Trajes do Algarve – Trajo de mulher e de homem

 

Se o trajo designa sempre a forma de sentir um povo, o povo algarvio que é alegre e falador, e além disso está habituado a uma luz lindíssima, devia escolher para seu uso tecidos de cores vivas e vibrantes que acompanhassem a Natureza no seu cantar perpétuo. Mas não: os homens escolhem roupas escuras, denunciando evidentemente um sentimento de seriedade e de ponderação. As mulheres preferem também as vestes escuras e não de cores garridas como as do Norte. Em todo o caso difere um pouco do homem; e nem admira, porque ela é, e há-de ser eternamente, amiga de luxo e das extravagantes modas.

Pode dizer-se que o trajo algarvio não tem carácter próprio. Começando pela cabeça que é, no dizer de Castilho, a admirável cidadela do nosso corpo, e a que domina tudo, vemos na mulher o chapéu de feltro e de aba direita, o que elas chamam vulgarmente chapéu fino. Quase sempre é adornado com uma pena de pavão. Isto define alguma coisa. Será, talvez, uma exteriorização dum povo que tem a impressão nítida da luz e da paisagem rica de cor? Esse lindo adorno, que elas não põem em dia de labuta, é talvez a única coisa que lhes dá a ideia da paisagem algarvia e mostra também que a mulher do Sul tem a noção da policromia viril que existe na pena daquela ave. O chapéu é colocado sobre um lenço que às vezes anda completamente solto. O lenço, ao domingo, é de seda. As raparigas preferem-no de cores claras. O lenço é dobrado em diagonal, caindo em ponta sobre as costas e com as outras duas pontas atadas sob o queixo e não voltadas para a nuca como as do Norte. A mulher do Algarve dobra o lenço como a do Norte dobra o xale. No Algarve, o xale mais usado é duma só cor e com o feitio rectangular caindo atrás direito. As mulheres duma certa idade usam o xale de merino; as raparigas usam-no de variadas cores, tal como os lenços. Escusado será lembrar que isto só sucede ao domingo. O xale cobre todo o tronco, deixando, no entanto, a descoberto a parte da frente do corpo do vestido, o papo da blusa, que é de talho simples e nunca decotado.

No trajo doméstico usam, em vez de blusa, uma bata de riscado, sempre larga à frente e pregueada atrás na cintura, de maneira que as costuras fiquem bem justas. A gola é alta e as mangas apertadas nos punhos e às vezes com canhões.

A saia de cima é rodada, fazendo uma caudazinha atrás, que elas nunca levantam para se livrarem do pó nas ruas da povoação, contrariamente ao que sucede, quando se dirigem para as vilas ou cidades: pois levam-na enrolada, deixando ver só a saia de baixo, que é branca e rendada e com folhos engomados. Isto prova bem o à-vontade no campo e a cerimónia com que entram nos povoados.

Por baixo da saia há o saiote, que é geralmente encarnado e debruado de fito. Encostada ao saiote no lugar do quadril, onde a saia tem uma abertura, há uma algibeira completamente separada da saia e do saiote, presa à cintura com uns atilhos. Esta algibeira que tem o nome de patrona é decorada de trança, em que as cores primárias predominam. A patrona serve para guardar chaves e dinheiro e, às vezes, o lenço, nas criaturas de idade. Nas raparigas o sítio característico do lenço não é na mão, pois na mão trazem elas as flores, á na cintura. O lenço é bordado a linha com frases amorosas em prosa ou em verso.

Poderá também gostar de ler sobre
Vestuário dos Terceirenses – Trajos dos Açores
Descrição de trajos tradicionais do Alentejo (I)
Como eram os trajos infantis e juvenis, antigamente!
Trajo Português – Trajos e conexos
Trajos tradicionais da Madeira no início do séc. XX

Para terminar esta breve descrição do vestuário da mulher da minha província, direi que ela anda sempre calçada. Usa sapato sem meia. O sapato é branco e de cabedal, como vem da curtidura. Têm ilhós e são atados por uma correia e outras vezes por atilho amarelo. Ao domingo usam sapato preto com meia feita de linha. Cumpre-me frisar que hoje já muitas usam bota assim como vestidos que a moda vai impondo. Hoje a camponesa do Algarve ou montanheira, como lhe chamam, obedece quase aos caprichos do figurino como uma dama da cidade, havendo já nas suas vestes um quid de bom gosto. O que há, no entanto, que revela falta de graça, de beleza e de elegância é o bico. O bico é uma farpela inquisitorial, usada apenas em Olhão por algumas dezenas de pessoas de classe baixa. A sua cor negra e sepulcral é um escárnio do lindo azul do céu e do mar e é, sem dúvida, uma gargalhada do Demónio a uma obra admirável do Rei da Natureza – o Algarve. O bioco é um trajo verdadeiramente extraordinário. É um capote pesado e comprido, que encobre o corpo até aos pés. Este capote, que é de farto cabeção, é encimado por xale preto, que se põe sobre a cabeça e se enrola em forma pontiaguda, formando em frente do rosto um tubo cónico terminado por um orifício. É através dessa abertura que a mulher, que do mundo se esconde, nele lança o seu olhar curioso. A psicologia que o bioco encerra é deveras interessante. É ele que encobre a mulher que deseja ir à igreja assistir ao certo casamento para, ao sol-posto, sentada à sua porta, contar às vizinhas o que viu. É ele que encobre a beata que quer andar sempre à roda dos santos. É também ele que esconde a pobre viúva, que estende com vergonha a mão à caridade!

O homem, exactamente como a mulher, tem dois trajos: um de domingo e outro de trabalho. O de domingo consta de chapéu fino como o das mulheres, jaqueta, colete, calça, camisa e ceroulas. No trajo de trabalho, o chapéu é grosseiro e a jaqueta é substituída por uma camisola de riscado. A camisola é abotoada à frente; termina por uns punhos e tem, ao lado e em cima, uma algibeira onde põem o tabaco. A calça cai em boca-de-sino e o sapato é de cabedal branco e de sola grossa e cardada. Nas calças usam remendos, que têm quase sempre efeito decorativo. O remendo é sempre em roupa mais escura. Esta decoração é muito regional, não se pode dizer que fosse influenciada por algum outro povo. Recorda-nos, no entanto, o México. Os remendos, que a necessidade inventou certamente, dão-nos a impressão de uns safões. Terminam quase sempre em serrilha.

A camisa tem o colarinho pregado a si, e é em geral branca com uma goma leve.

Não usam gravata, a não ser em dias muito solenes, como dias de casamento, confissão, audiências, etc. a gravata é nos velhos uma fita estreita, preta, armando em laço sobre um colarinho de pontas grandes e voltadas, ou então um colarinho direito, aberto, muito decotado, mas sempre preso à camisa. Nos novos as gravatas são feitas com lenços de seda. Também ao pescoço usam eles um outro lenço enrolado. É um lenço bordado e marcado, que foi oferecido pela namorada. Com eles vão às festas, com eles vão às brincadeiras e ajudadas. O lenço é um ornamento de luxo como o raminho de manjerico que eles levam para detrás da orelha. Quase sempre esses lenços apresentam como enfeite o símbolo do amor- o coração. O lenço para os namorados tem muita significação. Na boca do povo ainda hoje se ouvem com sentimento algumas quadras já alteradas da poesia «O teu lenço», de Simões Dias:

O lenço que tu me deste
Tem dois corações ao meio:
Tu não descubras ao mundo
De onde este lenço me veio

Extracto de estudo sobre o trajo algarvio, elaborado por José Guerreiro Murta, 10.04.1917

Fonte: Imagens | Texto: “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos