As picaretas de ouro | Lenda da Serra do Alvão

As picaretas de ouro | Lenda da Serra do Alvão

As Picaretas de ouro

O famigerado Penedo Negro tem ainda outras lendas, ligadas também à actividade dos povos da serra e relacionada principalmente com o fabrico do carvão que os carvoeiros vinham vender a Vila Real.

Foi na realização deste trabalho que se deu o acontecimento maravilhoso que o povo conta assim:

Um dia, ainda de manhãzinha, antes de o sol pintar na serra, o senhor Mota saiu de casa, como de costume, para fazer carvão, que era o seu modo de vida.

Mas, quando chegou junto do Penedo e se preparava para arrancar as zogas das urgueiras, verificou, muito contrariado, que se tinha esquecido da picareta.

Ia já para voltar a casa buscá-la, quando deu de frente com uma Senhora, jovem e formosa, sentada, a pentear-se com um pente de oiro e com muitas picaretas, também de oiro, a seu lado.

O carvoeiro ficou de boca aberta, a olhar, muito espantado, para aquela maravilha!

Então a Senhora dirigiu-lhe a palavra:

– Não precisas de ir buscar a tua picareta. Tens aqui muitas. Escolhe a que quiseres. Mas, antes, diz-me uma coisa: gostas mais das picaretas ou de mim?

O senhor Mota, que não tirava os olhos das picaretas de oiro, a brilhar aos primeiros raios de sol, e que não sabia mentir, disse com a sua franqueza e simplicidade:

– Gosto mais das picaretas.

Oh! Palavra que tu disseste! A Senhora, com o rosto coberto de tristeza, deu um suspiro profundo e exclamou:

– Então fica com ela. Já que escolheste a picareta e não a mim, continuarás pobre e eu continuarei encantada.

E desapareceu, misteriosamente, no interior do Penedo Negro, deixando só uma picareta e levando consigo todas as outras.

Quando o ambicioso carvoeiro pegou na picareta de oiro, a pensar que ia ficar rico, ficou sem pinta de sangue, porque ela se transformou, ao tocar-lhe, num pedaço de carvão, a única coisa em que tinha tocado em toda a sua vida.

Então arrependeu-se amargamente da sua escolha desastrada, mas já nada pôde fazer. Teve de continuar pobre e a fazer carvão como os seus vizinhos, para sustentar uma ninhada de filhos.

E a Senhora lá continuou, continua e continuará eternamente, encantada, no Penedo Negro, a guardar as suas picaretas de oiro!

Fonte: “Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro”, por Joaquim Alves Ferreira (5 volumes) – texto editado | Imagem