Fandango | danças do povo português

Fandango

No ponto de vista musical o Fandango é semelhante ao vira, porém, baila-se de diferente maneira; de resto, o actual vira é o antigo fandango agora dançado em cruz.

Dança que nos veio de Espanha, o Fandango enraizou-se em Portugal, onde é bailado em quase todo o país desde há muito.

O Prof. Armando Leça, que tem estudado com particular atenção as canções e as danças populares portuguesas, dá o Fandango como dança que ainda hoje se baila no Douro Litoral, no Minho, em Trás-os-Montes (terras mirandesas), na Beira Litoral, na Beira Alta, na Beira Baixa, na Estremadura, no Alentejo e no Algarve.

Contudo, as regiões onde o Fandango é mais bailado e goza de maior preferência do povo é no Ribatejo, nas raias minhota e da Beira Baixa (Castelo Rodrigo e Idanha-a-Nova) e nas terras interiores da Beira Litoral (Pombal, Ancião, Figueiró dos Vinhos, etc.).

Velha dança espanhola, o Fandango é, também, uma dança portuguesa muito antiga.

Bocage refere-se a ele, e o escritor inglês Twirs, que visitou o nosso país em 1772, diz que viu o Fandango dançado em Portugal com grande galanteria e muita expressão.

Gil Vicente usa, às vezes, o termo esfandangado.

É o fandango uma dança de agilidade e sapateado, uma espécie de torneio no qual o homem pretende atrair as atenções femininas, salientando-se na presteza e plasticidade dos seus movimentos, transformando os pés em bilros.

Cada fandango é uma história de amor

Cada Fandango é, assim, uma história de amor na qual a mulher começa por aceitar o convite que o homem lhe dirige para bailar; este convite não é senão um colóquio em que os passos prolongam a força das palavras.

A mulher, cortejada, foge na esperança de ser perseguida; na ânsia de a conquistar, o homem vai atrás dela, até que ela, vencida pelo cansaço ou desejosa de encarar o perseguidor, suspende o jogo e se volta para ele.

De quando em quando, tanto o homem como a mulher, fingem-se amuados, pelo que se viram de costas um para o outro.

Os passos do Fandango são intercalados por voltas apertadas, ombro com ombro e largas — são as voltas de fuga em que a mulher se escapa e o homem procura apanhá-la, as voltas do cerco em que o homem impede a fuga da mulher, dançando em sentido contrário ao da companheira, aparecendo-lhe ao caminho no intuito de a obrigar a mudar de atitude.

O Fandango, como se vê nesta descrição, é a mais galante de todas as danças populares portuguesas e aquela que melhor exprime o sentimento amoroso do nosso povo.

De norte a sul de Portugal

No Ribatejo, na Beira Litoral e nas terras raianas do Minho e da Beira Baixa, bem como em algumas regiões do Alentejo e da fronteira algarvia é onde melhor se baila o Fandango.

No Ribatejo bailam-no ao som de harmónica (gaita de beiços) ou harmónio (gaita de foles); já, contudo, em Ferreira do Zêzere, na Serra de Tomar, em Mação e em Borba o bailam ao som de guitarra.

Nas terras mirandesas (Trás-os-Montes) bailam-no em roda.

Há uma dança que é uma miscelânea de Vira e Fandango: o vira afandangado. O verdadeiro vira afandangado parece ser o do Ribatejo, onde, muitas vezes, o bailam em cima de mesas.

O vira afandangado do Minho – vira galego – é de feição vocal e baila-se aos pares, de roda.

O fandango foi levado para o Brasil

A voga do Fandango entre os portugueses está de tal maneira arreigada no seu gosto que o levaram para o Brasil.

Nos estados do nordeste brasileiro baila-se o Fandango; porém, nessas regiões, não lhe dão tal nome mas sim outros nomes que bem denotam que foram os portugueses que para lá levaram essa dança: «bailado dos marujos», «dança dos marujos», «marujada» «chegança dos marujos» ou «barca».

No Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul (terras do Brasil) a palavra «fandango» quer dizer «festa», «baile» ou, simplesmente, reunião onde se dança.

Maneira de dançar o fandango

Como já se disse, há terras (principalmente no Ribatejo) onde o Fandango se baila em cima de mesas.

Na Beira Baixa (Sernancelhe) baila-no tanto «agarrado» como «desapegado», com acompanhamento de harmónica, bombo e ferrinhos e aos grupos de 2, 4, 6 e 8 pares.

No Alentejo (Vila Verde de Ficalho) bailam-no com gaita-de-foles, pífaro e castanholas.

No Algarve (Alte) com guitarra, pífaro, castanholas e, às vezes, com bandolim.

O Fandango dança-se, sempre, a três tempos.

Posição inicial

Os pares colocam-se, frente a frente, em linha recta.

1.º passo

O pé esquerdo avança para a direita e coloca-se em frente do pé direito, o qual bate no chão imediatamente mas sem se desviar; logo em seguida, o pé esquerdo volta a ocupar a primeira posição.

2.º passo

O pé direito avança para a esquerda e coloca-se em frente do pé esquerdo que, por seu turno, bate no chão sem se desviar, indo o pé direito para a direita a fim de regressar à primeira forma.

3.º passo

Os pares desviam-se em movimento contrário e cruzam-se, sempre com passos saltadinhos.

Partitura

Fonte: “Danças do Povo Português”, Tomaz Ribas (texto editado e adaptado)

O Vira | danças do povo português

Vira

O Vira é uma das mais antigas danças populares portuguesas; dele já o poeta e dramaturgo Gil Vicente, escritor do séc. XVI e fundador do teatro português, nos fala na sua peça Nau d’Amores, dando-o como uma dança do Minho.

Com efeito, o Vira é uma dança de tradição minhota embora se baile, de maneira diferente, também na Nazaré e no Ribatejo e, hoje, se baile à maneira minhota em quase todo o país.

O Vira é, de uma maneira geral, a dança popular portuguesa mais característica e popularizada.

Há inúmeras variantes tanto musicais como na maneira de o bailar: vira de roda, vira estrepassado, vira roubado, vira afandangado, vira valseado, vira-flor, vira de trempe, vira galego, vira ao desafio, vira poveiro (da Póvoa do Varzim), etc.

No ponto de vista musical, o Vira pode ser menor ou maior e é muito semelhante ao fandango; porém o fandango dança-se de diferente maneira.

O Vira minhoto, isto é, o vira em maior, é semelhante ao malhão e à chula.

O vira em menor, que se divulgou, não é minhoto.

O Vira não tem estribilho: a quadra da cantadeira repete-a o coro dobrada em terceiras ou somente dois versos e um lá, rai como estribilho; quer dizer: como o Vira não tem estribilho o coro repete os versos dos cantadores.

É da praxe minhota começar a cantiga no 2º verso.

O Vira distingue-se do fandango pelo verso da canção, mais longo no fandango.

O Vira da Régua é a chula.

Maneira de bailar o Vira

Geralmente o Vira dança-se aos grupos de quatro pessoas, isto é, de dois pares; mas, também, pode ser dançado em filas paralelas de quatro, seis, oito, dez ou doze pares.

Posição inicial

Os pares frente a frente; raparigas de um lado, rapazes do outro. Braços erguidos ao alto, virados para o mesmo lado e os dedos virados como castanhetas para marcarem o estalado.

1.º passo

Passo de valsa campestre, rodando na mesma direcção; os pares rodopiam, voltando sem alterar o andamento.

2.º passo

Ao 3.º verso, os pares, aos dois, deslocam-se ao centro, enfrentam-se, recuam, voltam ao meio e, em volta cerrada, ombro a ombro, cruzam-se e trocam os lugares.

*****

Há regiões onde o Vira se dança fazendo uma flexão do joelho esquerdo quando os pares, no 2.º passo, se enfrentam.

***

Cantador:

Ó moças vamos ao vira
qu’aí vem a viração (bis)

Coro:

Larai, lai, lai, lai, lai, lai,
Ó ai!
larai, lai, lai, lai, lai, lai! (bis)

Cantador:

O meu pai é pai do vira
– ó ai!
e o vira é meu irmão! (bis)

Coro:

Larai, etc.

Cantador:

Sou pobre, vivo contente,
sou rijo como o pinheiro; (bis)

Coro:

Larai, etc.

Cantador:

A saúde para a gente
vale mais do que o dinheiro (bis)

Partitura

Fonte: “Danças do Povo Português”, Tomaz Ribas (texto editado e adaptado)

Colóquio “Curvas, Espartilhos e Roupas de Baixo”

Integrado nas comemorações dos 730 anos de existência, a Universidade de Coimbra, através da Faculdade de Letras – Centro de História da Sociedade e da Cultura, promove, nos dias 4 e 5 de março,  o colóquio internacional “Curvas, Espartilhos e Roupas de Baixo: Uma História Íntima da Sedução Feminina (Séculos XIX e XX)

O colóquio tem dois eixos temáticos

– “Seduzir pelo corpo e pelo espírito” e

– “Indumentária feminina e novos desafios: arte, folclore e design

contando também com uma mesa-redonda.

Programa

4 de março

Link: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/82954751624?pwd=bTArTlBvNVJvODJ5K002M0QwM1JYZz09

ID da reunião: 829 5475 1624

Senha de acesso: 929437

Manhã

10h00 | Sessão de Abertura

Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra – Amílcar Falcão

Diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – Rui Gama

Vice-presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira – Francisco Cardia

Conservadora do Museu Municipal Santos Rocha da Figueira da Foz – Ana Margarida Serra Ferreira

Coordenador Científico do Centro de História da Sociedade e da Cultura – José Pedro Paiva

Sessão 1

Seduzir pelo corpo e pelo espírito

10h30 | Irene Vaquinhas (FLUC-CHSC)

As armas da sedução feminina: das “cinturinhas de vespa” às “pernocas ao léu” (2ª metade do século XIX-princípios do século XX)

11h00 | Maria Izilda Santos de Matos (PUC-SP)

Sorriso: sedução, beleza e ousadia – intimidades e publicidades

11h30 | Jaime Ricardo Gouveia (FLUC-CHSC)

Roupas de baixo das gentes de cima. O caso dos Coutinhos (séculos XIX e XX)

12h00 | Debate

Tarde

Mesa redonda | Roupas de baixo e roupas de cima: a importância da musealização do traje

14h30 | Madalena Braz Teixeira (ex-Diretora do Museu Nacional do Traje)

A moda no século XX e o seu forro interior

15h00 João Alpoim Botelho (Diretor do Museu Bordalo Pinheiro, ex-Diretor do Museu do Traje de Viana do Castelo)

Trajes de lavradeira: o que oculta a sua “polychromia pittoresca e variegada”

15h30 | Debate

Moderação: Ana Margarida Serra Ferreira (Conservadora do Museu Municipal Santos Rocha da Figueira da Foz)

16h00 | Apresentação do Catálogo I – Irene Vaquinhas e Jaime Ricardo Gouveia

Curvas, espartilhos e roupas de baixo: uma história intima da sedução feminina (séculos XIX e XX)

5 de março

Link: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/84040639080?pwd=RVRsa1J1QkcxYkdhRmkwMWxDOXdsZz09

ID da reunião: 840 4063 9080

Senha de acesso: 103268

Manhã

Sessão 2

Indumentária feminina e novos desafios: arte, folclore e design

9h30 | Daniel Café (Presidente da FFP)

– A roupa de baixo da tradição popular portuguesa

10h00 | Ludgero Mendes (Presidente da AG da FFP)

Usos e recursos da roupa de baixo na indumentária popular

10h30 | Joana Teodoro (ESAD, Fundadora e Diretora da empresa criativa Recycled Clothing) e Anita Gonçalves (ESAD)

– A moda e o upcycling de vestuário: celebrar o passado, transformar o presente e desenhar o futuro

11h00 | Debate

Moderação: Jaime Ricardo Gouveia e Sónia Nobre

Chula ou Xula | danças do povo português

Chula ou Xula

Chula, ou Xula, é uma dança popular portuguesa muito antiga.

Gil Vicente refere-se a ela numa das suas peças ou autos teatrais.

É uma dança que tem cantador, ou cantadeira, ao desafio, mas o seu estribilho, ou refrão, é só instrumental.

Baila-se a chula – que é uma dança tipicamente nortenha – do Minho à Beira Alta setentrional.

Porém, a chula do Alto Douro tem instrumentos especiais e especial maneira de se bailar.

Tal como o malhão, a cana-verde e o vira, a chula pode acompanhar-se apenas pelo ritmar da viola ramaldeira e, tal como aquelas, que são danças típicas do Minho e do Douro, pode ser acompanhada pela

– «ronda minhota» (espécie de pequena orquestra campesina composta de clarinete, rabeca, harmónica, cavaquinho, viola, violão, bombo e ferrinhos)

– ou pela «festada duriense» (que é constituída pelos mesmos instrumentos, menos o clarinete, que é substituído pelas canas).

Maneira de bailar a Chula

Posição inicial

Os pares colocam-se em círculo; cada rapariga enfrenta o seu rapaz, ficando, assim, cada par costa a costas com os pares seguintes.

Os braços, semi-arqueados, elevam-se, paralelos, sendo os das raparigas os interiores.

1.º passo

A cada primeiro tempo os pares saltam simultaneamente para o centro sobre o pé desse lado e sobre o outro pé a seguir e, acentuando sempre o mesmo tempo do compasso, dão outra meia volta ao contrário, voltando à posição inicial.

2.º passo

O segundo passo da chula corresponde ao refrão, que, em geral, é bastante animado.

Os pares estendem os braços e colocam as pontas dos dedos sobre os ombros –  o cavalheiro no ombro da dama e vice-versa, ficando por cima os braços do cavalheiro.

Nesta posição, os pares formam uma roda e saltando com vivacidade e desembaraço, deslocam-se ficando as damas sempre de costas.

Cantador:

Ó Chula vareira, chula,
deixa-te andar arreada;

…………………………………..
bom sapato, boa meia,
boa fivela doirada.

Cantadeira:

Ó Chula vareira, chula
Ó chula que já não és,

………………………………..
ó chula que já viraste
a cabeça para os pés.

Partitura

Fonte: “Danças do Povo Português”, Tomaz Ribas (texto editado e adaptado)

Corridinho | danças do povo português

Corridinho

O Corridinho, que também se baila em algumas terras do Ribatejo e do Alentejo, é, sobretudo, uma dança algarvia. O Algarve é a verdadeira pátria do Corridinho.

O Corridinho é uma dança antiga, porém, não muito arcaica. Ela reflecte aspectos de danças citadinas adaptadas pelo povo, pois que é, no seu aspecto geral, uma dança que se baila ao ritmo da polca-galope.

Ora, tanto a polca como o galope são danças estrangeiras citadinas do século passado.

O Corridinho é bailado ao som do fole ou flaita, isto é, da concertina e consta de duas partes:

– o «corrido» propriamente dito

– e o «rodado», que é orientado em sentido inverso ao do corrido.

Quando, porém, uma segunda parte da moda é mais mexida e o parceiro é de feição, abandonam-se os passos conhecidos e o par rodopia sempre no mesmo lugar, num passo especial a que se dá o nome de «escovinha».

Maneira de dançar o Corridinho

Posição inicial

Os pares agarram-se como habitualmente para qualquer dança e colocam-se em roda.

1.º passo

5 passos de pequeno galope lateral.

2.º Passo

Batimento dos pés, meia volta, novo batimento, novo galope de 5 passos, novo batimento.

3.º passo

12 passos de polca, batimento, 10 passos de polca, batimento.

4.º passo

O homem executa os passos de polca, à frente, e dirige a mulher com o braço passado por trás, de lado a lado, a qual executa, também, meia volta com passo de polca.

Partitura

Fonte: “Danças do Povo Português”, Tomaz Ribas (texto editado e adaptado) | Imagem

A Ciranda | danças do povo português

Ciranda

A Ciranda é uma dança que se divulgou no século passado [séc. XIX] e vem inserta em vários cancioneiros.

Não tem acompanhamento instrumental, pois baila-se apenas ao som de harmónio e com acompanhamento de canto.

Não deve ser uma dança muito antiga entre nós porque o harmónio é um instrumento austríaco que só há um século começou a popularizar-se em Portugal.

A Ciranda é uma dança que se baila particularmente na Beira Litoral e na região do norte da Estremadura.

Maneira de dançar a Ciranda

Posição inicial

Uma roda fechada, com os pares de mãos dadas ou, então, à maneira antiga, isto é, a roda igualmente fechada mas os pares em vez de darem as mãos ficam de braço dado.

1.° Passo

Enquanto o cantador canta, a roda volteia: para um lado durante o primeiro verso, para o outro durante o segundo verso; repetem-se os movimentos no bis.

2.° passo

O segundo passo coincide com o terceiro verso. Os pares vão mudando, de mão em mão (como nas rodas de cadeia das brincadeiras infantis) até cada cavalheiro encontrar a sua dama, isto é, até os pares se encontrarem de novo.

Quando os pares se encontram, agarram-se e dão uma volta dançada.

Em algumas regiões baila-se a Ciranda à maneira antiga, isto é, do século passado.

Segundo o Prof. Armando Leça – individualidade que muito tem estudado as canções e as danças populares portuguesas e a quem muitas elucidações sobre o assunto se ficam devendo essa maneira antiga de bailar a Ciranda era a seguinte:

«O cavalheiro dá a mão direita à direita da dama e ambos dão meia volta sobre o lado direito; em seguida, dando as mãos esquerdas, dão meia volta sobre o lado esquerdo e repetem as mesmas voltas, salvo quando é para acabar que, como se diz na cantiga, dão volta inteira e fica cada um com o seu par

Cantador:

ó ciranda, ó ciranda,
eu hei-de ir ao teu serão,
(bis)

fiar duas maçarocas
do mais fino algodão.
(bis)

Coro:

o ciranda, ó ciranda,
Vamos nós a cirandar; (bis)

Vamos dar a meia volta,
meia volta vamos dar.

Vamos dar a outra meia,
outra meia e troca o par.

Cantador:

ó ciranda, ó cirandinha
andas sempre a cirandar;
(bis)
lá no tempo da azeitona
anda a ciranda no ar.

Partitura

 

Fonte: “Danças do Povo Português”, Tomaz Ribas (texto editado e adaptado) | Imagem (retirada da net e modificada)

Generalidades sobre as danças populares portuguesas 

Danças populares portuguesas 

Por danças populares portuguesas devemos entender, particularmente, as danças que o povo de Portugal Continental bailou noutros tempos ou ainda hoje baila.

Bem sabemos que Portugal não é só o Continente, mas também as Ilhas Adjacentes (…). Contudo (…) não falaremos senão daquelas danças que se bailaram ou bailam no Continente.

Do Minho ao Algarve estende-se uma larga e extensa faixa que abrange várias regiões, regiões onde os homens não são sempre iguais.

Apesar de Portugal constituir um bem definido bloco étnico (1) com gentes que têm pouco mais ou menos o mesmo aspecto físico e possuem a mesma língua e a mesma religião, nem por isso os usos e costumes de todas as regiões de Portugal Continental são os mesmos.

O aspecto geográfico e físico de cada região determina o carácter, o feitio e o temperamento dos seus habitantes; além disso, porque lhes dita determinadas normas de vida, também impõe, por essa razão, determinados gostos.

Não existe verdadeiramente uma dança que se baile em todo o país, de norte a sul: se o corridinho se baila no centro e no sul e as saias se bailam no Alentejo e no centro, já os viras, as chulas e os verde-gaios só se bailam no norte tal como os balhos campaniços só se bailam no Alentejo e as gotas no Minho.

As danças populares portuguesas são variadas

Contudo, na sua variedade e diversidade, as danças populares portuguesas constituem um todo muito harmonioso pois que são, de uma maneira geral, alegres, bem ritmados e ricas de voltas e posições, sendo uma das suas mais salientes características o facto de elas serem sempre danças de conjunto, ao contrário do que se verifica  entre inúmeros outros povos do mundo, onde encontramos grande número de danças de solo, isto é, danças para um só intérprete.

Outro aspecto muito curioso e bem característico das danças populares portuguesas é o facto de elas serem quase sempre cantadas; queremos dizer que os pares que as bailam também geralmente cantam as melodias, pelo que raras são as danças do nosso povo que não tenham uma bonita e apropriada letra.

E o contrário não seria muito compreensível pois que, e muito justamente, o povo português goza da fama de ser um povo de poetas.

É um facto que as festas e romarias do nosso povo vão rareando cada vez mais, e que o constante intercâmbio entre as populações do campo e as populações das cidades muito contribui para que os padrões de vida regional vão perdendo dia a dia as suas características.

No entanto, nem tudo desapareceu, e se as modas da cidade invadem todos os dias os bailes populares, nem por isso o povo deixou por completo de dançar as suas próprias modas.

É verdade que muitas das antigas danças populares portuguesas e outras menos características deixaram de se bailar; mas, em contrapartida, muitas daquelas danças que desde sempre o povo mais amou e melhor o definem, ainda hoje têm o seu lugar de honra nas festas e romarias da nossa gente.

Antigas danças que não se bailam

Se já hoje se não bailam antigas danças como, por exemplo, a bailia, o bailharote, a chacota, a fofa alta, o outavado, a chacoina, o cheganço, o filhote, a gitara, a folia, a judiaria, o lundum, a xotiça, a xácara, o vilão ou as viloas, de que falam os nossos cronistas (2) de outros tempos e antigos relatores da vida de outrora, nem por isso o terolero, o arrepia, o enleio ou o machadinho deixaram ainda, uma vez ou outra, de se bailar, nem os viras, as chulas, as saias, os corridinhos, os fandangos, os malhões, o verde-gaio ou os balhos foram inteiramente postos de parte ou esquecidos.

Divisão das danças populares portuguesas

De uma maneira geral as danças populares portuguesas podem dividir-se em quatro grandes grupos:

– danças antigas (as que o povo esqueceu),

– danças religiosas (igualmente postas de parte),

– brincadeiras e jogos bailados

– e danças actuais, que são as que ainda estão em voga.

1) Danças Antigas 

Entre as danças que o povo português outrora bailou nas suas festas e romarias e cuja notícia nos é dada através dos relatos que delas nos fornecem os cronistas, os escritores e poetas de antanho temos conhecimento, entre outras, das já citadas tais como: a bailia, o bailharote, a chacota, a fofa alta, o outavado, a chacoina, o cheganço, o filhote, a gitana (ou dança dos ciganos), a folia, a judiaria (ou dança dos judeus), o lundum (que os negros nos trouxeram e tanto se popularizou depois no Brasil durante os primeiros anos de colonização), a xotiça (maneira portuguesa de bailar a dança dos escoceses), a xácara (dança dos negros do Brasil trazida para Portugal pelos marinheiros), o vilão, a viloa, etc.

Hoje torna-se muito difícil saber como eram bailadas estas danças.

2) Danças Religiosas 

Outrora as procissões religiosas incorporavam nos seus cortejos uma parte profana (3) que se caracterizava pela interpretação de danças alacres, quase bárbaras mas típicas, a que aludem velhos documentos e descrições e os ainda hoje existentes regimentos (4) dessas procissões.

Entre tais danças destacamos: a mourisca, o império, a judenga, a chacota, a charola, a chulata,cotiva e as danças do cajadinho, das cantadeiras, dos cativos, das ciganas, das espadas, dos costumes, das donzelasdespadas, dos encartados, dos espingardeiros, dos ferreiros, das fitas, das floristas, dos foliões da Arruda, de Genébres, do Jansé, do laço, da luta, da malta, dos mitrados, dos moiros, dos paulitos, dos paus, da pela, das pescadeiras, dos pretos, do Rei David, da retorta, da roca, dos sátiros e ninfas, dos tendeiros, do turco, do velho e muitas outras mais.

Com o rodar dos tempos a Igreja proibiu tais danças e folias nas procissões religiosas, pelo que foram completamente esquecidas apesar de uma ou outra ainda subsistir, sob forma adulterada, em algumas regiões do país, mas hoje apenas bailadas como uso tradicional e sem qualquer função religiosa.

Assim como estas danças desapareceram, também caíram em desuso alguns velhos instrumentos musicais típicos como: a achincalhadeira, o arrabil, o atabaque, a buzina, o cuco, a genébres, o macaco, o reque-reque, a zabumba e a ronca.

Dos velhos instrumentos populares portugueses, hoje só subsistem: o adufe, o alaúde, o pandeiro e a sanfona, mas as harmónias de boca, o harmónio de fole, a viola, a guitarra, o bandolim, o bombo e os ferrinhos gozam hoje da maior simpatia da parte do povo.

3) Brincadeiras e Jogos Bailados 

O nosso povo ainda se diverte com grande número de brincadeiras bailadas e jogos bailados.

Umas e outras embora não constituam realmente danças verdadeiras são, pelo seu aspecto geral, tidas como danças populares.

A carreirinha, a farrapeira, a farrapeirinha, o regadinho, os reinadios, os chicotes, etc., são algumas dessas brincadeiras e alguns desses jogos que se bailam.

4) Danças Actuais 

Entre as danças populares que ainda hoje se bailam destacaremos: o vira, a chula, o verde-gaio, as saias, as modas de bailhar, o fandango, o corridinho, a gota, a cana-verde, o malhão, o estaladinho, as modas-de-roda, os balhos, etc.

Mais adiante, falaremos mais demoradamente acerca destas danças.

Bailarico | danças do povo português

Bailarico

O Bailarico é uma dança popular actual que se baila na região que vai do Alcoa ao Sado, isto é, em toda a região estremenha.

Baila-se, sobretudo, nas regiões de Torres Vedras, Caldas da Rainha e Malveira, Sintra e Mafra, pelo que é conhecida pelo nome da «dança saloia».

Porém, também no Alentejo, no Ribatejo e no Algarve o dançam.

É o Bailarico uma das mais típicas e características danças populares portuguesas. É, também, uma dança simples e ingénua, se bem que ritmada e muito movimentada.

A sua simplicidade e o seu ritmo movimentado são bem característicos da sua pureza e genuidade portuguesas.

O Bailarico é dançado com dois, quatro ou seis pares.

No Ribatejo chamam-lhe bailharico.

Maneiras de dançar o Bailarico

Posição inicial – Os pares colocam-se frente a frente, formando roda e de braços erguidos.

1.º passo – O primeiro passo corresponde às duas primeiras frases musicais e nele os pares sapateiam.

2º passo – O segundo passo corresponde às duas segundas frases e neles os pares trocam de lugar, agarram-se, rodam e rodopiam à maneira de pião.

*****

A moda do bailharico
Não tem nada que saber:
é andar com um pé no ar
e outro no chão a bater.

Este bailarico novo
que se brinca sapateado,
é o luxo dos rapazes,
cinta preta pau ferrado.

A moda do bailarico,
a moda do bailharote;
é bonita a cor da chita
que se lava e não desbota.

Partitura

Fonte: “Danças do Povo Português”, Tomaz Ribas (texto editado e adaptado)| Imagem (meramente ilustrativa): “Saloios comendo numa feira” (Ilustração Portuguesa – nº20 – 1906

Os Trajos – Notas e registos de etnografia alcobacense

Os Trajos

O linho que estou ceifando
aqui nasceu e cresceu
também o hei-de fiar
com roca que amor me deu.

Popular

As grandes modas do século XVIII, a infiltração do luxo em todas as camadas sociais e, ainda, questões de ordem económica, fizeram desaparecer, quási completamente, o encanto dos trajos regionais.

Trajos da rapariga da aldeia

A rapariga da aldeia que era um modelo de simplicidade, que pelas suas mãos fiava e tecia todas as peças do seu vestuário, veste-se agora com os tecidos e as cores mais irritantes, e arrebica-os com os enfeites mais disparatados.

Com a perda daquela simplicidade, daquela harmonia, alguma coisa mais se foi também: – foi uma parte da modéstia que a revestia, da ingenuidade que a caracterizava.

A sua alma já não é aquela alma sonhadora; é uma pretensão viva e áspera, porque nem vale o que é, nem chega a ser o que deseja.

Os trajos antigos mal chegaram até nós.

Ainda recorda o nosso espirito o curioso trajar da mulher serrana: – barrete branco de linho, arrendado com longa e múltipla borla, caía sobre a cabeça e pendia sobre o ombro.

O cabelo raramente se usava comprido; cortava-se em toda a parte posterior da cabeça, deixando ficar sobre a testa uma longa marrafa. Era para este caso que o barrete servia.

As raras mulheres que usavam cabelos compridos, penteavam-nos, apartando-os ao meio.

As duas grandes madeixas enrolavam-se em dois crescentes de madeira lavrada, que descansavam sobre as orelhas. Ao centro deste penteado caia um boné de alta borla, feito de tecido de garridas cores.

O busto vestia-se com as roupinhas, de pano azul, por vezes, até, de chita; tinha largo decote, ou era quási fechada.

O seio era coberto por peitilho de veludo e renda ou por lenço branco lavrado. Quási sempre um grande lenço dobrado em triângulo cruzava no peito e atava duas pontas nas costas, acima da cintura. O bico do lenço caía nas costas em belo elemento decorativo. As cores do lenço eram apropriadas à idade.

A saia…

A saia era de lanzinha azul, de fabrico doméstico, e orlada, na fimbria, de larga barra de veludo ou chita, ou ainda bordada a trancinha ou a ponto de cruz. Outras vezes escolhia-se um tecido de garridas cores, como a que vai representada na gravura.

Os pés calçavam meias de lã ou de linho, e havia, para os dias de festa, as meias bordadas, cuja variedade é extensa.

A rapariga, mesmo a mais pequenina, vestia-se como a mulher, sem nenhuma alteração de forma. Era uma delicada miniatura.

Para as festas e para a confissão tinha-se andaina própria: – na cabeça um lenço de cambraia ou bobinete, bordado, que só deixava a descoberto o terço médio da cara, e que lhe dava um delicado aspecto.

O corpo era envolto em capa de cabeção em bico e bandas com aplicações de veludo lavrado.

Os homens, para os actos da igreja usavam larga capa.

Para o casamento havia a mantilha, espécie de biôco, composto de curta capa com cabeção rígido, à frente do qual caia largo véu.

Este bióco, era, geralmente, emprestado por casa de pessoa rica.

Ao trajar da mulher, descrito, correspondia o do homem, que era bem uma representação das andainas do seculo XVIII.

Trajo do homem

Só a casaca encurtara as abas, transformando-se na véstia de curto rabicho, na véstia que devia dar origem à jaleca atual.

A camisa era de linho, com peitilho de preguinhas ou bordado.

Nos franzidos dos ombros e dos punhos sobrepunham-se desenhos bordados, como aplicações de filigrana.

O colarinho alto e dobrado, era preso por uma ou duas abotoaduras duplas de filigrana de ouro ou prata dourada.

Para os pobres que não podiam comprar o metal precioso, havia os botões esféricos, de linho com aplicações de bordados imitando a filigrana.

O colete era de cor garrida.

Vestia calção e bota alta, ou meia e sapato com fivelas.

Na cabeça o grande chapéu braguês de larga aba e borla, ou barrete de lã.

Era uma figura interessante e grave a de muitos velhos que conhecemos.

M. Vieira da Natividade

Velho trajo da região serrana (1850) (Aguarela de Alberto Sousa)

Fonte: “O Povo da Minha Terra – Notas e registos de etnografia alcobacense – M. Vieira Natividade”  in “Terra Portuguesa – Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia” – nº 17 a 20 – Junho a Setembro de 1917

Simbolismo da barba – Páginas etnográficas

A barba como símbolo de virilidade e de honra, donde provém este símbolo

Um dote físico, que na mulher é desgosto, serve de orgulho ao homem como símbolo de virilidade e de honra, ao que sumariamente me referi nas Lições de Philologia, p.87-88; cfr. também Adrião in Rev. Lusit., XIX, 59-61; e supra (A barba em Portugal), cap.I.

Os rapazes, quando estão próximos da puberdade, começam logo a tactear a cara, e a puxar pela penugem, na esperança e no desejo de encontrarem barba que os faça homens.

Canta-se vulgarmente a tal respeito uma cantiga

Estes meninos d’agora
São franguinhos de vintém,
Prometem 10 réis às almas
A ver se lh’a barba vem…

Cantiga, como ponderaria um Alemão, «rica de conteúdo», – porque, pela comparação dos rapazes com frangos, liga-se a uma das funções mais activas da vida da linguagem, qual a da criação metafórica, tão fecunda no vocabulário quotidiano, como na escolha dos apelidos, e pela promessa às almas pertence aos extenso quadro das crenças populares: a isto agrega-se o pensamento geral satírico que conjuga aqueles dois, traduzido, de mais a mais, por forma simples e elegante.

Variantes

Eis outra versão da mesma cantiga:

Estes mocinhos d’agora
Só dizem que têm, que têm:
Prometem dez réis às almas
P´ra ver se l’a barba vem…

a qual me cantaram em Anha, concelho de Viana do Castelo.

Como variante das duas cantigas se pode considerar de certo modo a seguinte, que colhi no concelho de Melgaço, onde é muito conhecida:

Estes rapazes d’agora
São poucos, nem barba têm:
Já deram dez réis ao cuco
A ver se a barba le vem…

(le por «lhes»).

Com ela se relacionam as frases que vou mencionar, ouvidas por mim no mesmo concelho de Melgaço, e que lhe servem de explicação.

Tradições…

De um rapaz que ainda não tem barba caçoa-se assim: «há-de-se fazer uma encomenda ao cuco, para te trazer a barba para o ano»;

e de um que, apesar de estar nas mesmas condições, já namora: «tens de dar dez réis ao cuco, para te trazer a barba para o ano que vem».

Ao aparecer na cara a primeira peluge (vid. ob. cit. cap. I.) (1), diz-se ao respectivo rapaz: «já tens os pêlos do cuco: é que já lhe deste os 10 réis!»

Se a barba só nasce no mento, e não no resto da cara, o pobre rapaz ouve dizerem-lhe: «tu não encomendaste a barba ao cuco, mas à poupa!», onde poupa (ave) é simples trocadilho com o verbo poupar (barba poupada, isto é: rara ou incompleta).

Segundo a crença popular, o cuco dá pois a barba, e torna-se necessário pedir-lha.

Porque é que o cuco (Cuculus canorus de Linn.) dá barba ao homem?

O cuco e a Primavera

A razão, quanto a mim, está em ser o cuco ave da Primavera, anunciadora dela.

Um provérbio nosso diz: se o cuco não vem entre Março e Abril, || ou o cuco é morto, ou não quer vir. Variante da segunda parte: ou o fim (do mundo) está para vir.

O não vir naquele prazo o cuco, isto é, no começo da Primavera equivaleria a interromperem-se as leis da Natureza.

É bem sabido que o cuco migra no tempo frio para climas quentes, e volta à sua terra quando o tempo melhora.

Já na antiguidade clássica se celebrava o carácter primaveril da ave. Ela acompanha as festas do consórcio de Zeus e Hera, ou do Céu e da Terra (2).

Na Primavera vicejam as plantas, e ornamenta-se de flores toda a Natureza. A barba do homem é comparável a rebento vegetal; e pois que os verdores da primavera os anuncia ou acompanha a vinda do cuco, isto foi considerado causador deles (post hoc, ergo propter hoc), e ipso facto do rebento da barba, esta aparente vegetação do rosto humano (3)

J. Leite de Vasconcelos

Notas

(1) A barba ainda muito tenra chama-se «penugem», em latim «lanugo». Cada povo tirou a metáfora daquilo que lhe pareceu mais mimoso; nós, de «pena» (de ave: isto é, da rama da pena); os Romanos, de «lana» (lã). No Alto Minho, em vez de «penugem» dizem «peluge» (= pelugem, de «pêlo»), e por gracejo: «pêlo de rato».

(2) Cfr.: A. de Gubernatis, My thologie zoology., II, 243 e Otto Keler, «Die antikie Tiesswelt, II (Leipzig 1913), 63-67.

(3) À barba que nasce no mento do homem atribuí-se o nome de um fruto («pêra»).

Fonte: “Alma Nova”, Número 3 – V Série, Outubro de 1927 (texto editado e adaptado) | Imagem: Oliveira Martins

A «Coca» ou «Mantilha» de Portalegre – Alentejo

A «Coca» ou «Mantilha»

“Nessa manhã chuvosa de Outubro, antes do despontar do dia, rezava-se a primeira missa na igreja de S. Lourenço, em Portalegre.

Poucas pessoas assistiam ao acto religioso, que, àquela hora, lembrava o ofício divino da noite do Natal.

Só algumas senhoras se ajoelhavam em volta do altar lateral onde se estava dizendo a missa, trajando rigorosamente de negro.

Vi-as, depois, sair.

Usavam uns biocos, pegados a uma espécie de capa curta e que eram cobertos, no alto, por uma renda larga, que caía pelas costas.

Na frente, o bioco era armado em papelão, ou tarlatana, para se manter aberto.

Nalguns, a renda era colocada, como já disse, caindo do alto da cabeça sobre as costas; noutros, porém, era posta em sentido contrário, isto é, caindo um pouco sobre a cara.

Completava o trajo uma saia de merino.

Este curiosíssimo costume, soube-o então, está agora mais em voga nas classes ricas, onde o usam as senhoras de todas as idades, especialmente para assistir a actos religiosos.

Há, também, quem o use sempre.

A este bioco, chamam, em Portalegre, «coca», ou «mantilha», e, à renda, «véu».

Cá fora, no adro, assisti à debandada desse grupo crente de embiocadas, cada uma acompanhada pela sua criada.

Amanhecera já e caía, como geada, uma chuva miudinha e regelante.

Um carvoeiro, vindo da serra, subia a rua, falando ao burro que lhe transportava a enorme carga – vinte ou trinta sacos esguios e compridos, a estoirar de cheios, com o carvão a espreitar das bocas.

Fez-me lembrar uma cena do século XVIII.”

D. Sebastião Pessanha

Fig. 1 – Na Missa da madrugada
Fig. 2 – Mulheres de mantilha

(Croquis de A.Sousa)

Fonte “Terra Portuguesa – Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia” – N.os 17 a 20 – Junho a Setembro de 1917 (texto editado)

No Alentejo: Menina de mantilha (Cliché do ilustre amador sr. Albino Pereira de Carvalho) Fonte: “Ilustração Portuguesa”, nº 366, 24 de Fevereiro de 1913