A apanha da azeitona | Actividades agrícolas

A apanha da azeitona | Actividades agrícolas

A apanha da azeitona

Nos dias de morna suavidade que ora vão correndo, é um verdadeiro encanto ir de longada até aos nossos campos, onde, pelo entardecer, o sol se difunde em ténues polvilhos de ouro, para se conhecer de visu a faina alegre e interessante da apanha da azeitona, prestes a atingir o seu termo.

Pelos extensos olivais que o outono envolve numa carícia invejável, ranchos de formosas camponesas recolhem com afã, ao som das nostálgicas canções do seu torrão natal, aquele belo produto da Natureza, que tempos depois vemos transformado em finíssimo azeite, nas montras dos nossos armazéns de víveres.

Homens e mulheres, vendo-se-lhes estampada no semblante a alegria própria das almas rústicas e boas, lá vão trabalhando de sol a sol com um desprendimento que encanta, até ao dia em que, terminados os trabalhos, o patrão lhes proporcione os folguedos da respetiva adiafa.

É uma faina curiosíssima a chamada safra da azeitona, que, como quase todos os labores agrícolas, tem para mim uma feição espiritual, um não sei quê de enternecedor, por não representar apenas um meio, mais ou menos trabalhoso, de encher os cofres ao lavrador.

De Arabela até hoje, por quantas transformações não tem passado a oliveira e o seu produto imediato: o azeite!

Neste estreito Portugal, foi sempre a região do sul a mais importante na produção oleica, bastando, certamente, para o atestar os belos e extensos olivais da quinta da Alorna, da condessa da Junqueira, os imensos pargais da Golegã e Chamusca, e, entre muitos outros que bordam o vale do Tejo, os da Labruja, do marquês de Castelo Melhor, os da Póvoa, etc.

Passando ao sul, é bem conhecido o grande olival do rico lavrador José Maria dos Santos, em Moura, o de Altas Moras e outros.

Na região de Vila Franca, propriamente dita, são notáveis os olivais do sr. Palha Blanco e a extensa linha de oliveiras que ornamenta os diques defensores das lezírias, e que são propriedade da Companhia das Lezírias do Tejo e Sado.

Na charneca do lnfantado, além Sorraia, procura atualmente a mesma Companhia valorizar uma extensa gleba com a área de 2.000 hectares, plantando-a de escolhidas variedades de oliveira, que, depois de completa, comportará 200.000 pés.

Será este o maior olival do mundo, de que Portugal se poderá orgulhar, como já se orgulha de possuir a primeira vinha, a do Poceirão, que tem sido objeto de entusiásticas apreciações de nacionais e de estrangeiros.

Está, como já disse, prestes a concluir entre nós a safra da preciosa azeitona, da qual, precisamente um terço, tem sido enviada para a praça.

A restante é aqui transformada em finíssimo óleo que pena é não ser trabalhado em aperfeiçoados lagares e pelo moderníssimo sistema Acapulco.

Formas de reprodução da oliveira e castas

São variadas as formas que nesta região se empregam para a reprodução da oliveira, e que vão desde o condenado processo da tanchoeira até ao emprego da pequena estaca criada em vaso com escala pela sementeira, que se faz ainda por duas formas diversas: quebrando o caroço, ou empregando-o inteiro, sendo no último caso mais morosa a germinação.

Muito proprietários importam hoje, em grande quantidade, as plantas de Itália, preferindo a maior parte reproduzir por estaca ou enxertia, as nossas conhecidas castas Cordovil, Bical e Galega.

Sabendo-se que o nosso país, pelas suas ótimas condições climatéricas, se poderia transformar – desculpem o devaneio – num extensíssimo olival, não é de estranhar que em princípios de 1908 se calculasse a área de olivais, no continente, em 329.155 hectares.

O distrito que mais concorria para este número era o de Santarém, que tinha então 75.142 hectares destinados à cultura da oliveira, e, logo a seguir, os de Leiria e Castelo Branco, que possuíam olivais, respetivamente, numa área de 35.240 e 33.968 hectares.

Não possuo elementos que me possam indicar a área que representarão atualmente todos os olivais de Portugal.

É de crer, no entanto, que ela tenha aumentado consideravelmente nos últimos cinco anos, marchando ainda na vanguarda o distrito de Santarém, que muito deve ter aproveitado com as plantações da Companhia das Lezírias.

Daí, a prolongação do aforismo correr Seca e Meca e olivais de Santarém

Na região ribatejana vai-se pondo de parte o retrógrado sistema do varejo para se apanhar a azeitona, por destruir, geralmente, uma grande parte da colheita seguinte.

Muitos proprietários mandam agora ripar as suas árvores por grupos de raparigas que trepam às oliveiras para apanhar o precioso fruto nos próprios ramos onde se forma.

Sendo Portugal um país agrícola mas onde, na opinião de muitos entendidos, pouco se cuida dos interesses agrícolas, é para lamentar que a cultura da oliveira se não tenha desenvolvido mais, para não sofrermos carestias de azeite como a do ano passado, em que este género de primeira necessidade chegou a atingir um preço verdadeiramente fabuloso.

Se um hectare comporta geralmente 100 pés de oliveira, e se cada uma destas árvores pode produzir, em média, 10 quilogramas de azeitona, calcule-se a riqueza que Portugal podia ter anualmente na produção dos seus olivais!…

Quando fruirá o nosso país a parcela de felicidade a que tem direito, pela doçura do seu clima, pela fertilidade da sua terra?

Vila Franca, novembro de 1912.

F. dos Reis Sousa

Ramo da paz, ramo da abundância

 

À volta da apanha da azeitona

 

O rabisco

 

As varejadoras depois do trabalho

 

A azeitona caída

 

Escolhendo a azeitona para a praça

 

Uma oliveira carregada: sobre os ramos a mulher colhendo os frutos

 

O negociante sr. José Salgado, pedindo notícias do seu rancho

 

Outra varejadora

In “Ilustração Portuguesa”, nº 354 – 1912 | (Clichés do dr. J. Coutinho, de Vila Franca de Xira)