A fiandeira do Minho | Usos, costumes e tradições

A fiandeira do Minho | Usos, costumes e tradições

A fiandeira do Minho

“Fiar, para muita gente, é matar o seu tempo.

Mas esta lida da roca, para a lavradeira minhota, constitui uma prenda de mãos, que em criança se aprende e de algum modo contribui para o «amanho da sua vida».

Meninas prendadas, a quem tudo apetece por curiosidade, e a quem, geralmente, mingua para o trabalho rude certa habilidade instintiva (que outra não é a habilidade da camponesa), porque as velhas dos contos de fadas usavam do rolo da estopa, do fuso corredor, e possuíam certo escaninho de massarocas, constitui o fio mais uma prenda da sua graça.

Porém, ver fiar nas pequenas ou grandes cidades, quer por prenda quer por precisão, para encontrar a ingénua maneira original da gente aldeã, é procurar um pinto em oiro entre as areias duma praia infinita.

Em verdade, só a camponesa sabe fiar; tem graça, fiando.

Só a camponesa, e a Fiandeira do pintor Malhoa, que, independentemente, é uma obra de arte.

O que a camponesa do Minho sabia fazer

Essa, sim. Essa sabe apertar a linhagem no cingidoiro de carneira bezerra, sabe ajustar na cinta a cana amarela da sua roca, e aporfia no redopio do fuso, beijando, adoçando nos lábios puídos dos beijos, à sua dúzia de netos, a melhoria do seu linhal. (…)

Tudo se apaga, porém: as gerações passam, os usos mudam continuamente; e o que em tempos foi mister de gente idosa, é hoje tarefa de rapariga.

Boa camponesa, afadigada no seu trabalho e no asseio da vida urbana, chama-se-lhe, por uso, mulher de casa.

Sabe cavar nas terras de renda, segar no lameiro, sachar no milheiral, e ajuda a toda a espécie de trabalho agrícola.

Dentro de casa sabe dos arranjos da cozinha, com um paladar inexcedível; se tiver sido criada de abade, tanto melhor; e além d’isso tem as suas prendas de costureira, de fiandeira, de engomadeira, da feitoria das rendas e meotes, (…)

Tudo tem suas penas de cultura: as ideias, as criaturas, os troncos, – tudo o que vive.

As fases do trabalho do linho: começa por ser semeado…

E esta odisseia do linho tem seus tormentos.

De chapelão viseiro, aos punhados de semente, lança o lavrador o gérmen da sua colheita humilde.

E recolhe, pelos inícios do verão, aquele chãozinho de ervas secas, que mais tarde há-de vestir e estimar.

Foi tempo, foi. Outrora a colheita do linho era singular de fartura, porque se tornava útil.

Hoje, não. Chegaram os panos do fabrico a vapor, menos consistentes, sem dúvida, mas, mais económicos para utilizar.

E aí temos nós a entrarem para o arranjo da casa portuguesa do norte (a casa mais conservadora) panos crus, panos domésticos, panos família, que os vapores ingleses e espanhóis descarregam nos portos de Leixões e Lisboa. (…)

Como dizia, o linho colhe-se nos inícios do verão, já amarelo, num trabalho agrícola a que chamam arrinca.

Aqui a primeira etapa deste ervívero afilado, que dá canseiras interessantes.

Depois, a alvagem: o linho amolhado e preso, que é posto no fundo desses rios verdes, de margens em vinha ou pinheiral, comprimido por grandes rebos.

Dura alguns dias a limpeza do terão. A cantiga o confirma:

Há oito dias que espero,
e choro desde o primeiro;
tens-me presa, meu amor,
como ao linho num ribeiro…

E logo, limpa da terra, a farrapada do linho, rala e húmida, é estendida sobre os campos rasos da colheita, a enxaguar à grande vida do sol.

Quando se colhe um linhal, por minguado que ele seja, grande número de gente aflui à casa do lavrador.

Cardar, espadelar, assedar… até costurar!

Ele é preciso cardá-lo, espadelá-lo, crivá-lo, assedá-lo; até que, em pasta, se veste a roca, e os dedos se aporfiam em correr.

Depois da seca começa o grande afazer das espadeladas, tantas vezes à luz mortiça das candeias de ferro.

E como nas noites de pisa do lagar, tangem-se cordas de arame pelas casas da vizinhança, junto à espadela da namorada. (…)

Depois, é fiá-lo, corá-lo, lançá-lo à teia-

E uma vez riqueza da arca, a costureira faz o resto: as camisas do uso, das saias de baixo, (multiplicadas no dia de romagem), e os lençóis com renda de agulha – Deus sabe se para o leito dos noivos, se para cobrir o rosto branco dos morto…

Contei-lhes tudo isso para explicar, levemente, essa odisseia curiosa do linho.

 

Encontros com a camponesa do Minho

No entanto, pelas estradas do Minho, no tejadilho da mala posta regional, espécie de torre de babel (como escreveu um grande artista), ou nos lugares cheios de comodidade das carruagens de luxo, dum modo qualquer, será fácil surpreender, apascentando o gado ou sentada entre os panelos de cravos da sua escada rústica, esta fiandeira do norte, modelo das mulheres afadigadas, posta na vida para o trabalho contínuo, e sempre senhora do melhor riso e da melhor graça.

Onde quer que a encontrem, fresca, limpa, virtuosa, quer no desenho da saia trabalhada, quer no alisado dos cabelos sedosos, quer, ainda, na novidade do seu mister, onde encontrar-lhe esse modo de ser tão enleado e tão natural, pelo qual ela é, no quadro da sua paisagem, um elemento de óptima e engraçada decoração.

E isto porque se há terra rica em Portugal, mas onde cada canto seja duma família, é o Minho – produtora fábrica de gente económica, trabalhadora, paciente, para a qual a vida, do nascer ao pôr-do-sol, é causa de tarefas contínuas e de suores contínuos.

Foi por este motivo que principiei afirmando que o fiado, como todo o trabalho da camponesa do Minho, por mais pitoresco, por mais divertido, era sempre um género de contribuição para o arranjo urbano.”

Alfredo Guimarães

in “Serões”, nº46 – 1909 (texto editado e adaptado)