Catrafum, Fá, Fá | Cancioneiro Popular da Beira Alta

Catrafum, Fá, Fá

 

[instrumental]

 

A mulher ajuizada

É melhor ir p’ró convento (fum, fum, fum, catrafum, fum, fum, fum, fum, catrafum, fá, fá)

Os rapazes sempre a trocaram

Por cabecinhas de vento (fum, fum, fum, catrafum, fum, fum, fum, fum, catrafum, fá, fá)

 

(catrafum, era o fum?

catrafum, nem fá nem fum

catrafum, era o fá?

catrafum, nem fum nem fá)

 

[instrumental]

 

Não me arrastes tanto a asa

Não me arranjes mais sarilhos (fum, fum, fum, catrafum, fum, fum, fum, fum, catrafum, fá, fá)

Leva as mentiras p’ra casa

Já lá tens mulher e filhos (fum, fum, fum, catrafum, fum, fum, fum, fum, catrafum, fá, fá)

 

(catrafum, era o fum?

catrafum, nem fá nem fum

catrafum, era o fá?

catrafum, nem fum nem fá)

 

[instrumental]

 

Menina, não tire a roupa

Ao pé da candeia acesa (fum, fum, fum, catrafum, fum, fum, fum, fum, catrafum, fá, fá)

Porque lume ao pé da estopa

Vai dar fogo com certeza (fum, fum, fum, catrafum, fum, fum, fum, fum, catrafum, fá, fá)

 

(catrafum, era o fum?

catrafum, nem fá nem fum

catrafum, era o fá?

catrafum, nem fum nem fá)

 

[instrumental]

 

Olha que fresca donzela

Que casou mas diz tão mal (fum, fum, fum, catrafum, fum, fum, fum, fum, catrafum, fá, fá)

Amores é dois à janela

Três à porta do quintal (fum, fum, fum, catrafum, fum, fum, fum, fum, catrafum, fá, fá)

 

(catrafum, era o fum?

catrafum, nem fá nem fum

catrafum, era o fá?

catrafum, nem fum nem fá)

 

[instrumental]

 

Letra e música: Popular (Região de Lafões, Beira Alta) (?)

Intérprete: Alafum* (in CD “Caminhada…”, Espacial, 2004)

“Ilustração Portuguesa” nº406 – 1913

A música tradicional portuguesa – pioneiros das recolhas (II)

Continuação daqui…

Francisco Lacerda

Referimos já, também, a atenção que a música tradicional mereceu a um dos grandes músicos da história cultural portuguesa: Francisco de Lacerda (1869-1934).

Director de orquestra e compositor, desde cedo a etnografia musical lhe interessa especialmente.

Em Paris, a partir de 1895, segue neste domínio a lição de Charles Bordes e, com o apoio de Bourgoult-Ducoudray, concebe, entre outros projectos que ao longo da vida não chegará a levar a cabo, uma Associação Internacional de Folcloristas.

Alguns anos depois encontra, junto de seu amigo Claude Debussy, estímulo para a publicação duma obra (não sabemos se apenas com recolhas que efectuara em 1899-1900 nos Açores, onde nascera, se também com espécimes de Portugal continental) que intitularia Cantos de Um Pequeno Povo Esquecido.

Residindo de novo nos Açores entre 1913 e 1921, não chega a atender ao repto de outro conterrâneo ilustre, Luís Ribeiro – a quem a canção popular açoriana mereceu alguns textos breves – para lançar mãos à recolha sistemática e ao estudo da música tradicional do arquipélago.

Só nos últimos anos de vida, depois de algum trabalho de campo na Madeira, no Minho, Estremadura e Algarve, reúne material para o seu Cancioneiro Musical Português, que na sua maior parte deixou inédito.

Francisco de Lacerda realiza o perfil, dominante, ou senão frequente, no seu tempo, do criador de vasta formação musical que se deixa fascinar pelos valores da música tradicional, particularmente a do povo a que pertence, fascínio que marca a própria obra do compositor, num último período de vida sobretudo.

Continuação em outros criadores

Veremos que na história da música portuguesa do século XX esse perfil se prolonga numa geração posterior de criadores, integrando nomes como o de Fernando Lopes Graça, ou mesmo os de Cláudio Carneiro, Armando José Fernandes e outros, que, levados pela preocupação de à sua obra conferirem cunho nacional, se interessam pela música tradicional portuguesa, em que efectivamente se inspiram.

Temos notícia de contactos pessoais entre Francisco de Lacerda e a figura a que de seguida faremos referência, contactos motivados por comum interesse no folclore musical português.

Rodney Alexander Gallop

O diplomata inglês Rodney Alexander Gallop vem, aliás, integrar a galeria de estrangeiros que, desde Platão de Vaksel, se ocuparam da nossa música tradicional.

Gallop permaneceu em Portugal cerca de três anos, procedendo a recolhas no início da década de 30.

Nelas tem origem o ensaio Portugal – A book of folkways (Universidade de Cambridge, 1936) e a colectânea Cantares do Povo Português (Instituto de Alta Cultura, Lisboa, 1937), de cuja tradução se encarregara António Emílio de Campos.

A obra de Gallop – que deu a conhecer os Pauliteiros de Miranda ao Albert Hall e, também em Londres, pronunciou uma conferência intitulada «The development of folk-song in Portugal and the Basque Country» – permanece um contributo estimável para o conhecimento do nosso património musical.

Pela sua qualidade de estrangeiro culto, pelo conhecimento que detinha da música tradicional de outras regiões europeias, dispunha o diplomata duma perspectiva particularmente segura, o que justifica o apreço que granjeou junto de um Francisco de Lacerda ou os termos em que se lhe refere ainda Fernando Lopes Graça.

Kurt Schindler

Outro estrangeiro que pela mesma altura levou a cabo trabalho de campo em Portugal é Kurt Schindler.

Professor na Universidade de Colúmbia (Nova Iorque), percorreu Trás-os-Montes em 1932, crê-se que orientado por Raul Teixeira, ao tempo director da Biblioteca do Museu Regional de Bragança (Abade de Baçal).

Ali registou, entre outros espécimes, llaços dos Pauliteiros em Sércio e Encomendações das Almas em Tuiselo, mas o seu livro, Folk music and poetry from Spain and Portugal (1941), respeitando minoritariamente à música tradicional portuguesa, não foi vertido e publicado em português.

Serrano Baptista

Alguns dos llaços dos Pauliteiros transmontanos primeiro fixados por Kurt Schindler foram também recolhidos em 1938 por Serrano Baptista, que contingências profissionais haviam feito chefe da secretaria da comarca de Miranda do Douro.

Além de um primeiro capítulo que reúne trechos dos Pauliteiros, o Cancioneiro Tradicional Mirandês, de Serrano Baptista, inclui outros intitulados «Romanceiro», «Religiosas», «Coreográficas» e «Vária».

Deixado inédito pelo autor, só recentemente veio a público, ao contrário do que acontecera com um anterior Romanceiro e Cancioneiro Popular da Minha Terra, editado em 1921 e incidindo sobre a Beira Baixa.

Continua aqui

Fonte: “O essencial sobre a Música Tradicional Portuguesa”, José Bettencourt da Câmara (texto editado e adaptado) | Imagem (meramente ilustrativa): “Carro da Associação de Agricultura Famalicense” durante a Parada Agrícola em Vila Nova de Famalicão (1912) – “Occidente”, nº1209 – 30 de Julho de 1912

Cancioneiro Limiano (Ponte de Lima) – Cabração

Cabração

A freguesia de Santa Maria da Cabração é uma pequena aldeia minhota situada nas fraldas da Serra d’Arga cuja origem se perde nos tempos. Pertence administrativamente ao concelho de Ponte de Lima, distrito de Viana do Castelo e limita a norte com o concelho de Paredes de Coura.

Cancioneiro Limiano

Versos recolhidos em Cabração – Ponte de Lima – Alto Minho, os quais eram cantados há pelo menos noventa anos. São pela primeira vez divulgados.

A Igreja da Cabração
É feita de pedra morena,
Quando o meu amor lá entra
Não há pedra que não trema,
Não há pedra que não trema,
Ó lai, ó la ri ló le la.

Não há pedra que não trema,
Não há pedra que não bula,
Meu amor é da Cabração,
Do Lugar da Escusa,
Do Lugar da Escusa,
Ó lai, ó la ri ló le la.

Abaixa-te ó serra d’Arga
Qu’ eu quero, quero ver S. Lourenço;
Quero ver o meu amor,
Quero acenar-lhe c’o lenço;
Quero acenar-lhe c’o lenço;
Ó lai, ó la ri ló le la.

Abaixa-te ó serra d’Arga
Qu’ eu quero, quero ver o Cerquido;
Quero ver o meu amor,
S’ele s’tá morto ou vivo;
S’ele s’tá morto ou vivo
Ó lai, ó la ri ló le la

Ó meu amor de tão longe,
Quem te mandou aqui vir;
Se t’eu agora matasse,
Quem t’havia d’acudir;
Quem t’havia d’acudir
Ó lai, ó la ri ló le la

Debaixo da oliveira,
É tão bom namorar;
Entr’a folha miudinha,
Deixa passar o luar,
Deixa passar o luar
Ó lai, ó la ri ló le la

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História | Imagem

Conheça a Lenda de Cabração!

«Cancioneiro da Serra d’Arga» – Quadras de Amor

Quadras de Amor

A poesia é tão antiga como o homem. Em cada ser humano existe um poeta e não há nada na vida do homem que não escape aos sentimentos mais profundos da alma. O amor é, agora, o tema.

Pela transcendência do assunto, «pelo fácil e pelo difícil» que o envolve, se compreende a seguinte quadra:

Quem me dera dar-te um beijo,
Um beijo não custa a dar;
São duas bocas unidas,
Quatro lábios a beijar.

Noutros tempos, o beijo era tão sagrado que logo havia desordem ou compromisso de casamento, quando observado pelos pais.

Hoje, está tão banalizado que deixou de ser expressão do que era, perdendo o significado sagrado que tinha em épocas mais distantes.

A simplicidade e a imagem a que o povo recorria para transmitir os seus sentimentos ou exaltar alegrias ou paixões, são de uma beleza encantadora

Quando os passarinhos choram
Numa árvore tão pequena,
Que fará meu coração
Cheio de tanta pena?

Nas quadras que se vão seguir pode verificar-se o que diz a filosofia popular a propósito do amor, da traição, do belo e do feio. Aqui está um retrato excelente do amor na sabedoria popular: umas vezes, demasiado pessimista; outras, cheio de lições de moral.

Quadras de Amor    

A água daquela serra
Por copos de vidro desce;
Nem a água mata a sede
Nem o meu amor me esquece.

Abaixo da Serra d’Arga
Onde fica minha aldeia,
Na linda terra de Dem
Onde o meu amor passeia.

A água do ribeirinho
Sobe ao Céu deita pavor;
Só há lágrimas na terra
Por donde anda meu amor.

Abre-te, janela d’oiro,
Tira-te tranca de vidro,
Resolve o teu coração
Que o meu está resolvido.

A água do Rio Lima
Foge que desaparece;
Nem a água apaga a sede
Nem o meu amor me esquece.

Abre-te, janela d’oiro,
Vira-te, tranca de vidro;
Vem cá fora, meu amor,
Que quero falar contigo.

Abaixa-te Alto do Tapado,
Que eu quero ver Castanheira,
Quero ver o meu amor
Lá nos campos da Lapeira.

Abre-te, peito, e fala,
Ó coração vem cá fora,
Anda ver o teu amor
Que chegou aqui agora.

Abaixa-te ó Serra d’Arga
Abaixa-te um nadinha;
Quero ver o meu amor
No terreiro de Caminha.

A carta que te escrevi
Já ta deitei na varanda;
Só te peço, meu amor,
Que faças o que ela manda.

Recolha levada a efeito na Serra d’Arga, nas freguesias de Arga de Cima, Arga de Baixo, Arga de São João e Dem por Artur Coutinho, transcritas na obra «Cancioneiro da Serra d’Arga».

«Cancioneiro da Serra d’Arga» – Quadras de Queixume

Quadras de Queixume

Nas quadras que se seguem, cada uma delas representa uma queixa.

O povo serve-se da poesia para se queixar da sua desventura. Muitas vezes, é ela que acusa o rapaz, outras, é ele que acusa a rapariga.

A desilusão no amor é bem patente em quase todas.

Eu queria dar um ai
Bem fundo no coração;
Não para lembrar o amor,
Mas a sua ingratidão.

Quadras de Queixume                  

A água do rio Lima
Foge que desaparece;
Quem dá falas a garotos
Seu castigo merece.

A cantar ganhei dinheiro,
A dançar se me acabou;
Foi dinheiro tão mal ganho,
Água o deu, água o levou.

A água do rio Lima
Foge que desaparece;
Quem eu quero, não me quer,
Quem me quer, não o merece.

Acenaste-me com um lenço
Da sombrinha do loureiro,
Nunca julguei que o teu lenço
Fosse meu alcoviteiro.

A azeitona miudinha
É tirada uma a uma;
Estes rapazes de agora
Não têm vergonha nenhuma.

Adeus que me vou embora,
Adeus que embora me vou;
Tu já estás aborrecido,
Mas eu para já não estou.

Abaixo do Chão dez metros
Ouvi falar a Raiz;
Não te gabes que me deixas,
Que fui eu que te não quis.

Adeus que me vou embora,
Adeus que me embora vou;
Vou embora porque eu quero,
Que a mim ninguém me mandou.

Abre-te, janela, abre,
Que te abres para bem;
Se te abres para penas,
Penas, meu coração tem.

Adeus que me vou embora,
Daqui me vou retirar;
O cantor já fugiu
E só eu não posso cantar.

Recolha levada a efeito na Serra d’Arga, nas freguesias de Arga de Cima, Arga de Baixo, Arga de São João e Dem por Artur Coutinho, transcritas na obra «Cancioneiro da Serra d’Arga».

«Cancioneiro da Serra d’Arga» – Cantigas ao desafio

Cantigas ao desafio

As cantigas ao desafio eram vulgares em romarias, feiras, desfolhadas, serões, etc. Infelizmente, tudo tende a acabar.

Este punhado de quadras recolhidas e que se apresenta aos leitores, embora desconexas ( ou fora do contexto ), são suficientes para que todo aquele que nunca as ouviu, faça uma ideia do seu conteúdo.

Algumas mostram bem o ponto culminante da agressividade, atingindo, por vezes, a grosseria.

Desafio, desafio,
Desafio duma cancela;
A culpa tive-a eu
Desafiar essa cadela.

Embora o desafio começasse, espontaneamente, entre dois amigos, sem o objectivo de se ofenderem, geralmente acabava mal, ficando alguém de «nariz torcido»…

Cantigas ao desafio      

Agora para terminar,
Agora vos vou dizer,
Agarrai no rabo ao burro,
Ide-o levar a beber.

Algum tempo p’ra te ver,
abria sete janelas;
Agora p’ra não te ver,
Não abro nenhuma delas.

Agora pergunto eu
Já que vós não perguntais:
A minha saúde é boa,
Vós da vossa, como estais?

Algum tempo p’ra te ver,
Abria sete quintais;
Agora p’ra não te ver,
Fecho trinta ou ainda mais.

Agora respondo eu
À flor que aqui cantou;
Estava para me ir embora,
Mas agora já não vou.

A mulher para ser boa,
Tem que ter pernas de pau,
A barriga de manteiga,
As mamas de bacalhau.

Algum dia era eu
Em teu prato melhor sopa;
Agora sou um veneno
A ressalgar a tua boca.

A mulher para ser jeitosa,
Tem que ter a perna baixa,
A barriga redondinha,
Para levar com o pau na caixa.

Algum dia, meu amor
Meu regalo era ver-te;
Agora tanto me rende
Ganhar-te como perder-te.

A mulher, para ser mulher,
Deve ter oito amores;
Dois casados, dois solteiros,
Dois padres e dois doutores.

Recolha levada a efeito na Serra d’Arga, nas freguesias de Arga de Cima, Arga de Baixo, Arga de São João e Dem por Artur Coutinho, transcritas na obra «Cancioneiro da Serra d’Arga».

Imagem (alterada)

«Cancioneiro da Serra d’Arga» – Quadras de Saudade

«Cancioneiro da Serra d’Arga» – Quadras de Saudade

«Quem canta, seu mal espanta», lá diz o rifão popular e muito bem.

As cantigas são saudades,
Quem canta, saudades tem;
Quem canta para esquecer
É certo que lembra alguém.

A saudade mata e, por isso, é sempre bom que a esqueçamos. Como diz Camilo: «A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade».

Como factor importante na vida dos povos, ela é objecto de desabafos, é qualquer coisa que põe todas as faculdades do homem em acção, predispondo-o para a poesia.

Aqui se vão mostrar quadras que são espelho, sobretudo, dos sentimentos de alguém pelo amor que se encontrava ausente.

Quadras de Saudade    

A água do nosso rio
Bate toda em cachão,
Assim batem as penas
Do meu triste coração.

Adeus chamam! Parto agora!
Vou punir os males meus
Ai! Adeus! Adeus para sempre
Filhos, pátria, esposa, adeus!

A carta que te mandei
Foi escrita à candeia;
Com suspiros vai fechada,
De saudades vai cheia.

Adeus estação de Caminha,
Cercadinha de olivais;
Adeus Rio de Janeiro,
Sepultura dos meus ais.

Adeus, ó Vila Real,
Esta te vou a dizer:
Não sei se lá terás fita,
Meu amor, p’ra me prender.

Adeus que me vou embora.
Desta terra para outra;
Os meus olhos deitam água
Para regar a tua roupa.                

Adeus, ó Vila Real,
Manda-me de lá dizer:
Tenho lá o meu amor,
Se o tornarei a ver.

Adeus terra da minha alma,
Por quem minha alma adora;
Por quem o meu coração
Sempre suspirou e chora.

Adeus, ó Vila Real,
O luxo é que te asseia,
Adeus, ó rua Direita,
onde o meu amor passeia. .

Adeus torre do relógio,
Adeus aldeia querida;
Já que lá tens meu amor,
Toma lá a minha vida

Recolha levada a efeito na Serra d’Arga, nas freguesias de Arga de Cima, Arga de Baixo, Arga de São João e Dem por Artur Coutinho, transcritas na obra «Cancioneiro da Serra d’Arga».

Imagem

«Cancioneiro da Serra d’Arga» – Quadras mítico-religiosas

«Cancioneiro da Serra d’Arga» – Quadras mítico-religiosas

Eis um rosário de encomendações.

O leitor poderá verificar, através delas, as romarias preferidas pelo povo da região, as principais aspirações e até, muitas vezes, a malícia ou a inocência, a superstição com que se dirigiam aos Santos.

Ó meu rico S. João,
Onde te foram pôr!
No meio da Serra d’Arga
Com sobreiros ao redor.

Há também quadras populares, de sabor religioso, que são autênticos ensinamentos.

«A religião inspirou sempre os artistas» e, de facto, o tema – religião – seria, só por si, o bastante para um outro trabalho deste género.

Quadras populares

Abaixai-vos carabinas
Com as pontas para o chão,
Deixai passar os pastores
Que vão para o S. João.

Amanhã é dia santo,
Dia de me eu assear;
Para ver o meu amor
No adro a passear.

Adeus que me vou embora
Senhora de Guadalupe;
Que nesta terra não tenho
Quem comigo se ocupe.

Amanhã é dia santo,
Dia do Anjo da Guarda;
Ó moças guardai o dia
Que o anjo também vos guarda.             

Adeus Senhora da Pena
Ladrilhada mal segura;
Quando passo por ela
Não há pedra que não bula.

Amanhã é dia santo,
É dia de vestir camisa;
Eu não tenho quem ma dê,
Morreu-me a minha Luísa.

Adeus Senhora da Rocha
Inda lá hei-de tornar;
Deixei lá meu lenço branco
Dobrado no seu altar.

Ao deitar e ao levantar
Sempre faço o Sinal da Cruz;
Para renegar o diabo,
Santo Nome de Jesus.    

Agora no S. João
É o tomar dos amores;
Estão lindos os campos,
Toda a terra tem flores.

Aquela menina é minha,
Aqueles olhos são meus;
Aquele corpo bem feito
Era o que eu pedia a Deus.

Recolha levada a efeito na Serra d’Arga, nas freguesias de Arga de Cima, Arga de Baixo, Arga de São João e Dem, por Artur Coutinho, transcritas na obra «Cancioneiro da Serra d’Arga».

Imagem

«Cancioneiro da Serra d’Arga» – Quadras Populares

Recolha levada a efeito na Serra d’Arga, nas freguesias de Arga de Cima, Arga de Baixo, Arga de São João e Dem por Artur Coutinho.

Nota explicativa à 3ª edição (extracto)

(…) Com esta edição surge mais uma oportunidade, um registo do que há de mais espontâneo na poesia e no folclore para cantar as esperanças, as ternuras, os ciúmes, os desdéns, as dores da saudade, os costumes, as devoções, as superstições, as agruras da vida, as flores, as plantas, as terras, os topónimos, os trabalhos, os animais, os santos, os “Manéis e as Marias“, as horas, e os dias, as festas e as brincadeiras, as histórias e as tradições, os amores e as paixões…

Quase sempre é anónima esta musa, tão velha como a história da avozinha do tempo dos Celtas…

A gente de Dem ou das Argas quando canta, parece subir os cumes dos montes da Serra.

E do alto da Costa do Carvalho, dos Cornos de Manes, do Alto dos Muros, do Penedo do Sino, do Alto da Coroa, do Alto dos Crastros, desafia os vales até se enamorarem e casarem com eles…

O Cancioneiro da Serra D’Arga aí está, e as quadras que nele constam foram todas recolhidas entre 1972 e 1978.

Os bailes que em Dem ou nas três Argas se realizavam, nessa altura, com frequência, nas chegadas e nas saídas dos jovens emigrantes, por ocasião de casamentos, de festas religiosas ou profanas ou qualquer outro motivo para juntar a juventude e passar tempo, cantando e dançando o folclore da região, já não se fazem assim com tanta criatividade e frequência.

Também já não enlevam como naqueles tempos…

Um rescaldo da vida que foi deste folclore pode ainda ser vivido na festa de S. João D’Arga, coração da Serra, em 28 e 29 de Agosto de cada ano.

Esta edição pretende dar continuidade aos objectivos que levaram à primeira publicação deste cancioneiro…

*****

Quadras mítico-religiosas

Eis um rosário de encomendações.

O leitor poderá verificar, através delas, as romarias preferidas pelo povo da região, as principais aspirações e até, muitas vezes, a malícia ou a inocência, a superstição com que se dirigiam aos Santos.

Quadras de saudade

«Quem canta, seu mal espanta», lá diz o rifão popular e muito bem.

Cantigas ao desafio

As cantigas ao desafio eram vulgares em romarias, feiras, desfolhadas, serões, etc. Infelizmente, tudo tende a acabar.

Quadras de queixume

Nas quadras que se seguem, cada uma delas representa uma queixa.

O povo serve-se da poesia para se queixar da sua desventura. Muitas vezes, é ela que acusa o rapaz, outras, é ele que acusa a rapariga.

Quadras de amor

A poesia é tão antiga como o homem. Em cada ser humano existe um poeta e não há nada na vida do homem que não escape aos sentimentos mais profundos da alma. O amor é, agora, o tema.

Artur Coutinho (texto editado)

Introdução

O Cancioneiro da Serra D’Arga, que ora sai a lume e para o qual me pediram algumas palavras à guisa de introdução, representa, além de um trabalho metódico e esforçado do seu autor, uma iniciativa muito válida na defesa e preservação do património cultural, expresso na tradição oral portuguesa.

Hoje, fala-se muito de cultura popular, na necessidade imperiosa de a defender, nos abusos e atropelos cometidos contra ela, sobretudo nesta época dominada pela tecnologia e pouca gente possui dados concretos sobre o fenómeno cultural, quer nos antecedentes, quer nas suas implicações de ordem intelectual, moral, religiosa, económica e social.

A cultura, de um modo geral, representa tudo aquilo que o homem produz de válido, como ser pensante.

Neste conceito genérico encaixa-se perfeitamente toda a actividade humana desde os tempos mais recuados da pré-história até aos nossos dias, uma vez que exprima uma resposta eficaz ao desafio lançado ao homem pela natureza.

Sempre que o homem, individual ou colectivamente considerado, põe o seu intelecto e a sua vontade em acção, quer no plano das necessidades, quer no plano dos desejos, torna-se um fabricante de cultura.

O mandato do criador – possuí a terra e dominai-a – constitui o repto mais deslumbrante e mais trágico lançado ao homem.

É que entre o mundo e o homem estabelece-se uma relação dialéctica que estimula o homem à satisfação das suas necessidades e dos seus desejos, etapa por etapa, sem nunca atingir a plenitude.

O homem idealiza, trabalha, luta e sofre para concretizar os seus sonhos. E quando julga estar na posse do troféu, nova etapa o solicita.

Deste modo, o homem constitui a mola fundamental do motor da história. Mas não só, pois «nas suas escolhas, o homem é condicionado pela sua condição de indivíduo, pelas relações que o ligam aos outros indivíduos com os quais compartilha a sua vida e a natureza mais vasta que o circunda e dentro da qual está incluído». (Bernardo Bernardi, Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos, pág. 19, 1979).

A cultura

Durante muito tempo, o conceito de cultura andou associado à soma de conhecimentos, de noções, de experiências e homem culto era todo aquele que dominasse bem qualquer assunto.

Em contrapartida, o homem, que nada sabia, era considerado rude, ignorante, inculto. Era este o sentido clássico de cultura.

A cultura, assim considerada, estabelecia barreiras sociais, económicas e, até, religiosas que, não poucas vezes, descambavam em reivindicações dolorosas.

Até nos períodos áureos da civilização grega e romana, os maiores luminares da filosofia e das letras consideravam plebeus todos aqueles que não se dedicassem aos problemas da cultura.

Achavam rebaixante para um homem culto exercer funções inferiores, como o comércio e o trabalho manual, reservadas a plebeus.

Este conceito de cultura penetrou na mentalidade ocidental e, ainda hoje, não faltam homens cultos a defender esta concepção.

Contudo, os tempos vão-se tornando mais permeáveis ao conceito antropológico de cultura.

Foi Edward B. Taylor quem formulou, pela primeira vez, este novo conceito de cultura. Depois de estudar aturadamente as civilizações primitivas actuais, que muitos consideravam selvagens, e de verificar que estes povos, independentemente do grau de civilização ou do estrato social a que pertencem, possuem esquemas mentais, instituições próprias para responder ao desafio lançado pelo mundo, concluiu que cada povo tem a sua própria cultura que urge estudar e respeitar.

E, assim, E. B. Tylor deu a primeira definição de cultura antropológica: «cultura é o complexo unitário que inclui o conhecimento, a crença, a arte, a moral, as leis e todas as outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade» (Bernardo Bernardi, ob. cit., pág. 24).

Nesta ordem de ideias, fácil nos é detectar o interesse manifestado pelos estudiosos em relação à cultura popular.

Cantos transmontanos | Cancioneiro de Trás-os-Montes

Cantos transmontanos

Os cantos transmontanos constituem umas das mais profundas e originais expressões da música regional portuguesa.

Não iremos, nesta breve notícia, embrenhar-nos em considerações acerca da filiação ou influências, remotas ou próximas desses cantos.

Mas não há dúvida que, em múltiplas das suas feições, a música regional de Trás-os-Montes levanta perplexidades e interrogações que hão-de certamente apaixonar os estudiosos do folclore comparado.

É possível que estes vislumbrem nela ecos ou reminiscências de expressões e formas musicais pretéritas, medievalismos, exotismos, a Igreja, a Sinagoga, os Gregos, os Árabes, tudo o que forma, ou supõe formar, o protoplasma do homem português e da sua cultura.

Note-se a extrema severidade desta música, destes cantos, o seu carácter despido de todo e qualquer sentimento ou preocupação de «agradabilidade», o seu «desenfeitamento», a sua cor terrosa -, o que tão bem vai com a paisagem de linhas e volumes duros, ensimesmados, com o génio rude, inteiro, da gente transmontana e o patriarcalismo dos seus costumes.

No seu lirismo sóbrio e penetrante, certos «romances» cantares – como Malhaninha de S. João, Valdevinos, Malva-malveta, o Bendito e outros cantos repassados de vozes, ancestrais, bem se pode dizer a expressão pura do homem transmontano, parcela do homem universal, nos seus momentos de funda identificação com o espírito da Terra.

Em traços breves, apontemos alguns

– cantos,

– hinos sagrados,

– cânticos de trabalho,

– poemas de amor e de morte,

entre os mais significativos do património musical do povo transmontano:

O Conde Ninho

(Também conhecido por Conde Nilo, Conde Aninho ou Conde Alcano).

É uma cantiga de segada (ou de ceifa). À maneira do rito litúrgico, as cantigas de segada cantam-se três ou quatro vezes ao dia: de manhã, à tarde e ao pôr-do sol.

A melodia é pentacordal (comum curioso ornato à segunda maior superior), alternando a terceira maior com a terceira menor. E pode supor-se, no seu carácter arcaico, protótipo de bom número de outros cantos que se encontram na região de Trás-os-montes.

Manharinha de S. João

Outro exemplo de romance (este de carácter religioso) utilizado nas segadas (11 horas da manhã).

A melodia desenvolve-se no âmbito de uma oitava distribuída por dois cantores:

– um pentacorde inferior confiado à voz masculina,

– e um tetracorde jónio superior (à guisa de resposta), confiado à voz feminina.

Agora baixou o Sol

Cantiga de «malhas», utilizada também como cantiga de segada. É um fragmento do romano conhecido por Madalena.

Primitivo pentacorde (com ornato à segunda menor inferior), constituído por dois curtos inciosos, confiados alternadamente aos dois cantores.

Viste lá o meu Amado

Fragmento de um auto da Paixão.

Trata-se de uma preciosa sobrevivência do canto litúrgico (salmodia e cantilena), na qual se é tentado a vislumbrar um embrião da Clássica forma dramática: recitativo-arioso.

Murinheira

Uma das mais típicas e saborosas danças trasmontanas (como o Passeado e a Carvalhesa). É acompanhada de gaita-de-foles, pandeireta e ferrinhos.

Dona Ancra

Belo romance talvez corruptela ou deformação sónica de Dona Ângela, romance vulgarizado em Trás-os-Montes e em Espanha, nesta conhecido pela designação de La novia del duque de Alba.

Deus te salve, Rosa

Encantador romance pastoril. A melodia em maior e de regular ritmo binário, semelha uma graciosa ronda infantil.

Faixinha verde

Canção de sabor e corte trovadoresco, usada em Tuizelo como cantiga de «malhas».

A melodia é um simples, mas elegante tetracorde dórico (que, descendentemente, por vezes, se transforma em jónico), com um ornato inferior na segunda menor – que, nas cadências inferiores, se converte em maior.

Li-la-ré

Originariamente decerto uma canção dançada. É utilizada para animar os compridos verões de Inverno.

Curiosa a alternação da melodia vocal, sincopada (copla formada de quadras soltas, e estribilho em interjeições) com o adufe (que não desempenha um papel acompanhado, mas sim solístico), à laia de ritornello instrumental.

Valdevinos

Bela melodia, fortemente vocalizada e de sabor um tanto exótico no seu cromatismo, distribuída por duas vozes. Filia-se no famoso romance de assunto carolíngio, também conhecido por D.Beltrão, que Garret considerava «mais bonito» na versão portuguesa do que na versão espanhola, intitulada De la batalla de Roncesvalles.

Malva-malveta

Belissímo espécime de primitivo canto tetracordal, iniciado pela voz masculina, com a resposta à 5ª superior pela voz feminina. É uma cantiga de «malhas» ainda usada em Tuizelo.

A mal-casada

Cantiga de «malhas» (romance).

O Perdigão

Cantiga de «malhas». Compõe-se de coplas e estribilho cantadas (com ligeiras variantes) com a mesma solfa: uma simples, mas intensa e luminosa melodia hexacordal do modo maior.

Galandum

Canção dançada da região mirandesa, de sabor profundamente arcaico. É acompanhada de tamboril, gaita de foles, flauta pastoril («fraita», em mirandês), pandeiro, pandeiretas, castanholas, conchas («carracas»), ferrinhos e assobio dento-labial.

Vinte e cinco

Um dos «llaços» ou figuras da Dança dos Paulitos*.

Começa por uma espécie de apelo do bombo, destinado a congregar os bailadores, os pauliteiros (em número de dezasseis), seguido da dança, executada instrumentalmente por gaita-de-foles, tamboril, bombo e castanholas, a que vem juntar-se o som seco da percussão dos próprios paulitos, atributo dos bailadores, numa curiosa e excitante polirritmia.

Muito espalhada nos concelhos de Miranda, Vimioso, Mogadouro.

*Dança dos Paulitos (em que uns querem ver uma dança pírrica, outros uma dança ligada aos ritos da fecundidade) é, fora de dúvida, uma das preciosidades folclóricas de Trás-os-Montes, embora com correspondência noutros povos.

Mineta

Versão transmontana de muito espalhado romance O Cego, também conhecido sob a designação de O rei e a pastora, Aninhas. Canção usada no trabalho de fiar o linho.

Encomendação das almas

Sobrevivência do antigo culto dos mortos, associada aos símbolos do Cristianismo, as «encomendações das almas» eram práticas religiosas muito correntes em várias províncias de Portugal. Actualmente estão em vias de desaparecer.

Destinavam-se, por meio de uma oração cantada, a aliviar das suas penas as almas dos pecadores condenados ao Purgatório.

Cantavam-se pela Quaresma, à meia noite, por grupos de habitantes da povoação, que percorriam as ruas e paravam nas encruzilhadas onde havia edículas de «alminhas», ou subiam aos pontos altos e daí, em voz lúgubre, faziam suas súplicas e «encomendações».

A súplica era feita não em coro mas, sim, por um homem ou por uma mulher.

Carvalhesa

Uma das três danças típicas do termo de Vinhais, composta de quatro figuras e acompanhada por gaita-de-foles e ferrinhos.

Ró-ró

Canção do berço, de ritmo verdadeiramente embalador. Letra em dialecto mirandês.

Redondo

Dança pastoril, executada alternadamente em «fraita» e gaita-de-foles.

Dá-la-don

Graciosa e ingénua cantilena de «abaular», isto é, género de diálogo cantado entre os pastorinhos que comunicam entre si de um monte para o outro.

Fonte: Guia de Portugal, organizado por Sant’Anna Dionísio, V volume (Trás-os-Montes e Alto Douro), editado pela Fundação Calouste Gulbenkian (texto editado e adaptado) | Foto retirada de: “O Douro”, Manuel Monteiro

L Cura stá malo | Cancioneiro de Trás-os-Montes

L Cura stá malo

[instrumental]

L Cura stá malo, l Cura stá malo
Malico an sue cama
Chiribi chiribaina, malico an sue cama

Ne l meio de la nuite, ne l meio de la nuite
Chamou la criada
Chiribi chiribaina, chamou la criada

Que ten senhor Cura, que ten senhor Cura
Que tanto me chama?
Chiribi chiribaina, que tanto me chama?

Trai-me l chocolate, trai-me l chocolate
Cun pouquito d’auga
Chiribi chiribaina, cun pouquito d’auga

La auga stá fonda, la auga stá fonda
Nun le chega la bara
Chiribi chiribaina, nun le chega la bara

Tengo eiqui you ua, mais que meia bara
Que le chega a l’auga
Chiribi chiribaina, que le chega l’auga

[instrumental]

I a ls nuobe meses, i a ls nuobe meses
Pariu la criada
Chiribi chiribaina, pariu la criada
Chiribi chiribaina, chiribiribaina

Pariu un curica, pariu un curica
Cun gorra i sotaina
Chiribi chiribaina, cun gorra i sotaina

“Bóta-lo al spício!”
Botar-lo ne l spício, nun me dá la gana
Botar-lo ne l spício, nun me dá la gana
Botar-lo ne l spício, nun me dá la gana

Botar-lo ne l spício, botar-lo ne l spício
Nun me dá la gana
Chiribi chiribaina, nun me dá la gana

Tengo eiqui dues tetas, tento eiqui dues tetas
Cumo dues maçanas
Chiribi chiribaina, cumo dues maçanas

Que dan tanto lheite, que dan tanto lheite
Cumo duzientas cabras
Chiribi chiribaina, cumo duzientas cabras

[instrumental]

Chiribi chiribaina, malico an sue cama
Chiribi chiribaina, chamou la criada
Chiribi chiribaina, que tanto me chama
Chiribi chiribaina, cun pouquito d’auga
Chiribi chiribaina, nun le chega la bara
Chiribi chiribaina, que le chega l’auga
Chiribi chiribaina, chiribiribaina
Chiribi chiribaina, chiribiribaina
Chiribi chiribaina, chiribiribaina

Nota

«Moda que uma vez mais tem por tema o clero. Esta moda foi recolhida em Freixenosa, junto de Clementina Rosa Afonso, que muito estimamos. É uma moda cantada em toda a península com algumas variantes.» (Galandum Galundaina)

Letra e música: Tradicional (Trás-os-Montes)

Intérprete: Galandum Galundaina (in CD “Senhor Galandum”, Açor/Emiliano Toste, 2009)

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