Trabalhos do linho em aldeias de Vila Real | Ciclo do linho

 

O professor Alberto Candeias forneceu os seguintes apontamentos sobre o linho: «em algumas aldeias das cercanias de Vila Real (Cales, Lordelo, Agarez…) e nos povos da Campeã subsiste, ainda que em pequena escala, a cultura de linho e a indústria caseira do seu tratamento e tecelagem, com os caracteres de primitividade já encontrados na olaria de Bisalhães.

A cultura do linho associa-se com a de uma qualidade de milho chamada milhão do linho e a sementeira das duas espécies faz-se simultaneamente de Abril a Maio. O milhão germina, aponta mas pouco desenvolve, enquanto o linho não é segado, isto é, até Julho, depois do que cresce então rapidamente e fortifica.

Antes de ser tecido, o linho sofre uma longa série de operações preparatórias. Depois de segado e seco, ripa-se em pente de madeira (ripo ou ripanço) para se arrancarem os frutos (baganho). Empoça-se durante 12 a 15 dias e expõe-se, a seguir, ao sol e ao orvalho, sendo uso dizer-se, que para ficar bom, precisa de «9 dias de sol e 9 de orvalho»; findo este prazo, prova-se para ver se já está capaz de ser maçado; se não, volta 2 ou 3 dias ao rio. Maça-se então às estrigas de mancheia, com uma maça de madeira, de forma elipsoidal e com cabo, para se lhe partir a casca, ou tomento. Espada-se depois, à beira dum curtiço, com a espadela, largo cutelo de madeira, de forma quadrangular.

A estriga espadada divide-se em estrigas menores, que se assedam no sedeiro, escova de arame mais rala numa metade, mais densa na outra; a parte da estriga retida na metade mais rala do sedeiro constitui o tomento, que se aproveita, depois de fiado, para panos grosseiros; na metade mais densa fica a estopa, de melhor aproveitamento. A estriga limpa é o linho, que é enrolado na roca de cana: nela fica enrocado. Da roca fia-se para o fuso, e deste passa-se para o sarilho, para se dispor em meadas pequenas, que se branqueiam levando-as ao borro, barrela de cinzas, e se cozem no forno. A estas meadas, depois de saírem do forno, dá-se o nome de maçaroco, cujo branqueamento se completa expondo-as ao sol a corar. Depois de coradas, põem-se na dobadoira, donde se dobam em novelos.»

Conheça outra descrição sobre o ciclo do linho.

 

Descrição de um fiadouro em Macedo de Cavaleiros

«O serão realiza-se geralmente num curral, ou num cabanal, onde se reúnem as mulheres e raparigas para fiar linho, estopa ou tascos. Para não gastarem luz, fazem fogueira e assentam-se todas em volta. Cantam e contam histórias. Todas levam certa fiarça, isto é, a porção que devem fiar durante a noite.

 Os tascos são os restos mais grosseiros que se obtêm espadelando a estopa.

É fiando tascos que as garotas aprendem a fiar. Dos tascos obtém-se fio grosseiro para fabricação, em geral, das lonas da azeitona, isto é, mantas largas que se colocam debaixo das oliveiras para apanhar azeitona varejada.»

 

 

Curral – espaço fechado por uma parede, onde há grande porta para a rua; é descoberto por cima e aí se guardam alfaias agrícolas, lenha e estrume.

Cabanal – recinto regular, coberto de telha, aberto numa das faces por onde comunica para a rua. Aí pousa qualquer animal que chega; aí se instala o caldeireiro ou latoeiro que trabalha para o dono da casa. Dentro, em volta das paredes, há maçadouros para se maçar linho.
Informações retiradas de “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos

Imagem de destaque: «As Fiandeiras», Diego Velásquez, Museu do Prado, Madrid.