As aldeias do fim do mundo…

Aldeia mais portuguesa de Portugal

O refluxo modernista de António Ferro atinge o seu clímax, destruindo o que ainda resta da sua imagem vanguardista da juventude, no concurso A Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, organizado em 1938.

A ideia é convencer os habitantes das urbes mais populosas das vantagens de viver como antigamente, exibindo aldeões felizes e contentes, que não trocam os seus hábitos e costumes pela confusão da vida moderna.

O apelo ao revivalismo, acolhido com entusiasmo nos meios rurais, é lançado através do SPN, que assinala desde logo os parâmetros mais valorizáveis: trajes regionais, danças e cantares, utensílios de trabalho e instrumentos musicais.

Os lugares onde já exista indústria ou prédios modernos são automaticamente eliminados.

Júris regionais de cinco elementos – integrando folcloristas, etnógrafos, musicólogos e representantes de museus e juntas provinciais – escolhem vinte candidatas:

– Vila Chã e Carrazedo de Bucos (no Minho),

– Alturas do Barroso e Lamas de Olo (Trás-os-Montes e Alto Douro),

– Almalagês e Colmeal (Douro Litoral),

– S. Julião de Cambra e Manhouce (Beira Alta),

– Paul e Monsanto (Beira Baixa),

– Aljubarrota e Oleiros (Estremadura),

– Azinhaga e Pego (Ribatejo),

– Senhora da Orada e S. Bartolomeu do Outeiro (Alto Alentejo),

– Peroguarda e Salvada (Baixo Alentejo)

– e Alte e Odeceixe (Algarve).

A pré-seleção das aldeias candidatas

Uma equipa chefiada por Francisco Lage, director de Etnografia do SPN, e pelo seu adjunto, Sales Viana, faz a pré-selecção, eliminando as localidades nas quais o entusiasmo é fraco ou os acessos difíceis e aquelas onde não existe rancho folclórico.

As primeiras a serem excluídas são as aldeias transmontanas de Alturas do Barroso e Lamas de Olo, pelo seu primitivismo politicamente indesejável, logo seguidas das representantes da Estremadura, de acessos complicados.

As doze que sobrevivem à triagem são convidadas a organizar festas, procissões e jogos tradicionais, para os jurados apreciarem.

Na peregrinação por essas terras, Lage e a sua equipa aconselham mudanças que chegam ao cúmulo de dispor de modo diferente do habitual os objectos no interior das casas.

Sujeitos às novas regras, os aldeões seleccionados escondem os sinais de pobreza extrema e o mobiliário rústico mais tosco.

A contrafacção passa por obrigar os ranchos a alterarem ritmos musicais e movimentos de dança e à selecção das peças de artesanato a exibir.

Os elementos do júri

Usando os poderes de presidente do júri, que a si próprio conferiu, António Ferro chama para o colectivo, de que já faz parte

– Francisco Lage,

– a mulher, Fernanda de Castro,

– os jornalistas Gustavo de Matos Sequeira e Augusto Pinto,

– o folclorista Armando Leça,

– os etnógrafos Luís Chaves e Cardoso Marta

– e o pintor Thomaz de Mello.

Juntos, iniciam as alegres excursões à descoberta das doze «maravilhas», seguidos por um pequeno batalhão de fotógrafos, técnicos de cinema e jornalistas, nacionais e estrangeiros.

Os cenários rurais, já alterados pelo SPN, conquistam aplausos generalizados.

Em Monsanto, os casais Ferro e Lage são convidados para serem padrinhos de um casamento e de um baptizado.

Monsanto foi a escolhida

Antes de ser declarada vencedora, Monsanto ainda aparece empatada com Paul e Carrazedo de Bucos, mas a sua vitória estava já negociada nos bastidores por Francisco Lage com as forças vivas do regime em Castelo Branco, a mando do director do SPN.

Anunciada a decisão, Ferro chama o Teatro do Povo a assentar arraiais na aldeia e dita o telegrama que vai ser enviado a Salazar em nome da população: «O povo de Monsanto da Beira, aldeia classificada a mais portuguesa, saúda em V. Exa. o grande amigo de todas as aldeias portuguesas.»

Justificando a escolha, o júri emite o parecer de que a aldeia de pedra granítica do concelho de Idanha-a-Nova, erguida a 700 metros de altitude na encosta de um cabeço antes ainda de haver Portugal, é a mais pura e característica localidade do País.

O «manto diáfano da fantasia» esconde crianças de pé descalço, que não vão à escola porque têm de trabalhar, adultos analfabetos e desdentados, fome e miséria.

Terminada a euforia, Lage e Sales Viana começam a encenar o espectáculo de consagração, contando com a ajuda dos professores primários e das meninas das famílias mais abastadas da aldeia.

Escolhem-se figurantes, designa-se um chefe para cada grupo e seleccionam-se as fatiotas e respectivos adereços.

Os encenadores, etnógrafos, pintores e fotógrafos do SPN ocupam-se de todos os pormenores. A festa conta com a participação da orquestra popular da Emissora Nacional e o sucesso é total.

Cumprindo ordens de Ferro, o pintor Carlos Botelho instala-se depois em Monsanto e aí capta cenas do quotidiano da aldeia, pintando a paisagem e o casario, hábitos e costumes.

Cumprindo ordens de Ferro, o pintor Carlos Botelho instala-se depois em Monsanto e aí capta cenas do quotidiano da aldeia, pintando a paisagem e o casario, hábitos e costumes.