A Mulher Estremenha | Trajes regionais de Portugal

A Mulher Estremenha

As divisões administrativas raro obedecem ao constitucionalismo regional, quer no aspecto externo, quer no ponto de vista interno ou etnográfico.

Se nos referirmos concretamente à Estremadura, observamos caracteres próprios e caracteres que o não são:

– ao Norte poderá ver-se uma confusão não estranhável com a Beira-Marítima [Beira Litoral];

– a Nordeste, pelo Zêzere, uma sobreposição de estremenho ao beirão da Beira Baixa;

– a Este, o Ribatejo prolonga-se para a margem esquerda do Tejo, mas não tão além como devera de ser;

– para Sul, está incluída na Estremadura Transtagana, hoje incluída no distrito de Setúbal, a vasta região meridional, que só administrativamente continua o Ribatejo esquerdenho.

De onde se conclui, para o apontamento do traje, agora em vista, que a estremadura característica abrange estes três tipos, ao mesmo tempo etnográficos e panorâmicos, isto é, interna e externamente considerados:

– a região plana do Norte, a ligar-se pela costa com a Beira-Marítima [Beira Litoral], de Pombal para baixo, em torno de Leiria e Alcobaça – a Gândara;

– o vale do Baixo-tejo, nas planas baixas e inundáveis, a um e outro lado do rio – o Ribatejo;

– e as circundezas de Lisboa, nestes territórios tectónicas de formação movimentada, que teriam de ser chamadas a constituir a terra dos saloios.

No traje, que define objectivamente a mulher, a Estremadura reparte-se nos tipos correspondentes às três regiões:

– a gandareira,

– a ribatejana, a que poderíamos chamar «campina», por paralelismo com a designação da facies masculina de indumenta,

– e a saloia.

Invoco dois depoimentos da gandareira, um estrangeiro, outro nacional:

Lisboa, Caldas da Rainha e Alcobaça

1º – M.me Rattazzi foi de Lisboa às Caldas, a Alcobaça, etc. – via ordinária, evidentemente.

Depois de se referir a que «a vida rústica exerce-se ao ar livre», menciona a impressão que as mulheres lhe deixaram: – aldeãs com cestos à cabeça, com bilhas de leite nos braços, fazendo meia e parando para dar os bons dias aos compadres… [Portugal de Relance, tradução portuguesa do livro Le Portugal à vol d’oiseau, – vol. II, pág. 116].

E logo adiante em Alcobaça: «aldeãs de pele queimada e grandes olhos negros caminhavam alegremente».

Em Leiria

2º – Eça de Queiroz descreve a praça de Leiria, às horas da missa, em O Crime do Padre Amaro (8ª ed., pág. 316): – «as mulheres, aos pares, com uma fortuna de grilhões e de corações d’ouro sobre os peitos pejados».

O mercado de Leiria ao Domingo é um museu.

Guardadas ao proporções, a gandareira é a minhota do Sul, no pitoresco e colorido como nos tecidos do trajo.

Serguilhas nas saias rodadas, azuis com barras; corpinhos variegados em que vibra um veludinho de pintura flamenga, e faz ver nas mulheres umas figurinhas escapas de uma qualquer tábua de Nuno Gonçalves ou Frei Carlos; um chapelinho de forma de pudim, na cabeça; a saia escura, mesmo negra, que serve de capa, ou para o frio ou para cerimónia, como na igreja, ou de visita; chinelas biqueiras nos pés, – aí está o traje mais curioso da Estremadura.

Mulher viva, de uma actividade urgente na região rica…

No Ribatejo

No Ribatejo, o pitoresco do traje é superior no homem, que Fialho de Almeida assim descreve em Os Gatos: – «calção azul e sapatos de espora, e barrete verde ou rubro, plantado esculturalmente numa sela mourisca, com seu xairel de pele de cabra.» (4ª ed., vol. IV, pág. 140).

A mulher é ao par dele uma nota fresca, de cor simples: panos de loja, que na pujança agrícola não há labor de tecelagens, e está-se mais cerca da moda de Lisboa, de onde se repartem os figurinos e as cantigas; cores leves; ventalotes curtos, lençaria traçada ao peito, saiotes de uma cor, saias claras.

A saloia

A saloia teve o seu quindim de indumentário.

É vê-la nas aguarelas luminosas de Roque Gameiro e de Alberto Sousa, com o seu barrete vistoso em bico [na imagem], hoje apenas com similar no carapuço da Madeira.

Hoje é talvez a mais marafona das mulheres de Portugal: camisete clara, solta; saia rodada curta, a mostrar os pés dentro de grossas e altas botifarras de atanado; lenço de preferência claro, caído, a meter-lhes a cabeça num capuz sem capa.

Olhando-nos desconfiada, ela aí passa nas ruas de Lisboa, de trouxa de roupa à cabeça, ou a vender broas de pão-milho, laranja da China, tremoço saloio e outras mercancias.

E quem quiser ilustração para o conto, não há como folhear o ensaio bibliográfico dos Costumes Portugueses, editado pelo meu amigo ilustre, que é o académico sr. Henrique de Campos Ferreira Lima; folhear e escolher.

Luís Chaves

In “Alma Nova” – V séria – nº 13 – Maio de 1929 (texto editado e adaptado) | Imagem: “A volta do mercado” – Roque Gameiro, in «Ilustração Portugueza», nº624 – 4 de Fevereiro de 1918