A navalha de Ockham e o Folclore Português

A navalha de Ockham

O inglês Guilherme (William) de Ockham nasceu no século XIII e ficou na história da humanidade como um dos grandes pensadores universais.

Este monge franciscano criou as bases da escola filosófica que prevaleceu durante alguns séculos, conhecida como Empirismo e que ditou o fim da era medieval das trevas, das pestes e do misticismo temeroso, servindo de alicerce a todo o pensamento e criação renascentistas.

A ele se deve, ainda, o conceito da “navalha de Ockham“, pelo qual se estabelece que não deveremos multiplicar entidades para além do necessário e que a natureza e a vida dos povos é, em si mesma, simples e não se multiplica em vão.

Este conceito filosófico proporciona o seguinte efeito prático: uma solução simples pertence a um nível superior, apenas possível numa combinação conveniente de experiência, competência e conhecimento.

As estátuas criadas por Miguel Ângelo ou Soares dos Reis desde sempre existiram dentro dos seus blocos de pedra. O trabalho destes artistas foi retirar os pedaços de pedra que estavam a mais e tapavam a contemplação da Pietá ou do Desterrado.

Os seus processos foram os da simplificação, que é uma capacidade das pessoas experientes e raramente uma competência das pessoas apenas sabedoras.

“A cultura tradicional portuguesa está dentro de cada grupo de folclore”

Pode dizer-se, também, que a cultura tradicional portuguesa está dentro de cada grupo de folclore, não se vendo muitas vezes devido ao excesso do que está a mais: os foles cheios de teclas, os recos e as pandeiretas nas tocatas, as rendas e os folhos nos trajos, a exposição de ouro, as cores berrantes, as cabeças descobertas, a gritaria das cantadeiras, os rodopios, os pulos e a batidela de pés, as danças “alindadas”e os andamentos infernais, as fitas e os estandartes, os desfiles, as voltas no palco, o vira de entrada e a moda de saída, as velhas encenações em formatura de linha ou de círculo, os dançarinos mudos, os chapéus de palha à cowboy, as saias pelo meio das canelas, as pontas das cintas caídas, as borlas nas fitas do chapéu ou chapéus de aba curtinha ao estilo dos palhacinhos.

E, sobretudo, a dança, a dança e a dança, que não realçam o canto e diminuem o folclore do povo português que possui muitas outras formas de expressão.

O nosso inglês William, nascido na vila de Ockham, era um livre-pensador, coisa rara na época dos escolásticos e do poder temporal do papado.

Ao lançar as bases do empirismo, desmontou a arrogância e o pedantismo dos pensadores oficiais da igreja, deslumbrados com os seus domínios e rendidos aos excessos temporais e materialistas.

Foi perseguido e acusado de herege, ao defender que apenas a experiência permite conhecer a causa ou o fundamento das coisas. Esta base do empirismo deveria ser aplicada por todos os folcloristas.

Nota para os folcloristas portugueses

Naturalmente, o frade de Ockham demonstrou que a infalibilidade do papa era também uma treta, forjada pelos humanos sem qualquer razão divina; foi excomungado e se não fosse o refúgio na corte de Munique do imperador do Sacro Império Romano Germânico, que andava aborrecido como papa, não teria escapado à fogueira.

A procura da verdade ocupa a humanidade ao longo de milénios, em particular os seus melhores pensadores. Este percurso perturbado por questões de fé, de crendice, de fanatismo e do falso conhecimento, também chamado de ignorância.

Mas, ao longo destes milénios, poucos deram um contributo tão válido como o frade inventor da “navalha de Ockham“, apesar do obscurantismo da Idade Média e da intolerância face ao pensamento não oficial.

Os folcloristas portugueses, nesta fase de aperfeiçoamento, mudança e melhoria da representatividade, deverão notar que “…existindo diversas soluções ou teorias e não havendo evidências que comprovem se é mais verdadeira alguma em relação a outras, vale a mais simples, ou se existirem dois caminhos que levem ao mesmo resultado, usa-se o mais curto, e que pode ser provado sensorialmente ou através de factos”.

Neste processo de simplificação, a criatividade é indispensável, pois permite vencer o fanatismo, a crendice ou a imobilidade presa às velhas encenações do estado novo salazarista, adoptadas nos últimos trinta anos como tradição portuguesa, fixando-se como clichés, quando deveriam ser apenas as marcas efémeras de um regime autocrático e elitista.

Fonte: “Dignificar o Folclore”, Manuel Farias (edição e subtítulos da responsabilidade da Equipa do Portal do Folclore Português)

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Guilherme de Occam ou Ockham (c. 1285 – c. 1349)

Foi um monge franciscano, teólogo e filósofo inglês, estudou em Oxford, tendo mais tarde vindo a ensinar na mesma Universidade.

Foi o fundador do nominalismo filosófico da Idade Média tardia e antecipou os princípios da teoria empirista do conhecimento. Também escreveu abundantemente sobre lógica e política.

Por ter defendido a ideia de que a livre predestinação divina abstraia dos méritos humanos, foi acusado de heresia em 1324 e convidado a apresentar se na corte pontifícia de Avinhão, tendo sido excomungado em 1328.

Em vez disto, e depois de ter apoiado os Franciscanos na questão da pobreza monástica, a que o papa se opunha, refugiou-se na Baviera e, aí, a partir do palácio de Luís, exigiu numa série de escritos polémicos uma separação mais nítida entre a lqreja e o Estado, assim como um tribunal especial de Estado para julgar as intromissões pontifícias nos assuntos temporais.

Ockham é recordado pelo princípio filosófico conhecido como «Lâmina de Ockham» (ou «Navalha de Ockham»), que diz que a explicação mais simples é a melhor; nas suas palavras, «a abundância não deve ser usada sem necessidade».

Fonte: Dicionário Ilustrado do Conhecimento Essencial e História Universal Comparada – VI