mas antes, permitam-me, é preciso a elevação da qualidade da recolha e do respetivo registo e a sua comunicação.

A difusão dos valores culturais coleções e trajos, dos bailes e cantares dos ranchos é imprescindível que ocorra para fora das próprias fronteiras da comunidade para que o fator património se assuma, como algo de valor próprio e único dali.

A pedagogia da educação o é fundamental; o uso da história oral é valioso, por exemplo, na apresentação de uma representação, para se explicar o pormenor da roupa, do alamar no trajo de festa masculino ou da maneira de cruzar o lenço, no trajo da  na mulher de trabalho

O estudo, a formação de quem está no rancho é fundamental para que haja continuidade na vida folclórica etnográfica.

O Folclore na era do disco vinil (tempos que já lá vão!)

O Folclore na era do disco vinil

Com o aparecimento em 1948 do disco de vinil, os antigos discos de 78 rotações que eram utilizados nas velhinhas grafonolas foram guardadas no baú das memórias.

A partir de então, começaram a produzir-se em série de dois formatos: o Long Play (LP) ou seja, de longa duração, com 33 rotações por minuto e o single de 45 rotações.

Porém, pouco mais de três décadas haviam de durar até aparecer no final da década de oitenta do século passado os compact discs, vulgo CD’s, transformando o disco de vinil em peça de museu.

O disco de vinil consiste num disco de plástico que, por meio da ação de um gira-discos, efetua a rotação do disco no sentido dos ponteiros do relógio e conduz a agulha sobre minúsculos sulcos que a fazem vibrar e, de forma mecânica, transformam as vibrações em sinal elétrico e este, uma vez amplificado, é produzido analogicamente em música.

A aproximação do Verão e com ele a época dos espetáculos era sempre antecedida pelo lançamento de um disco – um LP ou, pelo menos um single – que haveria de acompanhar toda a tournée do artista ou agrupamento, fazendo da primeira música do lado A o sucesso da ocasião.

À falta de reportório atualizado, as novas edições recuperavam gravações anteriores a fim de garantir a divulgação dos artistas e as receitas das editoras discográficas.

Algo que não difere substancialmente dos tempos que correm…

A capa dos discos constituía um dos seus principais atrativos, tanto pela qualidade gráfica como ainda pela informação disponibilizada, sobretudo nas capas dos discos de longa-duração (LP’s).

De resto, pela sua apresentação e o próprio circuito de distribuição, o disco de vinil possuía um estatuto diferenciado da cassete de fita magnética.

Grande contributo na divulgação do Folclore

Também o folclore deve ao disco de vinil em grande medida a sua divulgação.

Muitos foram os ranchos folclóricos que à época gravaram o seu disco, exibindo na capa um motivo etnográfico adequado ou a imagem do próprio grupo.

Dependendo naturalmente da importância da etiqueta e da sua capacidade de distribuição, o disco de vinil contribuiu grandemente para o prestígio de muitos grupos folclóricos uma vez que, de certa forma, representava um reconhecimento pelo seu trabalho por parte das editoras discográficas que apostavam na sua comercialização.

Encontramo-nos na era do compact discs (CD) e do Digital Versatile Disc (DVD) que permitem a leitura ótica e uma maior capacidade de armazenamento de ficheiros em formato digital.

O disco de vinil, contudo, ocupa um lugar de destaque na história da divulgação do folclore, com tanto ou maior impacto do que a sua própria atuação ao vivo.

Sem ele, seguramente muitas das nossas músicas tradicionais não teriam ficado no ouvido de muitas pessoas tanto que, salvo honrosas exceções, o folclore português jamais mereceu destaque significativo na programação televisiva e radiofónica.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

Para ver capas de discos em vinil, clique aqui.

O Estado Novo e o Folclore – o dirigismo estatal

O Estado Novo e o Folclore – Reminiscências do dirigismo estatal

O dirigismo cultural é, regra geral, um traço característico de todos os regimes autoritários que procuram, através do seu controlo, veicular uma ideologia e desse modo manipular as consciências.

Constituindo o folclore uma das temáticas preferidas do Romantismo e tendo ajudado a construir a ideia de identidade nacional, não admira pois que o mesmo seja também utilizado como veículo de propaganda.

Toda a gente se recorda dos inúmeros grupos folclóricos oriundos do leste europeu que, há algumas décadas atrás nos visitaram, sempre devidamente acompanhados por representantes estatais dos respectivos países.

Como é evidente, esta utilização do folclore resulta invariavelmente na adulteração do seu carácter original com a introdução intencional de novos padrões estéticos os quais, com o decorrer do tempo, são assimilados ao ponto de passarem a ser considerados genuínos.

Lamentavelmente, o folclore português está repleto de elementos estranhos que deveriam ser expurgados, a maior parte dos quais introduzidos durante o período do Estado Novo.

O dirigismo cultural no Estado Novo

Para a concretização de tal política de dirigismo cultural, o Estado Novo contou com diversos instrumentos, entre os quais um conjunto de instituições e organismos estatais como

– o Ministério da Educação Nacional,

– o Secretariado da Propaganda Nacional,

– a Mocidade Portuguesa,

– a Junta Central das Casas do Povo

– e a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT).

A FNAT foi criada à semelhança da Opera Nazionale Dopolavoro italiana e que viria, após o 25 de Abril de 1974, a dar origem ao actual INATEL. Organizava ainda feiras, exposições e concursos dos quais ficou célebre o que premiou o Monsanto como “a aldeia mais portuguesa de Portugal”.

Através das “casas do povo”, patrocinou-se a criação de ranchos folclóricos.

Entretanto, mudaram-lhes a coreografia e a indumentária. Organizam “concursos de folclore”. De entre eles, elegeram e apadrinharam uns tantos como sendo alegadamente os mais representativos da sua região.

O mesmo foi feito em relação às festas e romarias populares que contribuiu para perderem em grande parte o seu elemento devocional e se transformarem em meros cartazes de propaganda turística, destacando umas em relação às demais.

E, para melhor realizar essa missão, o Estado Novo teve a colaboração de intelectuais de renome como

Armando Leça,

Abel Viana

– e Pedro Homem de Mello,

sob a sábia orientação de António Ferro, ministro da Propaganda do anterior regime.

O folclore tornou-se, desse modo, um objecto de adorno e um instrumento de propaganda susceptível a incorporar as mais incríveis e imaginativas modificações, sobretudo na sua perfomance e nos trajes mas também na música e no próprio cancioneiro.

E elas são tantas que nos escusamos de aqui as enumerar.

Nos últimos tempos…

Nos tempos que correm, o Estado não exerce o controlo da vida cultural, limitando-se em princípio a “estimular, apoiar e promover acções que favoreçam o acesso das pessoas a novas oportunidades culturais bem como ao pluralismo da criação cultural”.

Apesar disso, não parece estar suficientemente sensibilizado para a problemática da defesa e valorização da nossa cultura tradicional, o que faz sobreviver algumas reminiscências do paternalismo do anterior regime nalgumas mentalidade ligadas ao folclore, saudosas do tempo em que auferiam de apoios que agora não existem.

A não ser que se pretenda cercear as liberdades e submetê-las ao dirigismo de um qualquer regime autoritário, não cabe às entidades oficiais, incluindo as autarquias locais, decidir acerca da “qualidade” e da autenticidade dos grupos folclóricos e, em função disso, limitar eventuais financiamentos ou outras formas de apoio.

Cumpre apenas a tais organismos apoiar o associativismo enquanto forma de participação livre dos cidadãos e a promoção cultural, sem estabelecer critérios de apreciação para os quais desde logo não estão habilitados nem tão pouco constitui a natureza da sua missão.

Podem os grupos folclóricos, se assim o entenderem, criar as estruturas que considerarem mais adequadas para proceder à sua autoavaliação e qualificação.

Contudo, jamais deverão aceitar qualquer espécie de submissão ou discriminação em virtude da posição que venham a adoptar em relação a tais organizações.

Da mesma forma que não cabe aos organismos oficiais promover qualquer acção discricionária em relação àqueles porquanto, quaisquer que sejam os grupos folclóricos, todos eles constituem formas de participação livre dos cidadãos.

Um rancho minhoto desfila por ocasião do festival do traje, ocorrido no Estádio do Restelo, em 1963.
Foto: Arquivo Fotográfico da C.M.L.

Autenticidade precisa-se…

A procura da autenticidade no domínio do folclore não se consegue à custa da enumeração sábia de umas quantas recomendações avulsas debitadas por uns tantos entendidos mas através do estudo aturado das nossas raízes culturais e a compreensão do processo histórico.

Da mesma forma que, não é procurando cercear as liberdades e limitar os apoios materiais àqueles que alegadamente não receberam qualquer “certificado de garantia” do folclore que os vai ajudar a aperfeiçoar o seu trabalho, impondo-lhe mais rigor e seriedade.

Antes seria o apoio e a orientação que na prática lhes é negado para que a “qualidade” passe a ser propriedade exclusiva de alguns!

São inúmeros os males de que os grupos folclóricos enfermam e que os tem vindo a acometer ao longo de um século de existência – e não apenas durante o Estado Novo! – porquanto foram desde sempre instrumento de propaganda para os mais diversos fins, com maior ou menor intervenção do poder estatal.

Por maioria de razão, mesmo os mais conceituados dão como genuínas formas de representação que mais não constituem do que verdadeiras aberrações, resultantes das adulterações introduzidas ao longo do tempo, algumas das quais de fácil detecção.

Mas, em lugar de procederem à investigação, muitos deles limitam-se a reproduzir velhos reportórios e não ousam sequer questionar o que um dia foi defendido por um etnólogo ou um folclorista, esquecendo que, sem questionar o seu valor e o contributo que deram, também eles foram influenciados pelas ideias da época em que viveram.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

 

ABC do Folclore – Manual de Iniciação

ABC do Folclore

Dizem-me que os jovens a partir da idade escolar estão a perder o interesse pelo Folclore, mesmo como espectadores.

É um facto, sendo uma situação que tem de ser revertida, o que passa necessariamente pela escola.

Concretamente não sei o que motiva tal desinteresse, mas penso que tudo mudará quando lhes for ensinado que o Folclore é a História dos nossos antepassados, quando as suas vivências ainda não estavam adulteradas por usos e costumes que nada tinham a ver com a sua maneira de ser e de estar.

No caso de Montargil, os componentes do nosso grupo “representam” as vivências da nossa gente aí pelos anos 20/30.

Claro que foi feita uma investigação etno-cultural, partindo do princípio que anteriormente as pessoas recebiam os “saberes” por via oral ou demonstração, fazendo depois como ouviam e viam fazer.

Mas, nem sempre ao mesmo tempo, mas ao ritmo do progresso que começou a impor-se, absorvendo as vivências locais, mas é antes que isso aconteça que o folclore se fixa, não mais e evoluindo pois deixaram de haver condições.

Como compreenderão, é o investigador que vai ver onde essa fixação deve ser considerada.

Características

Certo que há muito que especificar em relação ao que aqui foi dito, o que iremos fazendo em posteriores pequenos textos, para não lançar a confusão. Digamos no entanto, e para já, que para ser “tradicional” um produto tem que ser em simultâneo:

1.- Popular: ser do gosto do povo… – ser da sua predileção.

2.- O anonimato: claro que tudo teve um autor. Por exemplo, uma “música” foi feita por alguém, mas tocador após tocador, fazendo-o de “ouvido”, pois não tinha qualquer registo, com as alterações que involuntariamente foram sendo introduzidas, acabou por ser “despersonalizada”. E como na música, assim era em todos os outros factos.

3.- Tradicional: ter passado de geração em geração por via oral e imitação. Fazia-se como se ouvia e via fazer.

4.- Ser universal: pertencer a uma comunidade cultural significativa e não apenas a uma família ou pessoa, impondo-se como marca local.

Acrescentemos apenas que, já em 1878, o Folclore era reconhecido internacionalmente como “saber tradicional, história não contada de um povo”, primeiro para se referir às tradições, costumes e superstições das classes populares; posteriormente, para designar toda a cultura nascida principalmente nessas classes.

Lino Mendes

Imagem: “Costumes Portuguezes: Na volta do trabalho” (Cliché do sr. Miguel Monteiro, de Vila Real) – “Ilustração Portuguesa” – II Série, nº688 – 28 de Abril de 1919

As gentes de antigamente – o lazer em Montargil

O lazer em Montargil

Não obstante o trabalho de sol a sol, e as mulheres ainda com o serviço da casa, que aí os homens da altura não tocavam, inventava-se sempre algum tempo para o divertimento, nomeadamente para o “balho” (baile) e para os “Jogos”, estes de uma maneira geral mais para os homens.

É o caso das “tabernas”, onde as mulheres não entravem, quando muito assomavam-se à porta a chamar “o seu/sê homem”, e onde se bailava o “fandango” e se cantava a “desgarrada” e mais tarde o “fado”.

Mas falemos das “tabernas” (ou “ tascas” como também se chamavam), como espaço de lazer que foram.

Hoje naturalmente desaparecidas, as mesmas desempenharam vincada função social num meio então ainda mais vincadamente rural como o nosso.

Existindo algumas também nos lugares rurais, (hoje a transformarem-se em progressivas aldeias) eram as tabernas da vila que ao domingo faziam o melhor negócio.

Em especial as da Rua da Frente (hoje Rua do Comércio) e que então ao cair da tarde eram ponto de encontro entre os que procuravam trabalho ou o poderiam dar.

Mas a tasca era algo mais do que o ponto de encontro para questões de trabalho. Eram igualmente por assim dizer e até certa altura, como que a sua sociedade recreativa.

Jogos e divertimentos diversos

Ali se jogava às cartas, ao xita e ao mil, assim como ao chinquilho, este com os tabuleiros no quintal ou à frente, se no campo.

E como a telefonia foi luxo que só mais tarde apareceria, também de vez em quando se fazia ouvir o harmónio de uma escala (mais tarde de duas) ou a concertina (também de duas).

E quase sempre também o realejo, que alguns chamavam de flauta/flaita ou gaita-de-beiços, e hoje chamam de harmónica.

Mas também na taberna e como já dissemos se bailava o fandango. Era aliás, ou quase porque o vinho lhe estava associado onde se cantava a desgarrada (só entre homens) e que mais tarde foi substituída pelo fado.

Entretanto, um dos entretenimentos da mulher era fazer “renda”.

Aliás, mesmo quando iam à semana ou à quinzena, e quando à noite recolhiam ao “quartel” – por vezes a cabana de onde tiravam o gado – se não contavam histórias, faziam renda ou marcavam lenços para oferecer aos rapazes.

Diga-se, aliás, que uma mulher quando casava tinha que ser uma verdadeira “dona de casa”, fazer a comida e saber mesmo fazer uma camisa, fazer umas ceroulas, e saber “arremendar”.

Lino Mendes | Imagem

Folclore e o movimento da Terra | Opinião

Folclore: o Movimento da Terra

Na primeira metade do século dezoito e ao longo de quase quinze anos, as obras do grandioso convento de Mafra atraíram àquela região perto de cinquenta mil operários oriundos das mais diversas proveniências que ali participaram na sua construção, tendo ainda sido destacados para o local cerca de dez mil soldados incumbidos de vigiarem a obra.

Este acontecimento constituiu para a época um extraordinário movimento de populações que teve naturalmente as suas repercussões nomeadamente na forma de viver das gentes locais, até então habituadas a viver em pequenas comunidades dispersas.

Durante todo o tempo em que decorreram os trabalhos e principalmente nos escassos momentos de lazer de que dispunham, essa imensa quantidade de gente convivia entre si e com as populações das localidades em redor, a qual aliás assegurava em grande medida o aprovisionamento dos bens alimentares aos trabalhadores do convento de Mafra.

A História registra a grandiosidade da obra e as decisões do monarca mas esquece-se com frequência de mencionar o quotidiano da vida do povo e dos trabalhadores que ergueram o monumental convento.

E este, à falta dos meios de distracção que a sociedade moderna nos oferece, naturalmente convivia à sua maneira e de acordo com os costumes da época, cantando e dançando como sabiam, ao som dos instrumentos que traziam, divertia-se com os jogos que então se conheciam e, sempre que podiam, deslocavam-se às festas e romarias das aldeias em redor.

Interação de culturas regionais

Este contacto entre populações de diferentes origens com usos e costumes diferenciados naturalmente facilitou uma interacção de culturas regionais e locais que se influenciaram mutuamente e sobretudo na região de Mafra que constituiu o ponto de encontro e de convívio entre essa enorme quantidade de gente.

Da mesma forma, aliás, que algum tempo depois as invasões francesas viriam a deixar-nos a contradança que afinal de contas, não era mais do que a tradicional dança a que os ingleses designavam por country dance.

São numerosos os exemplos que poderíamos mencionar para demonstrar como o folclore de um povo não constitui uma realidade estática mas, antes algo que evolui, modifica-se e interage com costumes diferentes em consequência do encontro entre povos e culturas.

Desde os tempos mais remotos, o Homem ergueu santuários no cimo dos montes consagrando culto a antigos deuses pagãos.

Com o decorrer do tempo, muitas dessas divindades foram substituídas e deram lugar a ermidas cristãs para onde o povo acorre em devoção e em redor das quais se junta em ambiente de festa, cantando e dançando como só ele sabe fazer.

E as modinhas que até então eram apenas usadas num determinado local espalham-se pelas aldeias em redor e por vezes mais longínquas levadas por romeiros ou simples forasteiros de romaria.

Emigração e êxodos internos

A industrialização verificada na segunda metade do século XIX e, sobretudo, a construção das principais linhas de caminho-de-ferro, provocou um autêntico êxodo das populações rurais do interior para os grandes aglomerados urbanos, principalmente para Lisboa.

O atraso da agricultura associada a fenómenos de crise provocados nomeadamente pela filoxera na vinha levou inclusive a uma grande vaga de emigração, sobretudo para o Brasil.

Para onde quer que foram, as pessoas levaram consigo os seus hábitos, a sua maneira de ser e de divertir-se e, como não podia deixar de suceder, uma enorme saudade pela terra que eram forçados a deixar para trás.

E, onde se fixaram, promoveram sempre formas de encontro e de convívio entre compatriotas e conterrâneos. E foi assim que surgiu o associativismo regionalista vulgarmente conhecido como “casas regionais”.

Mas o folclore interage de igual modo com povos e culturas muito distintas, ultrapassando fronteiras e as próprias barreiras que a natureza estabeleceu.

O CIOFF não promove FOLCLORE | Do alto da guarita

“Saber tradicional do povo”!

Primeiro para se referir às tradições, costumes e superstições das classes populares, posteriormente para designar toda a cultura nascida principalmente nessas classes, já em 1878 o folclore era reconhecido internacionalmente como “saber tradicional do povo”.

E eram estas as diretrizes que todos os países deviam respeitar, se de folclore queriam tratar – o “saber tradicional do ” seu povo” – do que naturalmente resultariam as naturais diferenças, mas nada do que por aí aparece, e as nossas gentes entendem como “o folclore deles”

Diga-se, entretanto, que reconheço os bons espetáculos que, de uma maneira geral, esses grupos fazem. Mas “cada macaco no seu galho”, como hoje se diz, ou “os bois tratam-se pelos nomes”, como se dizia no tempo do meu avô.

E aconselho que leiam com olhos de ver os respetivos regulamentos.

Acontecendo ainda que o Folclore não é determinado por qualquer legislação ou por votos na Assembleia da República, mas pela leitura correcta dos caminhos da cultura.

Entretanto, e referente ao CIOFF, tenho na minha frente a “Definição de programas tradicionais no palco”, que começa por referir que o património cultural imaterial deve ser considerado como um processo “progressivo” do qual as principais características são actividades criativas baseadas na tradição.

Deste ponto em diante, para definir programas apresentados por conjuntos de expressão, é necessário especificar ao mesmo tempo conteúdos e estilo de expressão.

Ora bem, estarei a perceber mal – pelo menos é o que está escrito – ou os grupos de folclore como os entendemos não têm ali lugar?

Convenção da Salvaguarda do Património Cultural

Até porque, continuando, é-nos dito que “de acordo com a definição da Convenção da Salvaguarda do Intangível Património Cultural da UNESCO”, um programa será considerado como representando cultura se o seu conteúdo provém ou é inspirado pelo património cultural imaterial, nomeadamente se:

– transmitido de geração em geração;

– constantemente recriado por comunidades e grupos em resposta ao seu ambiente, sua interacção com a natureza e a sua história;

– identidade e continuidade;

– promove o respeito pela diversidade cultural e criatividade humana.

Ora, para servir a causa da cultura tradicional, os conjuntos escolhem um estilo e uma maneira de expressão.

Tipologia de programas segundo o CIOFF

Temos assim que, de acordo com a sua actividade principal, que é organização de “festivais de cultura tradicional”, o CIOFF deseja definir os estilos de expressão através da música, da música e dança como explicado abaixo:

1.- Um programa será considerado como “representando uma expressão autêntica”:

– se o conteúdo for regional,

– se os trajes são autênticos ou reconstituídos fielmente,

– ou se a música e a dança são apresentadas sem arranjo.

2.- Um produto será considerado como “representando expressando expressão elaborada”:

– se o conteúdo abrange várias regiões,

– se os elementos dos trajes são adaptado,

– ou, se a música é harmonizada e os elementos da dança modificados,

– ainda se a criação de novas danças usa elementos tradicionais e autênticos.

3.- Um programa será considerado como “representando uma expressão estilizada”:

– se o conteúdo se inspira na cultura tradicional do seu país,

– se as roupas forem recriadas para as necessidades do palco,

–  ou se a música e os elementos da dança forem adaptados e recriados para atender às necessidades de uma transposição cénica moderna,

– se a criação de novas danças e músicas usa elementos tradicionais para representar ideias criativas do coreógrafo e do músico.”;

Digam-me, como é que o folclore se pode enquadrar num “processo progressivo”, em “actividades criativas”, em “expressões elaboradas” ou “estilizadas”?

Diferenças

Digamos, entretanto, estar perante três géneros de património:

1.- O FOLCLORECultura Tradicional – que assenta no autêntico, no tradicional e no identitário;

2.- O PCI – regulado pela CONVENÇÃO da UNESCO de 2003 – o inverso: que assenta no constantemente alterado e na criatividade,

3.- O CIOFF, um Parceiro Oficial da UNESCO, acreditado pelo Comitê ICH da UNESCO – também aqui o imaterial está conforme a Convenção da UNESCO, a sua função principal é a organização de festivais, nos quais os grupos participantes podem ser “autêntico”, “elaborado” e “estilizado”.

Mas, atenção, tendo em vista a “tradição do contemporâneo”, pelo que ali o autêntico refere-se ao presente e não ao passado.

Conclusão: Apenas o Folclore é isso mesmo (Folclore) tem a ver com a nossa “identidade cultural.”

Nota final: Entenda-se este texto como a “minha opinião, “sendo bem-vindo o contraditório desde que devidamente fundamentado.

Lino Mendes

O Folclore e a Convenção da UNESCO de 2003

Convenção da UNESCO de 2003

É fundamental que a Convenção da UNESCO de 2003 seja devidamente explicada, que não o foi até hoje, por isso toda a confusão que para aí vai.

Quando da aprovação do Cante não houve qualquer preocupação pedagógica, pois o que interessava era fazer aprovar a candidatura. Quando do Congresso do Folclore Português, os folcloristas limitaram-se naturalmente a ouvir e, agora, se já refletiram, é tempo de chegar a conclusões fundamentando.

Para já, duas sínteses:

1.- Folclore – património que assenta no autêntico, no tradicional, no identitário;

2.- Convenção de 2003 – património que assenta nas constantes transformações, na criatividade.

Eis como a Dr.ª Clara Bertrand de Carvalho, responsável pela cultura da UNESCO nosso País, a define:

“Sendo um património fundado nos conhecimentos e práticas, não se caracteriza pela autenticidade mas sim pela constante transformação e recriação, não se funda no tempo e na história mas antes na prática recorrente e na transmissão interjecional, não visa preservar coisas mas salvaguardar saberes e conhecimentos. O olhar do sujeito desvia-se do objeto patrimonializável para se centrar no criador do património, que é chamado a ter um papel ativo em todo o processo.”

Ora, e perante isto, é claro, que se trata de dois patrimónios ambos imateriais, mas que nada têm a ver um com o outro.

Entretanto, li algures que a Salvaguarda do PCI se pode considerar “da parte etnográfica ao empoderamento dos detentores do património cultural imaterial”, que, “traduzido” para português corrente e segundo o Ciberdúvidas, nos dá “da discrição dos usos e costumes populares até à valorização dessa herança rica dos usos culturais”.

Nem comento, mas agradeço que alguém me apresente o fundamento para tal afirmação.

Congresso do Folclore Português

Entretanto, numa das alíneas das Conclusões do Congresso do Folclore Português lê-se que existem exemplos ”de boas práticas” relativamente ao registo do PCI por parte de grupos de folclore português (com a necessária e valiosa colaboração autárquica). Estes registos encerram franco potencial para a constituição de produtos turísticos diferenciados e diferenciadores no mercado.

Antes de mais, está errada a sigla PCI (Património Cultural Imaterial) que, ao dizer apenas respeito ao que é regulado pela Convenção da UNESCO de 2003, nega que o Folclore/Cultura Tradicional seja também Imaterial. Trata-se aliás de uma retificação que me atrevo a sugerir à UNESCO.

Quanto à expressão “boas práticas” dizem-nos ser derivada do inglês best practice, a qual denomina técnicas identificadas como as melhores para realizar determinada tarefa. Pelo que também podemos dizer que existem exemplos de “boas práticas” do registo do folclore como cultura tradicional.

Agora o último período da alínea é que deve ser interpretado com muito cuidado.

Vejamos:

Estes registos encerram franco potencial “para a constituição” (leia-se transformação) em produtos turísticos diferenciados e diferenciadores no mercado“.

No fundo é o que Paulo Lima diz ao JL” As candidaturas servem acima de tudo para a criação de um destino turístico ou para aumentar as vendas. Como se vai ganhar dinheiro, associar a produtos, etc. Há sempre um intuito comercial ou capitalista, se quisermos “Resumindo e concluindo, não são estes os objectivos dos folcloristas.

Folclore e globalização

Aliás se andamos há anos a dizer ter que acabar com o folclore para turista ver….

Entretanto quero dizer que acho importante o que o regulamento da convenção nos diz quando refere que

«Esse património cultural imaterial, transmitido de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função do se meio, da sua interacção com a natureza e da sua história, incutindo-lhes um sentimento de identidade e de continuidade, contribuindo, desse modo, para a promoção do respeito pela diversidade cultural e pela criatividade humana» (Artigo 2º).

No entanto, há quantos anos esse sentimento de identidade foi absorvido pela globalização?

E permitam-me terminar com mais uma clarificação. Segundo a Dr.ª Clara Bertrand de Carvalho, só compreende a Convenção de 2003 quem conhecer os objectivos da UNESCO e os meios que tem para os alcançar.

A UNESCO

Ora a UNESCO foi fundada logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de contribuir para a paz e segurança no mundo, através da educação, da ciência, da cultura e das comunicações, e da cooperação entre os países.

Logo, enquanto o Folclore é um projecto cultural, a Convenção de 2003 é um importante projecto para a paz, e só assim se compreende que tenha abdicado do termo folclore nos seus textos— que, aliás já considerara sinónimo de cultura tradicional— porque alguns países o consideravam sinónimo de nacionalismo. Ora, no nosso País, sempre foi, é e será, sinónimo de Identidades.

A propósito pergunte-se aos amigos do Cante, se aceitam que o mesmo deixou de ser tradicional e identitário. E depois vejam as condicionantes para se ser Património Cultural Imaterial da Humanidade.

E terminando, lendo a Drª Clara Cabral, enquanto o Folclore é a “tradição do passado“ a Convenção de 2003 regula a “tradição do contemporâneo”.

Lino Mendes

Sobre “Etnografia da Beira” de Jaime Lopes Dias

Carta-prefácio a Etnografia da Beira

Ex.mo Sr. Dr. Lopes Dias

Quis V. Ex honrar-me pedindo-me um artigo que servisse de prefácio à sua Etnografia da Beira. Na impossibilidade de, por falta de tempo, o escrever, envio-lhe esta simples carta.

Para que seria preciso um prefácio meu a uma obra que por si mesma se impõe ao bom acolhimento do público?

De facto, há nela óptimo conteúdo, apresentado com singeleza e naturalidade, que tornam agradável a leitura ainda aos não especialistas.

Quem, sendo Beirão, e conhecendo as lendas, as usanças e as superstições que V. Ex.ª enumera, não se recreará de repassar pela memória, assim elegantemente agrupadas, tradições com que foi embalado? E a quem, não o sendo, ou dedicando-se longe à Etnografia, não agradará ver aqui reunidos tantos elementos de estudo?

Coisas comuns a outras regiões

Muita cousa que V. Ex publica é naturalmente comum a outras regiões, por exemplo, a lenda do «monte do trigo», que se localiza também ao pé de Santarém, as «janeiras», a «serração da Velha», o «Natal», grande parte das superstições da secção que intitulou «Vária» – o que tudo se encontra «passim». Porém nas repetições há de ordinário variantes aproveitáveis.

A «maldição de Ródão», p. 17-21, é por exemplo, variante da «lenda de Gaia», tal como vem nos «Nobiliários», p. 180-181, século XIV.

Tanto quanto sei, ou me pareça, creio não estarem ainda arquivadas, ou estarem pouco divulgadas, notícias como as das danças, de que fala a pag. 85-96, e as de «deitar os moios ou o bom ano». Acho muito curioso o que diz do casamento, a pag. 101-103, de «chorar o Entrudo», a pag. 123, das «caqueiradas», a pag. 125, das «alviçaras», a pag. 129.

Os versos de pag. 93 têm a forma de «leixa-pren», como nos desafios. Acerca dos gambozinos pode ver uma curta nola de Sequeira Ferraz na «Revista Lusitana» III, 371. O oferecimento de «telhas roubadas» a santos, pag. 97, pertence a extensa série de superstições muito espalhadas por toda a parte: a elas já aludi algures, e outros paralelos poderia aqui juntar.

À data da instituição das Festas do Espírito Santo dediquei uma nota no «Mês de sonho», pag. 76. Acerca desta festa coligi há anos, também na Beira-Baixa, longa notícia e versos (Vide-Monte), que conservo inéditos. O doar o rei ao pastor, pag. 32, todas as terras que avistasse, tem outro paralelo em Portugal: e talvez se relacione com costumes de direito antigo.

A doença a que o povo dá o nome de «cobro», palavra que julgo sinónima de «cobrão», pag. 155, é a que os médicos chamam «zona».

Sugestões de enquadramento

Talvez as maldições de 143-145, que V. Exª inclue na secção das Superstições, coubessem melhor na das Lendas. Os cantos de pag. 138-139 devem pertencer a um antigo auto do Natal. Parece-me que na canção de pag. 91,

Senhora dos altos Céus,
Minha rosa encarnada,
Lá «ao baixo Alemtejo»
Chega a vossa nomeada,

onde «baixo» será com «B», a lição primitiva seria: «Lá baixo ao Alentejo», porque a expressão geográfica «Baixo-Alentejo» é bastante recente. (Na «Circumscripção dos districtos», 1868. pag. 126, lê-se «Alemtejo-Baixo»).

Receba V. Ex. os meus parabéns pelo trabalho com que concorreu para o progresso da nossa Etnografia; o meu desejo é que não só V. Ex. dê à estampa quanto antes o volume ou volumes que tem em mente ainda publicar, senão que não esmoreça na investigação, como a tantos outros tem acontecido.

Precisamos, cada vez mais, de estudiosos, como V. Ex.”, que saibam trabalhar com amor e consciência.

Campolide (Lisboa), 24-X-1926.

J. Leite de Vasconcellos

Introdução

À memória da minha mãe

Desde as mais remotas idades que o homem procura conhecer o que o cerca.

Deste sentimento de curiosidade nasceu o conhecimento simplista; do conhecimento simplista o conhecimento reflectido, a indagação das causas produtoras dos fenómenos em sua forma e finalidade.

Surgiram assim as ciências; primeiro as matemáticas, a história, a arqueologia, etc.; mais tarde a sociologia e a etnologia, seguindo-se desde logo, a Etnografia, para o estudo dos povos e das famílias, nos seus costumes, aptidões, génios e crenças.

E por isso, dada a sua importância, dado o seu indiscutível valor histórico, sentimental e prático, ela atingiu, em curto prazo, lugar de relevo.

É que, pela Etnografia, deviam descobrir-se indústrias e artes ignoradas, processos rotineiros de labor industrial, artístico e agrícola a que as estâncias oficiais têm podido pôr termo enviando às diversas regiões técnicos especializados a ensinarem processos novos de maior utilidade e rendimento

Pela Etnografia têm-se desencantado, em lugarejos ignorados e inacessíveis, velhas curandices ligadas a tantos outros processos anacrónicos de curar doenças, a que muitas vezes não falta o uso nocivo de mezinhas.

Em consequência dos estudos etnográficos têm podido, o legislador, o político e o sociólogo, aproveitar as virtudes que eles revelam, combater defeitos e, enfim, dirigir ou educar e não contrariar tendências naturais de reconhecida utilidade.

Na Etnografia, estudo dos costumes, encontra o juiz precioso elemento de colaboração para a aplicação das penas, e, quantas vezes, por disposição da própria lei, aplica o costume como se lei fosse!

 

Sugestão de leitura: Vale da matança – Rio Ponsúl (Lenda)

 

A Etnografia e os educadores

Na Etnografia encontram os educadores maravilhosos elementos para a educação das crianças, porque Ela lhes vai descobrindo e fornecendo velhos contos, velhos jogos, velhas lendas, quantas vezes repassadas de sentimento patriótico e de sãos princípios morais!

Mas, a civilização progride e ameaça tudo transformar. Não é preciso ser muito velho para notar grandes mudanças etnográficas. Diz, e muito bem, com a sua indiscutível autoridade de mestre, o sábio dr. Leite de Vasconcellos: «quem, vivendo hoje, nasceu nos meados do século XIX, lidou com patacos, cruzados e peças, viu a liteira, ouviu a sanfona – nada disso existe já hoje!».

Dez, vinte, cinquenta anos bastam para fazer esquecer ou transformar, adulterando-os, costumes velhos, usanças antigas.

Tem-se dito e repetido que é preciso e urgente recolher e guardar com cuidado e com carinho o que ainda nos resta, para que nem tudo se perca.

O presente volume de «Etnografia da Beira» não é mais que a minha quota parte de trabalho e de investigação referente ao distrito de Castelo Branco.

Possível é que às páginas que vão seguir-se outras se sucedam.

Oxalá os meus conterrâneos queiram continuar a dispensar-me o seu auxílio e o seu incitamento.

Jaime Lopes Dias

Fonte: Etnografia da Beira, de Jaime Lopes Dias (textos editados e adaptados)

Folclore e Etnografia | Do alto da guarita

Folclore e Etnografia

Desde sempre existe quem considere “etnografia” como sinónimo de “trajos usados no folclore”, e a Federação considera-a como a “disciplina que descreve os povos/comunidades no que concerne aos seus usos, costumes, índole e cultura”.

Mas se há situações em que se respeitam diferentes conceitos, em meu entender estes não o são.

Sendo o folclore “a expressão das vivências das gentes de antigamente, no tempo em que a sua vida ainda não era tão influenciada pelos usos costumes de outros povos”, a “etnografia” é única e precisamente “o estudo do folclore”, como aliás o citam diversos dicionários.

Recordo-me que, procurando saber a visão que outros colegas destas andanças tinham de assuntos que considerava pouco clarificados, coloquei a seguinte questão:

Se estiver um “grupo” a actuar, onde está o folclore e onde está a etnografia?

E a resposta que me convenceu (Aurélio Lopes) foi: depende do Grupo.

O produto (aquilo que apresenta ou representa) pode, em termos otimizados, ser tudo folclore. Ou ser só uma parte. Ou até, não ser nada.

Etnografia não é um produto

Quanto à Etnografia, não “vemos” nada, em nenhuma circunstância.

Isto porque a Etnografia não é um produto, não é um conjunto de padrões ou de elementos culturais, mas simplesmente uma técnica ou um conjunto de técnicas de que fazem parte as entrevistas que se fazem aos informantes, a observação direta e outras que aqui não referimos para não confundir mais.

Não é um produto! Não é aquilo que se representa, melhor ou pior. É a metodologia de pesquisa de um de que o grupo se serviu para obter os dados que está a apresentar na dita autuação.

E porque considero que “tradição” nem sempre significa “tradicional”, acrescentava: e a “tradição”, onde está? E também aqui a resposta é igual à do “folclore”: pode ser tudo, ou só uma parte, ou até não ser nada.

Porque a vertente tradicional é uma das componentes daquilo a que chamamos Folclore“.

Dito de outra forma, a cultura popular que consideramos folclore tem de ser tradição, tem de ser tradicional. Pois só a tradição permite a usualidade e só a usualidade permite a aculturação/folclorização dos padrões culturais.

Temos assim que o tradicional é sempre popular, mas o popular nem sempre é tradicional.

Lino Mendes | Imagem do RFVR

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