O grupo folclórico de Monsanto, a «aldeia mais portuguesa de Portugal», visitando a Câmara Municipal de Lisboa. ("Ilustração", nº316 - 1939)

As aldeias do fim do mundo…

Aldeia mais portuguesa de Portugal

O refluxo modernista de António Ferro atinge o seu clímax, destruindo o que ainda resta da sua imagem vanguardista da juventude, no concurso A Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, organizado em 1938.

A ideia é convencer os habitantes das urbes mais populosas das vantagens de viver como antigamente, exibindo aldeões felizes e contentes, que não trocam os seus hábitos e costumes pela confusão da vida moderna.

O apelo ao revivalismo, acolhido com entusiasmo nos meios rurais, é lançado através do SPN, que assinala desde logo os parâmetros mais valorizáveis: trajes regionais, danças e cantares, utensílios de trabalho e instrumentos musicais.

Os lugares onde já exista indústria ou prédios modernos são automaticamente eliminados.

Júris regionais de cinco elementos – integrando folcloristas, etnógrafos, musicólogos e representantes de museus e juntas provinciais – escolhem vinte candidatas:

– Vila Chã e Carrazedo de Bucos (no Minho),

– Alturas do Barroso e Lamas de Olo (Trás-os-Montes e Alto Douro),

– Almalagês e Colmeal (Douro Litoral),

– S. Julião de Cambra e Manhouce (Beira Alta),

– Paul e Monsanto (Beira Baixa),

– Aljubarrota e Oleiros (Estremadura),

– Azinhaga e Pego (Ribatejo),

– Senhora da Orada e S. Bartolomeu do Outeiro (Alto Alentejo),

– Peroguarda e Salvada (Baixo Alentejo)

– e Alte e Odeceixe (Algarve).

A pré-seleção das aldeias candidatas

Uma equipa chefiada por Francisco Lage, director de Etnografia do SPN, e pelo seu adjunto, Sales Viana, faz a pré-selecção, eliminando as localidades nas quais o entusiasmo é fraco ou os acessos difíceis e aquelas onde não existe rancho folclórico.

As primeiras a serem excluídas são as aldeias transmontanas de Alturas do Barroso e Lamas de Olo, pelo seu primitivismo politicamente indesejável, logo seguidas das representantes da Estremadura, de acessos complicados.

As doze que sobrevivem à triagem são convidadas a organizar festas, procissões e jogos tradicionais, para os jurados apreciarem.

Na peregrinação por essas terras, Lage e a sua equipa aconselham mudanças que chegam ao cúmulo de dispor de modo diferente do habitual os objectos no interior das casas.

Sujeitos às novas regras, os aldeões seleccionados escondem os sinais de pobreza extrema e o mobiliário rústico mais tosco.

A contrafacção passa por obrigar os ranchos a alterarem ritmos musicais e movimentos de dança e à selecção das peças de artesanato a exibir.

Os elementos do júri

Usando os poderes de presidente do júri, que a si próprio conferiu, António Ferro chama para o colectivo, de que já faz parte

– Francisco Lage,

– a mulher, Fernanda de Castro,

– os jornalistas Gustavo de Matos Sequeira e Augusto Pinto,

– o folclorista Armando Leça,

– os etnógrafos Luís Chaves e Cardoso Marta

– e o pintor Thomaz de Mello.

Juntos, iniciam as alegres excursões à descoberta das doze «maravilhas», seguidos por um pequeno batalhão de fotógrafos, técnicos de cinema e jornalistas, nacionais e estrangeiros.

Os cenários rurais, já alterados pelo SPN, conquistam aplausos generalizados.

Em Monsanto, os casais Ferro e Lage são convidados para serem padrinhos de um casamento e de um baptizado.

Monsanto foi a escolhida

Antes de ser declarada vencedora, Monsanto ainda aparece empatada com Paul e Carrazedo de Bucos, mas a sua vitória estava já negociada nos bastidores por Francisco Lage com as forças vivas do regime em Castelo Branco, a mando do director do SPN.

Anunciada a decisão, Ferro chama o Teatro do Povo a assentar arraiais na aldeia e dita o telegrama que vai ser enviado a Salazar em nome da população: «O povo de Monsanto da Beira, aldeia classificada a mais portuguesa, saúda em V. Exa. o grande amigo de todas as aldeias portuguesas.»

Justificando a escolha, o júri emite o parecer de que a aldeia de pedra granítica do concelho de Idanha-a-Nova, erguida a 700 metros de altitude na encosta de um cabeço antes ainda de haver Portugal, é a mais pura e característica localidade do País.

O «manto diáfano da fantasia» esconde crianças de pé descalço, que não vão à escola porque têm de trabalhar, adultos analfabetos e desdentados, fome e miséria.

Terminada a euforia, Lage e Sales Viana começam a encenar o espectáculo de consagração, contando com a ajuda dos professores primários e das meninas das famílias mais abastadas da aldeia.

Escolhem-se figurantes, designa-se um chefe para cada grupo e seleccionam-se as fatiotas e respectivos adereços.

Os encenadores, etnógrafos, pintores e fotógrafos do SPN ocupam-se de todos os pormenores. A festa conta com a participação da orquestra popular da Emissora Nacional e o sucesso é total.

Cumprindo ordens de Ferro, o pintor Carlos Botelho instala-se depois em Monsanto e aí capta cenas do quotidiano da aldeia, pintando a paisagem e o casario, hábitos e costumes.

Cumprindo ordens de Ferro, o pintor Carlos Botelho instala-se depois em Monsanto e aí capta cenas do quotidiano da aldeia, pintando a paisagem e o casario, hábitos e costumes.

O troféu foi entregue por Salazar

Esse trabalho irá ser mostrado em Lisboa, no último acto da grande farsa, levado à cena em Fevereiro do ano seguinte.

É uma recepção, presidida por Salazar e Carmona, de que António Ferro se encarrega pessoalmente, destinada à entrega do troféu.

São solenemente convidados a assistir o germanófilo Costa Leite (Lumbrales), chefe máximo da Legião Portuguesa; Carneiro Pacheco, o ministro da Instrução; e a poetisa e dramaturga Virgínia Vitorino.

A comitiva de Monsanto que se desloca à capital recebe das mãos do ditador o troféu, o Galo de Prata, que expõe depois na Torre do Relógio da aldeia, para regozijo de todos.

Antes do discurso em que assegura que «o povo mais rico não é o que tem mais dinheiro, mas o que tem mais alma»1, António Ferro recebe um beijo embaraçoso da Maria Costureira, indiciador de uma familiaridade suspeita.

Uma «Síntese da Aldeia de Monsanto» será mostrada em 1942 em Lisboa, numa exposição montada nas instalações do SPN em São Pedro de Alcântara.

Os Pauliteiros de Miranda

A insólita visão de um grupo de homens maduros, de saia bordada, xaile aos ombros e chapelinho de fita, a dançarem à roda e aos pulinhos enquanto batem pauzinhos uns nos outros, com o cuidado de não se magoarem, não deixa ninguém indiferente.

Foi o que pensou António Ferro quando iniciou com os Pauliteiros de Miranda o processo de reinvenção do folclore português.

Para compor melhor a imagem, os oito bailadores vestem camisa de linho e colete pardo e calçam botas de cabedal.

Nestes preparos apresentam-se no Royal Albert Hall de Londres, pela sua mão, logo em 1934, com o sucesso que se adivinha.

Dir-se-á que homens de saia não é coisa totalmente nova, que já os gladiadores romanos, os tradicionalistas escoceses e os samurais do Japão as usavam.

O certo, porém, é que nunca em Portugal, no passado recente ou remoto, se tinham visto homens assim vestidos, e a falsificação foi feita com a ajuda dos etnógrafos e folcloristas contratados por Ferro para o SPN.

Durante a apresentação londrina desse primeiro grande ícone folclórico do Estado Novo, por ocasião da Semana Cultural Portuguesa, o gaiteiro Francisco Martins, da aldeia de Cércio, elevou-se também à condição de estrela do National Festival of English Folk Dance and Song.

Por decisão de Ferro, os dançadores das esquecidas terras de Miranda, que até então usavam alternadamente saias e calças, passaram a usar apenas saias.

A dança dos paulitos, executada ao som de gaita-de-foles e ao ritmo de castanholas e bombo, terá a sua origem nos rituais guerreiros que se praticavam na Irlanda na Idade Média, sem qualquer relação com Portugal.

O Padre António Mourinho

Mas a excentricidade da aposta pegou e seis anos mais tarde, em Dezembro de 1939, o grupo volta a subir ao mesmo palco, já como cabeça de cartaz, uma vez mais pela mão de Ferro, num grande festival de danças populares.

O filão ganhará um explorador de respeito na década de 40, com a entrada em cena do padre António Mourinho, o homem do mirandês, colaborador assíduo do SPN, nascido na aldeia de Sendim no ano das aparições de Fátima.

Nomeado pároco de Duas Igrejas, ele próprio fundará aí, em 1945, os Pauliteiros de Cércio, com os quais organizará tournées que levarão os camponeses fardados a viajar não só pela Europa, mas também pelos Estados Unidos da América, Canada, Angola e Macau.

À semelhança do que aconteceu em Fátima, o negócio floresce à volta das supostas tradições e do artesanato a elas associado, atraindo turistas (sobretudo espanhóis, ali ao lado).

Ao fim de algum tempo, já se vendem por lá jalecos e capas de honra, bonecos de pauliteiros e paulitos, gaitas-de-foles e bombos, castanholas e postais ilustrados.

É este o Portugal de António Ferro: um Portugal não dos três «efes», mas dos quatro. Ao Fado, Fátima e Futebol, ele junta o Folclore, representação encenada do povo que aguarda serenamente que o déspota lhe cuide da vida e, enquanto aguarda, pula e canta.

Luta entre António Ferro e Henrique Galvão

Até à criação do Rancho Folclórico de Monsanto, para o concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, Ferro teve de disputar o controlo do folclore com Henrique Galvão, que logo que tomou posse do cargo de director da Emissora Nacional, em 1935, montou sete espectáculos, muito pouco encenados, em Évora, Castelo Branco, Porto, Coimbra, Braga, Vila Real e Faro.

Os improvisos voluntaristas de Galvão irritavam sobremaneira Ferro, que se batia por um folclore reinventado, expurgado de tradições politicamente perigosas, totalmente alinhado e ao serviço do regime.

As duas concepções eram inconciliáveis:

– Galvão, na assunção do seu militarismo, respeitador do que está instituído, e politicamente mais ingénuo, queria puxar pelas tradições populares sem cuidar de as alterar, apostando nos valores identitários genuínos;

– Ferro queria espectáculo, encenação, representações perfeitas, corrigidas para agradar aos públicos burgueses da cidade e, sobretudo, aos estrangeiros.

O movimento de folclorização que instala ao serviço do regime tem estilo próprio e não se coaduna com espontaneidades.

Tudo do que ainda é atraso deve ser disfarçado, imputado ao passado e só evocado como sinal de outras eras, mesmo que esse suposto passado seja ainda o presente.

Galvão ainda promove o Cortejo Folclórico e Etnográfico de 1937, no Campo Grande, a Festa das Vindimas, no mesmo ano, e o Cortejo do Mundo Português, na grande exposição de Belém, mas acaba por ser derrotado.

As tradições são adulteradas

Para começar a pôr ordem na casa, Ferro ordena aos etnógrafos e folcloristas do SPN que avancem para os meios rurais e convençam as populações a darem a volta às tradições, a exemplo de Monsanto. Mas quem diz quais são as tradições é o SPN.

Para que a encenação surja perfeita, injectam nas populações uma imagem restaurada de si mesmas, levando-as depois a difundi-la como genuína.

A operação altera os costumes, ajustando-os a um país que não existe, extraindo hipotéticas tradições das confusas memórias dos anciãos.

E, aos poucos, vai-se tornando difícil distinguir o que é falso do que é verdadeiro.

A imparável corrente fertiliza o terreno de onde irrompem, como cogumelos, ranchos folclóricos, com a ajuda e o patrocínio das Casas do Povo, que recebem instruções precisas para o efeito da sua Junta Central.

A imagem do povo por eles transmitida é um excelente cartaz de promoção turística, levando os activistas locais do regime a promoverem em todo o País a criação de grupos de danças e cantares, a ponto de não haver comunidade rural que não queira ter o seu rancho, pronto a disputar notoriedade com a povoação vizinha.

O folclore promovido pelo SPN é basicamente falso2, inventado. Não só é despojado de todo e qualquer elemento que possa aludir a situações de pobreza, como cuida de não causar o mínimo incómodo aos poderes instalados.

A representação de rituais de trabalho, usos, costumes e religiosidade é corrigida, a fim de se tornar politicamente correcta, e não há inventariação musical séria, nem estudo etnográfico.

Ninguém se interessa por estudar, por exemplo, as mezinhas com que o povo abandonado pela civilização trata os males do corpo ou quais são os segredos ancestrais da gastronomia de subsistência.

Do ouro das minhotas às danças algarvias

Forjam-se, em vez disso, tradições, como a ostentação do ouro nas minhotas da Senhora da Agonia e nas varinas da Nazaré, sinais exteriores de uma riqueza inexistente.

É nesta onda que se põem as algarvias do corridinho a imitar as bailarinas do can-can, mandando vir de Paris as coullotes que lhes permitem rodar a saia sem exibir as coxas; e se institui no Rancho Tá-Mar da Nazaré o uso das sete saias que as mulheres nunca vestiram.

O Rancho Folclórico de Alte é obrigado pelo SPN a substituir os trajes originais do grupo por outros, pagos pela FNAT, mais ao estilo do teatro de revista, na véspera de uma deslocação a Madrid.3

Liderados por Francisco Lage, os homens do SPN percorrem o País, proibindo a utilização de peças de vestuário humildes, demasiado escuras ou excessivamente brancas, mandando costurar nas barras das saias das raparigas tiras de cores garridas.

Ferro recorre ao talento e à criatividade de Bernardo Marques para inventar o novo estilo, e é assim que surge a exuberância de cores do Rancho de Santa Marta de Portuzelo.

Impostos pela padronização estética dos homens do SPN, os coloridos trajes regionais dos ranchos folclóricos alteram a própria identidade regional

Forjam-se, deste modo, imagens estereotipadas do povo; fardando as minhotas com o traje de Viana do Castelo e calçando os ribatejanos com os sapatos de flamenco com que aparecem a dançar o fandango.

Mais importante do que a música, passa a ser a indumentária e as coreografias.

A longevidade da fraude é assegurada pela fixação dos conceitos adulterados no livro Vida e Arte do Povo Português, organizado por Francisco Lage, Luís Chaves e Paulo Ferreira, editado em 1940 pelo SPN, com prefácio, evidentemente, de António Ferro.

Notas

1 António Ferro no discurso de entrega do Galo de Prata

2 Há muito que a matriz do verdadeiro folclore tinha sido fixada, primeiro por Almeida Garrett, no Cancioneiro Geral de 1843; e depois por Alexandre Herculano, no Romanceiro de 1851. Mas tudo isso foi subvertido.

3 Cf. testemunho de José Cavaco Vieira ao jornal Folclore n.° 49, de Março de 2000.

Fonte: “António Ferro – O inventor do Salazarismo”, Orlando Raimundo (texto editado) | Imagem de destaque: “O grupo folclórico de Monsanto, a «aldeia mais portuguesa de Portugal», visitando a Câmara Municipal de Lisboa.” (“Ilustração”, nº316 – 1939)

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