Michel Giacometti | Pessoas

 

Michel Giacometti (Ajaccio, Córsega, 8 de Janeiro de 1929 – Faro, 24 de Novembro de 1990) foi um etnomusicólogo corso que fez importantes recolhas etno-musicais em Portugal. Estudou na Suécia, doutorando-se posteriormente na Universidade da Sorbonne (Paris).

Numa visita ao Museu do Homem, em Paris, a música popular portuguesa despertou-lhe um interesse tal que fez com que se mudasse para o nosso país, em 1959, tendo-se instalado em Bragança. Um ano depois, Michel Giacometti já tinha fundado os Arquivos Sonoros Portugueses.

Ao longo de 30 anos (até 1982), percorreu o país, gravando centenas de cantares e músicas tradicionais, dando origem àquele que é, até hoje, o mais exaustivo levantamento da cultura musical portuguesa. Do seu espólio constam ainda centenas de instrumentos musicais, fotografias, recolhas de literatura popular e de instrumentos e materiais ligados ao trabalho rural, parte dos quais deu origem, em 1987, ao Museu do Trabalho Michel Giacometti (Setúbal).

Editou, em colaboração com Fernando Lopes Graça, uma Antologia da Música Regional Portuguesa (1963, em cinco volumes) e, em 1981, um Cancioneiro Popular Português. Foi ainda autor de uma série de documentários televisivos, sob o título Povo que Canta. Grande parte do seu espólio musical (também pertencente ao acervo do Museu Nacional de Arqueologia e Etnografia, em Lisboa) encontra-se ainda por editar ou organizar.

Fonte: Enciclopédia Universal Multimédia da Texto Editora – 1997 (adaptado)

 

 

Michel Giacometti – Filmografia completa

Um documento único em Portugal!

«Há uma velha moda alentejana, entre as muitas que ele por cá ouviu e gravou, que diz: Eu sou devedor à terra / A terra me ‘stá devendo / A terra paga-m’em vida / Eu pago à terra em morrendo. Deste povo que canta a vida do mesmo modo que canta a morte, como se uma não tivesse sentido sem a outra, guardou Michel a alma antiga já em névoa. E por isso não foi morrendo que ele pagou a sua dívida à terra Portuguesa, foi nela vivendo. (…)

Michel Giacometti é, repete-se, um português que, não por acaso, nasceu um dia na Córsega. Sempre o vimos como tal. E continuaremos a vê-lo, agora que por graças da técnica, ele regressa vivo para nós.

Ouçam-no, vejam-no, admirem o seu trabalho e empenho. O que ele filmou e gravou ter-se-ia perdido para sempre, não fosse a sua teimosia. Giacometti salvou-nos a alma.»

Nuno Pacheco (Público) 

Michel Giacometti nasceu para contar histórias.

Mas as suas histórias não são ficcionadas. São a história de um povo que já desapareceu. Histórias documentadas na série “Povo que Canta” (9 Livros+DVD), produzida e exibida pela RTP entre 1970 e 1974, com realização de Alfredo Tropa; os 2 episódios da Série Etnográfica “Rio de Onor” e “Alar da Rede” (livro + DVD); “Ladrão do Sado” (1 Livro + 2 CDs) e “Uma Longa Militância” (1 livro + CD). Um dos filmes, “A mulher da roda”, gravado nas margens do rio Zêzere, venceu em 1973 o grande prémio do Festival Etnográfico de Florença (Itália).

Mais do que uma simples edição “Michel Giacometti – Filmografia Completa”, é um verdadeiro tesouro do património imaterial português.

Os trabalhos de recolha de Michel Giacometti, desenvolvidos em território nacional a partir da década de 60, permitiram o registo e a preservação do imaginário rural português, tantas vezes mais duro e árduo do que romântico. Beleza é o primeiro sentimento que podemos vivenciar ao visualizar os pequenos nadas que formam e constituem o corpo musculado de uma nação, na sua mais profunda essência e tradição. As imagens e sons capturados pelo etnomusicólogo francês são no mínimo arrepiantes, permitindo-nos conhecer a força, o carácter, a fibra, o espírito e as vivências mais genuínas do povo português.

Com a coordenação de Paulo Lima, para além dos DVD e CDs, cada volume inclui um livro e um portfólio de fotografias da autoria de Augusto Brázio com imagens actuais dos locais onde decorreram as filmagens há 40 anos. Os textos são de autores como Maria Aliete Galhós, uma das primeiras editoras do poeta Fernando Pessoa, do antropólogo Jorge Freitas Branco, do investigador José Alberto Sardinha ou da historiadora Luísa Tiago Oliveira, estudiosos da obra de Giacometti.

É nesta perspectiva que se tornou da maior importância a edição da Tradisom de “Michel Giacometti – Filmografia Completa”, a qual vem finalmente tornar acessível a muitos portugueses as míticas gravações de Giacometti, dos bonecos de Santo Aleixo, às polifonias ou ao romanceiro popular.

 

Uma viagem, em mapa, pelo trabalho de Michel Giacometti

O etnomusicólogo Michel Giacometti interessou-se pela música popular portuguesa após visitar o Museu do Homem em Paris, e, durante o terceiro quartel do séc. XX (depois de ter vindo viver para Portugal), trabalhou arduamente na recolha de músicas tradicionais que o povo cantava no seu quotidiano. Desse fabuloso trabalho nasceu o programa da RTP “Povo que Canta”.

Com base nos vídeos disponíveis do trabalho de Michel Giacometti e com recurso à aplicação Story Map da ESRI, foi elaborado um mapa interativo, disponível na internet, que permite conferir à obra do etnomusicólogo uma dimensão geográfica perfeitamente inovadora. A partir do mesmo é possível efetuar uma viagem virtual de quase 9 horas divididas em 62 fragmentos referenciados geograficamente ao local onde foram originalmente recolhidos.

Este trabalho permite ainda, da forma que apenas um mapa possibilita, relacionar espacialmente os diversos fragmentos, permitindo abordagens regionais e locais, bem como avaliar o posicionamento relativo das recolhas, assim como a distância absoluta entre as mesmas, pela primeira vez é possível ver o valioso trabalho de Michel Giacometti projetado no território Português.

Esta viagem leva-nos desde à aldeia transmontana de Rio de Onor até ao mar algarvio em Portimão, transportando-nos para uma realidade que já não existe, aqui cabem inteiramente os cantos de trabalho que a mecanização e o progresso “esmagaram”, trabalhos duros realizados por uma população pobre e maioritariamente analfabeta, mas também ancestrais e tradicionais romarias que aos poucos vão perdendo as suas raízes e se vão massificando ao sabor de influências modernas.

Mas não é só a música de um povo que os vídeos de Michel Giacometti retratam, vão muito para além disso, constituem-se como um precioso documento para todos os que se interessam pela etnografia e pela história recente de Portugal, neles encontramos fielmente retratados, sem artificialismos de qualquer espécie, a forma de viver do povo nas aldeias, os seus utensílios de trabalho e o seu modo de vida, muitas vezes expresso nas respostas dadas ao entrevistador ou percetível através de sorrisos tímidos mas francos.

Luís Baltazar, Geógrafo