O local ideal para as recriações / demonstrações etno-folclóricas

 

Para lá do trabalho que se pode e deve fazer ao nível estrutural e das recolhas etnográficas e folclóricas nos grupos desta índole, não convém descurar, hoje mais que nunca, as condições em que se proporcionam as mostras e festivais de etnografia e folclore.

Vou então focar-me por agora especificamente na área onde se fazem as recriações/demonstrações etnográficas e folclóricas. Há muita falta de imaginação e sobretudo, uma dependência excessiva do palcozito da câmara municipal ou junta de freguesia, normalmente montado com o intuito de servir várias iniciativas e, obviamente, com diversas valências e especificidades de acordo com as ditas iniciativas.

E o que ressalta logo na primeira e sumária observação? Normalmente um tabuado de grande dimensão e com metro e meio a dois metros de altura (nalguns casos, bem mais)… Bem, se em dimensão é muito aceitável (normalmente 8 por 8 metros), no que concerne ao piso deixa muito a desejar e então em termos de altura para o chão, nem se fala.

Esta dependência em excesso das autarquias, como referi anteriormente, para fazer um trabalho que compete aos grupos, tem influência no espectáculo que se pretende oferecer e na cativação de um público cada mais exigente à lei do menor esforço (não da qualidade do que observa, infelizmente). Vemos amiúde por aqui muita gente ofendida (e com razão) pela observação de pernas desnudadas até às orelhas, devido a uma visão em altitude quando as saias rodam a velocidades anormais para o que devia ser a normalidade nos grupos que se dizem fiéis representantes do povo de épocas recuadas. Ora antigamente esse problema não se colocava por duas ordens de razão: Uma, é que as pessoas protegiam-se e não mostravam mais que aquilo que a sociedade condenava. Outra, é que ao dançar faziam-no por diversão e não como espectáculo de recriação.

Dir-me-ão que “Ah mas nós não temos condições de ter um palco condigno para um evento dessa envergadura”… Amigos, imaginação! Imaginação e mais imaginação. Já agora, também vontade de trabalhar. Por que “carga de água” temos que fazer um festival numa praça numa qualquer cidade, despojada de tudo e inclusive de público, ao sol escaldante, sem condições para um espectáculo digno, num mamarracho empoleirado onde os grupos fazem acrobacias (sempre a ver onde se pode aterrar em caso de desequilíbrio) e as pessoas se fartam de estar a olhar para o céu (têm que se afastar para poder ver e fazer não doer o pescoço)?

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Desculpem lá… Mas estou farto de apanhar disso um pouco por todo o lado, não é retórica! Por que temos que fazer um festival durante uma feira, num palco de primeiro andar, só porque a autarquia assim o exige para encher e tapar buracos, se não temos lá ninguém interessado no folclore? Respeito gente, é preciso respeito pelo folclore.

O respeito conquista-se. Um evento desta natureza tem que ser digno. Então se há dinheiro para subir palcos, não há dinheiro para descer palcos e subir bancadas? Nunca fiz contas, mas é bem capaz de custar mais um enorme palco desmontável, que umas bancadas igualmente desmontáveis. No lugar de um palco alto para as pessoas poderem ver ao longe, porque não se junta as pessoas em redor de um sitio junto ao solo, criando assim um ambiente aconchegado e intimista? Criem-se anfiteatros ou procurem-se os naturais, que felizmente existem. Se não existem condições nos grandes centros, desloquem-se para as aldeias e lugares típicos e pitorescos do nosso Portugal. Nos átrios das igrejas, nas eiras, nos largos das aldeias, afinal era precisamente aí que as pessoas se manifestavam noutros tempos. Quem anda nestas andanças do folclore, sabe o que é estar num evento com ambiente próprio e noutro despido de tudo, inclusive de interesse.

É capaz de existir mais problemas de imaginação, que de ordem monetária, digo eu. Uma boa divulgação do evento, uma excelente organização e parecerias com as autarquias ao nível por ex. de transporte das populações para esses locais, são pequenos nadas que podem fazer a diferença e valorizam um evento desta natureza.

Fica o repto e não esqueçam, que estes meios justificam o fim proposto.

Custódio Rodrigues (texto e imagem de destaque)
Texto e imagem retirados do grupo no FB “Etnografia e Folclore – Fórum de Debate e Partilha). Autorizada a publicação no Portal do Folclore Português pelo autor