Cavaquinho – Instrumentos musicais tradicionais

Toca-se só em conjunto com outros

Pode-se usar sozinho, como instrumento harmónico, para acompanhamento do canto. Mais frequentemente, porém, aparece com a viola, e muitas vezes ainda com outros instrumentos – nomeadamente

– o violão, a guitarra, a rabeca, o banjolim e a harmónica ou acordeão,

– e mais os percutivos, tambor, ferrinhos e reco-recos – próprios desses conjuntos festivos.

Em terras de Basto e de Amarante faz-se uma distinção muito nítida entre o instrumental do tipo da rusga, para as canas-verdes e malhões, que compreende

– o cavaquinho, violão, hoje harmónicas e acordeãos, bombo e ferrinhos,

e o do tipo da chula ou vareira, que compreende

– a rabeca (e hoje, em vez dela, por vezes, a harmónica)

– violas (uma alta em tom de guitarra, e outra baixa),

– violões assurdinados no sexto ou sétimo ponto,

– bombo e ferrinhos,

mas não cavaquinhos.

Vê-se assim que, na região, o cavaquinho alterna com a rabeca chuleira as funções de instrumento agudo, conforme os casos.

Como se toca e afinações

O cavaquinho geralmente toca-se de rasgado, com os quatro dedos menores da mão direita, ou apenas com o polegar e o indicador, como instrumento harmónico. Mas um bom tocador, com os dedos menores da mão esquerda sobre as cordas agudas, desenha aí a parte cantante que se destaca sobre o rasgado, ao mesmo tempo que as cordas graves fazem o acompanhante em acordes.

Ele tem um grande número de afinações, que, como sucede com a viola, variam conforme as terras, as formas musicais e até os tocadores. Geralmente, para tocar em conjunto, o cavaquinho afina pela viola; a corda mais aguda põe-se na máxima altura aguda possível.

A afinação natural parece ser ré-sol-si-ré (do grave para o agudo), mas usa-se também sol-sol-si-ré (ou lá-lá-dó sustenido-mi, do grave para o agudo).

Certos tocadores de Braga usam porém, além destas, outras afinações, próprias de certas formas, em que a corda mais aguda (ré) é ora a primeira ora a terceira:

– a afinação para o varejamento (com a primeira mais aguda), que corresponde a sol-sol-si-ré, atrás indicada;

– a afinação para malhão e vira, na «moda velha» mais antiga (sol-ré-mi-lá, também com a primeira mais aguda);

– em Barcelos, preferem sol-dó-mi-lá (afinação da «Maia»);

– outras afinações de malhão e vira, e outras ainda com a terceira mais aguda; etc.

Hoje usa-se o cavaquinho (como de resto outros instrumentos das rusgas) também para o fado, com afinação correspondente, e igualmente a primeira mais aguda.

Origem do cavaquinho

A origem do cavaquinho é duvidosa.

Gonçalo Sampaio, que explica as sobrevivências de modos arcaicos helénicos, que ele próprio nota na música minhota, à luz de conjecturais influências gregas (ou ligures) sobre os primitivos calaicos daquela Província, acentua, sem mais consistência do que isso, a relação entre o cavaquinho e os tetracórdios e sistema helénicos, e é de opinião que ele, com a viola, veio para Braga por intermédio dos biscaínhos, sem explicitar nem dizer as razões desta opinião.

De facto, há em Espanha um instrumento semelhante ao cavaquinho, da família das guitarras – o requinto – de quatro cordas, braço raso com o tampo e dez tratos, que afina, do grave para o agudo, ré-lá-dó sustenido-mi.

Jorge Dias parece também considerá-lo vindo de Espanha, onde se encontra, em termos idênticos, a guitarra, guitarrón ou guitarrico, como o chitarrino italiano.

E acrescenta:

«sem poder precisar a data da introdução, temos que reconhecer que o cavaquinho encontrou no Minho um acolhimento invulgar, como consequência da predisposição do temperamento musical do povo pelas canções vivas e alegres e pelas danças movimentadas… O cavaquinho, como instrumento de ritmo e harmonia, com o seu tom vibrante e saltitante, é, como poucos, próprio para acompanhar viras, chulas, malhões, canas-verdes, verdegares, prins».

Além disso, é no Minho notório o gosto pelas vozes femininas sobreagudas e por vezes mesmo estridentes, que se casam bem com a tonalidade do cavaquinho.

O cavaquinho minhoto em Coimbra

O cavaquinho, de tipo minhoto, com escala rasa com o tampo e doze trastes, ainda em fins do século passado era bastante frequente na região de Coimbra, figurando, ao lado da viola, nas mãos do povo e, nomeadamente, nos festejos do S. João, nas fogueiras da cidade, juntos com a guitarra, pandeiro e ferrinhos, e nas serenatas da Academia, com largas referências, sob o nome de machinho, na Macarronea.

Há poucos decénios, ele ainda se via nessas ocasiões, mas então já em casos raros, e sobretudo tocado por estudantes minhotos.

O cavaquinho de Coimbra afinava, de acordo com a viola da região, ré-sol-si-mi (do grave para o agudo). Um exemplar da autoria de António dos Santos – outro antigo violeiro famoso da cidade, na Rua Direita -, e que se encontra no Museu Etnográfico da cidade,

– mede 50 cm de comprimento total, sendo 9,5 de cabeça, 17 de braço e 23,5 de caixa (com 23,5 da pestana ao cavalete).

– o bojo superior tem 10,5 de largura, e o inferior 13,5; a cinta tem 7,8;

– a altura da caixa é de 3 cm em cima, e de 3,4 em baixo.

Ele parece pois ser ali uma espécie local, que porém se extinguiu do mesmo modo que a viola, suplantados pela guitarra. E, de facto, o exemplar de António dos Santos, dessa época, atesta não só o seu uso mas mesmo o fabrico regional.