A música tradicional portuguesa – pioneiros das recolhas (III)

A música tradicional portuguesa – pioneiros das recolhas (III)

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Trás-os-Montes

Ao longo da primeira metade do século XX, mais precisamente até finais da década de 50, assistiremos em Portugal a um incremento significativo no que concerne à publicação de recolhas de música tradicional, convenientemente ordenadas segundo zonas circunscritas do País, o que nos permite, seguidamente, organizar a nossa exposição de acordo com esse mesmo critério.

Trás-os-Montes, que já colhera a atenção de Kurt Schindler, Serrano Baptista e mesmo Rodney Gallop, continuará a fornecer matéria-prima a outros investigadores: o P. Firmino Martins publica o primeiro e segundo volumes do seu Folclore do Concelho de Vinhais em 1928 e 1938, respectivamente, e Virgílio Pereira, os Corais Mirandeses em 1959.

Margot Dias, consorciada com o antropólogo Jorge Dias, cujas monografias Vilarinho da Furna – Uma Aldeia Comunitária (1948) e Rio de Onor – Comunitarismo Agro-Pastoril (1953) se tornariam obras de referência da etnografia portuguesa, colabora em ambas, organizando as colectâneas musicais relativas às localidades em estudo.

Mais recentemente – e como que a atestar que a capacidade de sobrevivência da herança musical do povo português é maior do que nos achamos predispostos a supor, a etnomusicóloga francesa Anne Cauffriez, que também levou a cabo trabalho de campo na ilha de Porto Santo, logrou colher ainda, em Trás-os-Montes, matéria-prima para dois volumes recentemente editados em França.

Douro Litoral

No âmbito do Douro Litoral, o Cancioneiro de Monte Córdova, da responsabilidade de Alexandre de Lima Carneiro, vem a lume em 1958.

Virgílio Pereira, que acabamos de referir pela sua incursão em terras mirandesas, ficará ligado sobretudo ao estudo do património desta província: em 1950 publica, de parceria com Rebelo Bonito, o Cancioneiro de Cinfães, em 1957, o Cancioneiro de Resende e, em 1959, o Cancioneiro de Arouca.

Com Corais Geresianos, publicados em 1957, o labor de Virgílio Pereira estende-se ao Minho, região que, como dissemos, encontrara o seu pioneiro em Gonçalo Sampaio.

Devem Virgílio Pereira e Rebelo Bonito ser considerados dois dos mais esforçados paladinos da causa da música tradicional portuguesa. Ao primeiro, além da colaboração nas recolhas referidas, ficamos devendo reflexão consubstanciada em artigos dispersos por publicações periódicas várias.

Beira Alta e Beira Baixa

Para a Beira Alta, recenseamos, de Jaime Ferreira Pinto, Alegrias Populares – Cancioneiro Folclórico do Concelho de Seia, e para a Beira Baixa, depois do livro já referido de Serrano Baptista, Cantares de Malpica, de Diogo Correia, e Etnografia da Beira, de Jaime Lopes Dias, além dos artigos publicados na revista Ocidente (n.os 7 a 11, 1938/1939) por António Joyce, a partir de recolhas efectuadas em Paul e Monsanto.

Alentejo

Sem detrimento de contributos mais recentes, como o de João Ranita da Nazaré e o de um pioneiro como Dias Nunes, a quem já aludimos, ao património musical alentejano ficou ligado o nome de um investigador que lhe consagrou grande parte do labor de uma vida: o P. António Alfaiate Marvão. Corais Majestosos, Coreográficos e Religiosos do Baixo Alentejo surge em 1955, reunindo textos antes publicados avulsamente, dos quais alguns remontam à década de 20.

Seguir-se-ão O Alentejo Canta (1956), O Folclore Musical do Baixo Alentejo nos Ciclos Litúrgicos da Igreja (1965), Fisionomia do Cante Alentejano (1970) e O Cante Alentejano (1995).

Mais do que pelo estudo e propostas interpretativas que contém, é sobretudo pela fixação do canto tradicional alentejano que devemos reter a obra de António Marvão.

Madeira

A Madeira e os Açores não ficaram de fora deste movimento que, graças a alguns investigadores locais, mais ou menos preparados para as funções que se propuseram, elegeram a região natal como espaço das suas pesquisas.

Para o primeiro arquipélago, por onde, como referimos, estanciara no século XIX Platão de Vaksel, deve citar-se primeiro o contributo do folclorista local Carlos M. Santos, que em 1937 publica Tocares e Cantares da Ilha e, em 1942, Trovas e Bailados da Ilha.

Obras de índole geral como o Elucidário Madeirense, do P. Fernando Azevedo da Silva, Ilhas de Zargo, do P. Eduardo C. N. Pereira (1939), e Ilha da Madeira – Folclore Madeirense, de Eduardo Antonino Pestana (1965), ou ainda alguns escritos do visconde de Porto da Cruz serão também consultados com proveito, na busca de informação sobre o património musical do povo madeirense.

Mais recentemente, António Aragão e Artur Andrade levaram a cabo, em muitas localidades da Madeira, recolhas fonográficas hoje disponíveis em disco.

Açores

Quanto ao arquipélago açoriano, as propostas de recolha e estudo da sua música tradicional remontam pelo menos ao início da década de 20, como dissemos, sem que possa afirmar-se que até hoje, de modo exaustivo, tenham sido efectivadas.

Circunscritos a uma ilha ou a grupos de ilhas, alguns contributos não deixaram de verificar-se.

Além dos textos devidos ao etnógrafo e músico amador Luís Ribeiro, aduzimos Cantares Açorianos do P. José Luís de Fraga, e Bailhos, Rodas e Cantorias, de Júlio Andrade (1960), antes das recolhas fonográficas de Artur Santos, a que adiante, noutro contexto, aludiremos, e dos estudos do autor destas linhas.

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Fonte: “O essencial sobre a Música Tradicional Portuguesa”, José Bettencourt da Câmara (texto editado e adaptado) | Imagem: “O Rancho Alegre Mocidade da Baixa, de que é ensaiador o sr. Pedro Aníbal Borges, e que muito se tem distinguido nos arredores de Coimbra. – Cliché do distinto fotógrafo amador sr. Lourenço Ascencio.” («Ilustração Portuguesa» nº392 – 25 de Agosto de 1913)