ABC do Folclore – Manual de Iniciação

ABC do Folclore

Dizem-me que os jovens a partir da idade escolar estão a perder o interesse pelo Folclore, mesmo como espectadores.

É um facto, sendo uma situação que tem de ser revertida, o que passa necessariamente pela escola.

Concretamente não sei o que motiva tal desinteresse, mas penso que tudo mudará quando lhes for ensinado que o Folclore é a História dos nossos antepassados, quando as suas vivências ainda não estavam adulteradas por usos e costumes que nada tinham a ver com a sua maneira de ser e de estar.

No caso de Montargil, os componentes do nosso grupo “representam” as vivências da nossa gente aí pelos anos 20/30.

Claro que foi feita uma investigação etno-cultural, partindo do princípio que anteriormente as pessoas recebiam os “saberes” por via oral ou demonstração, fazendo depois como ouviam e viam fazer.

Mas, nem sempre ao mesmo tempo, mas ao ritmo do progresso que começou a impor-se, absorvendo as vivências locais, mas é antes que isso aconteça que o folclore se fixa, não mais e evoluindo pois deixaram de haver condições.

Como compreenderão, é o investigador que vai ver onde essa fixação deve ser considerada.

Características

Certo que há muito que especificar em relação ao que aqui foi dito, o que iremos fazendo em posteriores pequenos textos, para não lançar a confusão. Digamos no entanto, e para já, que para ser “tradicional” um produto tem que ser em simultâneo:

1.- Popular: ser do gosto do povo… – ser da sua predileção.

2.- O anonimato: claro que tudo teve um autor. Por exemplo, uma “música” foi feita por alguém, mas tocador após tocador, fazendo-o de “ouvido”, pois não tinha qualquer registo, com as alterações que involuntariamente foram sendo introduzidas, acabou por ser “despersonalizada”. E como na música, assim era em todos os outros factos.

3.- Tradicional: ter passado de geração em geração por via oral e imitação. Fazia-se como se ouvia e via fazer.

4.- Ser universal: pertencer a uma comunidade cultural significativa e não apenas a uma família ou pessoa, impondo-se como marca local.

Acrescentemos apenas que, já em 1878, o Folclore era reconhecido internacionalmente como “saber tradicional, história não contada de um povo”, primeiro para se referir às tradições, costumes e superstições das classes populares; posteriormente, para designar toda a cultura nascida principalmente nessas classes.

Lino Mendes

Imagem: “Costumes Portuguezes: Na volta do trabalho” (Cliché do sr. Miguel Monteiro, de Vila Real) – “Ilustração Portuguesa” – II Série, nº688 – 28 de Abril de 1919