Várias superstições que dizem respeito às crianças

 

Superstição (do latim superstitio, “profecia, medo excessivo dos deuses”) ou crendice é a crença em situações com relações de causalidade que não se podem mostrar de forma racional ou empírica. Ela geralmente está associada à suposição de que alguma força sobrenatural, que pode inclusive ser de origem religiosa, agiu para promover a suposta causalidade.

Superstições são, por definição, não fundamentadas em verificação de qualquer espécie. Elas podem estar baseadas em tradições populares, normalmente relacionadas com o pensamento mágico. Por regra,  quem é supersticioso acredita que certas ações (voluntárias ou não) tais como rezas, curas, conjuros, feitiços, maldições ou outros rituais, podem influenciar de maneira transcendental a sua vida. (Fonte, texto adaptado)

A seguir, vamos transcrever algumas superstições, apresentadas pelo Dr. José Leite de Vasconcelos, na sua obra “Etnografia Portuguesa“, e que dizem respeito às crianças:

 

Se a criança nasce ao sábado ou a o domingo, não entrará com ela causa ruim; se à sexta-feira, as bruxas não querem nada com ela; se em dia de Ano Bom ou Natal, será feliz; se em ano bissexto, não será atacada de bexigas. Dá azar nascer em 3 ou 13.

Acredita-se em horóscopos, como se vê, por exemplo, neste texto do séc XVIII:

Ó meu pai, vossa mercê
Já leu Lunário Perpétuo?
Já li, mas isso a que vem?
Ele diz que, em se sabendo
O planeta que domina
Em o dia de nascimento,
Se adivinha toda a sina
Que há-de ter o tal sujeito.

Tiram-se oráculos em datas célebres da vida infantil, como nascimento, desmama. Estendem-se, por exemplo, diante da criança certos objectos: dinheiro, cartas de jogar, etc.; aquele a que ela deitar a mão é prognóstico para a vida toda.

É também costume tirarem as crianças as sortes nas rifas (Beira Alta).

No concelho de Moncorvo vão as crianças com imagens de santos e formando procissão pelas ruas e campos, cantando estridulamente:

Água e mais água
Cais sobre nós;
Grandes e pequenos
Todos pão comemos.
Caia no centeio,
Que inda no ’stá cheio;
Caia na cevada
Que inda no ’stá grada;
Caia no trigo
Que inda no ’stá florido.

Os pais e parentes dos meninos dão-lhes as mãos a beijar para que cresçam (Melgaço) [Minho]. Quando se medem aos 3 anos o mais que, depois, cresçam é o dobro (Ponte da Barca, Galveias).

Quando se corta o cabelo, a primeira vez, a uma criança, vão-se colocar uns fios no rebento de uma silva, sobretudo na noite de S. João, para que o cabelo cresça (Tarouca). Em S. Paio de Jolda enterram o cabelo em terra preta, para que fique preto. A rapaz que rapa a panela das papas não lhe nasce a barba (Maia).

Dizem que as crianças que brincam com o lume mijam à noite na cama (Óbidos e Lisboa) [Estremadura].

Leva-se uma criança a um moinho, a primeira vez, toma-se-lhe a mão direita e mete-se-lhe no adilhão da mó (o buraco onde cai o grão) e diz-se três vezes assim:

Consoante este moinho anda em vão,
Quando vires com os olhos, faças com a mão.
Só o alheio não!
Pela graça de Deus e da Virgem Maria.
Rezam-se três padres-nossos e três ave-marias (Melgaço).

Quando as crianças já sabem pegar em tesouras, dá-se-lhes um bocadinho da envide (cordão umbilical que se tem guardado) para a irem cortar debaixo de uma laranjeira, a fim de serem felizes (Lagoa).

Fonte: Etnografia Portuguesa – vol.VI, J. Leite de Vasconcelos

 

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