A “Dança dos Paulitos” de Miranda do Douro

A “Dança dos Paulitos”

Constitui, sem dúvida, uma das mais castiças expressões do nosso folclore, a “dança dos paulitos“, que, nos recatados confins de Terras de Miranda do Douro, é ainda executada pelos naturais no festival a Nossa Senhora do Naso e em outros, sem que as investidas da civilização a tenham conseguido derrubar ou subverter, descaracterizando-a.

Este divertimento é duma antiguidade quási imemorial, pois já no século XV se exibia nas festas do “Corpus Christi“.

Os actores do bailado – em número de 16, na dança completa, ou de 8, na meia dança – manejam com agilidade uns pequenos bastões com cerca de 35 centímetros, “palotes” ou “paulito“, com os quais marcam o compasso, batendo com eles reciprocamente.

Os dançantes, “peões” e “guias” em mangas de camisa, tendo nas costas, ao pendurão, lenços floridos de seda, dançam numa exaltação febril, saltitando, volteando, cruzando-se e contorcionando-se com simplória graça, num estilo que perturba e entontece, ao mesmo tempo que os bastões se entrechocam ritmicamente.

Durante as evoluções coreográficas, usam uns fantasiosos vestuários regionais, apropriados para este divertimento e característicos pela orgia policrómica e terna complexidade.

Os trajes

Constam de um largo chapéu braguês, preto, engalanado de lantejoulas, penas de pavão e flores, tendo pendentes da aba duas longas fitas.

Colete guarnecido caprichosamente e no qual se distingue um losango de tecido branco, na parte posterior que se ajusta às costas.

Estes coletes são de grosseiro burel escuro, a que chamam “pardo“, espreitando no bolso dos mesmos, lenços brancos, matizados a cores berrantes;

Saias brancas, rodadas, de grandes folhos, tendo na barra guarnições bordadas, garrido saiote de baeta vermelha.

Meias de lã branca, ensilveiradas a preto e sapatos de baqueta branca, ornamentados a cores.

Esta dança cheia de cor, de movimento e dum certo pitoresco selvagem, quási não carece de ritmo e de sentido musical; executa-se ao som horríssono do tamboril, da caixa de rufo e da gaita-de-foles.

Além deste instrumento ruidoso, tangem os dançarinos, durante a exibição, castanholas, que ressoam no bailado como um estridente acompanhamento.

Estilos e variantes da dança

Tão característica dança, presa a uma sólida tradição, é por vezes acompanhada por canções populares, num cerrado dialecto quási incompreensível, misto de português e de castelhano.

Tem diversos estilos e variantes – “laços” – contando-se entre os principais: a lebre, o mirondum, a erva as pombas, os ofícios, a a carmelita, D. Rodrigo, o perdigão, o vinte e cinco, o acto de contrição, o cavalheiro, a pimenta, o touro, o canário e o maridito.

Teve a prioridade nestas investigações o erudito folclorista dr. Leite de Vasconcelos que, nos Estudos de Filologia Mirandesa, abordou o tema desenvolvidamente.

Assegura o douto arqueólogo Reverendo Francisco Manuel Alves, que esse bailado deve ter lido uma origem sagrada que se obliterou, e não guerreira, como conjecturam alguns comentadores.

Tal hipótese é admissível, tanto mais que os mirandeses não bailam com espadas, lanças ou qualquer outra arma ofensiva, mas simplesmente, com pequenos bastões, como for já referido.

A dança dos paulitos não guarda dos tempos antigos nenhum vestígio pagão, sendo demasiado rigoristas os párocos que a não toleram nas festas religiosas.

Em Penafiel, nos festivais do Corpo de Deus, exibem-se algumas danças originais tais como a dos sapateiros, dos ferreiros, e outras em que há animação e ingenuidade.

Seria longa a enumeração de todas as danças populares portuguesas, muitas delas tumultuosas e cheias de dinamismo.

Vira minhoto

Danças de cada província

Cada província, cada região, possui os seus bailados característicos, manifestações, de vivacidade, de alegria, telas animadas das ocupações agrárias e dos arraiais rumorosos: o Algarve tem a “cana-verde” e o “corridinho“, dançados quási sempre ao som da harmónica.

O Ribatejo, o “vira-vira“, o “estaladinho” e o “verde-gaio“, cujos movimentos são regrados frequentemente pela gaita-de-beiços.

O Douro, o “regadinho” e a “chula-vareira“.

O Minho, o “malhão“, o “vira“, a “ramaldeira” e a “cirandinha“, modas estas dançadas quási todas ao som raspado e chocalhante da viola e de típicas cantigas.

Entre as danças mais ou menos licenciosas, conta-se o “fado“, batido no tablado das lôbregas alfurjas em posições torpes e desnalgadas, em que o sadismo e a devassidão se confundem, vibrando em unísono.

Muito embora cheia de nítida influência andaluza, deve ainda notar-se a dança, o “fandango“, cujo sapateado ou ruído feito com os rastos e tacões do calçado, atingem os efeitos duma saltitante orquestração.

A carta coreográfica da dança nacional, é uma farândula de graça desenvolta, castiça, sadia e embriagante, que devia merecer o culto dos folcloristas que têm entusiasmo por todas as revelações da simplória alma popular.

Guilherme Felgueiras (da Associação dos Arqueólogos Portugueses)

Fonte: “Ilustração” nº 273 – 1937

Distribuição Regional das Danças Populares Portuguesas

Distribuição Regional das Danças Populares Portuguesas ainda em uso

Bailarico ao Corridinho

Bailarico ― Estremadura (Região Saloia). Também do Alcoa ao Sado, no Alentejo, no Ribatejo e no Algarve. No Ribatejo também é conhecido por «bailharico».

Bailhos Campaniços ― Alto Alentejo (Évora).

Balhos de Cadeia ― Baixo Alentejo (embora haja «danças de cadeia» em todo o país).

Balhos de Roda ― Baixo Alentejo.

Balso Marcado ou Balso Rasteiro ― Algarve.

Balso Pulado ― Algarve.

Cana VerdeMinho (Guimarães) e Entre-Douro-e-Minho (Santo Tirso; Arouca).

Variantes: «Cana Verde Ricoqueira» (S. Martinho do Campo, Santo Tirso, Guimarães); «Cana Verde Picada» (idem); «Cana Verde de Oito» (idem).

Carreirinha ― Estremadura.

Chegadinho ― Baixo Alentejo.

ChicoteEstremadura.

Chotiça― Algarve. Ver: «xotiça».

Chotiça com Marcador ― Ribatejo.

Chula ― Douro e Alto Douro. Também do Minho à Beira Alta.

Variantes: «Chula Vareira» (Douro), «Chula de S. Martinho da Gandra» (Ponte de Lima), «Vareira Chula» (Paredes), «Chula Virada» (Cinfães), «Chula de Pias» (Cinfães), «Chula de Ramalde».

Ciranda ― Beira Litoral. Também na região norte da Estremadura.

Corridinho ― Algarve. Também no Ribatejo e Alentejo.

Enleio à Ribaldeira

Enleio ― Estremadura.

Estalado ― Beira Litoral.

Fandango ― Ribatejo. Também no Minho, Trás-os-Montes (Terras de Miranda), Douro Litoral, Beira Alta (Castelo Rodrigo), Beira Baixa (Silvares, Idanha-a-Nova), Estremadura (Pombal, Ansião, Figueiró dos Vinhos), Ribatejo (Ferreira do Zêzere, Serra de Tomar, Mação), Alentejo e Algarve.

Farrapeira ― Beira Alta, Beira Litoral e Ribatejo.

Farrapeirinha ― Beira Litoral (Ourém e Caixarias onde é dançada com pífaros.

Gota ― Alto Minho (Penso, Serra de Arga, Covas). Também em Trás-os-Montes (Terras de Miranda) e Beira Baixa (Escalhão).

Lambão ― Beira Litoral.

Malhão ― Minho. Também no Minho Litoral (Santo Tirso), Baixo Minho (Vila Verde, Barcelos e Terras da Feira).

Variantes: «Malhão de Roubar» (Vila Verde), «Malhão Traçado» (S. Maninho do Campo, Santo Tirso) «Vareira de Barcelos», «Malhão de S. Pedro de Nabais» (Escariz, Arouca, Terras da Feira) e «Piruló» (S. Martinho do Campo, Santo Tirso).

Marcadinho― Baixo Alentejo.

Moda do indo eu ― Beira Alta. Também noutras localidades do país.

Puladinho ― Alentejo.

Ramaldeira ― Beira Litoral e Estremadura.

Real das CanasBeira Litoral.

Redondinha ― Baixo Alentejo.

Regadinho ― Beira Litoral.

Reinadios ― Estremadura.

Ribaldeira ― Beira Litoral e Estremadura.

Saias ao Vira

Saias ― Alto Alentejo (Portalegre). Também na Estremadura (Pombal, Ansião, Figueiró dos Vinhos, Chão de Couce, Avelar), Ribatejo (Tomar), Beira Baixa (Escalos de Baixo), Beira Litoral e Douro Litoral.

Saldo em Bico ― Alto Alentejo.

Seguidilhas ― Algarve (Vila Real de Santo António) e Alentejo (Barrancos).

Tareio― Beira Alta.

Tirana ― Minho (Carreço) e Beira Litoral (Coimbra). Também Douro Litoral (Terras da Feira, onde é um vira).

Tope ― Baixo Alentejo.

Vareira ― Minho.

Verde Gaio ― Estremadura. Também algumas localidades nortenhas e Ribatejo; região de entre o Lis e o Sado.

Vira ― Minho (Entre o Douro e Minho, Alto Minho e Baixo Minho). De certo modo baila-se em todo o país.

Variantes: «Vira de Santa Marta de Portuzelo», «Gota de Carreço», «Rosinha de Afife», «Rosinha de Serra de Arga», «Serrinha ou Espanhol» (Arcos de Valdevez), «Salto do Soajo» (Alto Minho), «Vira Velho de Vila Verde» (Baixo Minho), «Mugiga de Santa Maria da Reguenga» (sul do concelho de Santo Tirso; Terras da Maia), «Vira de Cruz» (Arouca, Terras da Feira e Moldes), «Vira Valseado» (Moldes, Arouca e Terras da Maia), «Tirana» (Lugar do Corvo, Arcozelo-Vila Nova de Gaia; Terras da Feira), «Tirana de Cidacos» (Oliveira de Azeméis, Terras da Feira), «Vira da Areia» (Nazaré), «Vira Poveiro» (Póvoa de Varzim).

Outros: «Vira Galego», «Vira ao Desafio», «Vira Roubado», «Vira Flor», «Vira de Roda», «Vira Estrepassado», etc.

In “Danças Populares Portuguesas“, Tomás Ribas – Biblioteca Breve (Série Artes Visuais)

Subsídios para «O cantar e o bailar das “Saias”»

Cantar e bailar as saias!

Com ou sem influência espanhola, sabe-se que as “Saias” são uma moda de raiz alentejana – que no Alentejo, segundo Tomaz Ribas, se bailaria já no século X. Como se sabe que, por força das migrações, e noutras formas, se fixou também noutras regiões. E em Montargil, como era?

Digamos que em Montargil, o bailar e o cantar das “Saias” pouco ou nada diferia de outras terras, em especial do distrito de Portalegre, onde a sua existência era mais marcante.

Também aqui, as saias eram uma cantiga de trabalho e uma cantiga de divertimento. De trabalho, quando durante as fainas e só cantadas, de divertimento quando também bailadas, ao fim de semana ou no final de um dia de trabalho, que às terças e às quintas era certo haver folia quando à semana ou à quinzena o pessoal estava deslocado.

Onde quer que estivessem duas mulheres, ou um homem e uma mulher, era cantoria certa. Só homens entre si, e tanto quanto sabemos, é que nunca as cantaram – e só tocadas (sem canto) apenas no “dia das sortes”, quando com o tocador a rapaziada dava a volta à rua.

E nesse dia havia mesmo e sempre umas “Saias” novas trazidas pelo concertinista, ou pelos concertinistas, já que houve tempos em que eram vários os grupos de mancebos e logo, por isso, vários os tocadores.

Cantadas ou bailadas

Só cantadas, durante algumas fainas, que quando o trabalho era de empreitada, como por exemplo na cava do milho e na ceifa, isso não era possível. Cantavam-se nas descamisadas (que alguns também chamavam de desencamisadas), na apanha da azeitona e na monda do arroz ou o do trigo, assim como também no arrancar do mato. E era então ouvir as ”Saias”, quer em conjunto – que também acontecia – quer a despique.

Quando bailadas, isso acontecia muitas vezes só ao som das vozes – ou porque nesse dia não havia tocador, ou porque ele parava um bocado para descansar ou ir comer. Que o bailarico, esse, não podia parar.

Então, cantava-se e bailava-se ao mesmo tempo. Um ou uma que cantava daqui, e outro ou outra que respondia dali. E podia acontecer também outros entrarem a seguir no despique.

As letras (os pontos) eram muitas vezes de improviso. No entanto, não se podia fugir do conteúdo.

Saias…

Um exemplo:

Menina que tanto sabe
diga lá o seu saber;
uma camisa bem feita
quantos pontos vem a ter.

Ao que a moça respondia:

Quantos pontos vem a ter
vou-lhe já espelicar,
não são mais e não são menos
dos que lhe querem prantar.

Ou então…

Estas raparigas de hoje
iguaizinhas são às d’ontem,
albardá-las e mandá-las
com um cântaro à fonte.

E a resposta não demorava:

Estes rapazes de agora
estas que de agora são,
albardá-los e mandá-los
à Serra buscar carvão.

Houve estilos (letras) que aqui nasceram, mas outras aqui terão chegado, como, por exemplo este:

Estas é que são as “saias”
estas “saias” é que são,
são cantadas e bailadas
na noite de S. João.

Ou que chegadas aqui, sofreram leves alterações, como por exemplo estas:

Adeus vila de Montargil
não és vila nem cidade,
mas és um rico cantinho
onde brilha a mocidade

Existiam diversos estilos (melodias), e em conformidade com os pontos (as letras) se cantava:

– de uma maneira geral cantavam-se os quatro versos seguidos, repetindo depois o terceiro e o quarto e por último o primeiro e o segundo;

– ou ainda cantava-se o primeiro e o segundo (repetindo) e o terceiro e o quarto (repetindo).

Dizem-nos ainda que por exigência do bailar, para que se pudesse rodar o tempo devido, o terceiro e o quarto versos eram por vezes cantados três vezes. E que os versos podiam ser cantados sem qualquer repetição desde que não bailados.

E por se falar em cantar, diga-se que nesses tempos os homens conviviam nas tabernas onde as Mulheres não entravam, e aí cantavam primeiro a desgarrada e mais tarde o fado – ao som do harmónio (depois da concertina) e do realejo e julgamos que antes, da guitarra portuguesa.

Lino Mendes | Imagem

As Cantigas de Roda e duas dança-jogo

Cantigas de Roda

“As danças populares eram todas feitas à roda [por isso, também chamadas “cantigas de roda“]:

– ao domingo, no largo da povoação;

– em dias de festa no recinto da ermida;

– no fim dos trabalhos, na eira ou no terreiro.

Ao som da concertina, do bombo e dos ferrinhos, ou de simples gaita de boca, rapazes e raparigas, alternados, ora de mãos dadas, ora abraçados. Umas vezes, elevando as mãos, outras, apoiando-as na cinta. Agora fazendo estalar as pontas dos dedos, à guisa de castanholas. Depois, batendo as palmas, rodopiavam para a direita e para a esquerda, ao mesmo tempo que exteriorizavam jovialmente, em redondilhas maiores ou menores, quase sempre em leixapren, a sua esfusiante alegria.

Eram assim verdadeiras danças dramatizadas.”

Uma “dança-jogo” 1

Uma roda de rapazes e raparigas, com um rapaz ao centro. Enquanto o do meio acena com um lenço, os da roda cantam:

No alto daquela serra,
Está um lenço a acenar,
Está dizendo: viva, viva,
Morra quem não sabe amar.

Em seguida, o do meio ajoelha-se aos pés de uma rapariga e canta:

De joelhos a teus pés,
Nem assim, nem assim tens compaixão?

Então a moça cortejada responde-lhe cantando:

Levanta-te e dá-me um beijo,
Meu amor, meu amor do coração.

Depois, seguem os dois para o meio, acenando cada um com seu lenço, enquanto os da roda repetem:

No alto daquela serra,
Está um lenço a acenar,
Está dizendo: viva, viva,
Morra quem não sabe amar.

A cena repete-se com os outros personagens, até dar a volta à roda e terminar o jogo, dançando.

Roda Infantil, de Cândido Portinari , 1932. Pintura a óleo / tela, 39 X 47 cm. Pintada em Brodowski, São Paulo.

Outra “dança-jogo”1

Os da roda, de mãos dadas, cantam:

Quando eu era menina,
Menina, menina,

Depois, largam as mãos e afagam as faces dizendo:

Eu fazia assim,
Eu fazia assim:

Em seguida, batem as palmas e continuam a cantar:

E também assim,
E também assim.

De novo de mãos dadas, cantam:

Quando eu era professor(a),
Professor(a), professor(a),

Largam as mãos. Cada um bate na mão do vizinho, imitando o bater da palmatória, e cantam todos:

Eu fazia assim,
Eu fazia assim:

Depois, batendo as palmas:

E também assim,
E também assim.

Outra vez de mãos dadas:

Quando eu era avô(ó),
Avô(ó), avô(ó),

Fazendo o gesto de embalar:

Eu fazia assim,
Eu fazia assim:

Seguidamente, encurvados e coxeando:

E também assim,
E também assim:

O jogo pode continuar com as mesmas palavras, mas variando os gestos, conforme o que se pretende imitar: a costureira, o pedreiro, o carpinteiro, etc.

1 Danças-jogo recolhidas na freguesia de Mouçós – Vila Real

Fonte: “Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro – II volume – Cancioneiro”, Joaquim Alves Ferreira

A origem da Contradança | Danças populares

Origem da contradança!

Uma das danças que se tornou característica em Portugal e é interpretada por numerosos grupos folclóricos é aquela que se designa por contradança.

Trata-se de uma dança ou, para falar com mais propriedade uma mistura de várias danças com melodias diversas, obedecendo os seus executantes à voz de um mandador, qual “baile mandado” que de algum modo nos faz lembrar a tradicional dança algarvia com aquele nome.

Tendo dado origem às quadrilhas, foi a contradança uma dança muito apreciada nos bailes que se organizavam nos finais do século passado [séc.XIX], nomeadamente no Palácio das Laranjeiras, no dos Condes de Farrobo e até na corte então instalada no Palácio da Ajuda.

É que, à semelhança do que sucedeu com o folclore austríaco que viu as suas valsas invadirem os salões aristocráticos, também a contradança acabaria por animar os bailes da corte e da nobreza europeias e inclusive inspirar grandes compositores como Mozart e Wagner.

Malaqueijo, no concelho de Rio Maior, é uma das localidades portugueses onde tal costume se encontra mais arreigado, sobretudo pelo modo como toda a comunidade revive esta tradição desde há muitas décadas.

E isto sempre por ocasião dos festejos em honra do seu padroeiro, dançando colectivamente a contradança nas ruas da terra.

Dizem as suas gentes que aquela dança entrou nos costumes locais desde que um mancebo da terra que o serviço militar o levou para a combater em França por ocasião da primeira guerra mundial, trouxe para a sua terra a tradicional moda francesa que rapidamente foi adoptada pelo povo de Malaqueijo.

No tempo de Napoleão ou da I Guerra Mundial

Na realidade não se pretende contestar à influência que nalguns casos poderão ter exercido os soldados portugueses que regressaram de França e das trincheiras da Flandres, integrados no Corpo Expedicionário Português.

No entanto, tudo leva a crer que a contradança aparece no nosso país por altura das invasões francesas e ainda, muito provavelmente, em virtude dos numerosos portugueses que ingressaram as tropas napoleónicas.

De acordo com a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, a “contradança” era originariamente uma música popular inglesa cuja designação “country dance” quer dizer “dança nacional“. Posteriormente, veio por corrupção a ser denominada “contredanse” desde que, no século XVII, foi introduzida em França, e finalmente contradança com o seu aportuguesamento.

Assim sendo, a própria designação contradança não constitui mais do que um equívoco resultante de uma deficiente tradução.

Em todo o caso, é inquestionável a influência francesa nas origens da contradança no nosso folclore, como aliás atestam algumas expressões empregues pelo mandador aquando da sua execução.

Contudo, não é de excluir por completo alguma influência que, de igual forma, poderão ter exercido os militares ingleses que então combateram ao lado dos portugueses o invasor napoleónico e por cá permaneceram, enquanto a corte de D. João VI esteve exilada no Brasil.

É que, afinal de contas, era aos nossos “amigos de Peniche” que originariamente pertencia a “country dance” e que com toda a certeza a executavam com maior requinte e perfeição.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História | Imagem de destaque (transformada)

 

Danças populares portuguesas tradicionais

Danças populares portuguesas

(…) por «danças populares portuguesas» queremos designar as «danças populares portuguesas tradicionais», as quais englobam três categorias:

– as «danças folclóricas»,

– as «danças populares propriamente ditas»

– e as «danças popularizadas».

Procurar determinar e designar as mais arcaicas danças populares portuguesas é, obviamente, estultícia, até porque é impossível fazê-lo. Dado que a dança é uma actividade e uma função tão velhas como a própria Humanidade, poderemos dizer que na Península Ibérica se baila desde que nela surgem seres humanos, autóctones ou vindos de qualquer outra região da Terra.(…)Tomaz Ribas in “Danças Populares Portuguesas

Danças Tradicionais de Trás-os-Montes

Vinte e cinco. Um dos «llaços» ou figuras da *Dança dos Paulitos. Começa por uma espécie de apelo do bombo, destinado a congregar os bailadores, os pauliteiros (em número de dezasseis), seguido da dança, executada instrumentalmente por gaita-de-foles, tamboril, bombo e castanholas, a que vem juntar-se o som seco da percussão dos próprios paulitos, atributo dos bailadores, numa curiosa e excitante polirritmia. Muito espalhada nos concelhos de Miranda, Vimioso, Mogadouro. Ler+

In Guia de Portugal, organizado por Sant’Anna Dionísio, V volume (Trás-os-Montes e Alto Douro), editado pela Fundação Calouste Gulbenkian

Breves notas sobre as Danças Populares Portuguesas de hoje

Neste texto, Tomás Ribas aborda as seguintes danças tradicionais: Bailarico | Ciranda | Chula | Corridinho | Fandango | Farrapeira | Gota | Malhão | Regadinho | Saias | Tirana | Verde-Gaio | Vira. Ler+

“Danças Populares Portuguesas”, Tomás Ribas

Danças Regionais

Nem todas as danças predilectas da nossa gente são tradicionais. Já o Minueto cortesão, a Gavota e o Fandango espanhol se cantaram e bailaram ente nós no século XVIII, assim como as seguintes danças de salão do século passado: a Valsa alemã, a Mazurca polaca e a Polca boémia, que influenciaram o melodismo popular, especialmente pelos ritmos.

Ajuntem-se-lhes a Contradança inglesa, a Quadrilha francesa, o Schottish e o Pas de Quatre. Ler+

“Danças Regionais| | Secretariado Nacional da Informação | Mocidade Portuguesa Feminina

Vira da Nazaré

Não vás ao mar toino“. Este é um dos versos mais populares do vira da Nazaré. Como não poderia deixar de ser, em terra de pescadores, o mar é quem mais ordena. Põe e dispõe da vida das gentes. É dele que depende o seu dia-a-dia. É ele que lhes dá o pão, as alegrias e as angustias.

E para expressar tudo isso, os pescadores e as suas mulheres sempre deram primazia à música e à dança. Prova disso são os ranchos folclóricos que foram surgindo naquela localidade piscatória. Ler+

Vira do Minho

É a dança rainha do Alto Minho. As arrecadas e os fatos minhotos ajudam a completar o cenário. Dispostos em roda os pares de braços erguidos, vão girando vagarosamente no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Os homens vão avançando e as mulheres recuando.

A situação arrasta-se até que a voz de um dançador se impõe, gritando ‘fora’ ou “virou”. Dão meia-volta pelo lado de dentro e colocam-se frente-a-frente com a moça que os precedia. Este movimento vai-se sucedendo até todos trocarem de par, ao mesmo tempo que a roda vai giran­do, no mesmo sentido. Mas este é apenas o mais simples dos viras de roda, pois outros há com marcações mais complexas. Ler+

São Macaio

São Macaio” é uma canção dançada nos Açores. Foi sobretudo na ilha Terceira que a sua tradição se generalizou.

Tudo leva a crer que o seu nome original, seja São Macário e que o nome com que ficou conhecido seja já uma degeneração do primei­ro.

Acredita-se que São Macário, seria um navio que andava entre as ilhas e o Brasil e que teria naufragado numa das suas viagens. Pois como diz a canção; “São Macaio, deu à costa…toda a gente se salvou… (…) só o São Macaio é que não”. Ler+

Pauliteiros de Miranda

No planalto mirandês existem grupos de oito homens que vestem saias e tem paus. Dispensam apresentações. Já todos os conhecem: são os Pauliteiros de Miranda.

Com os saiotes brancos, lenços, os chapéus e os pauliteiros transportam uma tradição que procuram defender com unhas e dentes.

E apesar de já não existirem tantos grupos como antigamente. As letras, os passos e os trajes ainda se mantêm fiéis à origem. Ler+

Fandango

Cabeça erguida, corpo firme e pernas leves, estes são os requisitos necessários para ser um bom fandangueiro. De polegares nas covas dos braços “fogoso e impaciente como um puro­lusitano.

O autêntico fandango aparece-nos na pessoa do campino, que só se digna dançar de verdade, quando baila sozinho”.

Como refere Pedro Homem de Mello, no seu livro “Danças Portuguesas”, quer seja na lezíria quer seja na charneca, o fandango é o rei da dança no Ribatejo.

É uma dança de despique e de desafio que o homem leva a cena, ostentando toda a sua virilidade e capacidades individuais. Ler+

Chulas e Malhões

Chula Amarantina; Chula de Santa Cruz; Barqueiros e “Paus”. Estas são apenas algumas das versões da ‘chula’ que percorre as margens do Douro e se estende até ao Minho.

Atrai para os átrios das igrejas, os que gostam de bailar e sempre que chega o Natal, aproveita-se para comemorar com umas “chulas”. Ler+

Bailinho da Madeira

Decerto que já todos viram dançar o “Bailinho da Madeira” ou pelo menos, tal como ele é conhecido no continente: um grupo, vestido com o traje típico da ilha das flores, que dança em torno do instrumento regional típico da Madeira: o brinquinho.

É um instrumento composto por um grupo de sete bonecos de pano e traje regional com castanholas e fitilhos, dispostos na extremidade de una cana de roca e animados por movimentos verticais na mão do portador, isto é, o bailinho tal como a maioria das pessoas o conhece. Ler+

Corridinho e Baile Mandado

Nos primeiros anos do século XX nasce o célebre corridinho.

Facto curioso e que muitos desconhecem é que este tipo de música teve origem numa dança de salão nascida nos meados do século passado, algures na Europa oriental, e trazida para o Algarve por um espanhol chamado Lorenzo Alvarez Garcia, que decidiu cortejar a jovem louletana Maria da Conceição, dedicando-lhe La Azucena – uma polca.

O corridinho nasce então como dança de cortejo. Ler+

Danças Populares do concelho de Águeda

Cana Verde Dobrada – Dança de terreiro, simples, mas alegre. O seu maior encanto encontra-se no estilo e nas cantigas que, tantas vezes, os cantadores improvisavam, consoante o ambiente e a competição. Ler+

Danças Tradicionais de Baião

A Chula é uma dança muito difundida em Portugal. Esta caracteriza-se pela agilidade do sapateio do sapateio do peão/peões, em disputas, sapateando sobre uma lança estendida no salão. A chula era dançada somente por homens, ao desafio.

Diz-se que esta é originária do Minho e do Douro, do folclore português, embora alguns estudiosos a relacionem com o Lundú ou o Baião, com relação à música, daí esta ser tão tradicional no concelho. Ler+

Textos relacionados

Os principais tipos de dança

Porque o Homem, desde o seu estado primitivo até hoje, sempre praticou a Dança, concluir-se-á que as danças actuais – quer as das actuais sociedades primitivas, quer as das sociedades evoluídas – tendo a sua origem nas danças primitivas delas ainda guardam alguns aspectos. Ler+

“A dança e o ballet” (I) – Cadernos FAOJ – Série A, Tomás Ribas

Danças Tradicionais Populares

As danças tradicionais populares entraram nos hábitos do povo devido aos mais variados contactos e influências, enraizando-se pela via das aculturações, recebendo dele o cunho do meio ambiente da sua personalidade em conformidade com o local onde estava inserido. Ler+

Augusto Fernandes SantosFederação do Folclore Português – 1as Jornadas de Folclore a Norte do Rio Douro – Vila Verde – 10/11 de Junho de 1988

Elementos para uma Carta Coreográfica de Portugal

Não sendo o presente trabalho um compêndio técnico das danças populares portuguesas ― pelo que não é seu objectivo descrevê-las do ponto de vista da sua estrutura coreográfica, do seu desenho bailatório ou apontar as normas para as bailar ― ao falarmos das danças populares portuguesas de hoje pareceu-nos mais lógico referi-las pelos seus nomes e tentar agrupá-las por regiões. Ler+

“Danças Populares Portuguesas“, Tomaz Ribas – Biblioteca Breve (Série Artes Visuais)

Imagem de destaque

Danças tradicionais de Trás-os-Montes

Danças Tradicionais de Trás-os-Montes

Murinheira

Uma das mais típicas e saborosas danças trasmontanas (como o Passeado e a Carvalhesa). É acompanhada de gaita-de-foles, pandeireta e ferrinhos. Saber mais

Galandum

Canção dançada da região mirandesa, de sabor profundamente arcaico. É acompanhada de tamboril, gaita de foles, flauta pastoril («fraita», em mirandês), pandeiro, pandeiretas, castanholas, conchas («carracas»), ferrinhos e assobio dento-labial.

Vinte e cinco

Um dos «llaços» ou figuras da  Dança dos Paulitos*.

Começa por uma espécie de apelo do bombo, destinado a congregar os bailadores, os pauliteiros (em número de dezasseis).

Seguido da dança, executada instrumentalmente por gaita-de-foles, tamboril, bombo e castanholas, a que vem juntar-se o som seco da percussão dos próprios paulitos, atributo dos bailadores, numa curiosa e excitante polirritmia.

Muito espalhada nos concelhos de Miranda, Vimioso, Mogadouro.

*Dança dos Paulitos

(em que uns querem ver uma dança pírrica, outros uma dança ligada aos ritos da fecundidade) é, fora de dúvida, uma das preciosidades folclóricas de Trás-os-Montes, embora com correspondência noutros povos.

Carvalhesa

Uma das três danças típicas do termo de Vinhais, composta de quatro figuras e acompanhada por gaita-de-foles e ferrinhos.

Redondo

Dança pastoril, executada alternadamente em «fraita» e gaita-de-foles.

Fonte: Guia de Portugal, organizado por Sant’Anna Dionísio, V volume (Trás-os-Montes e Alto Douro), editado pela Fundação Calouste Gulbenkian

A Murinheira

A cultura não admite que a raia possa, à custa dos marcos divisórios das pátrias, ser barreira estanque ou qualquer coisa a assemelhar-se a qualquer muro de Berlim. É impossível que a raia estorve o convívio dos povos, sobretudo quando os ligam laços de interesses económicos, sociais, religiosos, familiares até, e portanto de sangue, de amor, além de tudo o mais que se possa imaginar e da necessidade social de boa vizinhança, de troca de tudo quanto seja vantajoso em trocar-se nesse mercado de plena reciprocidade. (…)

A Murinheira é uma canção certamente de origem galega. Encontrei-a em Cimo da Vila. Cantou-a a senhora Adosinda Preques.

Em Quintã, concelho de Vila Real, falava-se muitas vezes na murinheira, como coisa de tempos idos. E empregava-se a alusão ao canto ou à dança dela, como fazendo parte de chacota ou de ameaça contra alguém.

Exemplo:

Ó filhinho: se te não portas bem, danças a murinheira… Isto é: levas ou apanhas no pêlo.
E esta: espetou-lhe tais vergastadas pelas pernas adiante… Fez-lhe dançar a murinheira bem dançada!
E foram todas poucas!
Merecia mais!

Nos dicionários portugueses de que disponho, incluindo o Lello Universal, a murinheira é ignorada.

O dicionário galego apresenta-a desta forma: “Murinheira“, s.f., “Baile popular que executam um ou mais pares // Composição musical com que se faz esse baile…“.

O dicionário espanhol que tenho em uso, também desconhece a murinheira.

Ainda há muitas pessoas no norte de Trás-os-Montes que ouviram cantar e cantaram a murinheira, assim como a viram dançar ou ainda mesmo elas a dançaram.

A Murinheira – pauta musical

Recolha efectuada por António da Eira
Recolhida em Cimo de Vila – Chaves
Cantou: Adosinda de Jesus Preques (70 anos)

Fonte: Velhas Canções Trasmontanas, de António da Eira, 2005, edição do autor | Foto de destaque (adaptada)

São Macaio | Danças tradicionais açorianas

São Macaio

São Macaio” é uma canção dançada nos Açores. Foi sobretudo na ilha Terceira que a sua tradição se generalizou.

Tudo leva a crer que o seu nome original, seja São Macário e que o nome com que ficou conhecido seja já uma degeneração do primeiro.

Acredita-se que São Macário seria um navio que andava entre as ilhas e o Brasil, e que teria naufragado numa das suas viagens. Pois como diz a canção; “São Macaio, deu à costa (…) toda a gente se salvou (…) só o São Macaio é que não”.

São Macaio é uma dança de roda, um pouco semelhante à ’chula’ do Minho.

Originalmente, esta era uma moda que se dançava nos ‘balhos’ ou bailes das aldeias, nos quais as pessoas não necessitavam de qualquer traje típico para evidenciar as suas capacidades de bailadores.

Um baile era, geralmente, dividido em várias partes, consoante as modas:

– começava-se com a charanga, que é uma moda com influências africanas;

– depois vinha o São Miguel ou “virar do baile‘ ou ´ ’os mares’ como também é conhecida;

– de seguida o São Macaio, depois a “tirana” e por fim a ‘chamarrita’.

Esta última é dançada em todas as ilhas.

Semelhanças entre as danças de algumas ilhas

É possível encontrarmos algumas semelhanças entre algumas ilhas, no que toca às danças. É o que acontece entre a Terceira, a Graciosa e São Jorge. Entre São Miguel e Santa Maria também é possível encontrar algumas semelhanças bem como entre o Faial e o Pico.

A Terceira é conhecida como a ilha onde se toca e canta melhor. Já as coreografias das danças são bastante simples pois o seu mérito vai sobretudo para o canto. Antigamente mais do que hoje, bastava alguém pegar na viola da terra e logo, se faziam ouvir as vozes.

E foi neste ambiente que o São Macaio foi levado à cena. É uma moda lenta e longa e por isso, é hoje menos dançada. É que esta moda antigamente era dançada por qualquer um nos “balhos” da ilha passou a ser encenado pelos membros dos agrupamentos folclóricos.

Hoje já não se dança só a tradição, dança-se também pelo espectáculo. E o facto do São Macaio ser uma dança um pouco monótona, não ajuda muito.

A moda de São Macaio

A moda principia com uma roda em que os pares estão voltados uns para os outros, depois a mulher vão avançando e o homem recuando.

Fazem duas rodas concêntricas e vão-se movimentando até voltar a posição inicial. A roda é sempre a forma principal da dança que é comandada pelo mandador.

Antigamente, nos ‘balhos’ o mandador era o tocador da viola. Agora, nos agrupamentos folclóricos há sempre alguém com essa função.

Uma vez que não existe um traje único associado à dança, é frequente vermos os agrupamentos folclóricos envergarem os trajes típicos das ilhas.

É por exemplo o do pastor com a camisola de linho, o camisolão grande, as calças de fazenda, à base de lã, pretas ou acastanhadas, um barrete de borla e umas alpercatas ou sapatas de cabedal. A mulher usa o traje igualmente feito no tear de lã, com as cores típicas: o vermelho, o rosa, o castanho e o roxo.

Fonte  (texto editado)

São Macaio, São Macaio deu à costa

S. Macaio, S. Macaio deu à costa
Ai deu à costa nos baixos da urzelina

Toda a gente, toda a gente se salvou
Ai se salvou, só morreu uma menina

S. Macaio, S. Macaio deu à costa
Ai deu à costa lá na ponta dos mosteiros

Toda a gente, toda a gente se salvou
Ai se salvou, só morreu dois passageiros

S. Macaio, S. Macaio deu à costa
Ai deu à costa nas pedras da fajazinha

Toda a gente, toda a gente se salvou
Ai se salvou, só morreu uma galinha

S. Macaio, S. Macaio deu à costa
Ai deu à costa nos baixos do Maranhão

Toda a gente, toda a gente se salvou
Ai se salvou, só o S. Macaio não

Notas

urzelina = [Açores] terreno semeado de urzela (líquen de que se extrai uma tinta de cor violeta)
fajazinha = [Açores] terreno plano, cultivável, de pequena extensão, situado à beira-mar, formado de materiais desprendidos da encosta
maranhão = grande mentira; peta grossa; palão / na música faz referência a um lugar da ilha do Corvo

Fonte

Pauliteiros de Miranda | Danças tradicionais

Os Pauliteiros de Miranda e a Dança dos Paulitos

Algumas novidades e correcções sobre a Dança dos Paulitos: Distribuição geográfica em Portugal e Espanha; origem provável; características; número de componentes; análise morfológica dos passos da dança.

A famosa dança dos paulitos, vulgarmente conhecida em Portugal pela denominação de «Pauliteiros de Miranda», está actualmente circunscrita, em nosso País, a alguns concelhos de Entre-Douro e Sabor, no Nordeste, sendo o concelho de Miranda, aquele onde se guarda ainda com todas as características e regras tradicionais.

Não é única.

Estende-se por toda a Espanha com a mesma forma e traços mais ou menos idênticos.

Deve por isso considerar-se uma Dança Peninsular.

A sua origem é obscura.

Querem que seja a Dança Pírrica dos gregos, mas sem fundamento sólido.

É possível que algo dela tenha vindo, através dos gregos e romanos; e os celtiberos, com elementos das três culturas e os séculos medievais com a nova cultura cristã e rural, a tivessem completado como hoje existe.

Sendo, no fundo, uma dança guerreira, porque a execução da dança com paus assim o parece significar e alguns números claramente o definem, os temas literários e até musicais abarcam a vida toda da gente mirandesa que a executa:

– a religião,

– a vida agrícola,

– amorosa,

– venatória,

– divertida,

– picaresca,

– de descrição geográfica, etc.

O número certo de executantes da dança completa em Portugal, e passos da música, não dão para mais do que 8 componentes e só para estes há lugares definidos e insubstituíveis.

Os números da dança, com traços mais ou menos comuns entre si, salvo raras excepções, obedecem a regras e terminologias preestabelecidas pelos séculos, meticulosamente certas.

É, pois, um composto perfeito, na forma, na letra, na música e nos passos coreográficos.

Pelo Pe António Maria Mourinho (in Guia Ofical do I Congresso de Etnografia e Folclore, promovido pela Câmara Municipal de Braga | Braga – Viana do Castelo | 22 – 25 de Junho de 1956) – texto editado e adaptado

Pauliteiros de Miranda

No planalto mirandês existem grupos de oito homens que vestem saias e tem paus.

Dispensam apresentações. Já todos os conhecem: são os Pauliteiros de Miranda.

Com os saiotes brancos, lenços, os chapéus e os pauliteiros transportam uma tradição que procuram defender com unhas e dentes. E apesar de já não existirem tantos grupos como antigamente. As letras, os passos e os trajes ainda se mantêm fiéis à origem.

Mas o mais óbvio é perguntarmo-nos: de onde vem esta tradição?

A origem não está definida.

Contudo, há quem defen­da que se trata de uma dança guerreira, que descende de tempos Greco-romanos e que os homens foram adaptando e transformando à sua maneira. Segundo este ponto de vista, os paus mais não são do que a substituição do escudo e da espada. É por isso que o pau da mão esquerda defende e o da mão direita ataca.

Quanto ao traje, o lenço mais não é do que um adorno, bastante garrido, que varia consoante o homem que o usa.

E no que diz respeito à saia, ainda hoje, quando chega o momento da “dança da velha“, hábito típico do dia 1 de Janeiro, em Vila Chã, os homens se vestem de mulheres e vão para a rua. Pegam na “dianteira”, que é uma faixa em linho que envolve a cama e colocam-na à sua volta.

Campanitas de Toledo

A dança de paus mais típica e tradicional é a “capanitas de Toledo“.

É uma canção que não nega a forte influência espa­nhola. Influência essa, que é evidente no fado das letras das canções surgirem no dialecto mirandês ou na língua espanhola.

A letra desta canção fala das igrejas importantes de Espanha e também da gastronomia, que seriam possivelmente dois motivos de interesse das pessoas da região: os belos monumentos e os fartos enchidos.

É uma dança onde não faltam as principais maneiras de bater os paus: “pau picado“, (bate no próprio pau antes de bater no do colega) “pau por baixo” (da cintura) e “pau por cima“.

Apesar de, à primeira vista, aquelas danças de homens não parecerem seguir qualquer princípio rígido senão o do bater dos paus, há regras que devem ser seguidas.

Cada um deles tem no grupo uma função muito própria e única. Em cada dança é obrigatório existirem oito homens, entre eles dois guias direitos e dois guias esquerdos, dois peões direitos e dois peões esquerdos.

Os guias movem-se nas pontas e dançam frente-a-frente; os peões circulam no meio. O guia direito tem um estatuto um pouco diferente dentro do grupo, pois assume a responsabilidade da dança e, antigamente, comandava o grupo que nos dias de S. Sebastião e Santa Bárbara, andava pela aldeia a pedir esmola e a dançar.

Nessa altura, todas as aldeias tinham pauliteiros. Nem todos os homens dançavam, mas escolhiam-se os mais ágeis e com “melhores” pés. Os mais novos não têm problemas em aderir. No inicio, os paus assustam um pouco, mas bastam oito dias de treinos diários e o ‘milagre’ acontece. Não sem antes levar umas boas ‘pautadas” nos dedos, claro está!…

Fonte do texto | Imagem de destaque: Ilustração de Mário Costa (1902-1975)

 

Vira do Minho | Danças Populares Tradicionais

Vira do Minho

O Vira do Minho é a dança rainha do Alto Minho. As arrecadas e os fatos minhotos ajudam a completar o cenário. Dispostos em roda os pares de braços erguidos, vão girando vagarosamente no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio.

Os homens vão avançando e as mulheres recuando. A situação arrasta-se até que a voz de um dançador se impõe, gritando ‘fora’ ou “virou”. Dão meia-volta pelo lado de dentro e colocam-se frente-a-frente com a moça que os precedia. Este movimento vai-se sucedendo até todos trocarem de par, ao mesmo tempo que a roda vai girando, no mesmo sentido.

Mas este é apenas o mais simples dos viras de roda, pois outros há com marcações mais complexas.

E são muitos os nomes em que se desdobram: vira, fandango de roda, fandango de pares, ileio, tirana, velho, serrinha, estricaina, salto, entre outros. Viana é famosa quando se trata de encenar o vira. Mas não é a única.

Chegamos à região de Braga e logo nos surge o ‘vira galego´, “despido da opulência primitiva”, como o caracterizou, Pedro Homem de Mello.

Caminhamos pela costa em direcção ao sul e o Vira não desiste. A par do Vira enérgico do Minho, vamos encontrar o Vira de Seis em terras de pescadores. Fonte

As origens do Vira

As origens do Vira, que alguns situam no ternário da valsa oitocentista e outros buscam mais atrás, no Fandango, parecem ser de remota idade, como defendeu Gonçalo Sampaio e também Sampayo Ribeiro, que as coloca antes do séc. XVI e levanta mesmo a hipótese de filiação na canção que acompanhava o bailado ou tordião.

Tomaz Ribas considera o Vira uma das mais antigas danças populares portuguesas, salientando que já Gil Vicente a ele fazia referência na peça Nau d’Amores, onde o dava como uma dança do Minho. Note-se, a respeito de filiações e semelhanças, a proximidade do Vira de Dois Pulos de Lagoa e Mafra com o Fandango. Fonte

 

Fandango | Danças Tradicionais Populares

Fandango

Cabeça erguida, corpo firme e pernas leves, estes são os requisitos necessários para ser um bom fandangueiro. De polegares nas covas dos braços “fogoso e impaciente como um puro­ lusitano. O autêntico fandango aparece-nos na pessoa do campino, que só se digna dançar de verdade, quando baila sozinho“.

Como refere Pedro Homem de Mello, no seu livro “Danças Portuguesas”, quer seja na lezíria quer seja na charneca, o fandango é o rei da dança no Ribatejo. É uma dança de despique e de desafio que o homem leva a cena, ostentando toda a sua virilidade e capacidades individuais.

Houve quem o definisse como dança inebriante, viril, alucinante, interpretada por garbosos e orgulhosos campinos, temerários e arrojados nas lides taurinas, pois dela não se pode excluir o trabalho na lezíria bem como o gosto e a força para enfrentar a braveza do touro.

Diferenças no trajar e no dançar

Ao percorrermos a província ribatejana, acabamos por descobrir algumas diferenças na forma de dançar e de trajar.

No norte da provincia, na margem direita do Rio Tejo, ficam os ‘bairros‘, onde os campinos usam trajes mais escuros e as danças são mais lentas. No sul adivinham-se já os montados de charneca. Mas é na grande lezíria que o campino veste roupas mais garridas e dança de forma mais agitada. Aí vamos encontrá-los com o fato de trabalho cinzento e a faixa e o barrete encarnados.

Na zona da charneca, o ritmo da dança assemelha-se muito ao da lezíria. É que os campinos dessa região, (que se aproxima bastante do Alentejo e que muitas vezes e já confundida com ele), fazem questão de demonstrar que são ribatejanos.

O traje típico da mulher da lezíria que anda nos arrozais é composto por duas saias e meias sem pés, às quais se dá o nome de canos ou sacanitos. A mulher do bairro veste trajes mais escuros em tons de castanho e preto, tal como o campino daquela região, que ao contrário do da lezíria, usa cinta e barrete preto.

Fandango não é dança exclusiva do Ribatejo 

Ao contrário do que é do conhecimento comum, o fandango não é uma dança exclusiva do Ribatejo.

Pelo menos é assim que reza a historia desta dança que já vem de longe. Já no século XVI, Gil Vicente usou o termo “esfandangado”. No entanto, nada comprova que a sua utilização tivesse algo a ver como que se chama hoje “fandango”. Mas foi só em setecentos que as influências vindas de Espanha foram um marco importante no destino do fandango.

Várias foram e as fases que estiveram nos bastidores da dança, ao longo destes séculos. As mitologias que se foram edificando fazem-nos crer que o fandango é uma dança exclusiva do Ribatejo, mas a verdade é que a história desmente esta ideia.

Tal como já referimos, o fandango chegou até Portugal no século XVIII, vindo dos palcos do teatro espanhol.

Em Portugal, o seu ritmo contagiante invadiu o país, primeiro no círculo da aristocracia como dança de salão, depois nas tabernas, em ambiente de homens. E a sua influência foi tal que até aos conventos o fandango chegou, nessa altura dançado também por mulheres que rodopiavam ao som da música e do estalido dos dedos.

A voluptuosidade e o ginete com que era dançado eram tais que o fandango acabou por ser caracterizado como uma dança obscena, que servia muitas vezes de instru­mento de sedução. Assim, na segunda metade do século XVIII vivia-se uma onda de “obsessão” pelo fandango que se estendeu a todo o pais e que adquiriu um cunho próprio, de acordo com a região em que se radicou.

Dança-se do Minho ao Ribatejo

Dançava-se no Minho, no Douro Litoral na Beira Interior e na Beira Litoral, onde ainda no início do século [século XX] se tocavam fandangos nos arraiais. E no Minho ainda há quem chame “afandangados” a alguns viras. Mas foi no Ribatejo que eles ficaram conhecidos como tal.

Consta que no século XVIII, o fandango era dançado por homem e mulher em pé de igualdade. No entanto o facto de ele ter sido adoptado pelos convivas das tabernas, que o dançavam sobre as mesas ao som do harmónio e ao toque dos ‘copos’, é interpretado como um dos motivos que conduziu à masculinização da dança.

Hoje, o fandango é uma dança exclusiva de homens que deixou de ser apanágio das tabernas e bailes da aldeia para se transformar numa manifestação de espectáculo folclórico.

Fonte

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