As segadas – Atividades agrícolas em Trás-os-Montes

Regresso a casa

A Camarada significava, na região norte de Portugal, o conjunto de todos os intervenientes na segada: homens, mulheres e crianças. Normalmente era um grupo numeroso, porque o trabalho da ceifa, violento e demorado, fazia-se por entreajuda de parentes, amigos e mesmo benfeitores que ajudavam desinteressadamente.

Ao fim da segada, que poderia demorar mais do que um dia, havia uma satisfação grande por terminar aquele trabalho tão penoso e feito ao longo de todas as horas do dia e debaixo de um sol abrasador.

Comia-se bem e bebia-se melhor, para apagar a sede e evitar a desidratação, pelo muito que se transpirava.

Era uma festa. Por isso, cantava-se.

Em chegando à aldeia

Após as ceifas ou segadas, ao entrar na povoação.

Primeira quadra:

À entrada desta rua,
Logo me cheiraram rosas;
Logo meu coração disse:
Aqui há moças formosas.

Outras quadras seriam intercaladas ou introduzidas pela aldeia fora.

Eu hei-de ser dos primeiros
A subir a escaleira,
Para darmos “uma viva”
À senhora cozinheira. (Roriz)

Uma viva”: curiosa mudança de género.

A senhora cozinheira,
Ela cozinhava bem;
Punha a candeia na escada
Para falar ao seu bem.

No dia da segada, o bem da senhora cozinheira não podia deixar de ser todo o conjunto de segadores.

Ó senhora cozinheira,
Ponha a candeia na escada;
Venha ver os segadores
Quem vem da sua segada.

Agradecimento

Ao regressar a casa, havia quem não se descuidasse de fazer um grande ramo com as melhores espigas de centeio e umas florinhas silvestres a embelezá-lo. Era ele a oferta para a dona da casa, a senhora cozinheira, aquela que se esmerava por apresentar as melhores iguarias. E chegava a haver seis ou sete refeições durante o dia, desde o amanhecer até á noite.

Andava o arroz pelas poulas”, dizia o povo. E explicava-se: bom momento na vida do lavrador; a fartura e a fidalguia em tempos de pobreza.

É claro: a hora da colheita é de alegria; e a segada era na realidade uma verdadeira festa.

Ao entrar no povo tinha de se dar conta, o mesmo é dizer: dar a conhecer ao público que se fez a segada de fulano.

Fonte: “Velhas Canções Trasmontanas”, de António da Eira, 2005, edição do autor (texto editado e adaptado)