Castanholas enfeitadas | Instrumentos musicais

Castanholas enfeitadas

Nas mais insignificantes coisas criadas ou adotadas pelo povo aparece sempre, como um selo infalível de primitividade, a sua arte própria, singela e tradicional.

Se até nas castanholas, os estrídulos grilos da música popular, essa arte se manifesta exuberantemente, enchendo de entalhes e recortes as pequeninas conchas sonoras de buxo ou laranjeira…

Origens

Tenho como certo, que as primeiras castanholas foram fabricadas das mesmas valvas, duras e brancas, de moluscos, que, nas estações neolíticas vizinhas do oceano, aparecem com abundância, e que se distinguem das conchas cujo conteúdo foi aproveitado na alimentação, por estarem todas furadas na parte mais estreita.

Aplicou-as o homem primitivo para formar enfiadas, que, como os selvagens atuais, prendeu nos braços e nas pernas, no pescoço e na cintura.

Daí a aproveitá-las, duas a duas ou em conjunto, para ritmar com o seu ruído as evoluções das cerimónias religiosas ou guerreiras, ia um passo apenas.

E tanto isto é plausível, que, ainda hoje, o nosso povo da beira-mar adota de preferência castanholas de valvas de moluscos, mais fáceis de arranjar e de som mais agudo que as de madeira.

Designações e ornamentação

Por todo o Portugal se encontra espalhado o uso das castanholas, cujo nome se deturpa ou se modifica – castanhetas, carchanholas – segundo as localidades; em todas as nossas províncias se encontram também exemplares enfeitados, seja nas conchas, seja na parte superior, onde se faz as ligações das valvas.

A ornamentação é geométrica, fitomórfica, ou inspirada em sentimentos amorosos: linhas quebradas, reticulado, rosetas, flores e os infalíveis corações floridos.

Algumas mostram o nome do possuidor, em iniciais, ou por extenso, e a data da feitura.

Formas e feitios

Há-as circulares, em forma de ovo, em jeito de selo gótico, etc.

De qualquer madeira se fabricam; as mais finas, porém, são de buxo, laranjeira ou limoeiro.

No Norte e Beiras usam-se também, além das castanholas vulgares, umas castanholas especiais, alongadas como réguas, para bater às mãos ambas, em jeito de matraca.

Marcam a cadência nas danças de roda.

Como são grandes (mais de 0,2 de comp.) proporcionam campo mais largo aos devaneios artísticos do possuidor e, por conseguinte, aparecem mais sulcadas de desenhos.

Algumas tomam a forma de cara – espécie de Jano bifronte, quando fechadas – rudemente esculpidas, e encarnadas por vezes com cores violentas.

V.C.

Fonte: “Terra Portuguesa – Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia” – nº2 – Março de 1916 (texto editado e adaptado)

Instrumentos musicais populares portugueses

Pequeno Guia para a Recolha de Instrumentos Musicais Populares

Distribuição regional dos instrumentos musicais populares – Ernesto Veiga de Oliveira – 1975

Minho

Rusgas: conjuntos instrumentais populares de carácter festivo – Viola braguesa, Cavaquinho, Violão, Tambor pequeno, Reque-reque (Braga, Esposende e Barcelos), Ferrinhos, Clarinete, Ocarina, Flauta, Guitarra, Rabeca, Banjolim, Conchas, Seixos, Castanholas, Harmónica, Acordeão, Concertina, Zuca-truca (Guimarães).

Zés-pereiras: conjuntos instrumentais populares de carácter cerimonial – Bombo, Caixa-tarola, Gaita-de-foles, Clarinete, Flauta, Pratos.

Nota: Os zés-pereiras das áreas de Basto, Amarante, Porto e Mareantes são constituídos apenas por Bombos e Caixas.

Rogas: ranchos de homens e mulheres da Serra Duriense contratados para as vindimas do Douro e cujos alegres cantares têm por instrumental – Bombo, Ferrinhos, Gaita-de-beiços, Viola, Guitarra, Violão, Banjolim, Concertina, Assobio.

Chulas: geralmente modas vivas e festivas, cantares ao desafio ou coreográficos (região de Amarante, Terras de Basto, etc.) – Rabeca chuleira, Viola amarantina, Violão, Tambor pequeno, Ferrinhos, Banjolim, Harmónica, Castanholas (Barqueiros).

“Calhandras” – Autos da Adoração dos Pastores (Terras do Gerês): Flauta, Pandeiro, Ferrinhos, Castanholas, “Calhandra” (idiofone especial da região de Barcelos).

Trás-os-Montes

Gaita-de-foles, Bombo, Caixa: Constituem pequenos conjuntos tradicionais designados genericamente por gaiteiros.

Tamboril e flauta: Tocados ao mesmo tempo por uma só pessoa – o Tamborileiro (Região de Miranda do Douro).

Pandeiro quadrangular: Tocado exclusivamente por mulheres, em ocasiões festivas (Região de Miranda do Douro).

Pandeiro quadrangular, Conchas (chamadas “Ferranholas“), Castanholas, Ferrinhos: Acompanhavam as canções de fiadeiro, etc. (Região de Vinhais),

Beira-Alta ocidental

Flauta travessa

Instrumentos de tuna

Pífaro e Caixa: Acompanham a Dança das Trancas, em Sameiro (Manteigas) e Verdelhos (Covilhã).

Coimbra

Viola toeira, Violão, Guitarra, Pandeiro, Ferrinhos, Harmónica, Cavaquinho, Concertina: São conjuntos acompanhando géneros musicais mais ligeiros.

Guitarra, Violão: Instrumental solista ou acompanhante do fado de Coimbra.

Gaita-de-foles, Bombo, Caixa: Conjunto dos gaiteiros.

Guitarra, Violão, Ferrinhos, Garrafa com garfo: Conjunto próprio para folguedos e danças de ruas – os fandangos, viras, malhões e farrapeiras, (Lavos – Figueira da Foz).

Beira-Baixa

Adufe: Usado correntemente em ocasiões festivas e em funções cerimoniais.

Bombo, Caixa, Flauta travessa: Constituem pequenos conjuntos designados por Bombos (Região do Fundão).

Palheta (de palheta dupla).

Zamburra, Almofariz, Garrafa com garfo: Acompanham, com o adufe, os cantos do Entrudo (Malpica do Tejo)

Acordeão, Concertina.

Viola beiroa ou Bandurra: Acompanha os descantes festivos, “parabéns” e “serenatas” aos noivos.

Viola beiroa, Genebres (espécie de xilofone), Trinchos: Acompanham a Dança dos Homens (Lousa).

Guitarra: Intervém na Dança das Virgens (Lousa).

Tambor: O instrumento obrigatório, por vezes único, que figurava nas “Folias” do Espírito Santo, (Região do Fundão).

Nota: Constituem várias formas instrumentais das “Folias” do Espírito Santo nesta região:

Tambor, Bandurra, Pratos chamados Chim-chim (Fatela);

Trinchos, Tambor (Escarigo);

Tambor, Pratos, Trinchos (Capinha);

Viola, Pandeiro, Tambor (Fundão);

Os membranofones | Instrumentos musicais tradicionais

Os membranofones

Os membranofones são instrumentos de percussão que produzem som através da vibração de membranas distendidas. Ou seja, o elemento vibratório, e que produz som, é uma membrana retesada.

Assim, podem considerar-se como pertencendo à família dos membranofones todos os instrumentos cujo som resulta de uma membrana, ou de uma pele esticada.

Normalmente, os membranofones têm o formato de caixas, circulares ou quadrangulares, e são cobertos por peles de animais de um ou de ambos os lados.

Adufe e Pandeiro

O adufe é um instrumento de percussão português que terá evoluído dos membranofones introduzidos na Península Ibérica pelos árabes, entre os séculos VIII e XII. A influência muçulmana não se fica pelos instrumentos como também os ritmos terão migrado do norte de África. Ler+

Bombos e Tambores

O bombo é o membranofone de maiores dimensões usado em Portugal. Também é conhecido como o grande tambor. É constituído por uma caixa circular de madeira, ou folha de ferro, coberta na parte superior e inferior por uma pele esticada e apertada nas extremidades por parafusos de pressão. Ler+

Caixa e Tamboril

A caixa e o tamboril são dois instrumentos musicais da família dos bombos e tambores, embora de tamanho mais reduzido, e pertencem à categoria dos membranofones. A caixa é tocada, em posição horizontal, com duas baquetas. Sobre a pele inferior, geralmente, tem um ou mais bordões, geralmente feitos de tripa, o que lhe confere uma sonoridade característica muito própria. Ler+

Sarronca, Ronca ou Zamburra

Zamburra, Sarronca ou Ronca são os nomes mais conhecidos deste instrumento musical que pode ser integrado na categoria dos membranofones, pois é feito a partir da pele de animais.

É composto, na maioria das vezes, por uma vasilha, geralmente de barro, com cerca de 30 cm de altura e medianamente bojuda (a caixa de ressonância), com a boca revestida de pele, de onde parte uma haste fina de pau ou cana e que ao friccionar-se entre o indicador e o polegar produz um som grave e fundo, quase um ronco, tenebroso ou divertido. Ler+

Zamburra, Sarronca ou Ronca | Instrumentos musicais

Zamburra, Sarronca ou Ronca

Zamburra, Sarronca ou Ronca são os nomes mais conhecidos deste instrumento musical. Por ser feito a partir da pele de animais, pode ser integrado na categoria dos membranofones.

É composto, na maioria das vezes, por uma vasilha, geralmente de barro, com cerca de 30 cm de altura e medianamente bojuda (a caixa de ressonância), com a boca revestida de pele, de onde parte uma haste fina de pau ou cana e que ao friccionar-se entre o indicador e o polegar produz um som grave e fundo, quase um ronco, tenebroso ou divertido.

O executante, com a mão molhada, fricciona a cana ou pau, fazendo vibrar a pele e produzir o som característico.

É especialmente usado na altura do Natal e do Carnaval, e o Alentejo e a Beira Baixa são as regiões de maior uso tradicional.

Em Trás-os-Montes e na Beira Baixa é mais conhecido como zamburra

Este membranofone de fricção ou friccionado, é um instrumento primitivo, sendo mais conhecido em Trás-os-Montes e Alto Douro e na Beira Baixa como “zamburra”.

No fundo, é um tambor feito de uma base de barro ou madeira, que é coberta por uma pele que tem ao centro um elemento fixo, que é esfregado e do qual sai a vibração.

Era utilizada em toda a faixa ocidental do norte e também nas regiões pastoris do interior.

Em Trás-os-Montes, por exemplo, ela era utilizada como acompanhamento do violão, da rabeca e da guitarra nos encontros de taberna.

Na Beira Baixa, a ‘zamburra’ já deixou de ser tocada, mas antigamente era utilizada num cerimonial muito peculiar: durante a Quaresma, as gentes da aldeia iam com ela a casa das pessoas idosas, cantar e tocar numa cerimónia a que se dava o nome de serração da velha’.

Este instrumento era ainda utilizado noutras circunstâncias, como nas batidas aos lobos feitas pelos caçadores e pastores.

Fonte: imagem inserta e compilação de textos recolhidos e adaptados da internet | Imagem de destaque

 

Caixa e Tamboril | Instrumentos musicais tradicionais

A caixa e o tamboril

O tamboril e a caixa são dois instrumentos musicais da família dos bombos e tambores, embora de tamanho mais reduzido, e que pertencem à categoria dos membranofones.

A caixa é tocada, em posição horizontal, com duas baquetas. Sobre a pele inferior tem, geralmente, um ou mais bordões, geralmente feitos de tripa, o que lhe confere uma sonoridade característica muito própria.

O tamboril é um membranofone que, normalmente, tem uma caixa-de-ressonância bastante longa (fuste cilíndrico alongado) com pele dos dois lados.

Caracteriza-se, ainda, pela existência de um ou mais cordões (bordões) encostados a cada uma das peles. Eles vibram com os batimentos feitos pelo executante com uma baqueta.

O tamboril e a flauta

O tamboril é geralmente tocado apenas com uma mão, uma vez que a outra mão do executante é utilizada para tocar a flauta de tamborileiro.

Este “conjunto instrumental unitário e coerente é, em Portugal, uma forma rara e pouco representativa, que existe, pelo menos actualmente, apenas em duas regiões delimitadas e afastadas uma da outra:

– em algumas aldeias raianas de Terras de Miranda, no Leste trasmontano, como elemento instrumental fundamental das festas em que têm lugar — Danças de Pauliteiros, dos Velhos, Festas de Rapazes, Presépios de Natal, ofícios e certas outras solenidades religiosas —, a par ou em lugar da gaita-de-foles, em funções de nítido carácter cerimonial e até litúrgico, e também em funções profanas e lúdicas, fiadeiros e outras diversões avulsas e acontecimentos de menor vulto, ao serviço da velha música característica dessa zona;

– e na faixa alentejana além Guadiana, associado às festas religiosas patronais ou principais das várias localidades, aí apenas em funções cerimoniais qualificadas, servindo uma curta fórmula musical puramente ritual, que nada tem que ver com a música corrente da região.

Em cada uma delas, ele mostra certos caracteres comuns, e, por outro lado, diferenças muito sensíveis (…)

Em Rio de Onor e Terras de Miranda

(…) Em Rio de Onor, o tamboril acompanha a gaita-de-fole nas mesmas ocasiões em que esta se usa. E toca-se em posição horizontal, com duas baquetas, ambas sobre a mesma pele.

Em Terras de Miranda, onde ele é muito popular e de especial agrado do povo, ele toca-se de igual maneira, com grande maestria. Geralmente a acompanhar a dança, com o bombo, a gaita, a fraita, os ferrinhos, castanholas e «carracas» (conchas de vieiras).

Mas muitas vezes tocam-no mesmo sozinho, sem acompanhamento de qualquer outro instrumento, podendo as pessoas dançar horas sem fim, apenas com o seu rufar.”

Adaptado de “Instrumentos Musicais Populares Portugueses”, de Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira.

Na carta que Pêro Vaz de Caminha enviou ao rei D. Manuel I, por ocasião da descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral, é referido o tamboril como instrumento musical que encantou os indígenas.

Fonte: imagens e compilação de textos recolhidos e adaptados da internet

Bombos e Tambores | Instrumentos musicais tradicionais

Bombos e Tambores

O bombo é o membranofone de maiores dimensões usado em Portugal. Também é conhecido como o grande tambor. É constituído por uma caixa circular de madeira, ou folha de ferro, coberta na parte superior e inferior por uma pele esticada e apertada nas extremidades por parafusos de pressão.

É tocado na vertical, geralmente só numa das peles com uma baqueta grossa, chamada maceta. Não tem bordões nas peles, colocadas dos dois lados da caixa-de-ressonância e que podem ter até um metro de diâmetro, o que lhe dá uma sonoridade profunda.

Quem o vê passar pendurado ao pescoço do instrumentista, não pode deixar de sentir uma espécie de respeito. Este vai aumentando à medida que ele levanta a maceta para dar pancada atrás de pancada.

Os bombos são tocados em grandes grupos de percussão, e as principais regiões onde é utilizado são

Trás-os-Montes,

– Beira Baixa (onde até existe o museu “Casa do Bombo”),

– Minho,

– Douro Litoral e

– Beira Litoral (onde surge integrado nos conjuntos de “Zés Pereiras”).

Pelo seu poder rítmico e pela sua forte sonoridade, os grupos de bombos têm um impacto muito forte no seu auditório. Permitam-nos destacar o Grupo de Bombos de Lavacolhos, aldeia localizada no concelho do Fundão, que concorre sempre para a solenização de todos os momentos importantes da respetiva vida colectiva.

Os Bombos de Lavacolhos 

Sobre os Bombos de Lavacolhos, escreveu o Dr. Carlos Gomes: “Calculando-se que existem desde há mais de trezentos anos, os Bombos de Lavacolhos actuavam obrigatoriamente por ocasião da Festa do Senhor da Saúde. Esta ocorre no terceiro domingo do mês de Agosto e ainda na véspera de Santa Luzia, festividade que tem lugar a 15 de Setembro, mas sempre à margem das celebrações litúrgicas.

O ritmo é cadenciado e violento mas de simples execução, não seguindo uma regra que obrigue à transmissão, de geração em geração, do seu saber, deixando antes à iniciativa do executante a liberdade da imitação. Aos jovens compete apenas a tarefa de se iniciarem na arte de tocar o bombo de modo a preservarem o rito tradicional.

A arte de fazer rufar o bombo em Lavacolhos consiste em fazer ressoar a membrana de pele de cabra de forma ritmada, sendo característica a forma como o tocador conserva o pé esquerdo sempre à frente, suportando o bombo com a perna e fazendo-o saltar sempre que com a maceta lhe desfere violentas pancadas que o fazem ressoar de uma forma única.”

Em desfiles e fanfarras, o bombo é transportado à frente do peito, pendurado nos ombros por cintas de couro, e nesta situação é, normalmente, percutido em ambas as membranas, por duas macetas, uma em cada mão.

Os tambores portugueses

Os tambores portugueses são de um tipo comum: bimembranofones com caixa-de-ressonância cilíndrica, e peles tensas por meio de cordas ou parafusos que, apoiados em aros, esticam uniformemente as duas peles.

Das Tunas

conjuntos instrumentais compostos essencialmente de cordofones, ao serviço da música de género ligeiro e de feição meramente profana, com exclusão rigorosa de quaisquer funções ou figurações cerimoniais” (Ernesto Veiga de Oliveira),

normalmente, não fazem parte quaisquer tipo de bombos ou tambores.

Fonte: imagens insertas e compilação de textos recolhidos e adaptados da internet | Imagem de destaque 

Adufe ou Pandeiro | Instrumentos musicais tradicionais

Adufe ou pandeiro

O adufe é um instrumento de percussão português que terá evoluído dos membranofones introduzidos na Península Ibérica pelos árabes, entre os séculos VIII e XII. A influência muçulmana não se fica pelos instrumentos como também os ritmos terão migrado do norte de África.

O adufe é um bimembranofone: instrumento quadrangular, talvez por motivos simbólicos alheios à sonoridade, pois esta forma apresenta dificuldades na sua construção. Também na fase em que as peles são esticadas sobre a moldura de pau de laranjeira, posteriormente cosidas entre si, manualmente. O pau de laranjeira é uma madeira leve e cuja árvore está culturalmente muito associada à castidade.

No seu interior são colocadas sementes, grãos de milho ou pequenas soalhas, com o objectivo de enriquecer a sonoridade. Nos quatro cantos ondulam fitas coloridas ornamentais. Resulta assim um instrumento com duas membranas paralelas em pele de cabra ou ovelha, mas apenas uma é percutida ao executar a música.

Um adufe segura-se com ambas as mãos em lados adjacentes, usando os polegares e o indicador da mão direita. A pele é então percutida pelos restantes dedos, executando diversos ritmos.

O adufe nas regiões de Porugal

Embora com pequenas diferenças na sua construção, o adufe existe na faixa oriental do país, na chamada zona raiana, do Alentejo a Trás-os-Montes.

É tradicionalmente um instrumento quase exclusivamente feito e tocado pelas mulheres: as adufeiras. São famosas as Adufeiras de Idanha-a-Nova e de Monsanto. O facto de serem zonas ricas em pastorícia justifica, de algum modo, a grande explosão de adufes saídos das mãos habilidosas das mulheres da Beira Baixa.

Antigamente era vulgar as pessoas juntarem-se nas casas umas das outras ou no largo da aldeia e tocarem adufe ao despique. Enquanto as mulheres cantavam, dançavam e tocavam, os homens jogavam o “truque” (um jogo de cartas).

O adufe também esteve, desde sempre, ligado aos acontecimentos religiosos e às romarias. Mesmo na Quaresma quando os divertimentos eram “proibidos”, acompanhando as melodias tristes, próprias daquela quadra.

Em Trás-os-Montes e no Alentejo o adufe é mais conhecido por pandeiro. Enquanto na província transmontana a sua decoração é muito sóbria, no Alentejo os pandeiros são enfeitados com cores mais garridas.

A utilização no lazer e no trabalho

Tal como na Beira Interior, em Trás-os-Montes os adufes ou pandeiros eram igualmente tocados pelas mulheres por ocasião dos “jogos de roda” e das “danças em paralelo”.

Estas eram antigas formas de convívio que, infelizmente, já não se verificam, mas que antigamente eram bastante frequentes, em especial por ocasião do fim das fainas agrícolas.

Após terminar a apanha da azeitona, a apanha da amêndoa ou as colheitas do trigo, as pessoas reuniam-se, tocavam os seus instrumentos, cantava-se, dançava-se e faziam-se grandes paródias.

Há cerca de cinquenta anos atrás, quando ainda se fazia a monda, as raparigas levavam consigo o pandeiro para irem tocando pelo caminho. Os rapazes transportavam o realejo, a gaita-de-beiços e a pandeireta, que também não faltava. Cantavam, tocavam e até dançavam enquanto iam e vinham da faina.

Dizem os mais antigos da região de Bragança que eram tempos muito mais animados, em que as pessoas, apesar das agruras e dificuldades da vida e do trabalho quotidiano, eram mais alegres. Agora, dizem que as novas tecnologias são factores de dispersão para os mais novos, que deixaram de ligar às riquezas da tradição das respectivas regiões, o que só se pode lamentar.

Fonte: imagens e compilação de textos recolhidos e adaptados da internet

 

Instrumentos Musicais Tradicionais em Portugal

Introdução

Margot Dias, etnomusicóloga de origem alemã, casada com o antropólogo António Jorge Dias (ambos já falecidos), escreveu que “Em todos os tempos e em todos lugares o homem sempre mostrou grande engenhosidade ao fazer nascer o som e a música a partir de materiais existentes no seu ambiente natural. (…)

A voz e o bater das palmas podem certamente considerar-se as primeiras formas instrumentais usadas pelo homem, desde os tempos mais remotos, e que se encontram em muitas sociedades. Além dessas formas naturais, porém, desenvolveram-se através dos milénios instrumentos musicais mais ou menos bem elaborados, com os materiais que o ambiente natural fornece, e conforme a evolução técnica dos diferentes povos.

As influências de outras culturas são aproveitadas e os instrumentos difundidos sofrem transformações dependentes das possibilidades e condições locais (…)“.

A opinião de Ernesto Veiga de Oliveira

Ao mesmo tempo, Ernesto Veiga de Oliveira, a propósito de alguns dos “últimos” tocadores de instrumentos musicais tradicionais, perguntava:

“(…) Quem tocará ainda a bandurra beiroa e a viola campaniça, desaparecidos o tio Manuel Moreira, de Penha Garcia, e o Jorge Caranova de Santa Vitória?… E quando se for o Virgílio Cristal, quem ficará para tocar o deslumbrante tamboril e flauta em terras mirandesas?… É bom, é mau?

É a lei dos tempos para lá do bom e do mau… e quando as alvíssaras da Páscoa ou as alvoradas dessas bárbaras festas transmontanas forem feitas por um altifalante instalado numa furgoneta que atroa os ares com a última canção duma vedeta da rádio, o mundo terá certamente perdido uma grande riqueza – ou melhor: a riqueza do mundo valerá muito menos a pena ser vivida.

Os primeiros instrumentos musicais?

Uma cana de bambu, uma pele ou uma corda esticada, criaram os primeiros instrumentos musicais. O seu uso teve um papel de tal maneira importante na história das civilizações que a sua invenção tem sido, em várias culturas atribuída aos deuses. Objectos de mitos e também de rituais, o seu som representa a voz dos antepassados.

Mas é também através deles que os homens encontram um meio de mostrar a sua alegria e a sua tristeza, o seu amor e o seu ódio. Eles são testemunhos não só de usos e crenças e dos símbolos aos quais estão associados, mas também dos feitos históricos, dos universos culturais e das invenções tecnológicas.

Alessandro Sistri

E como objectos de arte, da época e do meio social onde são produzidos. Por isso, conhecermos de perto estes objectos é conhecermos também um pouco a história do nosso povo, das regiões onde habita, dos seus hábitos de festa, de religião, de trabalho, da diversidade das suas formas culturais e artísticas já que os instrumentos musicais são, como nos diz Alessandro Sistri:

“(…) Documentos complexos que nos ajudam a conhecer diferentes aspectos da cultura a que pertencem, por serem objectos síntese do sistema expressivo sonoro-musical e do sistema simbólico-material, em que as funções sonora, simbólica e estética interagem e as componentes decorativas, iconográficas e plásticas dão sentido mágico ao instrumento (…)”

Portugal forma-se como nação num território culturalmente abrangido pela Península Ibérica.

Península Ibérica

A este espaço confluem vários povos e culturas que até ao séc. XVI se vão influenciar mutuamente, conservando particularidades que lhe são próprias e criando por isso aspectos muito ricos, nomeadamente no campo da música e dos instrumentos musicais.

Neste aspecto, tem particular importância a ocupação árabe. Os seus músicos alcançaram grande prestígio e alguns dos seus instrumentos foram rapidamente copiados e utilizados pelos músicos cristãos. Alguns deles chegam até aos nossos dias mantendo o nome árabe como por exemplo o adufe.

Os materiais usados na feitura dos instrumentos são também reveladores das actividades quotidianas dos seus proprietários.

Instrumentos feitos com peles de animais como por exemplo a gaita-de-foles, o adufe e a sarronca são de carácter pastoril aparecendo por isso nas regiões do país onde essa actividade é predominante.

Distribuição Regional

Não há dúvida de que a caracterização geográfica do País está intimamente ligada à distribuição das formas instrumentais. Ou será ao contrário?

Ernesto Veiga de Oliveira apoia-se na divisão que Orlando Ribeiro faz em Portugal: Atlântico, Transmontano e Mediterrâneo.

” (…) Sob o ponto de vista paisagístico e cultural especial e muito geral, distinguiremos em Portugal, ao norte do Tejo duas áreas fundamentais por um lado, as terras do planalto alto e leste transmontano e beirão, marcadamente arcaizantes e pastoris, fechadas em si mesmas até épocas muito próximas, na vastidão de um horizonte severo e áspero, e onde formas de vida extremamente antigas eram (e são ainda em muitos casos) a atmosfera quotidiana;

por outro lado, as terras baixas a ocidente da barreira central, do Minho ao Tejo, populosas, conviventes, intensamente humanizadas, abertas a todas as influências e naturalmente impelidas para fórmulas mais progressivas, embora imersas ainda em inúmeros sectores culturais, no seu ambiente tradicional.

O Alentejo, sob certos aspectos, prolonga a sul, o panorama pastoril do planalto; a cultura regional reflecte uma personalidade original muito forte, e é também acentuadamente tradicional, mas a marca do espaço é ali mais sensível do que a do tempo.

E no Algarve, por seu turno, inversamente, condições paralelas às que apontamos nessas regiões nortenhas ocidentais estão na base de um ambiente que sob certos aspectos, se assemelha ao dessas terras...”

Minho

No Minho os instrumentos mais importantes são os conjuntos instrumentais das Rusgas, da Chula, e também dos Zés-Pereiras.

Trás-os-Montes

Em Trás-os-Montes, além dos conjuntos instrumentais do Gaiteiro e Tamborileiro. Tem também importância o Pandeiro, membranofone de forma quadrangular, geralmente tocado pelas mulheres a acompanhar todo o género de cantares de festa.

Beira Litoral

Também nesta região, além do conjunto instrumental dos Zés-Pereiras e do Fado (de Coimbra), teve particular importância a Viola Toeira, nomeadamente na região de Coimbra, onde hoje infelizmente já não existe nenhum tocador.

Beiras Interiores (Beira Alta e Beira Baixa)

Sobretudo na Beira-Baixa, o Adufe é o instrumento mais importante da região. Ele é aí tocado com grande maestria, imaginação e paixão, tanto em festas profanas como religiosas, alvíssaras da Páscoa e Romarias. A Flauta Travessa e a Palheta são passatempo individual de pastores.

Na região do Fundão tem grande importância os Bombos.

A Viola Beiroa, além das funções de passatempo, era também um instrumento cerimonial usado na Dança da Genebres e outras que tinham lugar na festa da Senhora dos Altos Céus, na Lousã, e nas Folias do Espírito Santo, de grande importância nesta região.

Estremadura

Na Estremadura, o Acordeão, se bem que seja um instrumento muito difundido por todo o país, tem um lugar muito especial nos bailes acompanhando o fandango, o passecate, o verde gaio, a contradança, etc.

Também a Gaita-de-foles é um elemento imprescindível dos Círios da região. Em Lisboa tem grande destaque a Guitarra Portuguesa e o Violão, por vezes acompanhado pelo Violão Baixo, no conjunto do Fado (de Lisboa).

Alentejo

No Alentejo existem três formas instrumentais: Tamboril e Flauta na região além Guadiana.

O Pandeiro quadrangular e a Pandeireta, mais a norte da província.

Mais a sul, a Viola Campaniça como instrumento acompanhador do canto e animador dos bailes da região.

Algarve

No Algarve além dos instrumentos de tuna e do Acordeão, na região da serra encontra-se com frequência a Flauta Travessa, feita de cana.

Açores

Os instrumentos mais importantes das ilhas dos Açores são as violas com dois tipos distintos:

– a Viola Micaelense, com a boca em forma de dois corações,

– e a Viola Terceirense, com a boca redonda.

Ambas se usam em ocasiões festivas a solo ou a acompanhar o canto e a dança, nas romarias, aos serões.

Também nas festas do Espírito Santo, de grande importância em todas as ilhas, os Foliões, grupos de tocadores que acompanham os vários momentos da festa e tocam o Tambor da Folia, juntamente com o Pandeiro, fuste de pandeireta sem pele, na ilha de S. Miguel.

Nas ilhas de S. Maria, Flores e Corvo o acompanhamento do tambor é feito com os Testos, pequenos pratos metálicos que se batem um contra o outro.

Madeira

Na Madeira têm grande importância os conjuntos formados pelos instrumentos de corda:

– a Viola de Arame,

– o Rajão, 

– a Braguinha

– e a Rabeca ou Violino, que acompanham os cantadores e a dança nas festas públicas que se realizam na ilha.

Os conjuntos

Apesar da importância da música vocal tradicional em Portugal,

– nomeadamente no Alentejo com os corais masculinos (Cante Alentejano)

– ou as canções polifónicas a três e quatro vozes minhotas e beirãs,

– além dos cantos de trabalho, canções de embalar,

os instrumentos têm funções muito importantes na vida das comunidades que os utilizam.

Geralmente construídos pelos próprios tocadores ou por habilidosos locais, mantendo formas e técnicas de construção que se foram perpetuando ao longo dos anos, foram também fixando funções de carácter ora cerimonial ora lúdico, onde o próprio instrumento dava significado a essas festas e a essas cerimónias.

Os instrumentos ao serviço da cultura

Tocadores de gaita-de-foles, que acompanham o Círio da região estremenha, e Zés Pereiras minhotos, que acompanham, pela aldeia, o compasso pascal, são exemplos dessa funcionalidade da música e dos instrumentos ao serviço de uma cultura onde estes objectos de fazer música ocupavam um espaço muito importante.

Alguns destes instrumentos nunca tocam isolados mas integrados em pequenos grupos instrumentais que caracterizam formas musicais próprias onde cada instrumento tem uma função específica.

Formando parte de um todo que se apresenta geralmente em situações festivas ou cerimoniais, estão ligados aos momentos mais importantes da vida dessas comunidades, prestigiando assim quem os integra e a aldeia a que pertencem.

Bombos

Na região da Serra da Estrela (Lavacolhos, Silvares, Souto da Casa), surge o conjunto instrumental dos Bombos, composto por bombos e caixas acompanhados por uma flauta travessa, cuja melodia bastante aguda se sobrepõe ao poderoso troar dos bombos.

Chula

É uma forma musical, instrumental, vocal e coreográfica de todo o Noroeste e mais especificamente da região compreendida entre os rios Douro e Tâmega. Semelhante à Rusga, tem, no entanto, um carácter mais definido.

A viola utilizada é a viola amarantina e utiliza um instrumento específico: a rabeca chuleira. Esta é uma espécie de violino de braço muito curto e escala muito aguda que sublinha a melodia e improvisa nos longos «ritornellos» instrumentais entre o cantador e a cantadeira, que cantam ao desafio.

Fado

Na região de Lisboa e de Coimbra, a guitarra e o violão acompanham uma forma específica, o Fado,

– em Lisboa é característico dos bairros populares,

– e em Coimbra encontra-se relacionado com o ambiente estudantil da Universidade.

Gaiteiro

Gaiteiro é o nome atribuído ao grupo instrumental composto

– pelo bombo,

– pela caixa

– e pela gaita-de-foles,

sempre presente nas festas e romarias que vão desde o norte de Portugal à região de Pombal.

Quando chega a altura da festa do santo, o gaiteiro anda pelas ruas, quer se trate de desfiles, de peditórios, de cortejos ou de procissões. No Minho são conhecidos como ‘Zés Pereiras’ e é sobretudo no Carnaval, que eles entram em ação.

Em Trás-os-Montes, o gaiteiro é usual nas, “Festas dos Rapazes“, que acontecem todos os anos na época do Natal. É acompanhado pelos ferrinhos.

Rusga

Composto essencialmente por instrumentos de corda, cavaquinho, viola braguesa e violão, são acompanhados, ritmicamente, pelo tambor, os ferrinhos e o reque-reque.

Actualmente, surge também a concertina ou o acordeão. As rusgas minhotas são grupos festivos que se podiam ver a caminho das festas e romarias e nos trabalhos colectivos da região, acompanhando a dança que espontaneamente se organizava.

Tamborileiro

É um conjunto composto por tamboril e flauta tocado por um só individuo.

Surge em duas regiões: em terras de Miranda, Trás-os-Montes, com as mesmas funções e o mesmo reportório da gaita-de-foles.

Na área além Guadiana, em Vila Verde de Ficalho e Sto Aleixo da Restauração, Alentejo, também com carácter cerimonial muito pobre, tocando exclusivamente na festa do padroeiro local.

Zés Pereiras

Também no Minho e na região de Coimbra encontra-se a gaita-de-foles acompanhada de caixa e bombo, por vezes em grande número nas festas e romarias, cortejos, procissões, visitas pascais.

Na região de Coimbra, os Zés Pereiras são especialmente requisitados para os desfiles de Carnaval, não só dessa zona mas de todo o país.

Os instrumentos musicais populares portugueses pertencem à chamada tradição organológica europeia, e para a sua descrição seguiu-se a classificação de C. Sachs e Hornbostel, criada em 1914, a qual agrupa todas as espécies existentes em quatro categorias (membranofones, idiofones, aerofones e cordofones), dependendo da natureza do elemento vibratório.

A seguir, indicamos as características de cada uma das quatro categorias, apresentando imagens de alguns dos respectivos instrumentos.

Membranofones

Os membranofones são instrumentos de percussão que produzem som através da vibração de membranas distendidas. Ou seja, o elemento vibratório, e que produz som, é uma membrana retesada.

Assim, podem-se considerar membranofones todos os instrumentos cujo som resulta de uma membrana, ou de uma pele esticada.

Normalmente, os membranofones têm o formato de caixas, circulares ou quadrangulares, e são cobertos por peles de animais de um ou de ambos os lados.

Idiofones

Nos idiofones, o elemento vibratório é o próprio corpo do instrumento, constituído por materiais mais ou menos vibráteis, independentemente da sua tensão.

Cordofones

Tratam-se dos instrumentos cujo elemento vibratório é uma corda ou mais cordas esticadas.

Assim, os cordofones, ou instrumentos de cordas, são instrumentos musicais cuja fonte primária de som é a vibração de uma corda tensionada.

Muitos deles possuem cordas presas a um braço e os comprimentos relativos das cordas são variados pelos dedos de uma das mãos. Para fazer a corda vibra, são utilizados três métodos principais: as cordas podem ser beliscadas, friccionadas com um arco ou percutidas.

Qualquer instrumento de cordas pode ser executado das três formas, mas alguns são mais frequentemente usados de uma forma específica.

Aerofones

Tratam-se dos instrumentos cujo elemento vibratório é o ar accionado de modo especial pelo instrumento, ou seja, aerofone é um qualquer instrumento musical em que o som é produzido principalmente pela vibração do ar sem a necessidade de membranas e cordas e sem que a própria vibração do corpo do instrumento influencie significativamente no som produzido.

Juntamente com os instrumentos mais importantes existem outros, geralmente idiofones, que têm funções diversas.

Segundo Ernesto Veiga de Oliveira, estes idiofones são divididos nas seguintes categorias:

Instrumentos usados para marcar o ritmo:

– castanholas,

– ferrinhos,

– bilha com abano,

– reque-reque;

Instrumentos utilizados em festividades (Semana Santa, Carnaval, Serração da Velha, etc.):

– matracas,

– zaclitracs;

Instrumentos próprios de certas profissões e modos de vida (para avisar, por exemplo, o começo de certos trabalhos):

– gaita de amolador,

– cornetas,

– assobios de caça,

– cornos,

– búzios;

Instrumentos de passatempo individual:

– ocarina,

– harmónica de boca,

– gaita de palha.

Texto elaborado, adaptado e sistematizado com base em compilação de textos recolhidos na internet | Imagem de destaque

Instrumentos musicais – Música tradicional Portuguesa

Instrumentos musicais portugueses

O instrumental popular português caracteriza-se por uma grande multiplicidade de formas, na sua maioria importadas de outros países, dando origem à grande diversidade musical portuguesa, traduzida numa dualidade paisagística fundamental:

– o leste transmontano e o beirão

– e a planície alentejana,

onde permanecem instrumentos antigos e rudimentares do ciclo pastoril, colorindo uma forma de vida arcaizante.

Nestas regiões verifica-se uma quase total exclusão dos cordofones (instrumentos de corda) do reportório tradicional. Encontram-se membrofones (instrumentos vibratórios) percutivos e atonais, como os pandeiros, adufes e tamboris, usados para marcar ritmo sem deformação da tonalidade das melodias. Numa linha mais melódica, são de realçar os pífaros e a gaita-de-foles.

A faixa ocidental do país, terras baixas do ocidente do Minho ao Tejo e, mais a sul, no Algarve, são regiões caracterizadas por um espírito mais aberto e expansivo.

Cordofones e outros

Aí predominam os cordofones como a viola, o cavaquinho, a rabeca, a guitarra, o violão e os instrumentos de «tuna». Ideais para exprimir musicalmente um temperamento alegre e festivo, estes instrumentos tornam-se privilegiados nas manifestações lúdicas, sendo os mais adequados à recepção de novas formas musicais e influências estrangeiras.

Para além dos cordofones, encontram-se ainda outros tipos de instrumentos como o acordeão, a harmónica e a concertina que, em determinadas circunstâncias, substituem os populares cordofones.

Todo este instrumental está fortemente ligado à música profana que caracteriza toda esta região.

Os instrumentos de corda permitem uma abertura e desenvolvimento de novas formas musicais, facto que não se verifica nunca nas terras pastoris e arcaizantes do leste, onde os cordofones são praticamente inexistentes.

No Minho as rusgas

Ao Minho correspondem formas musicais bem ritmadas e vivas, traduzindo nas canções coreográficas e danças de roda, desgarradas e desafios, um temperamento lúdico e festivo.

A voz faz-se acompanhar por braguesas e cavaquinhos, apoiados por idiafones (instrumentos vibratórios primitivos).

Nas rusgas (também conhecidas por tocatas, festadas ou rondas) intervêm ainda outros instrumentos tais como violas, tambores, reque-reques, flautas e ferrinhos, harmónicas e concertinas. Este grupo de instrumentos é igualmente extensível a parte da Beira Litoral, alegrando, quase sempre de improviso, feiras e romarias, caminhadas e trabalhos rurais.

Uma outra forma musical, instrumental, vocal e coreográfica é a chula, típica do noroeste do país, assumindo diferentes formas segundo as regiões. O traço comum entre estas diferentes chulas é o tom festivo e os cantares ao desafio.

Tal como a rusga, a chula não possui funções cerimoniais. São ambas de carácter profano e festivo, distinguindo-se pela forma como se apresentam.

A primeira surge de improviso, animando, por exemplo uma caminhada, ou uma tarefa rural, enquanto a chula se organiza como atracção de uma festa, apresentando-se em pequenos palcos onde vozes masculinas e femininas cantam ao desafio, acompanhadas por cordofones (de destacar a rabeca chuleira) e percutivos.

Concertina: um instrumento a preservar

A Concertina

Sempre que emigra, o minhoto leva consigo a concertina que o ajuda a manter viva a sua alma alegre e jovial.

Mesmo nos momentos mais penosos como as que ocorreram desde a segunda metade do século dezanove, que os levava a aventurarem-se clandestinamente nos porões dos navios que os levaram ao Brasil para aí começarem uma vida nova, por vezes na miragem de um rápido enriquecimento, era ainda a concertina que afagava as tristezas de uma existência difícil e lhes redobrava as energias com seus acordes vivos que logo os predispunham para dançar o vira e a chula, a gota e o picadinho.

E essa alegria contagiante do minhoto depressa envolvia outros portugueses que partilhavam a mesma sorte de emigrante e assim, à volta de uma concertina, todos se sentiam como fazendo parte da mesma família que é, afinal de contas, o verdadeiro significado do conceito de nação.

A concertina é um instrumento popular que teve a sua origem na Europa por volta de 1830 e faz parte dos membrafones ou seja, dos instrumentos musicais que produzem o seu som graças à actuação de uma membrana.

Estou convencido de que não existe método nem escola para se proceder à sua aprendizagem, facto que tem sido responsável pela sua gradual substituição pelo acordeão nos últimos tempos, sobretudo entre os grupos folclóricos portugueses.

Não obstante e apesar da sua leve aparência, o acordeão produz uma sonoridade completamente distinta da concertina, pois tratam-se na realidade de dois instrumentos distintos. No entanto, existem acordeões que possuem como alternância o som da concertina, bastando para o efeito accionar um botão específico.

A substituição da concertina pelo acordeão

Com efeito, em virtude da evidente falta de tocadores de concertina, muitos grupos folclóricos optam pela substituição deste instrumento pelo acordeão, o que se na realidade não satisfaz constitui por vezes a única forma de viabilizar a existência desses agrupamentos.

A ameaça de desaparecimento da concertina coloca um problema sério principalmente ao folclore, sobretudo da região de Entre-o-Douro-e-Minho.

É que, sem o toque da concertina desaparece toda a sonoridade que caracteriza a música desta região e tudo se altera, como se o minhoto perdesse a sua pronúncia característica ou a música tradicional passasse a ser interpretada por meio de modernos instrumentos electrónicos.

É que, por melhor executada que fosse, o vira jamais seria o mesmo!

A preservação do uso e conhecimento da concertina coloca um problema sério aos grupos folclóricos e, em geral a todos aqueles que desejam manter vivas as nossas tradições populares.

Importa saber como poderá manter-se a continuidade da sua utilização sabendo-se que o seu ensino não é ministrado. Naturalmente, a sua aprendizagem pela sensibilidade auditiva passa pela prática do uso nos grupos folclóricos, embora sabendo-se que a formação de um excelente tocador é demorada e coloca algumas dificuldades na própria actuação dos grupos.

Mas, entre uma solução atamancada que vai adulterar a sonoridade original da música e a possibilidade de dar continuidade ao emprego da concertina, importa escolher a melhor opção. E essa terá de ser necessariamente a que melhor aproveita ao folclore português.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

 

Cavaquinho – Instrumentos musicais tradicionais

Cavaquinho

O cavaquinho é um cordofone popular de pequenas dimensões, do tipo da viola de tampos chatos – e portanto da família das guitarras europeias – caixa de duplo bojo e pequeno enfranque, e de quatro cordas, de tripa ou metálicas – de «arame» (ou seja aço) -, conforme os gostos, presas, nas formas tradicionais, em cima, a cravelhas de madeira dorsais, e, em baixo, no cavalete colado a meio do bojo inferior do tampo, por um sistema que também se usa na viola.

Além deste nome, encontramos ainda, para o mesmo instrumento ou outros com ele relacionados, as designações de machinho, machim, machete (que parece ser uma palavra, caída em desuso, e subsistente nas ilhas e no Brasil), manchete ou marchete, braguinha ou braguinho, cavaco, etc., que a seguir analisaremos.

Dentro da categoria geral com aquelas características, existem actualmente em Portugal continental dois tipos de cavaquinhos, que correspondem a outras tantas áreas:

– o tipo minhoto

– e o tipo de Lisboa.

É sem dúvida fundamentalmente no Minho que, hoje, o cavaquinho aparece como espécie tipicamente popular, ligada às formas essenciais da música característica dessa Província.

O cavaquinho minhoto

O cavaquinho minhoto tem a escala rasa com o tampo, como a viola, e doze trastos. A boca da caixa é, no caso mais corrente, de «raia», por vezes com recortes para baixo; mas aparecem também cavaquinhos de boca redonda.

As dimensões do instrumento diferem pouco de caso para caso:

– num exemplar comum, elas são de 52 cm de comprimento total, dos quais 12 para a cabeça, 17 para o braço e 23 para a caixa;

– a largura do bojo maior é de 15 cm, e a do menor, 11;

– a parte vibrante das cordas, da pestana ao cavalete, mede 33 cm.

A altura da caixa é menos constante: regula por 5 cm na generalidade dos casos, mas aparecem com frequência cavaquinhos muito baixos, que têm um som mais gritante (e a que, em terras de Basto e noutras regiões minhotas, chamam machinhos).

Madeiras para a construção

As madeiras variam conforme a qualidade do instrumento:

– os melhores tampos são em pinho de Flandres;

– mais correntemente, eles são em tília ou choupo;

– e as ilhargas e o fundo são em tília, nogueira ou cerejeira.

Em regra, os tampos são de uma folha única daquelas madeiras que apontamos, mas, não raro, fazem-se cavaquinhos em que a metade superior do tampo é em pau-preto;

– as ilhargas e o fundo são também, muitas vezes, nesta madeira. Braço, cabeça ou cravelhal são de amieiro. A cabeça ou cravelhal é geralmente muito recortada, segundo moldes variados e característicos. Rebordos e boca são sempre avivados e enriquecidos com frisos decorativos.

Os cavaletes são quási sempre em pau-preto; e já o Regimento para o ofício de violeiro, de Guimarães, de 1719, os indica assim para as violas.

A indústria dos cavaquinhos

Os cavaquinhos minhotos são construídos por uma indústria localizada outrora, sobretudo, em Guimarães e Braga, e, hoje no Porto e arredores de Braga. Em Guimarães, já no século XVII se construíram estes instrumentos, e o Regimento de 1719 menciona, entre as espécies então fabricadas, machinhos de quatro e, outros, de cinco cordas.

O cavaquinho é um dos instrumentos favoritos e mais populares das rusgas minhotas, e, como estas e como o género musical que lhe é específico, tem carácter exclusiva e acentuadamente lúdico e festivo, com radical exclusão de usos cerimoniais ou austeros.

Não há ainda muitas dezenas de anos, rara era a casa rural do concelho de Guimarães onde ele não existisse e não fosse tocado.

Toca-se só em conjunto com outros

Pode-se usar sozinho, como instrumento harmónico, para acompanhamento do canto. Mais frequentemente, porém, aparece com a viola, e muitas vezes ainda com outros instrumentos – nomeadamente

– o violão, a guitarra, a rabeca, o banjolim e a harmónica ou acordeão,

– e mais os percutivos, tambor, ferrinhos e reco-recos – próprios desses conjuntos festivos.

Em terras de Basto e de Amarante faz-se uma distinção muito nítida entre o instrumental do tipo da rusga, para as canas-verdes e malhões, que compreende

– o cavaquinho, violão, hoje harmónicas e acordeãos, bombo e ferrinhos,

e o do tipo da chula ou vareira, que compreende

– a rabeca (e hoje, em vez dela, por vezes, a harmónica)

– violas (uma alta em tom de guitarra, e outra baixa),

– violões assurdinados no sexto ou sétimo ponto,

– bombo e ferrinhos,

mas não cavaquinhos.

Vê-se assim que, na região, o cavaquinho alterna com a rabeca chuleira as funções de instrumento agudo, conforme os casos.

Como se toca e afinações

O cavaquinho geralmente toca-se de rasgado, com os quatro dedos menores da mão direita, ou apenas com o polegar e o indicador, como instrumento harmónico. Mas um bom tocador, com os dedos menores da mão esquerda sobre as cordas agudas, desenha aí a parte cantante que se destaca sobre o rasgado, ao mesmo tempo que as cordas graves fazem o acompanhante em acordes.

Ele tem um grande número de afinações, que, como sucede com a viola, variam conforme as terras, as formas musicais e até os tocadores. Geralmente, para tocar em conjunto, o cavaquinho afina pela viola; a corda mais aguda põe-se na máxima altura aguda possível.

A afinação natural parece ser ré-sol-si-ré (do grave para o agudo), mas usa-se também sol-sol-si-ré (ou lá-lá-dó sustenido-mi, do grave para o agudo).

Certos tocadores de Braga usam porém, além destas, outras afinações, próprias de certas formas, em que a corda mais aguda (ré) é ora a primeira ora a terceira:

– a afinação para o varejamento (com a primeira mais aguda), que corresponde a sol-sol-si-ré, atrás indicada;

– a afinação para malhão e vira, na «moda velha» mais antiga (sol-ré-mi-lá, também com a primeira mais aguda);

– em Barcelos, preferem sol-dó-mi-lá (afinação da «Maia»);

– outras afinações de malhão e vira, e outras ainda com a terceira mais aguda; etc.

Hoje usa-se o cavaquinho (como de resto outros instrumentos das rusgas) também para o fado, com afinação correspondente, e igualmente a primeira mais aguda.

Origem do cavaquinho

A origem do cavaquinho é duvidosa.

Gonçalo Sampaio, que explica as sobrevivências de modos arcaicos helénicos, que ele próprio nota na música minhota, à luz de conjecturais influências gregas (ou ligures) sobre os primitivos calaicos daquela Província, acentua, sem mais consistência do que isso, a relação entre o cavaquinho e os tetracórdios e sistema helénicos, e é de opinião que ele, com a viola, veio para Braga por intermédio dos biscaínhos, sem explicitar nem dizer as razões desta opinião.

De facto, há em Espanha um instrumento semelhante ao cavaquinho, da família das guitarras – o requinto – de quatro cordas, braço raso com o tampo e dez tratos, que afina, do grave para o agudo, ré-lá-dó sustenido-mi.

Jorge Dias parece também considerá-lo vindo de Espanha, onde se encontra, em termos idênticos, a guitarra, guitarrón ou guitarrico, como o chitarrino italiano.

E acrescenta:

«sem poder precisar a data da introdução, temos que reconhecer que o cavaquinho encontrou no Minho um acolhimento invulgar, como consequência da predisposição do temperamento musical do povo pelas canções vivas e alegres e pelas danças movimentadas… O cavaquinho, como instrumento de ritmo e harmonia, com o seu tom vibrante e saltitante, é, como poucos, próprio para acompanhar viras, chulas, malhões, canas-verdes, verdegares, prins».

Além disso, é no Minho notório o gosto pelas vozes femininas sobreagudas e por vezes mesmo estridentes, que se casam bem com a tonalidade do cavaquinho.

O cavaquinho minhoto em Coimbra

O cavaquinho, de tipo minhoto, com escala rasa com o tampo e doze trastes, ainda em fins do século passado era bastante frequente na região de Coimbra, figurando, ao lado da viola, nas mãos do povo e, nomeadamente, nos festejos do S. João, nas fogueiras da cidade, juntos com a guitarra, pandeiro e ferrinhos, e nas serenatas da Academia, com largas referências, sob o nome de machinho, na Macarronea.

Há poucos decénios, ele ainda se via nessas ocasiões, mas então já em casos raros, e sobretudo tocado por estudantes minhotos.

O cavaquinho de Coimbra afinava, de acordo com a viola da região, ré-sol-si-mi (do grave para o agudo). Um exemplar da autoria de António dos Santos – outro antigo violeiro famoso da cidade, na Rua Direita -, e que se encontra no Museu Etnográfico da cidade,

– mede 50 cm de comprimento total, sendo 9,5 de cabeça, 17 de braço e 23,5 de caixa (com 23,5 da pestana ao cavalete).

– o bojo superior tem 10,5 de largura, e o inferior 13,5; a cinta tem 7,8;

– a altura da caixa é de 3 cm em cima, e de 3,4 em baixo.

Ele parece pois ser ali uma espécie local, que porém se extinguiu do mesmo modo que a viola, suplantados pela guitarra. E, de facto, o exemplar de António dos Santos, dessa época, atesta não só o seu uso mas mesmo o fabrico regional.

O cavaquinho de Lisboa

O cavaquinho de Lisboa, semelhante ao minhoto pelo seu aspecto geral, dimensões (um pouco mais curto de braço e mais comprido de caixa, que também é um pouco mais larga do que nos modelos minhotos.

No cavaquinho do Sul, como a escala vem abaixo até junto à boca, essa mede mais cerca de 5 cm do que nos nortenhos) e tipo de encordoamento, difere contudo essencialmente deste pela escala, que é em ressalto, elevada em relação ao tampo, pelo número de trastes, que são dezassete e vêm até à boca, como no violão e na guitarra portuguesa em todos os demais cordofones de atadilho da família dos banjolins a boca é sempre redonda.

O cavalete é de um tipo diferente do dos cavaquinhos minhotos, uma espessa régua linear com um rasgo horizontal escavado a meio, onde a corda prende por um nó corredio depois de atravessar, como nos outros, quatro pequenos sulcos verticais, entre o tampo e a metade inferior do cavalete.

Ele parece aí ser mais um instrumento de tuna, de uso urbano e sobretudo burguês que, em meados do século XIX, os mestres de dança da cidade utilizavam nas suas lições, e que era às vezes tocado pelas senhoras; como tal, toca-se então pontiado, com plectro – a «palheta» —, como os instrumentos desse género do tipo dos banjolins, geralmente fazendo tremolo sobre cada corda com a «palheta».

O cavaquinho em outras regiões

No Algarve, conhece-se igualmente o cavaquinho como instrumento de tuna – «a solo ou com bandolins, violas (violões), guitarras e outros instrumentos» -, de uso como em Lisboa, urbano popular ou burguês, para estudantinas, serenatas, etc.

Na ilha da Madeira existe também o correspondente destes cordofones, com os nomes de braguinha, braga, machete, machete de braga ou cavaquinho.

O braguinha tem as mesmas dimensões e número de cordas dos cavaquinhos continentais, a mesma forma e característica do cavaquinho de Lisboa:

– escala elevada sobre o tampo, dezassete trastos, boca redonda;

– o encordoamento parece ser de tripa, mas o povo substitui geralmente a primeira corda por fio de aço cru;

– a sua afinação é, do grave para o agudo, ré-sol-si-ré.

Gonçalo Sampaio acentua a distinção entre os instrumentos minhoto e madeirense, ou machete, que conhece apenas como instrumento solista e, como vimos, com características diferentes daquele.

Distinção entre minhoto e madeirense

Carlos Santos considera-o mesmo de invenção insular, explicando o seu nome, de acordo com o autor do Elicidário Madeirense, pelo facto de o instrumento ser usado por gente que vestia bragas, antigo trajo do camponês ilhéu.

Mas esta opinião parece ignorar o instrumento continental, do qual, a despeito das diferenças apontadas, não podemos deixar de aproximar a forma madeirense.

De resto, outros autores madeirenses, como Eduardo C. N. Pereira, notando embora certas particularidades do braguinha, como a sua afinação pela viola, inclinam-se decididamente pela hipótese da origem continental do braguinha ou machete madeirense.

E notamos a designação de machinho que aparece em algumas terras do Baixo Minho e de Basto, e já no Regimento de 1719 referente a Guimarães.

Na realidade, o braguinha madeirense, sob o ponto de vista do seu contexto social, apresenta-se, por um lado, como instrumento de nítido carácter popular, próprio do «vilão», rítmico e harmónico, para acompanhamento, tocando-se então rasgado.

Por outro, instrumento urbano, citadino e burguês, de tuna, melódico e cantante – de facto o único instrumento cantante madeirense -, tocando-se pontiado, com palheta ou, preferentemente, com a unha do polegar direito ao geito de plectro, alternando com rufos ou acordes dados com os dedos anelar, médio, e indicador (o que toma bastante difícil a execução).

E tendo como tal figurado em conjuntos de que faziam parte pessoas da maior representação social da cidade do Funchal, com conhecimentos musicais, e ao serviço de um repertório de tipo erudito, em arranjos mais ou menos adequados.

Morfologicamente idênticos, o braguinha rural é extremamente rústico e pobre, enquanto o burguês e citadino é geralmente de uma feitura muito esmerada, em madeiras de luxo, com embutidos, etc.

Nos Açores

O Dicionário Musical, de Ernesto Vieira, e também o Grove’s Dictionary of Music, mencionam o cavaquinho nos Açores.

De facto, na ilha do Pico, encontramos um excelente informador, a despeito da sua idade avançada – o P. Joaquim Rosa, que em 1963 contava 90 anos -, que, em criança, usara o cavaquinho na Prainha do Norte, sua aldeia natal, na mesma ilha.

E temos notícia da sua existência na vizinha ilha do Faial, nomeadamente na aldeia dos Flamengos, perto da Horta.

Na ilha Terceira constroem-se hoje também cavaquinhos, mas apenas por encomenda do pessoal americano do aeroporto das Lajes, ou destinados a terceirenses que habitam a América do Norte, e rotulados de «ukulele».

No Brasil

O cavaquinho existe também no Brasil (onde goza de uma popularidade maior do que entre nós), figurando em todos os conjuntos regionais, de choros, emboladas, bailes pastoris, sambas, ranchos, chulas, bumbas-meu-boi, cheganças de marujos, cateretês, etc., ao lado da viola, violão, bandolim, clarinete, pandeiro, rabecas, guitarras, flautas, oficleides, requesreques, puita, canzá e outros, conforme os casos, com carácter popular, mas urbano.

Difere do minhoto, tendo como os de Lisboa e da Madeira, o braço em ressalto, sobre o tampo, com 17 trastos, e a boca sempre redonda, mas mais pequena, como de resto todas as suas dimensões.

A sua afinação, segundo Oneyda Alvarenga, é, como na Madeira (e como em certos casos minhotos), o acorde de sol maior invertido. Mas Câmara Cascudo informa que também ali se usam afinações várias.

Os autores brasileiros, em geral, Oneyda Alvarenga, Mário de Andrade, Renato Almeida, etc., consideram unanimemente o cavaquinho brasileiro de origem portuguesa, e Câmara Cascudo fala mesmo concretamente, a esse respeito, na ilha da Madeira.

De uma maneira geral portanto, ao instrumento francamente popular, minhoto (e, originariamente, coimbrão), que se toca de rasgado, corresponde o velho tipo de braço raso e com doze trastos.

Enquanto que aos instrumentos de carácter citadino e burguês, de Lisboa, Algarve e Madeira – portanto menos presos à tradição -, que se toca de pontiado, corresponde o tipo de braço em ressalto, e dezassete trastos, que parece ter sofrido influências desses instrumentos mais evoluídos, violão, guitarra, ou banjolim.

O cavaquinho brasileiro, embora popular, é deste último tipo. Mas vimos que ele é usado sobretudo pêlos estratos populares urbanos. Esta regra não é porém geral: o braguinha rural da Madeira, acentuadamente popular, é, a despeito disso, morfologicamente idêntico ao urbano.

Nas ilhas do Hawai

Finalmente, nas ilhas Hawai existe um instrumento igual ao cavaquinho – o «ukulele» -, que parece, na verdade, ter sido para ali levado pelos portugueses.

Como o nosso cavaquinho, o «ukulele» havaiano tem quatro cordas e a mesma forma geral do cavaquinho.

Certos violeiros fazem-no com o braço em ressalto e dezassete trastos, como a generalidade dos cordofones desta família, e como o cavaquinho de Lisboa, da Madeira e do Brasil. Mas há «ukuleles» de fabrico inglês do tipo do cavaquinho minhoto, de braço raso com tampo e apenas 12 trastos.

A sua afinação natural é, do grave para o agudo, sol-dó-mi-lá (ou lá-ré-fá sustenido-si, ou ainda ré-sol-si-mi, como indicam certos manuais ingleses).

Carlos Santos e Eduardo Pereira referem-se à divulgação do braguinha por todo o mundo, graças ao turismo e ao cinema, e sobretudo à exportação e à emigração dos colonos ilhéus para as Américas, do Norte e do Sul, ilhas Sandwich, etc..

Citam mesmo alguns dos primeiros exportadores que, nos princípios deste século, os enviaram, a pedido, para Barbados, Demerara e Trindad.

De facto, o cavaquinho, ou braguinha, foi introduzido em Hawai por um madeirense de nome João Fernandes, nascido na Madeira em 1854, e que foi da sua ilha para Honoluiu no barco à vela «Ravenscrag» num continente de emigrantes – 419 pessoas, incluindo crianças -, com destino às plantações de açúcar, numa viagem pela rota do cabo Hom que demorou quatro meses e vinte e dois dias.

Entre esses emigrantes vinham cinco homens que ficaram ligados à história da introdução do cavaquinho em Hawai:

– dois bons tocadores, o mencionado João Fernandes (que tocava também rajão e viola) e José Luís Correia;

– e três construtores, Manuel Nunes, Augusto Dias, e José do Espírito Santo.

A chegada a Honolulu

O «Ravenscrag» chega a Honolulu a 23 de Agosto de 1879, e José Fernandes (segundo um relato feito à revista Paradise of the Pacific, de Janeiro de 1922), ao desembarcar, trazia na mão um braguinha, pertencente a um outro emigrante também passageiro do «Ravenscrag», João Soares da Silva, que porém não sabia tocar e o emprestara a João Fernandes para que este entretivesse os demais companheiros na longa viagem até Hawai.

Os hawaianos, quando ouviram João Fernandes tocar o pequeno instrumento, ficaram encantados, e deram-lhe logo o nome de «ukulele», que significa «pulga saltadora», figurando o modo peculiar como é tocado.

Depois de instalados na ilha, seguidamente, todos queriam que João Fernandes tocasse, o que ele fazia gostosamente – em danças, festas, serenatas, etc., tendo depois formado um conjunto com Augusto Dias e João Luís Correia.

Tocou assim para o rei Kalakaua, em especial na festa do seu aniversário, para a rainha Emma e a rainha Liliuokalani, no palácio de Ilakla e no pavilhão de Verão, de lolani, que era um centro de música, dança e cultura.

De cavaquinho a ukelele

O «ukulele» toma-se extremamente popular em Honolulu e Manuel Nunes, na fábrica e loja de móveis que abrira na King Street, passou a construir esses instrumentos, que não sabia tocar, mas que passava a João Fernandes para que este tocasse: e as pessoas reuniam-se à porta da sua oficina para o ouvirem.

Com o tempo os hawaianos aperceberam-se de que o instrumento não era difícil de tocar, e começaram a comprar os exemplares ali construídos, cujo preço era então de 5 dólares.

Esta actividade de Manuel Nunes – que na tradição oral da sua família, desde então radicada em Honolulu, se iniciou logo a seguir à sua chegada – está documentada desde 1884. Na mesma altura, Augusto Dias abre, pelo seu lado, loja de fabrico e venda de «ukuleles». E o mesmo faz José do Espírito Santo em 1888. Estes três primeiros violeiros passaram a utilizar as madeiras locais de kou e koa, com as quais construíram instrumentos de muito boa qualidade.

Estados Unidos da América

Manuel Nunes deixou descendentes em Hawai e um seu bisneto, o senhor Leslie Nunes, grande cultor do «ukulele» e autor de um pequeno trabalho sobre as suas origens, e a quem devemos os informes que aqui utilizamos, julga que é o seu bisavô quem está na origem da sua difusão nessas ilhas, e seguidamente nos Estados Unidos.

Nunes é o nome de família dos mais famosos construtores madeirenses de instrumentos de corda, nomeadamente Octaviano João Nunes (que ofereceu um braguinha da sua autoria à imperatriz Elizabeth da Áustria, que se encontra no Museu de Viena), e seu sobrinho João Nunes Diabinho».

Segundo nos informou um sobrinho deste último o Senhor Bartolomeu de Abreu, nem um nem outro daqueles construtores acompanhou porém os seus conterrâneos no referido movimento emigratório, nem estiveram nunca em Hawai ou nos Estados Unidos.

Restaria averiguar se o Senhor Manuel Nunes, que foi para Hawai, e que, pelo que vemos, foi também construtor de cavaquinhos, pertenceria à estirpe dos velhos violeiros Nunes do Funchal.

O cavaquinho existe igualmente em Cabo verde, num formato maior do que o do instrumento em Portugal, com escala em ressalto até à boca, e dezasseis trastos, e ligado a formas tradicionais da música local.

O cavaquinho em Portugal

Será o cavaquinho uma espécie que teve outrora carácter de grande generalidade no País e que se foi extinguindo, subsistindo apenas em manchas dispersas de maior ou menor vulto e importância em relação às formas musicais locais?

Ou de uma espécie fixada entre nós primordialmente no Minho, donde teria irradiado directamente ou indirectamente para as, ou algumas das, outras partes onde hoje aparece – Coimbra, Lisboa, Algarve, Madeira, Açores, Cabo Verde e Brasil -, encontrando diversa aceitação conforme os casos?

Jorge Dias parece inclinar-se para esta segunda hipótese genérica; mas, mais concretamente, considerando o carácter diverso que o instrumento apresenta no Minho e no Algarve, opina que ele foi levado para o Algarve por algarvios de regresso da Madeira ou do Brasil – para onde, de resto, foi por sua vez certamente levado por gente minhota. E julgamos que o mesmo se pode entender em relação ao caso lisboeta.

Desse modo, a partir da província nortenha, o cavaquinho ter-se-ia difundido na Madeira pela via do emigrante minhoto.

Longe do seu foco de origem, e por isso menos preso à sua tradição mais castiça, modifica a sua forma por influências de outras espécies ali existentes e mais evoluídas, e às quais ele se teria pouco a pouco associado; e ao mesmo tempo que conserva o seu carácter popular, adquire na cidade do Funchal um novo status mais elevado.

E é assim que ele regressa ao Continente, Algarve e Lisboa, em mãos de gentes dessas áreas que o conhecem ali só sob esse aspecto. O mesmo se pode ter passado com o Brasil, embora, neste caso, sejam também de admitir relações directas entre a Madeira e esse país.

Na Indonésia

Leme Berthe menciona ainda um outro tipo deste instrumento, que ocorre na Indonésia – o ukélélé, ou kerontjong -, como acompanhante na orquestra que leva o mesmo nome de kerontjong, a par de uma viola grande (guitarre), um violoncelo ou contrabaixo, e um alto (viole).

Esta orquestra corresponde a um género musical indonésio que surge nos começos do século XVI, por contacto com a música portuguesa, influenciada, conforme as regiões, pêlos estilos tradicionais, como o gamelan.

Na Madeira, além do braguinha, existe outro cordofone da mesma família – o rajão – de feitio igual ao dele e ao da viola, mas de um tamanho intermédio – cerca de 66 cm de comprimento (dos quais 32 na caixa harmónica) por 21 de largura —, com dezassete trastos e, normalmente, cinco cordas, ora todas de «arame» ora com as primeiras e quarta (toeira) de «arame» (N. ° 10 ou 8, e 4 respectivamente), as segundas e terceiras de tripa ou de bordão – afinando, do grave para o agudo, ré-sol-dó (baixo)-mi-lá) ou mi-la-ré baixo-fá sustenido-si).

Instrumento acompanhador, toca-se como o braguinha, rasgando, igualmente com rufos de cima para baixo, dos indicador, médio e anelar da mão direita, alterando com outros, de baixo para cima, do polegar.

Outro tipo de cavaquinho

Carlos Santos e Eduardo Pereira consideram este instrumento de invenção madeirense, imitação do violão, em tamanho menor.

Contudo, vimos no Regimento dos Violeiros de Guimarães, de 1719, que aí se construíram «machinhos» de cinco cordas (além de outros de quatro, que correspondem aos actuais), sendo por isso de admitir que tenha havido no continente um tipo maior que corresponderia porventura ao cavaco (mencionado por vários autores), depois desaparecido, e que, levado para a Madeira, ali substitui, tendo certamente modificado o seu tipo originário, no que se refere à forma do braço e número de trastos, por influência certamente do violão, difundido e popularizado nos princípios do século XIX, e que tem essas características.

E esta hipótese parece ser reforçada ainda com a consideração da afinação do rajão, idêntica à de outro instrumento espanhol da família das guitarras de cinco cordas – o guitarro andaluz -, antecessor presumível do cavaco – ou, seja, esse machete de cinco cordas do Regimento de 1719.

O cavaco dos portugueses

Acresce que a Enciclopédia Universal Espasa alude a um cavaco dos portugueses, que é como um cavaquinho de maiores dimensões. E o referido Senhor Leslie Nunes fala num outro instrumento hawaiano de origem portuguesa – o taro-patch -, como um violão pequeno, de cinco cordas (e em certos casos quatro), que pelas suas dimensões, se relacionaria com o rajão madeirense e que foi difundido naquelas ilhas pelas mesmas pessoas que para lá levaram o braguinha, e na ocasião que atrás relatamos.

Em resumo, pois, conheceram-se em Portugal, no século XVIII, «machinhos» grandes, de cinco cordas, que subsistem na Madeira e em Hawai, mas desapareceram aqui (e não se conhecem no Brasil, onde porém existem cavaquinhos pequenos e grandes).

Enfim, em certos casos, aliás pouco frequentes, nomeadamente em Lisboa, um instrumento parecido com o cavaquinho pelo seu formato geral e dimensões, mas com um número superior de cordas (e portanto um braço mais largo), leva também o nome de cavaquinho, embora seja talvez de estirpe e natureza diferente das deste.

Ernesto Veiga de Oliveira in “Instrumentos Populares Portugueses” (edição da Fundação Calouste Gulbenkian) – texto editado e adaptado

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