Danças etnográficas durienses | Textos e opiniões

Danças etnográficas durienses

A dança etnográfica é vida. E vida sem gesto é maneta e perneta.

A Etnografia, em termos de dança, é traje, música, ritmo e gesto. Vou referir um pouco o gesto.

Não vou falar das danças orientais de mãos postas ao peito, cabeça inclinada em concentração e gestos espiritualizados a cheirar ao Nirvana.

Também não vou falar do ritmo dos povos africanos a inclinar o corpo e a atenção para a terra criadora.

Não vou falar das pinturas e das máscaras usadas em certo folclore, também africano, a querer lembrar divindades e os espíritos dos antepassados.

Também não vou rir, em condolência, com as danças fúnebres da Africa do Sul de cor negra que temos “televisto”, com o arcebispo Tutu a dançar reverendissimamente e paramentado como mandam as rubricas. Ninguém se deve rir de coisas sérias e aquilo para eles é grande ritual.

A dança quando etnograficamente verdadeira é um palco de vida.

Gostaria de referir as belíssimas danças durienses com o bater dos pés a lembrar a “pousa” e a subida aos socalcos e com o gesto largo e balanceado do homem das redes e do rio.

Em tempos e em Godim, terra onde se tem trabalhado muito e bem, o presidente da Federação do Folclore Português pediu-me colaboração para uma Revista da especialidade que se ia criar.

Não sei se a ideia da Revista abortou, morrendo antes de nascer, mas ficou-me a sensação de não poder colaborar por falta de tempo e por uma certa preguiça que sempre tive em escrever. Aliás para se ser bom etnógrafo é preciso ser primeiro bom etnólogo. Só deve ensinar quem aprendeu ou estudou. Dou a vez a quem de direito.

O que é bom e o que cheira mal!

Ao falar da dança etnográfica alto-duriense devo dizer que ela não escapa à destruição que por aí campeia como praga ou epidemia.

Grupos que se atribuem de Ranchos Folclóricos e nós não vemos de onde é o folclore. O traje, a música, o ritmo e o gesto não dizem de onde são ou até dizem que não são.

Certos responsáveis chegam ao cúmulo de arranjarem letras e músicas de sua lavra. São inimigos piores que a discoteca, e também não vou rir, pois ninguém se deve rir de coisas sérias.

Dentro de alguns anos, os etnólogos vão ter tremendas dificuldades em separar o que é bom do que cheira mal…

Haja muito folclore, mas do verdadeiro! Que possamos ver no traje, na música, no ritmo e no gesto a história do nosso povo! Que possamos ver as nossas raízes, afinal

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«les trés belles danses de Douro avec le frapper des pieds qui nous rapellent la “pousa” et la montée aux terrasse, et avec le geste large et balançé des filets et du fleuve».

«the beautiful Douro folk dances where the stamping of dancer’s feet remind es of the “pousa” and the climbing into the terraces, while their gestures suggest the swinging of nets and the river».

Fonte: Subsídios Históricos e Etnográficos do Alto Douro, Pe Luís Morais Coutinho | Imagem: Os vindimadores dançam durante a entrega do ramo ao patrão – tradição que marca o final da vindima.