Os trabalhos que o linho dá | Ciclo do linho

 

Operações do linho em Peso de Melgaço

Estruma-se a terra, lavra-se e semeia-se a linhaça. Fica o linhar (linhal). Agrada-se, isto é, desmancha-se com grade, os canhotes de terra. Engaça-se, quer dizer, acerta-se o chão com o engaço.

Nasce o linho.

Daí a oito dias começam as regas – oito a nove regas. Dá então a sua florinha e a sua cabecinha, que se chama baganha. Arrinca-se com a mão – raiz e tudo. Ripa-se no ripanço. Homens fazem isto. Enfeixa-se.

Deita-se à poça, onde está oito dias. Tira-se e bota-se a secar ao sol no tendal (num monte ou num Paulo seco). Oito dias, ou mais ou menos, está a secar. Apanha-se e maça-se com a maça de pau numa pedra lisa, ou maçadoiro. Noutras terras (por exemplo, Coura), vai para um engenho movido pela água do rio, e aí é maçado por uma roda, tocada por outra maior; este engenho fica ao pé de um moinho – a água que move um move o outro. O engenho substitui aqui o maçadoiro. Fazem-se anacos (= porções ou manadas, porque cabem na mão). Estriga-se com as mãos. Espadela-se (também se diz «grama-se»), o que consiste em lhe tirar a aresta ou tomento, trabalho feito por espadeladeiras (mulheres). Tasca-se no cortiço para lhe tirar a aresta miudinha. Asseda-se no sedeiro (menor e diferente no ripanço).

Carpia-se noutro sedeiro e fazem-se manelas de estopa para pôr na roca. Fia-se e ficam as maçarocas. Ensarilha-se no sarilho e ficam as meadas. Cozem-se as meadas ao borralho num pote: cozer meadas. Põem a corar as meadas ao sol. Depois secam-se e põem-se na dobadoira e dobram-se ficando em novelos (dobar). Tece-se num tear, trabalho de tecedeira. Por fim, cora-se o pano.

A espadelada merece descrição especial: a dona do linho chama mulheres para a espadelada, por favor, não por paga. O trabalho é feito ao luar, num terreiro, ou com luz, mas sempre fora de casa. Assistem homens, que formam uma roda ou um quadrado, no terreiro, como espectadores. As mulheres sentam-se ou estão de pé (Cerveira), cada uma junto do seu cortiço, que é aberto para cima ou por baixo.

Por entre as mulheres andam rapazes ou crianças a distribuir os anacos às espadeladeiras. A espadeladeira tem na mão esquerda o naco e na mão direita a espadela, com a qual bate no anaco, posto à beira do cortiço. Assim que o anaco está espadelado, põe-se de lado e recebe-se outro do distribuidor.

Enquanto espadelam, cantam em coro: uma começa o canto e as outras continuam. Entrementes vêm os namorados, que se sentam ao pé das espadeladeiras; alguém trouxe música (harmónico, viola).

No fim da espadelada dançam todos.

Quando acaba a espadelada, a dona dá de comer: sardinha, pão e vinho (se o há na terra).

 

Preparação do linho em Telões – Amarante

Desde que se deita a semente (linhaça) à terra, requer o linho vários cuidados (regas e mondas) até ao arranque (arrinca), a que se segue a ripa da baganha. Depois é mergulhado em água durante dias (empoçado), findo o que se estende a secar. Estando seco, vai para o engenho, máquina quase sempre movida por uma roda hidráulica, que, por sua vez, acciona um sistema de cilindros canelados (tambor e cilindros), com movimentos contrários, entre os quais o linho é moído.

A porção de linho com que se carrega o engenho chama-se estrigão.

Vindos do engenho, são os estrigões divididos em mancheias (estrigas), 30 das quais é um afusal, para se proceder à espadelada. Esta operação, que consiste em separar a aresta do linho, é feita com a espadela sobre um suporte de madeira, ou sobre um cortiço, o que é mais geral, e dentro do qual as raparigas escondem o merendeiro, que quase sempre é fruta.

Logo ao espadelar se vão separando os tomentos, que é o fio mais grosseiro e ainda com bastante aresta, e o que fica de estriga vai agora ao sedeiro, pequena tábua eriçada de delgados pregos, a assedar para assim se separar o linho da estopa. Finalmente, esta junta-se em pequenas porções (monêlos), e as estrigas, depois de levemente torcidas, estão prontas para fiar, separando-se em meadas de arrátel e meio, que quase sempre levam mais de um afusal.

O linho é fiado com roca e fuso:

Fiando na minha roca
É uma lenda sabida;
Tira-te lá, ó magano,
Perdição da minha vida.

                                 (Peso)

Para carregar a roca, ou roçar, gastam-se geralmente duas estrigas, que se desmancham e enrolam na roca, formando a rocada, à qual se seguram com a roqueia.

O fio inicialmente preso à parte metálico do fuso (maúnça) é por meio deste torcido e nele enrolado sobre um papel, formando a maçaroca. As maçarocas são depois dobadas no sarilho, formado de quatro pombas, pregadas na cruz.

A ponta da meada chama-se cabrita e o baraço de cinco ou seis fios com que se ata a meada de dentro para fora, para se não desfazer, chama-se costal.

Antes de entregar o fiado à tecedeira, são as meadas primeiramente cozidas num pote de ferro com água e cinza ou no forno, empastadas num barro de cinza e postas às camadas sobre camas de erva sarneira e perrexil.

Depois da cozedura, vão para a barrela, antes da qual são lavadas.

Ao sair da barrela, são encanadas ou espalhadas cada uma na sua cana e vão para o tendal a corar, onde são amiúde regadas e viradas durante quinze dias, pouco mais ou menos.

Depois de coradas, são ainda mais uma vez lavadas e, estando secas, vão a dobar. Esta operação é feita na dobadoira, enrolando-se o fio a princípio num canudo de cana, que depois se tira para dar ao novelo a forma esférica. Para o fio não cortar os dedos, faz-se passar por entre a dobra dum pequeno trapo, a que se dá o nome de puidoiro.

Por último, entrega-se o fiado à tecedeira, que calcula para cada quatro varas (uma tinta) arrátel e meio, pouco mais ou menos, para urdir e outro tanto para tapar, e o vai tecer no seu tear, que pode ser de ramada ou cruz.

Os restos da teia são cadilhos.
Informações disponibilizadas por José de Pinho

 

 

Curiosidades relacionadas com o trabalho do linho

Quando se arrinca o linho, vêm os moços do ripanço(*) e agarram-se às raparigas e rolam com elas pelo linhar abaixo. Chama-se a isto uma camisada.

O linhar vai acabado,
Na derradeira manada:
Os senhores do ripanço
Venham dar a camisada.

                             (Peso)

No concelho de Amarante, tem lugar a mesma brincadeira, mas dá-se-lhe o nome de aboleirar-se. Não se sabe a razão de tal costume, explicando-o apenas pelo desejo de adevertimento. Todas as criancinhas se aboleiram.

Em Mondim de Basto, é também costume os rapazes e as raparigas darem o tombo: o rapaz leva nos braços, sentado como numa cadeira, a rapariga, do fundo ao cima do cabeceiro, e a rapariga traz o rapaz. O rebolarem-se é pouco usado e nunca com raparigas de boa reputação. A isto não se dá significação, se bem que tenha um carácter amoroso. O tombo também se dá na eira do ripo (local onde é ripado o linho).

No Cercal (Valença do Minho), chamam a esta brincadeira rebolada e em Santo Tirso talhar a camisa. Vê-se nele acto de procriação.

Nas linharadas, isto é, na arranca do linho, no mês de S. João, vão várias raparigas a cantar cantadas de S. João, tais como:

No dia de São João
Nasceu o Sol arraiado…

               (Albergaria-a-Velha)

No Peso, quando o dono do linhar vem com o vinho, gritam:

Arriba, maça,
Que aí vem a cabaça!

Ouvi no Alto Alentejo, em 1933, a seguinte historieta:

Duas comadres, uma preguiçosa, outra cuidadosa, encontram-se e diz a segunda:

– Comadre, vais mondar o teu linho?

– Olha, comadre, o meu linho não tem erva que mal lhe faça: tem pimpilos (erva amarela) – vai ao sarilho; ter margaça (erva) . dá-le graça; tem carriolos (erva) – vai ao lençol (serve para o lençol que se tecer); tem azevém – s’roca vem.

Também lá me ensinaram a seguinte adivinha:

Semeei cavaquinhas (= linhaça); nasceram-me bengalinhas (= hastes do linho: caule); nas pontas das bengalinhas tornaram a nascer bogalhinhas (= semente do linho); dentro das bogalhinhas tornaram a nascer cavaquinhas (para tornar a semear).
Informação de uma gramadeira de Tolosa, 1933.

 

(*) Para tirar a baganha (cápsula) do linho, dentro da qual está a linhaça (semente do linho), usa-se um pente com dentes de ferro: ab – dois palmos; | cd – palmo e meio; ac – cinco palmos; | e – orifício para passar um pau, quando o levam às costas; até meia altura fica enterrado para assim se segurar.

 

 

Os tecidos e os teares

Os tecidos que fabricam vários teares são: linho; estopa, ou tecidos para toalhas, guardanapos de olhos de sapo; colchas lisas ou de borbotos, que são urdidas com estopa e tapadas com lã, enxerga, que serve para capas de mulher ou para saias; enxerga de lã branca, de que se fazem saiotes. O pardo, que se usa no vestuário dos homens, é tecido num tear especial, mais largo, em que tecem ao mesmo tempo dois, geralmente um homem e uma mulher.

O tear ordinário consta das seguintes peças: duas mesas aos lados – o órgão e o entrepeito, diante do aperto da tecedeira, que forma os quatro lados, desenhando um quadrado. Há dois órgãos, espécie de eixos: num está a teia ainda urdida e enrolada, no outro está a teia já tecida. Seria longo descrever a função de cada uma das peças, por isso, vamos apenas enumerá-las: as canas, os liços – que são de duas ou de quatro perchadas, segundo a qualidade do tecido, os canais que, com os dois troçais, defendem o pente.

O ponto varia segundo se tece o linho, estopa ou lã, é a lançadeira que com a avareta segura a canela e os tempereiros, que são de ferro; os liços estão pendurados nas carrilhetas, que, por sua vez, estão suspensas de altas travessas. Os cachorros seguram as apremedeiras, que são uma espécie de pedal. As peças auxiliares são o compostor e restrelo, as cavilhas desandadeiras e o gancho. No rodeleiro é que se fazem as canelas, com que se fabrica a tecedela.
Artigo do Jornal NORTE TRANSMONTANO, nº85 (1896)

Os diversos textos foram recolhidos na obra “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos

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