Boas Práticas para os Agrupamentos de Folclore

Manual de Boas Práticas para os Agrupamentos de Folclore – Propostas

Introdução

Não poderei apresentar um tema sobre “Manual de Boas Práticas para os Agrupamentos de Folclore – Propostas”, sem antes fazer um pequeno intróito, daquilo que me vai na alma.

Estar no Folclore como elemento integrante ou com funções directivas, é, com toda a certeza, o assumir um conjunto de responsabilidades, que têm que ser dignificadas e para as quais, muitas vezes, não se está preparado.

Antes de citarmos essa mesma palavra devemos analisá-la no seu verdadeiro significado, isto é, científico e literário.

Folclore. Ciência das tradições, crenças, costumes e artes populares; contos, canções ou lendas populares de uma região; demopsicologia.1

Para podermos apresentar, transmitir e preservar um trabalho no âmbito da Etnografia passando pela Etnologia2, temos que nos dispor a realizar um trabalho de recolha, estudo e tratamento desse mesmo trabalho.

Quem percorrer ou fizer este percurso, vai com toda a certeza entender todo um conjunto de práticas e normas, que lhe estão inerentes, ou se lhe quisermos chamar boas práticas, e, nada melhor do que isso passarmos por este teste de sabedoria popular que já vai desaparecendo que são os “antigos” eles sim, são  “um livro que começamos a desfolhar e nunca mais queremos fechar e deixar de ler”.

Proposta I – Formação de um Grupo de Folclore

Proposta II – Encontros / Festivais de Folclore: Recomendações

1 Do Gr. dêmos, povo + psicologia, s. f., estudo da psicologia de um povo; folclore

2 Do Gr. éthnos, raça + lógos, tratado, s.f., ciência que estuda os factos e documentos recolhidos pela etnografia; estudo de povos e de raças, nos pontos de vista dos seus caracteres psíquico e culturais, das suas diferenças e afinidades, das suas origens e relações de parentesco, etc.

Proposta I – Formação de um Grupo de Folclore

Nesta sugestão de “Manual de Boas Práticas para Agrupamentos de Folclore” irei apresentar um conjunto de propostas e sugestões a ter em consideração, com base na minha experiência e na minha maneira de estar neste aglomerado de sabedoria e “arte popular”.

Para mim, são importantes desde o início do processo, da fundação de um grupo até ao seu desenvolvimento.

Então sugiro que devemos começar pelo princípio. A formação de um grupo de pessoas, para estarem, viverem e sentirem o folclore.

Factores a ter em conta

O grupo deve receber formação inicial sobre o trabalho que vai desenvolver, quais os seus objectivos, critérios de desenvolvimento, tendo em conta os seguintes factores:

1.- O que vão fazer – Constituir uma equipa de recolha de 3 a 4 elementos que trabalhe no terreno e que tenha como coordenador um elemento com sensibilidade e perfil para desenvolver este trabalho, devo acrescentar que é um processo moroso, leva o seu tempo.

No mínimo um ano de trabalho de recolha. A escolha do nome do grupo etc.

2.- Como vão fazer – Depois de termos um conjunto de elementos recolhidos já apurados e tratados, como por exemplo: os trajes, danças, cantares e músicas, cenas etnográficas ou da vida quotidiana onde se insere o grupo, alfaias, utensílios de trabalho etc., deve-se partir para outra fase:

– Quem confecciona e costura os trajes? Se tiverem recursos humanos dentro do grupo, devem ser aproveitados e rentabilizados.

– Quem toca?

– E quem dança?

– Quem canta? etc.

Se tiverem pessoas que entendam de música ou de execução de instrumentos musicais tradicionais se puderem, devem abrir uma escola de instrumentos musicais tradicionais ou recorrerem a músicos populares que existam na comunidade.

Para dançar também são necessários homens e mulheres que estejam dispostos a uma aprendizagem das danças tradicionais.

Cantar, não é necessariamente haver solistas a não ser um fado mandado ou uma desgarrada; de resto as cantigas na sua maioria eram cantadas em coro.

E por fim pode haver aquelas pessoas que só queira estar no grupo para serem figurinos, também devem ser aproveitados, quem sabe mais tarde se sintam vocacionados para a dançar e cantar.

Os ensaios

3.- Quando fazer – Entre todos, escolher o melhor dia para ensaiar, que satisfaça a todos os elementos do grupo.

O ensaio, deve ser conduzido e dirigido com serenidade, porque no fundo também acaba por ser um espaço de encontro e de partilha entre todos, e que até aqui não era habitual.

O líder, dinamizador, ensaiador ou director técnico deve ser uma pessoa que tenha alguns conhecimentos sobre o assunto.

O ensaio deve começar a horas, tendo uma tolerância estipulada por todos (exemplo 15 minutos) e deve ser dividido numa primeira fase, em duas partes.

Uma primeira parte destinada a aprendizagem das cantigas, todos os elementos do grupo devem saber as cantigas de cor e não cantá-las pelo papel.

A segunda parte, a seguir a um intervalo de 15 minutos, pode ser de aprendizagem das danças ate porque já as sabem cantar e torna-se mais fácil a sua execução.

Todos os elementos devem saber falar do seu trajo, o que representa, o que significa, que carga simbólica encerra, etc.

O grupo só se deve apresentar em público, quando souber interpretar como deve ser as danças e os cantares e quando já estiver trajado a rigor.

Recomendações importantes

Depois de estarem devidamente trajados, recomenda-se:

– Não sentar de qualquer maneira e feitio, desrespeitando o traje.

– Não mascar chicletes

– As senhoras não devem fumar e estarem maquilhadas

– De unhas pintadas (senhoras)

– Não usar relógio de pulso

– As ornamentações das orelhas e peito das senhoras devem ser em ouro ou prata dourada e não fantasias que nada tem a ver com o trajo, e, se era uso.

– O homem deve usar relógio de bolso com corrente, mas atenção! Só se for de ouro.

– Os trajos de trabalho não usam meias de renda.

– O trajo, ou se veste na sua essência, ou então é melhor não, visto que há muita gentinha por aí meia trajada, isso não, por favor.

– Os toques também não devem tocar melodias menos apropriadas.

Proposta II – Encontros / Festivais de Folclore: Recomendações

Todos temos consciência da grande quantidade de Encontros, Festas e Festivais de Folclore, realizados no nosso Pais. Foi sem dúvida um grande crescimento muito grande nos anos 90.

Se a quantidade é satisfatória, sobremaneira preocupante a qualidade de muitos desses Festivais, por isso apresento como sugestão e proposta uma série de recomendações:

Preparação e até ao Desfile

1.- Programa bem estruturado e programado, tendo muita atenção aos horários. Não devem existir tempos mortos;

2.- Sessões solenes bem planeadas e bem orientadas, se possível em local onde todos os participantes do Festival possam assistir e participar;

3.- Tentar ter um local centralizado para os autocarros não ficarem muito longe de todo o evento.

4.- Refeições bem cuidadas e em abundância, com menus apropriados e se possível servidas em local onde todos se possam sentar;

5.- Não é aconselhável fazer a refeição trajados, até porque não estão á vontade e corre-se o risco de pôr em causa a boa preservação e manutenção dos trajes.

6.- Trajo/Trajar – Quando o grupo já estiver devidamente trajado, deve ser revisto pelo seu director técnico ou um adjunto para ver se está tudo em ordem e em conformidade, pois nota-se em alguns grupos os trajos ou com bainhas descosidas, coletes sem botões, trajos de homens sem chapéus ou outro adorno que tape a cabeça, etc…. etc…

7.- Desfile – Só se justifica de dia e quando há público a assistir, devendo o percurso ser bem estudado. Na grande maioria dos Festivais que conheço, o desfile só contribui para o descrédito do Folclore;

Questões técnicas

8.- Palco – Recomenda-se 10mx10m com um patamar ao fundo, separado e mais alto cerca de 25 cm, com 2mx10m. Deverá ter duas zonas de acesso nas laterais, rampeadas com inclinação necessária para que as entradas e saídas sejam rápidas e naturais;

9.- Iluminação – Se possível branca colocada de forma que os elementos e os trajos que envergam possam ser apreciados pelo publico;

10.- Som – Devem ter cuidado na contratação dos técnicos do som, de forma a melhorar significativamente os Festivais. Devem ter no mínimo 6 a 8 microfones de boa qualidade e sempre de tripé e não suspensos por fios;

O Festival de Folclore

11.- Hora do espectáculo – O espectáculo deverá ter horário para começar e para terminar. O tempo ideal será de 2 horas. Devem ser programadas de forma a terminarem cerca da meia-noite, já que salvo raras excepções, a partir dessa hora já não há público;

12.- Se a entrega das lembranças, for efectuada antes do espectáculo, devera ser breve. Para isso terá que ter uma preparação prévia sem lacunas. Se houver lugar a discursos, sensibilizar as entidades para intervenções curtas;

13.- Apresentador – A escolha deverá ser criteriosa, para que a pessoa escolhida contribua, com a máxima prudência, na condução das representações, evitando os longos historiais e os imensos comentários sem conteúdo e desapropriados, que induzem o público para juízo de valor menos favorável.

A apresentação deve ter em primeiro lugar o aspecto lúdico e o segundo o do espectáculo, porque, assim, fica mais valorizada a representação etnográfica e folclórica.

14.- Número de Grupos – Cada Encontro, Festa, ou Festival deverá ter 5 a 6 grupos com o organizador;

15.- Logística – Em termos de logística deve estar bem coordenada.

Guias preparados para receber os grupos, e a primeira impressão que se dá da organização é chegar um grupo convidado e sentir que está a ser bem recebido.

Os guias devem ser portadores de toda a informação e horários do evento para que tudo se desenvolva o melhor possível;

16.- Local para trajar – A Organização, se possível, deve ter instalações com sanitários para que os Grupos se possam trajar, sem dar aquela imagem de “circo” nos passeios e/ou na rua.

Sérgio Fonseca, (ao tempo) Director Técnico do Grupo Etnográfico de Lorvão | Actualmente gere a Rádio do Folclore de Portugal TV

Intervenção apresentada no 1º Encontro Nacional de Folcloristas Internautas – Vila Real (Delegação do IPJ) 8.11.2003