Cavaquinho – Instrumentos musicais tradicionais

No Brasil

O cavaquinho existe também no Brasil (onde goza de uma popularidade maior do que entre nós), figurando em todos os conjuntos regionais, de choros, emboladas, bailes pastoris, sambas, ranchos, chulas, bumbas-meu-boi, cheganças de marujos, cateretês, etc., ao lado da viola, violão, bandolim, clarinete, pandeiro, rabecas, guitarras, flautas, oficleides, requesreques, puita, canzá e outros, conforme os casos, com carácter popular, mas urbano.

Difere do minhoto, tendo como os de Lisboa e da Madeira, o braço em ressalto, sobre o tampo, com 17 trastos, e a boca sempre redonda, mas mais pequena, como de resto todas as suas dimensões.

A sua afinação, segundo Oneyda Alvarenga, é, como na Madeira (e como em certos casos minhotos), o acorde de sol maior invertido. Mas Câmara Cascudo informa que também ali se usam afinações várias.

Os autores brasileiros, em geral, Oneyda Alvarenga, Mário de Andrade, Renato Almeida, etc., consideram unanimemente o cavaquinho brasileiro de origem portuguesa, e Câmara Cascudo fala mesmo concretamente, a esse respeito, na ilha da Madeira.

De uma maneira geral portanto, ao instrumento francamente popular, minhoto (e, originariamente, coimbrão), que se toca de rasgado, corresponde o velho tipo de braço raso e com doze trastos. Enquanto que aos instrumentos de carácter citadino e burguês, de Lisboa, Algarve e Madeira – portanto menos presos à tradição -, que se toca de pontiado, corresponde o tipo de braço em ressalto, e dezassete trastos, que parece ter sofrido influências desses instrumentos mais evoluídos, violão, guitarra, ou banjolim.

O cavaquinho brasileiro, embora popular, é deste último tipo. Mas vimos que ele é usado sobretudo pêlos estratos populares urbanos. Esta regra não é porém geral: o braguinha rural da Madeira, acentuadamente popular, é, a despeito disso, morfologicamente idêntico ao urbano.

Nas ilhas do Hawai

Finalmente, nas ilhas Hawai existe um instrumento igual ao cavaquinho – o «ukulele» -, que parece, na verdade, ter sido para ali levado pelos portugueses.

Como o nosso cavaquinho, o «ukulele» havaiano tem quatro cordas e a mesma forma geral do cavaquinho.

Certos violeiros fazem-no com o braço em ressalto e dezassete trastos, como a generalidade dos cordofones desta família, e como o cavaquinho de Lisboa, da Madeira e do Brasil. Mas há «ukuleles» de fabrico inglês do tipo do cavaquinho minhoto, de braço raso com tampo e apenas 12 trastos.

A sua afinação natural é, do grave para o agudo, sol-dó-mi-lá (ou lá-ré-fá sustenido-si, ou ainda ré-sol-si-mi, como indicam certos manuais ingleses).

Carlos Santos e Eduardo Pereira referem-se à divulgação do braguinha por todo o mundo, graças ao turismo e ao cinema, e sobretudo à exportação e à emigração dos colonos ilhéus para as Américas, do Norte e do Sul, ilhas Sandwich, etc.. Citam mesmo alguns dos primeiros exportadores que, nos princípios deste século, os enviaram, a pedido, para Barbados, Demerara e Trindad.

De facto, o cavaquinho, ou braguinha, foi introduzido em Hawai por um madeirense de nome João Fernandes, nascido na Madeira em 1854, e que foi da sua ilha para Honoluiu no barco à vela «Ravenscrag» num continente de emigrantes – 419 pessoas, incluindo crianças -, com destino às plantações de açúcar, numa viagem pela rota do cabo Hom que demorou quatro meses e vinte e dois dias.

Entre esses emigrantes vinham cinco homens que ficaram ligados à história da introdução do cavaquinho em Hawai:

– dois bons tocadores, o mencionado João Fernandes (que tocava também rajão e viola) e José Luís Correia;

– e três construtores, Manuel Nunes, Augusto Dias, e José do Espírito Santo.

A chegada a Honolulu

O «Ravenscrag» chega a Honolulu a 23 de Agosto de 1879, e José Fernandes (segundo um relato feito à revista Paradise of the Pacific, de Janeiro de 1922), ao desembarcar, trazia na mão um braguinha, pertencente a um outro emigrante também passageiro do «Ravenscrag», João Soares da Silva, que porém não sabia tocar e o emprestara a João Fernandes para que este entretivesse os demais companheiros na longa viagem até Hawai.

Os hawaianos, quando ouviram João Fernandes tocar o pequeno instrumento, ficaram encantados, e deram-lhe logo o nome de «ukulele», que significa «pulga saltadora», figurando o modo peculiar como é tocado.

Depois de instalados na ilha, seguidamente, todos queriam que João Fernandes tocasse, o que ele fazia gostosamente – em danças, festas, serenatas, etc., tendo depois formado um conjunto com Augusto Dias e João Luís Correia.

Tocou assim para o rei Kalakaua, em especial na festa do seu aniversário, para a rainha Emma e a rainha Liliuokalani, no palácio de Ilakla e no pavilhão de Verão, de lolani, que era um centro de música, dança e cultura.