As “crendices” das ervas – mezinhas e esconjuros

“Remédio para a espinhela caída”

Uma benzedura feita com um ramo de murta.

“Para a moça fazer andar o rapaz sempre à cordinha, até que se resolva casar com ela”

Trazer numa bolsinha, sobre o peito esquerdo, um osso de um cão, outro de um gato, três folhas de arruda, três raminhos de alecrim e um alho verde.

Terá de lavar bem o corpo em cruz – desde as pontas dos dedos do pé esquerdo até às pontas dos dedos da mão direita – e das pontas dos dedos do pé direito às pontas dos dedos da mão esquerda. Com esta água, faz-se um café, para servir ao dito cujo, acompanhado de ovos fritos, partidos no “cachaço” d’ela e aparados no respectivo “traseiro”.

“Remédio para curar a névoa”

Uma mulher ainda virgem mastigava três cabeças de arruda e três folhas de oliveira com um pouco de mel; bafejava sobre o olho enfermo nove dias seguidos e três vezes ao dia.

“Para afastar desordens ou tempestades na família”

Colocar três raminhos de alecrim, em cruz, debaixo da cinza na lareira da casa, sem que as pessoas iradas se apercebam e logo se acomodarão.

“Para a mulher sair da cama sem o marido dar fé”

Eu te benzo, meu morangú
com esta saia e este meu cú
para que vá, esteja e volte
sem poderes acordar tu.

Nota: colocava-se dois morangos silvestres, ou duas amoras de silva ou dois medronhos (merôndios) consoante a época do ano, debaixo da almofada da própria.

“Emplastro para o estômago”

Reduzia-se a pó uma mistura de salva, alecrim, hortelã, erva-cidreira, poejos, bela-luz, rosmaninho, canela, rosas, murtinhos, erva-doce, orégãos e absinto – e era tomada em vinho, longe das comidas.

“Para impedir a entrada de todo o tipo de males na família”

Colocar ramos de sabugueiro carregados de frutos nas portas e janelas das casas e usar um troço como amuleto.

“Fogueiras de Junho” (Ritos do solstício de Verão)

Em muitas das nossas aldeias, rapazes e raparigas iam pela tarde aos montes colher as plantas aromáticas: – alecrim, bela-luz, esteva, rosmaninho, manjerona, etc. À noite faziam-se fogueiras e diziam-se os seguintes versos rimados, em voz alta e de sentido erótico quando o defumadoiro tinha a intenção de “estimular os órgãos sexuais” ou “o desejo de acasalamento” –

As raparigas:

Em louvor da bela-luz
que defume a minha cruz
Em louvor do rosmaninho
que defume o meu poitinho
Em louvor da esteve
que defume a minha bêbra
Em louvor da manjerona
que defume a minha c…

Os rapazes:

Em louvor dos estevões
que defumem os meus q…
Em louvor do rosmalho
que defume o meu c…

Estes defumadoiros eram também utilizados para “afuguentar” os maus espíritos ou as almas penadas que andavam a rondar a povoação.

Fonte: Etnobotânica – Plantas Bravias, Comestíveis, Condimentares e Medicinais, de José Alves Ribeiro, António Manuel Monteiro e Maria de Lurdes Fonseca da Silva, João Azevedo Editor, 2000