Subsídios para «O cantar e o bailar das “Saias”»

 

Com ou sem influência espanhola, sabe-se que as “Saias” são uma moda de raiz alentejana – que no Alentejo, segundo Tomaz Ribas, se bailaria já no século X. Como se sabe que, por força das migrações, e noutras formas, se fixou também noutras regiões. E em Montargil, como era?

Digamos que em Montargil, o bailar e o cantar das “Saias” pouco ou nada diferia de outras terras, em especial do distrito de Portalegre, onde a sua existência era mais marcante.

Também aqui, as saias eram uma cantiga de trabalho e uma cantiga de divertimento. De trabalho, quando durante as fainas e só cantadas, de divertimento quando também bailadas, ao fim de semana ou no final de um dia de trabalho, que às terças e às quintas era certo haver folia quando à semana ou à quinzena o pessoal estava deslocado.

Onde quer que estivessem duas mulheres, ou um homem e uma mulher, era cantoria certa. Só homens entre si, e tanto quanto sabemos, é que nunca as cantaram – e só tocadas (sem canto) apenas no “dia das sortes” quando com o tocador a rapaziada dava a volta à rua. E nesse dia havia mesmo e sempre umas “Saias” novas trazidas pelo concertinista, ou pelos concertinistas, já que houve tempos em que eram vários os grupos de mancebos e logo, por isso, vários os tocadores.

Só cantadas, durante algumas fainas, que quando o trabalho era de empreitada, como por exemplo na cava do milho e na ceifa, isso não era possível. Cantavam-se nas descamisadas (que alguns também chamavam de desencamisadas), na apanha da azeitona e na monda do arroz ou o do trigo, assim como também no arrancar do mato. E era então ouvir as ”Saias”, quer em conjunto – que também acontecia – quer a despique.

Quando bailadas, isso acontecia muitas vezes só ao som das vozes – ou porque nesse dia não havia tocador, ou porque ele parava um bocado para descansar ou ir comer. Que o bailarico, esse, não podia parar.

Então, cantava-se e bailava-se ao mesmo tempo. Um ou uma que cantava daqui, e outro ou outra que respondia dali. E podia acontecer também outros entrarem a seguir no despique.

As letras (os pontos) eram muitas vezes de improviso. No entanto, não se podia fugir do conteúdo.

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Um exemplo:

Menina que tanto sabe
diga lá o seu saber;
uma camisa bem feita
quantos pontos vem a ter.

Ao que a moça respondia:

Quantos pontos vem a ter
vou-lhe já espelicar,
não são mais e não são menos
dos que lhe querem prantar.

Ou então…

Estas raparigas de hoje
iguaizinhas são às d’ontem,
albardá-las e mandá-las
com um cântaro à fonte.

E a resposta não demorava:

Estes rapazes de agora
estas que de agora são,
albardá-los e mandá-los
à Serra buscar carvão.

Houve estilos (letras) que aqui nasceram, mas outras aqui terão chegado, como, por exemplo este:

Estas é que são as “saias”
estas “saias” é que são,
são cantadas e bailadas
na noite de S. João.

Ou que chegadas aqui, sofreram leves alterações, como por exemplo estas:

Adeus vila de Montargil
não és vila nem cidade,
mas és um rico cantinho
onde brilha a mocidade

Existiam diversos estilos (melodias), e em conformidade com os pontos (as letras) se cantava: de uma maneira geral cantavam-se os quatro versos seguidos, repetindo depois o terceiro e o quarto e por último o primeiro e o segundo; ou ainda cantava-se o primeiro e o segundo (repetindo) e o terceiro e o quarto (repetindo). Dizem-nos ainda que por exigência do bailar, para que se pudesse rodar o tempo devido, o terceiro e o quarto versos eram por vezes cantados três vezes. E que os versos podiam ser cantados sem qualquer repetição desde que não bailados.

E por se falar em cantar, diga-se que nesses tempos os homens conviviam nas tabernas onde as Mulheres não entravam, e aí cantavam primeiro a desgarrada e mais tarde o fado – ao som do harmónio (depois da concertina) e do realejo e julgamos que antes, da guitarra portuguesa.

Lino Mendes | Imagem

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